Phantasmagoria hacker – Breves notas sobre a classe maldita

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Adaptação da capa da edição portuguesa do livro 'Um Manifesto Hacker'/Bruno Inácio

Phantasmagoria hacker – Breves notas sobre a classe maldita

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Nota inicial de Francisco Nunes para a edição portuguesa de "Um Manifesto Hacker", livro da autoria de McKenzie Wark recentemente editado pela DeStrauss, com tradução de Francisco Nunes e design de Bruno Inácio.

Se há, hoje, uma dificuldade inerente à leitura de Um Manifesto Hacker, esta reside na absoluta saturação hermenêutica do termo hacker. Saturação não apenas estética — decorrente da sua imersão no imaginário cibernético e no largo espectro de representações culturais que lhes estão associadas, que vão dos becos escuros do cyberpunk de William Gibson ou Philip K. Dick ao espaços kitsch-futuristas de Silicon Valley — mas acima de tudo analítica, contribuindo para a perda da vitalidade das suas pontencialidades políticas — os terrenos baldios que o hacker parecia ter descoberto nos interstícios da Cidade. Estas últimas foram progressivamente neutralizadas pela reorganização capitalista de um espaço digital mercantilizado em toda a linha e suavemente integrado na economia global, dando origem à multiplicação de análises, a um verdadeiro mercado de teoria crítica, em torno do cruzamento entre a crescente abstracção e digitalização dos processos produtivos e as novas formas de controlo e organização social que definem a emergência daquilo que ficou conhecido como ideologia californiana1. Assim, se do ponto de vista cultural, lato sensu, o hacker parece remetido a uma série de manifestações hantológicas2 que reemergem periodicamente dos escombros da imagética que o foi acompanhando, a tradução política da sua figura oscila hoje entre o problemático herói revolucionário da era digital, à la Julien Assange, e uma nova iteração do criminoso comum, que faz uso de novas ferramentas para levar a cabo velhos esquemas.

Uma leitura actual de Um Manifesto Hacker poderia começar por forçar um afastamento entre o imaginário hacker actualmente dominante e as possibilidades contidas na utilização que McKenzie Wark faz do termo. A inutilidade de recuperar um ponto originário da figura do hacker, livre das suas sucessivas modulações, impõe a necessidade de abandonar a procura do brilho prístino das primeiras coisas e, pelo contrário, mergulhar nas águas impuras que refletem hoje a sua imagem. O gesto inicial do Manifesto, ao libertar o hacker do colete-de-forças semântico que o confinava ao domínio das tecnologias computacionais, abre caminho para o exercício de ampliação conceptual do termo, com vista a uma nova esquematização das relações sociais de produção.

Capa do livro Um Manifesto Hacker

Através da recuperação de uma grelha analítica marxista, que actualiza as fases de desenvolvimento produtivo, Wark estrutura a oposição central das relações sociais de produção em torno do binómio vectorialista/hacker, que teria substituído capitalistas e trabalhadores a partir do momento em que a informação se torna o eixo principal da relação entre produção e criação de valor. A desmaterialização dos circuitos de valorização do capital — a sua vectorialização — e a concomitante aceleração da abstracção dos produtos que resultam deste processo não corresponde simplesmente a uma actualização dos termos da relação entre as classes antagónicas no esquema marxista clássico, mas a uma alteração determinante no que diz respeito à própria formação de cada uma das classes e à estruturação dos seus interesses.

A abstracção a que Wark se refere não corresponde, no entanto, à mera constatação do carácter digital e informatizado do capitalismo tardio; está, pelo contrário, inscrita numa história longa de evolução dos processos produtivos e de transformação da natureza. Wark: “A história é a produção da abstracção e a abstracção da produção” [009]. Se a abstracção é a expressão da virtualidade da natureza, o hack é a concretização do processo de diferenciação inerente à expressão humana. O hacker que emerge neste mapa mental é, desta forma, também ele anterior à imersão contemporânea na digitalidade e à informatização das relações de produção: é o marcador identitário que unifica a tomada de consciência daqueles e daquelas que vêem a sua poiesis, a diferença que operam no real, cooptada e apropriada. É no momento em que abstracção geral dos processos produtivos atinge um nível que possibilita a geração de excedentes a uma escala inaudita que a classe hacker pode finalmente começar a imaginar a sua fuga do ciclo interminável de apropriação forçada da produção de abstracção. Wark: “Aquilo que diferencia os nossos tempos é o aparecimento da possibilidade de um novo mundo no horizonte, há muito imaginado — um mundo liberto da necessidade” [011]. Se o duplo da abstracção assombra o mundo, fá-lo não como um espectro mas como um fantasma, como inscrição fantasmática entalhada no excedente liberto a cada iteração produtiva. A classe hacker é a formação que emerge da tentativa de organizar o processo de reapropriação da expressão.

A resposta de Wark à intensificação da abstracção da produção engendrada pelo desenvolvimento do vector passa pela “reinvenção cripto-marxista do método materialista para a prática teórica no seio da história” [Escritos 024]. A prática críptica que a autora explora corresponde a uma tentativa de forçar a abertura constante do campo intelectual marxista ao détournement debordiano e assim fugir à recuperação permanente dos adágios imutáveis do velho repertório da doxa marxista, prática litúrgica da esquerda melancólica3 que Wark rejeita liminarmente4.

