“Que conselho daria a um outro humano em vias de digitalização?”

“How to become data and dissolve into tears”, projeto-piloto de digitalização ao vivo, é um espetáculo pensado para testar os limites da performance numa altura em que o digital é mais do que uma promessa, um universo de possibilidades, criado por João Estevens – artista associado à Rabbit Hole e investigador em ciência política.
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Fotografias de Bruno Simão via TBA

Entre os dias 18 e 22 do mês de Janeiro, o Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, foi espaço de mais um momento da famigerada revolução digital. Num processo que começara há mais de 3 meses, 5 performers pisaram pela última vez o palco do teatro antes de se digitalizarem. Paula Sá Nogueira, João Abreu, Francisco Belard e Paulo Pascoal, cobaias escolhidas para esta experiência, foram guiados por João Estevens, responsável do projecto que também ele se digitalizou. Ao longo de todo um processo feito de forma transparente e interativa, o público foi convidado não só a assistir, como a participar na reflexão.

C\:>how2become (data) & dissolve_into: ‘tears’, projeto-piloto de digitalização ao vivo, é um espetáculo pensado para testar os limites da performance numa altura em que o digital é mais do que uma promessa, um universo de possibilidades, e enquadrado na obra artística de João Estevens – artista associado à Rabbit Hole, mas também investigador em ciência política, que ao longo dos últimos anos tem levado a palco a questão da digitalização. Se em obras como Lost in Cyberia ou Uncanny Valley esta ideia ampla, da transição para o digital, era o assunto principal da performance, desta vez – tal como nas nossas vidas – o desígnio da digitalização contamina todos os momentos de contacto com a criação do artista, abrindo o leque de possibilidades desta relação, e envolvendo o espectador numa espécie de ficção especulativa que baliza a reflexão proposta. A narrativa, algo surpreendente tanto no corpo de trabalho de Estevens como na performance, não serve de guião para uma encenação mas antes de enquadramento para uma viagem que se prolonga ao longo de toda a experiência.  

How to became data and dissolve into tears é, portanto, o ponto alto de uma parceria entre o Teatro do Bairro Alto e a Datate, uma empresa de capital britânico com sede em Shangai, especializada na digitalização de humanos. “Neste trabalho específico reforcei essa ideia de uma ficção. Ao fazer esta ficção, sobre este conjunto de performers que se decide digitalizar, acabei por trabalhar paralelamente uma sub narrativa sobre a ideia de captura. Como é que se capturam esses performers? Como é que esses performers fazem essa transição do espaço físico para o espaço digital? (…) É aí que entramos na ideia de uma mega empresa – mega corporate – que é especializada na recolha de dados, ou seja, neste processo de captura – o que é altamente vago e subjetivo, propositadamente. Mais do que vincar a ideia dos dados como algo fundamental, queria que fosse algo que está sempre lá”, conta-nos João Estevens numa conversa poucas semanas antes do momento final da performance.

Se a narrativa não conduz a performance por completo, estabelece pontos de referência fundamentais ao seu entendimento e ao seu desenrolar. A experiência, de resto, começa muito tempo antes da subida dos performers a palco pela última vez, com um livro. Ao comprar o ingresso para a peça, os espetadores foram presenteados numa morada à sua escolha com um pequeno livro altamente experimental. De formato estreito e cores garridas, este primeiro momento da peça é desde logo o primeiro cruzamento entre universos. Em vez de afirmações, o objeto físico confronta-nos ora com questões, propondo alguma interatividade, ora com excertos de hipertexto ou ilustrações de capturas 3D. E em vez de uma leitura, proporciona-nos uma experiência mais próxima da navegação no digital – como um campo aparentemente infinito de possibilidades e um sentido moldável pelo nosso envolvimento e conhecimento – “um texto que se dissolve, que se vai de alguma forma fragmentando, e transformando também em código”, acrescenta Estevens, para em seguida nos desvendar uma das realidades suspensas que engendrou. Para o final do pequeno livro contou com a colaboração de uma programadora que codificou todos os momentos da performance em linguagem de máquina, escondendo no tal hipertexto – estranho à leitura humana mas à vista de qualquer um – uma possível conclusão.  

De resto, esta tensão entre o visível e o possível  – uma outra roupagem para a tensão entre o digital e o real – é uma constante ao longo de toda a performance, na medida em que a especulação sobre a forma como as coisas decorrem coloca um espetador insistentemente num lugar de decisão – tendo mais ou menos noção disso.

