Brian Eno: “Já fui abordado várias vezes para ‘fazer um NFT’. Até agora nada me convenceu”

Se os NFT são realmente os Readymades de Duchamp invertidos, como o historiador de arte americano David Joselit argumentou num pequeno ensaio muito discutido em Abril de 2021, quem melhor para pedir respostas do que o homem que urinou na Fonte de Duchamp?
7 minutos de leitura
Brian Eno via Wikimedia (CC BY-SA 3.0)

Brian Eno é um dos artistas mais bem sucedidos no activo actualmente. Para além de nos ter dado o género ambient music, também produziu algumas das actuações mais marcantes dos últimos quarenta anos. É conhecido também pela sua arte sonora, video e digital, incluindo a 77 Million Paintings, que, no seu espírito generativo da abundância, pode ser o oposto do que os NFTs representam.

Brian uma vez urinou no famoso urinol de Duchamp, descontente com a forma como o mundo das galerias estava a interpretar erradamente a filosofia da arte de Duchamp. Conhecendo o Brian há algum tempo — partilhamos o mesmo interesse em cibernética e no trabalho de Stafford Beer — contactei-o para perguntar as suas opiniões sobre NFTs e o que acha da importância política das cripto. 

Se os NFT são realmente os Readymades de Duchamp invertidos, como o historiador de arte americano David Joselit argumentou num pequeno ensaio muito discutido em Abril de 2021, quem melhor para pedir respostas do que o homem que urinou na Fonte de Duchamp?


A maioria da conversa que oiço é em torno da questão ‘O que podemos fazer com esta tecnologia’ que não significa ‘como podemos tornar este mundo melhor?’ mas ‘Como podemos tornar isto dinheiro?’

Como artista, procurou sempre economistas, colaborando com Yanis Varoufakis, Mariana Mazzucato, entre outros. Também foi um dos primeiros defensores do Rendimento Básico Incondicional de grande perfil. O seu compasso político parece que tem vindo a trabalhar bem. O que acha que no capitalismo global nos pode ajudar a perceber o contexto em que as cripto se tornaram tão centrais no debate público?

Eu vejo um mundo completamente inundando de dinheiro à solta e especulação porque os vários governos do mundo, sem querer fazer reformas estruturais que ameaçassem o status quo, decidiram resolver todos os problemas imprimindo mais dinheiro para lhes atirar para cima. É presumível que seja por isso que as ações sobem quando há uma emergência como a Covid – porque os especuladores perceberam que uma nova emergência significa uma nova infusão de dinheiro, e sabem quanto desse dinheiro vai acabar nas suas mãos. 

Há muita excitação em torno das cripto por estes dias, com muitas afirmações feitas em nome dessas tecnologias. O que acha dessas promessas?

Eu vejo um conjunto de soluções mas eu não sei que problemas existem para serem resolvidos por estas, para além de ‘Como podemos utilizá-los para absorver todo este dinheiro de reserva que se está a lavar?’. A maioria da conversa que oiço é em torno da questão ‘O que podemos fazer com esta tecnologia’ que não significa ‘como podemos tornar este mundo melhor?’ mas ‘Como podemos tornar isto dinheiro?’

Na sua opinião, há muito que as tecnologias cripto possam fazer pelos artistas?

Sobre efeitos nos artistas, embora eu consiga imaginar que possam haver e provavelmente já haja usos interessantes e criativos das tecnologias cripto, até agora não as vi. Não tenho a certeza de que o que está a ser trazido para o mundo faça alguma diferença a não ser algumas correntes de números que se movimentam em algumas contas bancárias. Quero saber o que está a mudar, o que está a ser feito diferente, o que está a ajudar, o que está a mover-se? Não vejo qualquer resposta a essa pergunta.

Muita da energia por de trás das cripto vem da grande necessidade que algumas pessoas sentem de operar fora do estado, e portanto fora de qualquer supervisão democrática comum.

Grandes números moveram-se entre contas bancárias graças à explosão dos NFTs… isso não é algo a celebrar? 

