A Literatura possível nas redes sociais: entre Rupi Kaur e Caroline Calloway

A estrutura destes poemas apresenta-se adaptada aos constrangimentos impostos pelas suas configurações. Por esse motivo, é imperativo fazer a distinção entre o poeta que escreve para as redes e o poeta que instrumentaliza as redes sociais como um meio de divulgação, sem comprometer o resultado final do poema.
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  • Recém-licenciada em Línguas, Literaturas e Culturas pela Universidade do Porto, sou uma leitora ávida, constantemente fascinada pela maneira como a vida e a Literatura se moldam mutuamente.

Imagem Ilustrativa da Instapoetry
Imagem Ilustrativa da Instapoetry

Em 2018, foi lançado o artigo que viria a oficializar a rutura entre a poesia tradicional e o novo estado da poesia moderna. “The Cult of the Noble Amateur”, escrito pela poetisa britânica Rebecca Watts, serviu como catalisador para o debate no espaço literário online acerca da fogosa repugnância mútua entre estas duas fações da Literatura. Watts aponta, principalmente, para o mais recente movimento literário instaurado na Internet – a infame instapoetry –, e para as editoras tradicionais que permitem a publicação do que Rebecca admite ser “a difamação pública das relações intelectuais e rejeição do ofício”  [“the public denigration of intellectual engagement and rejection of craft”]. 

Sendo dificilmente um tópico de pleno debate, a verdade é que instapoetry define a experiência literária no ciberespaço da segunda década do século XXI, mas não tem ainda uma definição fixa, nem um Manifesto ao qual nos possamos agarrar. Apesar de a sua forma poder ser facilmente reconhecida, temos nas nossas mãos um objeto maleável e desintegrado — um aspeto que, na verdade, é tão bizarramente comum à maior parte dos fenómenos da internet.

Não obstante, devido ao seu alastramento incendiário, este movimento começa lentamente a aparecer como objeto de estudo nos fóruns académicos. Com efeito, o E-Dicionário de Termos Literários , a maior plataforma dicionarística de termos literários em língua portuguesa, define instapoetry tão simplesmente como uma “forma poética digital criada por utilizadores do Instagram”. Se se fizer uma pesquisa menos comprometida na Wikipédia poder-se-á aceder a um resumo que define este movimento como “um estilo de poesia que surgiu como resultado das redes sociais […], mais comumente no Instagram, mas também em outras plataformas”. 

Facto é que esta característica digital é inescapável numa possível aceção do que instapoetry pode ser: a sua principal característica é ter nascido como consequência das redes sociais. A estrutura destes poemas apresenta-se adaptada aos constrangimentos impostos pelas suas configurações. Por esse motivo, é imperativo fazer a distinção entre o poeta que escreve para as redes e o poeta que instrumentaliza as redes sociais como um meio de divulgação, sem comprometer o resultado final do poema.

De qualquer forma, a poesia que é escrita especificamente para caber num retângulo no nosso feed é facilmente reconhecida. A sua forma deliberadamente específica e dolorosamente simples, foi recebida numa onda de controvérsia e discordância inevitáveis. Mas, à partida, as características que edificam estes poemas não são contraditórias com o que eles se propõem a ser e a representar. 

É uma receita simples: extensão de uma ou duas estrofes (cujo caráter célere é decisivo se estes poemas se quiserem encaixar numa imagem publicada no Instagram, ou nos 280 caracteres permitidos no Twitter, etc); a linguagem usada é também leve e quotidiana, os termos são, por norma, acessíveis, de fácil compreensão (o que confere, muitas vezes, para os inimigos deste tipo de poesia, um caráter raso aos poemas); e, por último, os temas explorados ao longo dos poemas, raramente divergem entre os diferentes poetas inseridos neste espaço. Trata-se, por exemplo, o amor (ou a desilusão amorosa), ou dores de crescimento (físicas ou não).