“A ideia de uma separação entre real e digital sempre me fez confusão: como é que tu materializas uma existência no digital ou uma perceção acerca do digital? Sempre a partir de uma realidade, não é? Portanto, constrói-se uma realidade, há uma construção de realidade com todas as subjetividades que qualquer outra realidade ou leitura de realidade possa ter. Utilizamos essa formulação – de jogar com o outro lado – também por relação com a questão do ecrã. O ecrã é fundamental na performance digital e na mediação que é feita, e se pensarmos o ecrã é sempre uma construção que de alguma forma sobressai aquilo que tu queres ver e esconde algo.”

Neste caso não existe propriamente um ecrã, mas uma sucessão de enquadramentos que nos dirigem o olhar. Depois da receção do livro, os espetadores são convidados para um encontro telefónico ou presencial com o performer num espaço público acordado por ambos. Uma contradição evidente com os trâmites em que decorre habitualmente um espetáculo que traz mais uma tensão para o jogo relacional. Até que ponto o performer está a encenar a sua presença, o que controla, quanto controla, onde se torna performer e onde é um qualquer cidadão? São questões mais do que expressas, internalizadas na forma do próprio espetáculo. Não há proibições mas não parece suposto que expressemos em voz alta todas as dúvidas, sob pena de quebrarmos a especulação que nos mantém envolvidos, indagarmo-nos sobre que raio significa o que estamos a ver, presenciar ou sentir, mantém-nos vivos dentro da encenação. “Quando estás a ler um livro em casa, quando estás no Twitter, ou no computador, agora como estás [a conversa foi por videoconferência], a tua postura corporal, aquilo que tu fazes, a tua capacidade de atenção ou não atenção, os níveis mentais de dedicação ao que estás a fazer são variáveis. Eu não sei se a performance vai ser capaz de fazer isso, mas quando comecei a querer fazer isto desta forma, foi mesmo com consciência de passar por estes diferentes espaços e para que as pessoas sentissem também os seus corpos nesses diferentes espaços.”


Chegar ao teatro para assistir à componente de palco desta performance é, por toda a construção, uma experiência fora do vulgar. Em vez de expectativas sobre o sentido da história, carregamos expectativas sobre o potencial da digitalização que se misturam e se constroem com as referências de cada um, e sobre os limites da própria performance. As máscaras cirúrgicas e as medições de temperatura não nos deixam esquecer da realidade, mas o caminho traçado pela performance molda esta envolvente. À entrada na sala, todos os intervenientes estão em palco – se é que se pode chamar palco. O João, que reconheço da entrevista, anda de um lado para o outro de livro na mão.  Os quatro restantes entretêm-se entre si, aparentemente ansiosos, não sei se pela digitalização, pela performance, ou simplesmente pela vida. Reconheço apenas a João Abreu, porque sigo Twitter, e o Paulo Pascoal, do Instagram, e é inevitável pensar que, curiosamente, para mim a sua existência era sobretudo digital, até este momento em que ensaiam a sua digitalização. Serão de alguma forma mais reais? Olharei de outra forma a sua existência no digital? Isto interessa para a performance? Só não restam dúvidas quanto à última questão. 

“Eu já andava a pensar na questão do digital antes da Covid. E quando chegou a pandemia dei comigo num conjunto de conversas online, com posições muito antagónicas e claramente rígidas sobre o que é o digital. E eu, o que tenho é uma ideia de performance digital ou uma ideia de digital. São sempre aproximações, e como de alguma forma também sempre me interessou uma certa hibridez do formato. Acho que há aqui um espaço ‘entre’, um espaço de complementaridade, de interdependência que só depende dos usos de quem cria”, partilhou Estevens durante a nossa conversa.

Sem a carga de uma personagem, nem a distância do palco marcada fisicamente ou pelas normas habituais – João Estevens disse no início do espetáculo à audiência para se sentir à vontade e utilizar o telemóvel se lhe apetecesse –, a bagagem que trazemos connosco transporta-se mais facilmente; os sedimentos de memória das contas que seguimos online, assim como os hábitos. Antes de sentar, era impossível não reparar que cada cadeira tinha nas costas um código QR impresso e, se, pelo menos na sessão a que assisti, a maioria o ignorou, a curiosidade deixou-me desde logo com vontade de ver o que existia do outro lado. Se a sua leitura acrescentava uma camada ao que estávamos a ver, implicava também a passagem pela tensão de numa sala escura tirar do telemóvel, abrir a câmara, esperar que não tivesse com flash e que a luz fosse suficiente para a digitalização; ganhar noção do corpo no espaço e potencialmente incomodar os demais; relembrar a complementariedade entre os espaços e que mesmo a navegação no digital cria um rasto na realidade. 

