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Sair da Nossa Impotência Política

Sair da Nossa Impotência Política

A democracia precisa de quem pare para pensar.

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O Shifter publica um excerto de Sair da Nossa Impotência Política de Geoffroy de Lagasnerie, traduzido por Diogo Paiva e editado em português pela BCF Editores em Novembro de 2021.

1.

Este texto pretende confrontar as forças progressistas com uma reflexão de natureza táctica, isto é, que se interrogue essencialmente sobre os meios para tornar eficazes e vitoriosos os combates em que nos envolvemos.

2.

Paradoxalmente, é raro colocarmos a questão estratégica no centro da análise política: quando ficamos desagradados, quando queremos intervir politicamente, existem modos de contestação que nos precedem e nos esperam, e aos quais nos remetemos para nos instituirmos enquanto sujeito em luta: a greve, a manifestação, a petição, o lobbying, o sit-in, a ocupação, a acção ilegal, o voto, o motim violento…

De certa forma, o espaço da contestação é um dos mais codificados da vida social. Existir politicamente resume-se em larga medida em voltar a empregar instrumentos pré-constituídos sem questionar a sua força e eficácia. Não se tratará tanto de lutar, mas de nos apresentarmos como sujeitos-em-luta ao pé dos outros, recorrendo a esse tipo de práticas. Não agimos politicamente como estrategas, mas como autómatos.

Há algo de tão ritual nas nossas vidas, e em particular nas nossas vidas políticas, que às vezes parece que somos praticamente incapazes de fazer experiências. É-nos difícil distanciarmo-nos no que diz respeito à prática — estudar, examinar, interrogar com lucidez o que fazemos para eventualmente renunciarmos a esta ou àquela prática, ou, se necessário for, alterá-la. Reagimos à conjuntura ou tentamos combater as forças às quais nos opomos recorrendo sistematicamente às mesmas armas, mesmo quando estas demonstraram a sua ineficácia, ao ponto de a política se transformar no cenário da repetição, mais do que no da invenção e da surpresa. A maioria dos pequenos livros sobre acção política reduzem-se a manuais de boa gestão das formas habituais (como organizar-se, como controlar a comunicação, como tomar decisões colectivas, como reunir o maior número de pessoas possível), dando a ideia de que lutar, agir, mobilizar-se tenha sempre de querer dizer a mesma coisa. Esses manuais dão assim a estranha impressão de que os modos de acção estão fixados — intocáveis e imutáveis

3.

Muito pelo contrário, é preciso operar uma viragem táctica no nosso pensamento político — aquilo a que se poderia chamar o originar de um momento utilitarista. Pois uma doutrina política que não está indexada a uma reflexão acerca da possibilidade do êxito não é uma doutrina política: é um sonho, um fantasma. É uma aspiração subjectiva, mas não é uma ideia concreta dotada de força.

4.

Originar um momento táctico no pensamento político implica que consigamos distinguir o nosso ser do nosso recurso às formas instituídas, para que com isso se encarem outras possibilidades de existir. Essa tarefa pode exigir que se construa um outro imaginário da luta e das nossas formas de nos pormos em movimento. É o campo da experiência, o próprio significado de palavras como «agir», «radical», «protesto», «bom» que devem ser reajustados.

Quando decidimos intervir, não nos devemos remeter às formas tradicionais que muitas vezes nos dão um sentimento puramente fictício do que é agir. Devemos recuperar o controlo sobre os instrumentos que é suposto darem-nos poder e interrogarmo-nos: não se terão as formas tradicionais rotinizado com o tempo? Não terão elas perdido a sua eficácia? Não vivemos nós num tal terreno político que a expressão da dissidência já está inscrita no sistema e portanto é já, de certa forma, programada por ele? Se quisermos provocar uma crise no Estado, não devemos antes forjar modos de protesto que surpreendam o Estado e que não sejam prescritos, legal ou sociologicamente, pelo sistema? Em que condições é que a política progressista pode recuperar a forma de uma acção eficaz?

A questão política é a questão da efectividade prática, que deve primar sobre qualquer outra consideração: muitos parecem preferir perder do que renunciar a meia-dúzia de opiniões pessoais, ou que então parecem confundir ser-se um sujeito político com conformar-se a modos de acção que não produzem nada a não ser o sentimento de se inscrever num modo de vida gratificante, do lado daqueles que lutam, e que lutam de maneira justa.

5.

Talvez não seja assim tão surpreendente que a reflexão táctica não constitua um tema de discussão mais central no seio das forças progressistas — ou digamos que, quando é abordada, se desenrola no interior de um espaço previamente definido de problemas que nunca são realmente postos em causa. Mesmo se o pensamento devesse constituir como uma das suas interrogações essenciais aquela que diz respeito ao presente, não há, na verdade, nada de mais difícil do que olhar para as coisas tal como são e sobretudo retirar daí consequências — isto é verdade tanto na vida íntima como na vida política. Este reflexo de aparência autodefensiva poderia perfeitamente representar uma das formas que a autodestruição assume.