Influencers da Poesia

É impossível falar sobre este subgénero sem fazer menção à sua principal figura, talvez até a pessoa responsável pelo boom da instapoetry: a poetisa canadiana Rupi Kaur. Descrita pela revista Fashion Magazine como a “pop star of poetry”, é autora de três coleções de poesia que se tornaram best-sellers, um especial de poesia na plataforma de streaming Amazon Prime, e uma tour mundial que terá começado em inícios de maio de 2022 e que deverá acabar em dezembro do mesmo ano, colecionando ainda cerca de 4,5 milhões de seguidores no Instagram.

Em sua defesa menciona-se que o seu sucesso nunca poderia ter acontecido tradicionalmente, sem as ferramentas que a Internet lhe permitiu usar. E quanto a isso existe uma verdade indubitavel: o caráter acessível e democrático da Internet abriu portas que estariam, fechadas nas mais variadas áreas. Seria quase impossível pensar numa realidade em que uma poeta mulher não-caucasiana fosse autora de obras que se tornassem canónicas e êxitos instantâneos se ainda existisse apenas o mundo literário tradicional. 

Contudo, no ano de 2015, a meio da segunda década do século XXI, Kaur fez tremer o mundo literário, publicando, autonomamente, a sua primeira coleção, Milk and Honey, que permaneceu na lista de best-sellers do New York Times durante cerca de 41 semanas. E esta nova realidade parece ter vindo para ficar.

A sinopse oficial de Milk and Honey (Leite e Mel, em português) é que a obra se trata de “uma coleção de poesia e prosa acerca de sobrevivência. Acerca da experiência de violência, abuso, amor, perda e femininidade”. Tendo em mente a receita poética anteriormente referida, não é incoerente que outras obras de outros instapoets tenham sinopses semelhantes. 

The Princess Saves Herself in This One (2015), de Amanda Lovelace, é descrito como uma exploração da “vida e de todo o seu amor, perda, pesar, cura, empoderamento e inspirações Já Plum (2017), de Hollie Mcnish, apresenta-se como um livro: “ sobre crescer, sobre culpa, carne, fruta, amizades, trabalho e descanso e [sobre] a urgente necessidade de encontrar uma voz para os poemas que irão, de alguma forma, fazer todo o glorioso motim da sua justiça”. 

A acessibilidade da linguagem e da mensagem é uma característica de extrema importância para estes poetas e os seus leitores. Talvez ainda mais para os leitores. É esperado que os textos sejam uma reflexão do autor, das suas experiências, principalmente da sua dor e do seu processo de recuperação. É preciso contar uma história e esta tem de ser o mais honesta possível. A tentativa de tornar a poesia mais abrangente, passa também pelos temas: o ponto fulcral deve ser empoderamento, o que implica trauma e sobrevivência e recuperação, porque tudo isto é o que, no fundo, nos reconcilia uns com os outros. Queremos conectar-nos através das nossas dores e perdas mútuas. Mais importante, queremos que alguém confirme o que já sabemos.

Esta poesia tem de servir um propósito claro: tem de ser terapia, catarse, um espelho. A verdade absoluta da existência do poeta. Rupi Kaur di-lo melhor, no seu terceiro livro, homebody (2020): “what a relief/ to discover that/ the aches i thought/ were mine alone/ are also felt by/ so many others”. [que alívio/ descobrir que/ as dores que eu pensava/ serem só minhas/ serem também sentidas/ por tantos outros]

Os seus poetas usam a linguagem quotidiana na forma mais banal e obrigam o leitor a considerá-la arte. É um paradoxo formal, é a desautomatização da perceção mais radical por se anular a si própria, um fio solto na tapeçaria.

O Desafio da Instapoetry

Poder-se-ia argumentar, no entanto, que instapoetry é menos redutível e redutora do que isto. Nas várias tentativas de definição daquilo que constrói a Poética e por sua extensão a Literatura, raramente se evocam palavras como “acessível” como uma característica imanente. Aliás, é comumente defendido que a poesia deve ser precisamente uma oposição a esta aparente acessibilidade. 