No endereço para que apontava o tal código QR, uma lista com mais de 200 perguntas parecia oferecer-nos o guião para o que se iria passar. Um a um, as cobaias posicionavam-se estrategicamente no cruzamento de duas câmaras e assim começava o processo de digitalização propriamente dito. De auscultadores nos ouvidos, respondiam a perguntas lançadas pelo condutor da performance situado na penumbra da parte de trás do palco, mas iluminado pelo computador onde ia lendo as perguntas – uma encenação propositadamente desconstrutiva da experiência do digital. Auscultadores sem fios, cabos escondidos, luzes que conduzem a atenção, mas lá ao fundo um vislumbre da voz de comando, dando ordens aparentemente aleatórias mesmo para quem tem o guião. 

“Costuma lembrar-se dos seus sonhos? Como reage a surpresas? 7×9? Qual foi a coisa mais difícil com que teve de lidar durante o seu crescimento? Classismo, racismo, sexismo, misoginia, transfobia, capacitismo, idadismo, eurocentrismo, antropocentrismo, etc.; de qual destas seria mais facilmente acusada?” – a lista de perguntas é extensa e durante a experiência da peça só ouvimos as respostas de que tentamos mesmo inconsciente fazer algum sentido; o exercício – mais uma vez, provavelmente por influência das minhas próprias referências – lembra-me a leitura das máquinas; a coletânea de informação de um modo discricionário, aleatório, que ganha sentido numa certa acumulação. Que elementos seriam fundamentais para uma replicação fidedigna da sua identidade?” é uma das pergunta-chave para a qual não se propõe uma resposta. A dúvida é o território desta narrativa. O confronto com uma ideia maior de que por muito aprofundado que seja o nosso conhecimento sobre tecnologia, ou por muito clara que seja a nossa visão sobre o que forma uma identidade, tudo se revela insuficiente, híbrido, interdependente na busca por uma explicação concreta. O carácter especulativo da performance – em que nem quem actua parece muito preocupado – diverte-nos enquanto torna clara a fragilidade das nossas certezas nos espaços entre de que nos falava o João. 

Depois de digitalizados os performers, e de no palco não restar ninguém, a derradeira ação dá-se já no ecrã onde surgem recriações 3D de quem acabámos de ver no palco (obra da artista S4ra). Num plano infinito – mas sem qualquer elemento – e, por isso, minúsculo em termos de significado – surgem à vez e partilham as experiências. A Paula esqueceu-se do tabaco, a João não veio para aqui trabalhar – quer conhecer os seus Digital Labour Rights e saber se é legal que queiram explorar o seu avatar para fins comerciais –, há quem tente dormir e quem tente trepar o vazio à procura de algo do outro lado. Todos estão em vigilância permanente e parecem claustrofóbicos perante a ausência de símbolos e significados que os rodeia, será essa a derradeira fronteira da realidade? Termos algo a que dar sentido, com que construir sentido a partir da nossa perceção? 

A conversa entre os avatares rapidamente os transforma em personagens numa espécie de videojogo surrealista. O que agora os rodeia serve de entretenimento, bem como a possibilidade que agora se revela de poderem alterar a sua própria existência. Paula fica com cabeça de bule, e João com um corpo infinito.  As questões amenizam-se perante o divertimento; mesmo que o jogo careça de um sentido lógico, os símbolos que o compõem dão-nos qualquer coisa com que nos confortar, elementos que nos permitam entreter na tentativa de construir esse sentido. Aproveitemos o pretexto para pensar na nossa experiência digital: em espaços que não moldamos, criamos identidades perante os outros e as máquinas, feitas de pedaços de data arbitrários que uma qualquer pergunta – explícita ou implícita – nos levou a digitalizar. Existimos mais do que no real, no digital, onde estamos sempre presentes mesmo na ausência. 


