As redes estão a deixar de ser sociais? 

As redes sociais tal como as conhecemos vão desaparecer? O TikTok está a levar a profundas alterações nas plataformas sociais de primeira geração, como o Facebook e o Instagram.
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Homem a segurar num smartphone com um autocolante onde se lê "Social Media seriously harms your mental health"
Via Unsplash/Christopher Ott

Em 2006, há quase duas décadas, o Facebook introduziu o News Feed, um aglomerado de publicações de amigos e de conteúdos de contas que seguimos, organizado por algoritmos que colocavam no topo aquilo que hipoteticamente mais nos poderia interessar. O News Feed cresceu com o Facebook e passou a ser mediador de informação para mais de dois mil milhões de utilizadores todos os meses. As lógicas de curadoria algorítmica e de introdução de posts recomendados no meio dos conteúdos produzidos por utilizadores na nossa rede de conexões foram replicadas por outras redes sociais, como o Instagram, depois de ter sido adquirido pelo Facebook, ou o Twitter. Feeds organizados por algoritmos passaram a ser padrão na experiência de navegação nas apelidadas redes sociais – e por inerência no consumo de informação e nas relações sociais online.

Em 2013, o Snapchat apresentou a ideia de Stories; em 2017, o Instagram copiou-a e a internet abanou-se um bocadinho com um novo formato de conteúdo que parecia disseminar-se por todo o lado. Mas o tradicional feed no qual fazemos scroll com o dedo, percorrendo publicação atrás de publicação, aguentou-se. As Stories passaram a aparecer no topo do News Feed no Facebook (que, por seu lado, também copiou o formato) e do feed do Instagram. O Twitter tentou ter Stories (os fleets), mas acabou por abandonar a ideia meses depois. E até o LinkedIn ou Behance, uma plataforma para partilha de portfólios online, adoptaram o formato.

Em 2017, somos introduzidos ao TikTok, mas é três anos depois que a sua popularidade começa a ameaçar o reinado das redes sociais de primeira geração. Em 2020, a aplicação alcançou os dois mil milhões de downloads e, em 2021, segundo dados da Cloudflare, tornou-se o site mais popular no mundo, ultrapassando o Google, e a rede social mais popular, à frente do Facebook. Em Portugal, o TikTok tem também tem feito o seu caminho até ao mainstream, sinal de que está a consegui-lo é a adesão de figuras públicas, ou de marcas, a esta nova plataforma social. Carlos Moedas, Presidente da Câmara de Lisboa, foi dos últimos a juntar-se ao TikTok, onde também já marcam presença personalidades como a Júlia Pinheiro ou Diogo Batáguas.

O reinado do TikTok

Com o TikTok veio também um novo tipo de feed. Quando entramos na aplicação, vídeos ocupam-nos o ecrã completo, como as Stories, mas a navegação faz-se na vertical – puxamos com o dedo para cima para ir de conteúdo para conteúdo, mas no TikTok vemos um conteúdo de cada vez — em vez de fazer scroll por um espaço contínuo, cada movimento do dedo alterna entre o conteúdo visível. Isto faz com que utilizadores sejam mais expostos a um só conteúdo, em vez de a sua atenção dispersar no scroll. Este foco em cada conteúdo é válido para publicações normais, como também para anúncios que surgem entre esses posts – com estes feeds verticais com um conteúdo de cada vez, as plataformas procuram que a nossa atenção perante uma determinada mensagem publicitária seja também mais eficaz.

O Instagram testou recentemente um feed semelhante ao do TikTok há pouco tempo, o que terá incomodado alguns utilizadores que lançaram um movimento e petição intitulado “Make Instagram Instagram Again”. O YouTube tem vindo a desenvolver os Shorts, uma funcionalidade de vídeos curtos, em formato vertical, que podem ser vistos como os dos TikTok. Já o Twitter, por seu lado, começou a implementar uma navegação vertical estilo-TikTok no conteúdo vídeo partilhado na sua plataforma – agora, quando um utilizador clica num vídeo, pode fazer um scroll e irá ver outro vídeo relacionado.Não há dúvidas de que o TikTok está a agitar o mundo das redes sociais que se estabeleceram há quase duas décadas a nível global. 

Lançado apenas em 2016 (o Facebook, por comparação, surgiu uma década antes), o TikTok só chegou no mercado internacional um ano depois, pelas mãos da tecnológica chinesa ByteDance após a compra da já popular Musica.ly. Foi, por isso, na música e nos vídeos de dança e lip sync que a aplicação ganhou popularidade, mas o TikTok tem vindo a revelar a sua versatilidade – continuando restrito ao formato de vídeo, permite aos utilizadores reinventar a comunicação e o entretenimento digital.. Músicos, humoristas, activistas, marcas e pessoas em geral têm encontrado no TikTok novas formas de interagir e de chegar às suas audiências – muitas vezes com coreografias à mistura.

Mas o TikTok trouxe consigo outra grande mudança que estará a influenciar no panorama das redes sociais e o universo online de forma ainda mais decisiva. Quando abrimos a aplicação, somos confrontados com dois feeds, o “Para Você” e o “Seguindo”, mas é o primeiro que surge por definição e não há forma de o alterar. E é neste pormenor reside um ponto muito fundamental: no TikTok importa mais o que os algoritmos nos recomendam do que as contas que decidimos seguir na aplicação. Com o crescimento do TikTok nos últimos anos e com a “tiktokização” da web, poderemos estar a assistir a um fim das redes sociais tal como as conhecíamos e a uma afirmação dos algoritmos na selecção dos conteúdos que nos chegam através dos feeds, provenientes de qualquer parte e de qualquer utilizador da plataforma.