Os Formalistas Russos (primeiros teóricos a estudar a Literatura como um objeto de conhecimento) acreditaram veemente no processo de desautomatização da perceção: a Literatura e, por sua vez toda a arte, deveria obscurecer a forma e tornar a linguagem de comunicação numa linguagem estética, que obrigasse o leitor a sentar-se com as palavras que encontrava e digeri-las demoradamente. Esta literariedade cunhada por Jakobson (mais tarde, poeticidade), que distingue a Literatura como um objeto único de conhecimento é o que os poemas de instapoetry desafiam. Estes poetas escrevem por cima da Crítica do Julgamento e da perceção kantiana de arte: a arte serve e cura. Instapoetry tende a focar-se e a exprimir-se de um ponto de vista completamente utilitário.

Não se sabendo exatamente o que é literariedade, pensa-se compreender melhor o que esta não é, ou pelo menos o que não deveria ser. Mas se a poesia, como nas redes sociais se apresenta, pode ser a subversão de tudo o que se considera literário, entraríamos num impasse absoluto ao tentar definir o termo. Instapoets põem à prova, conscientemente ou não, a ideia de que arte não tem de

servir um propósito direto e, força-nos, como leitores, a assumir que absolutamente todos os termos são arte. A literatura moderna é, hoje, confrontada com uma nova versão de um ready-made, acidental ou não. Milk and Honey como O Urinol do século XXI.

No outro lado da moeda, uma possível hipótese explicativa para esta ascensão de instapoetry pode passar por isto: o utilizador da internet está (é) obcecado. O culto de personalidade tornou-se num dos pilares da experiência cibernética. Profissionalizou-se o influencer, uma subdivisão de celebridade, cuja principal função é vender a ideia de uma pessoa ideal: com uma vida perfeita e com um caráter perfeitamente humilde e genuíno. A atual epidemia da solidão obriga-nos a ceder ao máximo de contacto que possamos ter e este é o combustível das relações parassociais. Confundimos influencers com amigos porque se expõem como nunca antes fora possível. Para os conhecermos melhor (ou, mesmo transformamo-nos neles) devemos apoiá-los (monetariamente) em todos os seus empreendimentos. E se os nossos influencers preferidos publicarem um livro de poesia, é essa a poesia que deveremos ler. Desse modo, é necessário pensar se, de facto, a poesia tem utilidade artística, nestes termos, ou se encontra refém, servindo apenas como uma extensão desta relação infeliz: uma mera comodidade, merch.

Acresce a toda esta escalada da poesia da internet o facto de que o mercado literário pode hoje existir num plano de certezas após várias tentativas de reconstruir o seu esplendor. Ele próprio não tem de apostar em textos arriscados, algo que a poesia se começava a tornar. A Internet é, agora, o seu tubo de ensaio e o escritor de hoje beneficia se for, também, a sua própria equipa de marketing. E, de facto, Instapoetry retém o trunfo de se ter tornado num fenómeno que, para o bem ou para o mal, ressuscitou o estado quase inerte da poesia e trouxe novos leitores ao género. Os seus defensores tentam provar desse modo que Instapoetry é infalivelmente uma dádiva da Internet, e os seus opositores são obrigados a reconhecer que, no mínimo, esta forma de poesia se manifesta como um mal que veio para bem.

Contudo, a banalização do termo “Literatura” conjugado com palavras como “mercado”, ou “género literário” com “comercial”, interessa no que concerne à análise das formas de literatura possíveis dentro da Internet. Aliás, esta junção assumidamente feliz poderá não ser considerado por muitos um desenvolvimento necessário e benéfico para a Literatura e para a Cultura, mas sim uma atitude perigosa e reprovável. É necessário analisarmos a questão mais a fundo: Sim, a poesia ressuscitou como género literário comercial. Mas terá trazido consigo a morte da Cultura? 