Pois ainda que seja sempre melhor desconfiar das declarações dramáticas e grandiloquentes, muitos são os sinais que nos revelam que vivemos numa época inquietante. Há que olhar para o presente com lucidez. Se se tivesse de caracterizar numa palavra a situação política contemporânea e a experiência que fazemos dela, utilizaria o conceito de «impotência»: há várias décadas que, no momento em que nos situamos no terreno do progresso e da emancipação, no campo da radicalidade, perdemos os combates. Quer seja sobre a questão da migração ou das drogas, da igualdade económica ou do sistema prisional, da ecologia ou da libertação animal, da luta contra a vigilância em massa ou contra as práticas policiais, do direito e da saúde, das estruturas de domínio e de exploração, da protecção da vida privada e das «liberdades fundamentais», quer seja em França, na Alemanha, na Suécia, na Polónia, no Brasil, no Reino Unido e nos Estados Unidos, no Canadá e em tantos outros países, as forças reaccionárias mais brutais levam a melhor sobre as forças progressistas, sem que pareçamos ser capazes de as refrear e de as impedir de ganhar terreno. É sempre possível citar uma ou duas reformas locais, adoptadas aqui e ali, uma ou duas vitórias encorajadoras, algumas tomadas de consciência. Mas estas melhorias pontuais não têm nada a ver com a forma que deveriam tomar as transformações inspiradas pelas rupturas paradigmáticas das nossas maneiras de organizar os sistemas de poder.

6.

Evidentemente, não há nada de novo naquilo que aquelas e aqueles que ocupam posições no aparelho de Estado implementam através de medidas movidas por lógicas contra as quais nos batemos. Mas o que é específico, ou o que está a crescer, é a nossa incapacidade para influenciar o curso das coisas. Quando intervimos, quando protestamos, quando nos manifestamos, tudo isso resulta cada vez menos em transformações efectivas — sem referir que o próprio horizonte de uma tomada de poder parece cada vez mais longínquo. As forças profundas da política parecem fora de alcance, não temos influência sobre elas, e parecem jogar a favor da extrema-direita ou das formas renovadas do fascismo político (Bolsonaro, Erdoğan, Trump…).

7.

Recentemente, em França, foi publicada uma nova edição da tradução de A Estética da Resistência, de Peter Weiss. Ao lê-la, impressiona-nos a importância do sentimento revolucionário, da inspiração revolucionária, da crença na revolução e no carácter extremamente poderoso dessa emoção. Os jovens dos anos 20 e 30 que Weiss descreve, mesmo se evoluem no contexto do fascismo e do nazismo, situam-se na perspectiva da revolução. A sua subjectivação política é construída no quadro de uma crença real na possibilidade de uma revolução futura e na certeza de para ela contribuir.

Ora, parece realista dizer que a disposição de espírito se alterou. Vários são aqueles que, nos dias de hoje, vivem a sua vida política em modo de angústia e tristeza. Fazer a experiência da política, para a maior parte de nós, ultimamente, não é fazer a experiência da esperança na transformação, nos dias felizes e nos dias melhores — é fazer a experiência da impotência. O que define o nosso presente político é o sentimento de derrota, de desgosto — de contracção. Esta situação, aliás, não se traduz forçosamente em sentimentos de apatia e de angústia, mas também no recurso a certas formas de luta que se apresentam como radicais — o retorno ao local, o municipalismo, a corrente zadista ou autonomista —, mas que traduzem, na realidade, como já o sublinhava Marcuse, a condição de as classes que carregam um desejo subjectivo de revolução não terem os meios objectivos para a fazer, e esse desespero favorece, nelas, comportamentos de contracção, de desengajamento ou de desperdício de energia.

8.

É óbvio que estabelecer uma tal constatação não significa que sejamos, enquanto intelectuais, artistas, escritores, jornalistas, militantes, etc., culpados de tudo. Os mecanismos da razão de Estado, a autarcia do campo político, as ideologias propagadas pelo campo mediático, a guerra económica, a estupidez… são igualmente forças por demais difíceis de vencer. Mas não devemos deter-nos neste tipo de análise. Se queremos sair da nossa situação de impotência e ansiedade, devemos proceder a um reexame da nossa relação com a política. Por vezes, pergunto-me se não estaremos de tal modo habituados a perder que já não questionamos sequer essa situação. Uma deputada de esquerda dizia-me recentemente, a propósito das eleições, «Vamos ter um bom resultado», como se a partir de agora fosse esse o horizonte: já não o da vitória, mas o de «não perder por muito». Tematizamos os nossos fracassos como evidências. Ora, é preciso politizar esta questão. Devemos perguntar-nos porque é que a política emancipadora parece condenada a uma forma de impotência.

9.