Eu percebo que as pessoas que se saíram bem estejam satisfeitas, e é natural num mundo libertário acreditar que se se beneficia de algo, esses benefícios estão automaticamente certos para o mundo todo. Essa crença é uma versão do que chamo “automaticismo”: a ideia de que se deixares as coisas em paz e deixares algo – o mercado, a natureza, a vontade humana – tomar o seu curso natural sem impedimentos, vais obter um resultado melhor do que se lhe mexessem. As pessoas que têm crenças deste tipo não têm qualquer hesitação em remediar-se mas querem uma situação em que mais ninguém se remedie. Especialmente o estado. 

Estranhamente o libertarianismo de hoje para vestir as roupas de salvador do mundo, falando sobre comunidade, descentralização, a necessidade de romper com as instituições enraízadas (incluindo os bancos centrais) sob o signo da Web3. Ironicamente, isto também é o que as grandes plataformas que associamos à Web 2.0 — Spotify para a música, Uber para transportes e Airbnb para hospitalidade — costumavam dizer sobre as indústrias que estavam a disromper. 

Muita da energia por de trás das cripto vem da grande necessidade que algumas pessoas sentem de operar fora do Estado, e portanto fora de qualquer supervisão democrática comum. A ideia de que a Ayn Rand, aquela toxina Nietzsche-para-adolescentes, deveria ter tido as suas ideias malucas consagradas numa filosofia sobre dinheiro é o que me aterroriza. Eu não entendo bem o que eles acham que fizeram. Mas talvez seja eu que não entenda! 

“Podem os NFTs ser uma forma de Robin Hoodismo contemporâneo? É possível que os artistas usem estas ferramentas para desviar alguns dos triliões em direção a algo mais produtivo e humano? Isso era o que eu queria perceber”

Porque nunca explorou os NFTs por si?

Já fui abordado várias vezes para ‘fazer um NFT’. Até agora nada me convenceu de que haja algo que valha a pena explorar nessa arena. ‘Valer a pena’ para mim implica trazer algo à existência que acrescente valor ao mundo, não só à conta bancária. Se eu quisesse principalmente fazer dinheiro, eu teria escolhido uma carreira diferente como outro tipo de pessoa. Provavelmente não teria escolhido ser artista. Os NFTs parecem-me uma forma de os artistas terem um pedaço da acção do capitalismo global, a nossa pequena versão da financeirização. Que querido – agora os artistas também se podem tornar pequenos idiotas capitalistas. 

Há, contudo, pessoas à esquerda que dizem que estas tecnologias podem tornar a economia digital mais justa. Concorda com isso? 

Podem os NFTs ser uma forma de Robin Hoodismo contemporâneo? É possível que os artistas usem estas ferramentas para desviar alguns dos triliões em direção a algo mais produtivo e humano? Isso era o que eu queria perceber, mas continua a levantar a interessante questão moral sobre se coisas limpas podem ser feitas com dinheiro sujo. 

E nisto não mencionamos a principal questão: num mundo em aquecimento as novas tecnologias que usam quantidades massivas de energia como ‘proof of work’ – isto é, para simplificar, para estabelecer um certo distintivo de exclusividade – é realmente insano. A energia não está a produzir nada de que precisemos. Eu sei que existe o proof of stake mas eu não sei se isso realmente funciona até que todos mudem para isso. E mesmo que o façam, continuam sem responder às outras questões que me incomodam.  

Há muita excitação à volta destas coisas neste momento, mas haverá alguma esperança de que em 2022 fiquemos um pouco mais sóbrios em relação a elas? 

Estou a tentar manter a mente aberta em relação a estas questões. Pessoas de quem gosto e em quem confio estão convencidas de que é a melhor coisa desde o pão fatiado, por isso gostaria de ter uma visão mais positiva, mas neste momento vejo principalmente são hustlers à procura de otários. E muitos artistas de olhos brilhantes dispostos a desempenhar este último papel. Perdoem o meu cinismo… não estou a sentir-me muito positivo neste momento.

Este artigo faz parte de uma série de publicações do The Crypto Syllabus, uma iniciativa para descodificar o complexo puzzle das cripto. Sabe mais aqui.

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