Modelos como os “aesthetic starter packs” popularizados através de redes como o Instagram, Tumblr e agora TikTok são uma parte não-irónica e real na vida de uma boa percentagem dos utilizadores, constituindo uma tentativa paradoxal de combater a crescente solidão e impessoalidade generalizada. 

A Nova Indústria Cultural

“Indústria cultural” e “cultura de massas” são duas expressões que nos são hoje muito familiares. Criadas por Theodor Adorno e Max Horkheimer em 1944, denominam fenómenos culturais começados com a Revolução Industrial e que até hoje se sentem nas Artes, a favor do Grande Capital. Os dois filósofos tinham como objetivo pôr em causa a importância da obra, não como manifestação artística pura, mas a sua gradual transformação numa mera parte de um sistema cultural que servia apenas o mercado e cuja subserviência não podia deixar espaço ao “estilo” e à “diferença”, que desapareciam à medida que a cultura se tornava cada vez mais uniformizada e previsível.

“Por enquanto, a técnica da indústria cultural levou apenas à padronização e à produção em série, sacrificando o que fazia a diferença entre a lógica da obra e a do sistema social. Isso, porém, não deve ser atribuído a nenhuma lei evolutiva da técnica enquanto tal, mas à sua função na economia actual.” em Dialética do Esclarecimento

Ainda hoje, a fórmula cultural para uma obra que tem como objetivo tornar-se um sucesso de mercado é empregada sem falha. A cultura é construída para o “consumidor” que “perfeitamente capaz de adivinhar o desenvolvimento do tema […] sente-se feliz quando ele tem lugar como previsto”. A Internet terá exacerbado, sem dúvida, este processo que prefere “conteúdo” a “arte” propriamente dita (ou como Rebeca Watts diria: “the reader is dead, long live consumer-driven content and the ‘instant gratification’ this affords.”)

Não obstante esta uniformização cultural, a formação do ego e de identidade pessoal é uma grande preocupação para qualquer pessoa demasiado envolvida no universo das redes sociais. Modelos como os “aesthetic starter packs” popularizados através de redes como o Instagram, Tumblr e agora TikTok são uma parte não-irónica e real na vida de uma boa percentagem dos utilizadores, constituindo uma tentativa paradoxal de combater a crescente solidão e impessoalidade generalizada. 

Quando saímos à rua e nos deparamos com uma pessoa com sapatilhas iguais às nossas e o mesmo penteado, podemos pensar que existe qualquer similaridade entre as nossas personalidades e objetivos pessoais. Por momentos, as nossas cabeças aceleram em segundos de satisfação momentânea, gritam: “Pertencemos à mesma tribo!” e não interessa se estas duas pessoas nunca se viram ou falaram antes e depois do acontecimento, o facto é que estamos já viciados nestes momentos fugazes de reconhecimento mútuo, com toda a dopamina e zero compromisso.

Existem formas infinitas de nos apresentarmos aos nossos pares e a Internet permite-nos inserir-nos numa ou noutra, desde que não haja uma sobreposição entre aesthetics. O utilizador das redes sociais vive com esta ilusão de escolha e de agência sobre o seu corpo e vida, apesar de que uma vez selecionada a estética que pretende reproduzir, as suas escolhas de vida afunilam-se a um ponto sufocante até essa obsessão específica implodir em náusea coletiva e se seguir para a próxima aesthetic: nova, cintilante e ligeiramente mais bem polida.

Deixa de interessar quem somos, dando ênfase àquilo que representamos.

Relações parassociais, de novo, são uma extensão desta atividade. Alguém é (ou, pelo menos aparenta muito bem ser) aquilo em que nos desejamos transformar, capturando essa essência em vídeos ou posts constantes para podermos viver a nossa fantasia através deles. Não aceitamos que estéticas simultâneas e nuances na personalidade possam existir, mas também não temos de ter coragem para nos comprometermos com uma única estética – alguém já o fez por nós.