Aquando de uma discussão pública no Centro Pompidou, Julian Assange dizia-me: «Chamo à esquerda aquilo que perde». Dizer que o que somos é definido pela derrota deve levar-nos a tomar consciência disto: talvez não seja por não fazermos nada que perdemos. É mais porque as nossas maneiras de agir e lutar, os nossos modos de nos instituirmos como sujeitos activos instituem-nos, na verdade, como sujeitos impotentes. Não é porque não agimos, ou porque não agimos tanto como devíamos, ou por não sermos em número suficiente que perdemos… é ao agir que perdemos. São as nossas maneiras de agir que nos condenam à estagnação e, por conseguinte, à regressão.

Talvez se devessem pôr as coisas de forma ainda mais radical. Devemos perguntarmo-nos se aquilo a que chamamos os nossos «modos de acção» não se inscreve, na verdade, numa lógica da derrota. Seríamos, hoje, prisioneiros de uma economia política da derrota, o que significaria que os nossos modos de acção são, na verdade, maneiras de fracassar. No exacto momento em que agimos, perdemos. Quando queremos agir, dizemos: vamos organizar uma concentração, publicar uma petição, manifestarmo-nos, ocupar aquele edifício… mas não será que, ao fazê-lo, estamos não a mobilizar-nos mas a organizar o nosso fracasso sem o sabermos e de um modo ainda mais tremendo por pensarmos que estamos a agir?

10.

Num livro intitulado Violência, Sim ou Não?, publicado na Alemanha em 1987, Günther Anders propõe uma análise sobre a acção: fá-lo no quadro de uma reflexão sobre a necessidade de intervir face à urgência vital que representa a ameaça das armas nucleares e da energia atómica — corremos todos perigo de vida, seja por causa de possíveis acidentes ou por decisões que alguns Governos poderiam tomar. Anders interroga-se sobre a legitimidade do recurso à violência nessa situação — e responde pela afirmativa.

A questão da violência é sempre um pouco obcecante a partir do momento em que se reflecte sobre a acção política, e será necessário voltar a ela, mas não é esse o tema de que quero falar por agora.
O ponto que me interessa é este: Günther Anders baseia a sua aceitação do recurso à violência numa crítica às formas tradicionais de contestação. Diz que a contestação contemporânea assume, na maior parte do tempo, duas formas: ora formas alegres, como a manifestação, onde cantamos e sorrimos, ora formas auto-sacrificiais, de que a greve de fome é a modalidade mais extrema e a greve laboral a modalidade mais comum, onde nos fazemos sofrer a nós próprios. Mas, nos dois casos, Anders interroga-se: como é que estas modalidades poderiam fazer vergar os governantes e aqueles que nos ameaçam? Estes métodos, que definem aquilo a que chamamos as «práticas da luta», não lhe parecem susceptíveis de modificar os comportamentos dos dominantes.

11.

Anders caracteriza as formas instituídas da política como happenings. Há uma relação entre a política e o teatro. Falamos, além disso, de cenário político, de actores políticos… O espaço político é um lugar onde nos pomos em cena, onde tudo se passa em modo de «como se»; não agimos, fazemos como se agíssemos; não resistimos, fazemos como se resistíssemos; não protestamos, fazemos como se protestássemos. Colocamo-nos em cena como sujeitos activos… mas agimos de facto? Anders atribui as culpas, por exemplo, àquelas e àqueles que se reúnem contra o nuclear e que muito depressa acabam por tirar as guitarras, cantar em conjunto, divertir-se e esquecer a razão pela qual estão ali. Já nem sequer se preocupam com o resultado da sua acção. Aquilo a que se chama «lutar» torna-se outra coisa.

Torna-se um momento festivo, e não ofensivo. Devo confessar que o que Anders diz impressionou-me muito e fez-me reflectir acerca da maneira como estou numa manifestação. É verdade: nas mobilizações, tiramos fotografias sorridentes como se essa situação não levantasse problemas. O que significa sentir tais emoções nesses momentos, que deveriam ser momentos de luta contra a violência exercida sobre as mulheres, contra as práticas policiais, contra o racismo, contra o capitalismo… Não demonstrará que aquilo a que chamamos «a política» exerce outras funções além daquela que é suposto exercer? Então, se quando cremos lutar, fazemos outra coisa, que quererá dizer lutar — e quando é que lutamos de verdade? Nunca se deve julgar uma mobilização do ponto de vista da satisfação que ela nos dá ou das recordações que guardamos — «foi uma boa manifestação»: a única coisa que conta é «foi eficaz?». Caso contrário, é como se houvesse uma espécie de autonomia da luta em relação aos seus objectivos, uma arte pela arte da luta. Avaliamos uma manifestação em função do seu ambiente, do número de presentes, do seu percurso, das pessoas que conhecemos — desenvolvemos critérios internos de apreciação não tomando de modo nenhum em consideração a única coisa que deveria contar: ganhámos terreno?

12.

No fundo, do ponto de vista político, não somos suficientemente sérios. Não se trata de nos divertirmos, de fazermos amigos, de passarmos um bom momento, de descontrairmos… Trata-se de conseguirmos produzir transformações concretas efectivas.


O livro está disponível no site da editora e nas livrarias habituais.


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