Na verdade, em aplicações como o TikTok deixamos de ter primazia das publicações de contas que decidimos seguir filtradas num feed, para o algoritmo assumir um papel central – é o algoritmo que escolhe o que vamos ver, recomendado conteúdo de quem não seguimos, e de quem provavelmente nunca ouvimos falar. Isto representa uma mudança de paradigma que significa, por um lado, uma maior abrangência da nossa audiência potencial – um dos factores que tornou a rede social tão atractiva para quem procura alcançar mais pessoas; de repente, deixamos de publicar para os nossos amigos e conhecidos para o fazermos para todos os utilizadores da aplicação.

No mesmo sentido, a Meta anunciou recentemente uma alteração significativa à sua aplicação Facebook com o intuito de dar mais poder aos algoritmos: o News Feed passa a chamar-se só “Feed” e torna-se um separador secundário onde os utilizadores passarão a ter todas as publicações das pessoas, páginas e grupos que seguem, por ordem cronológica e sem filtro, mas o separador central torna-se o “Home”. Nesta “Home”, que surge logo quando se abre a aplicação ou de acede ao site, a seleção de conteúdos é constituída por recomendações por algoritmos. Isto significa menos publicações de amigos e de páginas que o utilizador escolheu seguir, e um feed mais estilo TikTok.

A publicação Axios resume a alteração da seguinte forma: “O player dominante nos meios sociais está a transformar-se numa espécie de meio digital de massas, nas quais as reacções de utilizadores anónimos, processadas por aprendizagem automática, impulsionam a selecção do seu conteúdo.” Num artigo intitulado “Sunset of the social network” (“O pôr-do-sol da rede social”), Scott Rosenberg argumenta que estamos perante o fim da era das redes centradas nos nossos amigos e conhecidos, que dominou a “cultura e economia da internet” na última década ou duas. “O modelo de rede social, associado à proliferação dos smartphones que moldou as experiências digitais de mil milhões de utilizadores, tornou a actividade de acompanhar as publicações de amigos num hub para tudo o resto que podíamos vir a fazer online”, sinteriza Rosenberg, que faz no seu artigo um breve apanhado da história das redes sociais e do Facebook.

O pôr-do-sol das redes sociais

O termo “pôr-do-sol” não significa um fim imediato, mas sugere um desvanecimento. No entanto, se é verdade que as atenções da Meta parecem estar cada vez mais no metaverso e menos nas suas aplicações sociais, não será exagerado dizer que as redes sociais como as conhecemos irão desaparecer – deverão mudar, como estamos a ver acontecer com o Facebook e o Instagram, por força do TikTok e pressão para expandir o seu negócio. O Facebook parou de crescer, o Instagram tem estado ameaçado pelo avanço da aplicação chinesa – principalmente entre as novas gerações, que costumavam ser a chave do Instagram –, e o Twitter continua à procura de descobrir como pode ganhar relevância além das pessoas já convencidas a utilizar a sua aplicação.

Ao longo dos anos, o Facebook e outras redes sociais ficaram associadas a problemas como desinformação, discurso de ódio, a proliferação de mensagens populistas ou o vício nocivo para os seus utilizadores. Mas, apesar da ausência de notoriedade, o TikTok não está livre destes problemas.

A rede social dos pequenos videos virais não foi ainda tão escrutinada como outras, mas ao que tudo indica também explorará comportamentos compulsivos como outras, com pessoas a ficarem viciadas no uso da aplicação muitas vezes descrita como um buraco negro da atenção, onde se torna dificil ter noção do tempo perdido. O seu modelo de recomendações por algoritmos permite que publicações se tornem virais sem que exista um contexto relacional por detrás, em vez disso é a sua popularidade que determina o sucesso; quanto maior a audiência que cada pessoa tem maior o alcance do seu discurso, o que poderá ecoar beneficiar discursos e abordagens populistas.

Estes problemas não são novos; e redes como o Twitter também têm estes problemas. Nesta plataforma, também as relações que se estabelecem são públicas. Na verdade, no Twitter não procuramos seguir amigos e conhecidos – até porque muitos nem estão nessa rede social – e estabelecemos uma audiência consoante aquilo que procuramos. É certo que existem contas privadas e que podemos ter uma audiência pessoal no Twitter, mas o poder do tweet e principalmente do retweet permite-nos publicar para um público potencial maior que as nossas redes pessoais. Os conteúdos que publicamos no Twitter podem, se mantivermos uma conta pública, ser partilhados por dezenas ou mesmo centenas de pessoas que desconhecemos, e em poucos minutos, tornar-se virais. O TikTok alinha nesta mesma lógica de conteúdo público, sem redes pessoais, com a diferença no formato. Ao explorar o vídeo em vez do texto curto como no Twitter, a rede social torna-se mais apelativa; e Facebook e Instagram parecem querer seguir o mesmo caminho.

Será o fim da rede social enquanto rede de pessoas que se conhecem ou que de algum modo são próximas? Michael Mignano, criador do Anchor, uma plataforma adquirida pelo Spotify, escreveu um ensaio interessante sobre o que apelida ser o fim dos media sociais e o princípio dos ‘media de recomendações’. Terminamos com um excerto: “Os meios de recomendação chegaram. Como resultado, faremos menos escolhas explícitas (‘estes são os meus amigos’) e mais escolhas implícitas (‘é aqui que o algoritmo recomenda que devo gastar a minha atenção’) sobre como, quando, e porque é que consumimos conteúdo. A curto prazo, podemos não notar grande diferença, mas será fascinante olhar para trás daqui a alguns anos e reflectir sobre como os nossos comportamentos pessoais mudaram.”

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