No lado literário da Internet, não é muito diferente. A agora popular “dark academia aesthetic” é uma das demais manifestações desta procura por pares com os mesmos interesses em cultura e arte, e, quando se encontraram fatores problemáticos na estética, não se desistiu deste ideal, nem se pôs em causa o que ele representa, mas o mesmo foi obrigado a modificar-se para uma forma mais domesticada de si, surgindo a “light academia”. Mas esta obsessão com a Academia, Universidades de renome e Literatura não é nova na Internet. Foi, por sua vez, bem destilada e incorporada na estética de talvez uma das primeiras influencers, talvez também pioneira na ideia de que nos podemos identificar como algo sem o ser, na Internet: chegou a altura de falar sobre a Caroline Calloway.

Como se escreve um livro cujo teor já foi divulgado e que já não se apresenta como novidade? Porquê comprar o livro quando se pode abrir a app do Instagram?

A influencer-poetisa, como caso de estudo 

Para pessoas que não usavam o Instagram no pico da carreira de influencer de Calloway, talvez a primeira vez em que a sua presença online se tornou escandalosa, de forma generalizada, foi em 2019, através da publicação no jornal The Cut do artigo “The Story of Caroline Calloway and Her Ghostwriter Natalie”. Nele, Natalie Beach, escritora ensaísta, descreve um aglomerado de eventos que, no fundo, expõe Caroline como alguém com capacidades de amizade duvidosas, mas também como uma espécie de farsa em termos de escrita.

“Caroline was caught between who she was and who she believed herself to be[…]”.

Gutural e dolorosamente pessoal, este ensaio retrata muito sucintamente uma amizade apanhada nas convulsões de codependência e emulação entre duas pessoas a lutar contra os seus traumas pessoais.

Quando se fala de Calloway e dos seus inúmeros esquemas, (nomeadamente, o do seu memoir com data de publicação indefinida e, aparentemente, indefinível), é importante ter em consideração o estado de abuso de substâncias contra o qual ela lutava durante o fiasco que foi perder dois prazos de entrega do seu manuscrito. É necessário reconhecer que esta condição é uma verdadeira ameaça ao bem-estar de qualquer um e que, em grande parte, pode ter uma ngrande porção da culpa que levou ao insucesso do livro da influencer

Contudo, a existência de uma pessoa, os seus sucessos e as suas perdas, não se define inteiramente por estes tipos de conjunturas e, tendo Calloway admitido que recuperou desta compulsão, o seu livro é ainda inexistente, e isso pode fazer com que valha a pena questionar-nos sobre quais foram os outros problemas que levaram a este desfecho (nunca numa tentativa de psicanálise da influencer, mas pelos dados que podemos adquirir da história deste livro tão infame apesar de ser ainda tão irreal).

A Universidade de Cambridge foi, durante os primeiros anos da conta de Instagram de Calloway, o principal pano de fundo da sua vida eclética e enigmaticamente inspiradora. Podemos dizer que esta fixação com a vida académica de Caroline foi uma espécie de protótipo, de alguma maneira, à estética da dark academia alimentada agora. No entanto, é interessante notar que a influencer possa ter adaptado a sua presença online, falando hoje para uma aesthetic diferente: uma que havia morrido e que começa agora a ressuscitar perigosamente, glamourizando a ideia de uma rapariga caótica, severamente deprimida e constantemente em sarilhos – uma estética que trata a rapariga irredimível e com sérios problemas que não pretende emendar, como uma espécie de atitude feminista em si.

A democratização da Internet e das novas possibilidades que a mesma apresentava para talentos subrepresentados nos media tradicionais, é uma realidade que Beach descreve no seu artigo e que ajuda a exemplificar, mais uma vez a queda dos meios de divulgação tradicionais: 

“O ano era 2013 e a internet parecia o futuro da escrita, pelo menos para as raparigas. Os rapazes com quem tínhamos aulas despejavam diferentes versões de Fear and Loathing in Bushwick, mas eu acreditava que a Caroline e eu estávamos a descerrar a forma de não-ficção.”