A projeção termina com um convite para aceder a um website. Intencionalmente rudimentar, o site começa por nos fazer uma série de perguntas, pedir que criemos um avatar – ou que usemos aquele que entretanto foi criado para nós depois do encontro físico integrante da performance. Naquele espaço – digital – encontramos de uma outra forma quem eventualmente estaria sentado ao nosso lado, e voltamos a rever os nossos corpos no espaço, agora digital. Alguém pergunta no chat se alguém quer ir fumar um cigarro lá fora, e mesmo enquanto me afasto do espaço continuo atento à conversa, prolongo a performance, lembro-me que a fruição cultural não é só sobre a reificação do texto, da obra, da proposta. É sobre relações, limites, fronteiras.

Que parte do que acabei de ver é real? Conheço aqueles que acabei de ver atuar? Sinto-me mais à vontade para interagir com eles online e offline? Não sei, mas penso nisso. O caráter da peça, imaginado pelo artista, é suficientemente híbrido e ambíguo para gerar mais perguntas que respostas. “Acho que dá uma cor ou um entendimento sobre a utilização de dados, sobre alguns dos problemas que existem, mas não diretamente fala em capitalismo datocêntrico, por exemplo. Não somos muito vocais em refletir sobre isso no espetáculo, não há aqui uma tomada de posição clara”, explica-nos João Estevens. 

Se eu fizer esse movimento [move-se na câmara], o que tu vês é exatamente o que eu estou a fazer? Que propriedades do movimento se alteram quando são digitais? Se eu tiver aqui uma máquina que possa ler o meu movimento e transformá-lo noutra coisa, ou se eu tiver um avatar que representa o meu corpo; há uma série de camadas sobre o próprio movimento, pode ser comunicação, pode ser de interatividade, que me interessam explorar. É por isso que eu trago sempre alguns dispositivos mais digitais mas é porque estou a pensar sobre eles.” É a partir de pequenas questões que João procura exprimir as suas aproximações ao sentido do que trabalha. 

Neste ponto é inevitável mencionar que para além de artista, João Estevens é também investigador dedicado às artes performativas – onde podemos incluir como objeto de estudo e experimentação o seu próprio – mas também à ciência política. Cruza no seu percurso a academia e a arte, e talvez seja por isso que com naturalidade traz para a performance problemáticas muito concretas. Neste caso refletimos sobre a condição de espetador de uma performance, mas é impossível não sentirmos que essa reflexão também questiona a nossa condição de cidadãos.

“Estando ativamente nas duas áreas – académica e artística – percebo que não há um contacto entre elas. Normalmente são ‘zonas separadas’ e não ocorre às pessoas da ciência utilizar meios artísticos, nem para fazer a sua investigação nem para a divulgar.  Ainda que por outro lado vá existindo cada vez mais, parece-me, um interesse dos artistas em pegar em temas mais científicos – porque há maior liberdade criativa e escolhes o que te apetece. Eu acho que naturalmente  o trabalho que faço acaba por ter uma reflexão sociopolítica maior porque é o meu ângulo de olhar para isto, eu não consigo separar os papéis.” 

Complementaridade, interdependência, hibridez, parecem ser não só palavras-chave para descortinar a peça de que falamos, mas também uma espécie de framework com que pretende revelar o mundo aos outros. “Não consigo dizer que num momento sou só artista ou só investigador, tudo se une em mim. Tanto de um lado, como do outro, respeitando as regras e estando muito protocolado numa forma de fazer, cada vez mais procuro romper. procuro a hibridez. Perceber como é que estes dois mundos podem começar a comunicar mais, como se podem transplantar coisas de um lado para o outro. A forma com que crio projetos artísticos é a mesma com que crio projetos de investigação, a ideia de querer pensar sobre algo, de refletir sobre um problema. Depois muda a forma como executo, em vez de ir fazer um questionário ou entrevistas, por exemplo, faço um projeto artístico.”

Num mundo cada vez mais estratificado, especializado e disciplinado, em que as disposições determinam os sentidos das ações, em que a academia e a arte lutam por demonstrar o seu valor – inegável – a um público cada vez mais vasto, em que cada um de nós procura um sentido entre as diferentes esferas de existência, e onde todas as opiniões parecem cada vez mais fatalistas e definitivas, Estevens dá um exemplo. Pensa para além dos formatos da performance, equilibra-se entre dois polos tantas vezes visto como opostos e, sobretudo, convida-nos para uma reflexão, não nos sugere a conclusão. 

Fotografias de Bruno Simão via Teatro do Bairro Alto

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  • O João Gabriel Ribeiro é Co-Fundador e Director do Shifter. Assume-se como auto-didacta obsessivo e procura as raízes de outros temas de interesse como design, tecnologia e novos media.

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