Natalie Beach fala sobre como a obra iminente de Calloway representava uma era de esperança, que deveria ter vindo para ficar, de que a Internet era um meio para alcançar algo grande e anteriormente impensável na indústria cultural tradicional. 

O número de apoiantes desta nova era não tinha necessariamente de ser ainda real, podia ser fabricado (Caroline Calloway admitiu ter comprado seguidores), mas tinha de ser substancial o suficiente para nos fazer acreditar que a fantasia era real e plena.

“A verdadeira história, ela contou-me, é que ela teve uma série de encontros com profisisonais da literatura que a informaram de que ninguém ia comprar um livro de memórias de uma rapariga que não fosse famosa e não tivesse uma base de fãs. E então a Caroline criou uma online, com anúncios desenhados para parecerem posts a promover a conta dela e comprando dezenas de milhares de seguidores”

E, então, hoje, sensivelmente 9 anos depois desta migalha de sabedoria, o livro And We Were Like, que supostamente viria para revolucionar o género literário do memoir, trazendo uma verdadeira ligação entre Literatura e Feminismo na Era da Internet, está ainda por escrever e ainda não tem data de publicação, apesar de poder ser comprado antecipadamente por 25$ (21,90€).

A ideia da existência do memoir na era das redes sociais é desconcertante, edecerto Calloway ter-se-á debatido com ela durante todos estes anos. O ato de lembrar romantizando já faz parte do quotidiano de qualquer influencer, cuja subsistência reside em construir uma coleção cuidadosa e sanitária dos mais variados momentos da sua vida, na Internet. E durante os últimos anos (até ter ou arquivado ou apagado os seus posts nas suas redes sociais) foi isto a que Caroline se propôs. Todo o seu feed era por si só um memoir digital. Como se escreve um livro cujo teor já foi divulgado e que já não se apresenta como novidade? Porquê comprar o livro quando se pode abrir a app do Instagram?

O que era um meio para um fim, tornou-se no meio e no fim, uma armadilha que pode muito bem cessar os efeitos que um memoir da vida aventurosa que Calloway poderia ter se já não os soubéssemos todos. Este livro não será sequer a sua tão aguardada resposta a tantas injúrias que caracterizaram a sua vida pública: Caroline respondeu ao artigo de Natalie, como respondeu às acusações de que era scammer, sempre através de posts

A realidade é que este memoir responderá, talvez, a se ela será ou não capaz de realmente escrever um livro que conte a sua história, se será capaz de entregar uma prova de que ela é efetivamente o que sempre disse ser. E ter de viver neste dilema deve ser, com certeza, debilitante.

Todos nós que já pousamos para uma fotografia com o único propósito de a partilhar nas redes sociais e cultivar a imagem daquilo que queremos que pensem de nós, todos nós que já subscrevemos à ideia de que somos “personagens principais” e narramos as nossas vidas para uma audiência de centenas ou de milhares de outras “personagens principais”, tornamo-nos, no máximo, narradores não confiáveis de uma existência obsoleta.

Natalie Beach relata que nessa era de esperança que as ex-amigas viveram pensava que o “Instagram é um memoir em tempo real”. “É um memoir sem o ato de lembrar. É colapsar a distância entre escritor e leitor e crítico, e é por isso que é um storytelling verdadeiramente feminista”.

Com efeito, deverá ter mudado de ideias quando afirma já no tempo presente do artigo ter curiosidade sobre o porquê de Calloway, passado tantos anos, ainda estar ativa no Instagram. A plataforma perdeu o seu caráter de mero instrumento, consumiu a narrativa de Calloway. E é possível que a própria influencer possa ter chegado a essa conclusão visto que apagou ou arquivou os seus posts de Instagram e está virtualmente inativa em todas as suas redes sociais há meses. Será possível que tenha havido um entendimento de que o Instagram não era nem um meio nem um fim para o tipo de trabalho a que ela se propunha, mas sim um obstáculo?


Esperaremos para ver se memoir é compatível com a Internet.

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