Evitando o “sujeito passivo” que marca grande parte da teoria crítica contemporânea e aproximando-se da concretização ao estilo do Marx do Manifesto Comunista ou do 18 de Brumário, Wark tenta esquematizar as divisões de classe que balizam as contradições do mundo vectorialista. Aquilo que emerge desta operação é uma teoria da história, implícita nas entrelinhas do Manifesto e que noutros trabalhos posteriores é explicitada e actualizada, herdeira de Deleuze, Guattari e Lyotard, e que, vendo na “política do invólucro, ou da membrana” uma combinação de “impulsos Luditas de esquerda e impulsos racistas e reaccionários de direita” [246, 247], procura acelerar em direção, não à pura negação (inoperante) do capitalismo, mas à libertação da expressão para que esta atinja o limiar de não-representação que lhe permite escapar ao controlo da nova classe dominante5. No esquema de Wark, a classe hacker é aquela capaz de oferecer simultaneamente uma coerência operativa à massa gelatinosa que Hardt e Negri tinham proposto como figura revolucionária na luta anti-imperial — a multidão6 — e escapar à sede aniquiladora do aceleracionismo de Nick Land e da sua máquina de guerra que avança em progressão exponencial em direcção à (auto-)destruição final7.

Se a aceleração da abstracção da expressão, que acompanha pari passu a informatização da existência, é o ponto de partida do domínio vectorialista, que “faz tudo o que está ao seu alcance para reduzir a produtividade à propriedade, a informação à comunicação, a natureza à necessidade” [174], a resposta hacker tem de passar pela recusa da subsunção das primeiras nas segundas: a produtividade livre fora da esfera da privatização, a informação desligada dos circuitos de comunicação codificados, a natureza aberta ao virtual: natureza infinita = real irrepresentável.

As referências que a autora mobiliza no Manifesto, os fantasmas que assombram a feitura do texto — figuras como Burroughs ou Bataille — impõem-nos a sua presença sempre de forma críptica, como linhas de código abertas à modificação ou corpos que se deixam penetrar mas que nunca assumem um forma definida: silhuetas que se vislumbram intermitentemente, obstinadamente descompostas, incorporadas no texto sempre ao arrepio de si mesmas, num processo que mimetiza a própria proposta teórica do Manifesto, apontando o caminho para uma crescente radicalização dos protocolos literários em direcção àquilo a que Wark chama “um comunismo literário”8. Jogando permanentemente, no plano linguístico e político, afirmando a indissociabilidade dos dois, com a aproximação de dois imaginários que parecem operar em níveis distintos — o da expressão corporal, libidinal, e o da expressão desmaterializada e digitalmente mediada — o hacker de Wark é o filho bastardo de Deleuze e Kathy Acker, que sabe que a verdadeira expressão resiste sempre à comunicação, que esta se aproxima mais da contaminação do que do diálogo9. Shaviro com Acker: “toda a articulação simbólica, toda a inscrição de sentido, deixa uma cicatriz na carne”10. Sousa Dias com Deleuze: “é contra as condições do mundo comunicacional que toda a criação se faz”11. À medida que coloniza os mecanismos de transmissão da expressão feita representação, o vector codifica e redirecciona o desejo intrínseco ao acto de criação. É contra a “transformação vectorial do desejo” [279], e “em direcção à liberdade absoluta do puro devir enquanto expressão” [292] que o processo de fundação de uma subjectividade hacker tem lugar. É por essa razão que a classe hacker não corresponde apenas a uma posição objectiva no esquema económico das relações de produção, mas nomeia, fundamentalmente, “a classe que pode expressar os seus desejos, ao invés de os representar (…) a classe que escapa à violência da lei.” [274]. A expressão que existe sempre em potência, capaz de irromper no mundo sem por isso ser passível de ser representada é a promessa renovada de uma fuga ao princípio fundacional do Estado.

É neste ponto que o esquisso do projecto político que Wark constrói ao longo do texto toma a sua forma definitiva. O hacker, capaz de operar o gesto primordial que escapa à política de representação, oferece a Agamben um sujeito político — os primeiros cidadãos da comunidade que vem — capaz de acomodar “os tricksters e vagabundos, ajudantes ou cartoons12 que o filósofo italiano via como exemplos da auto-expropriação concertada de uma identidade reivindicada e posteriormente apropriada pelo Estado. Afastando-se de uma certa linha messiânica13, a resposta materialista de Wark centra-se no estádio actual, vectorial, de desenvolvimento das relações de produção, que criam as condições de possibilidade para o aparecimento de uma classe “que [hackeia] e [suprime] todas as propriedades do sujeito e do objecto” [Escritos 274]: a classe hacker, que não nasce “sem origens nem destinos” (idem), mas que se abstrai constantemente a si mesma, de forma a fazer desaparecer uns e outros, e, na sua pura imanência, desaparecer também ela.


Numa entrevista que marcava o décimo aniversário da publicação do Manifesto, Wark revia a sua proposta nos seguintes termos: “a zona de conflito moveu-se para um nível mais abstracto (…) na altura, podíamos ser datapunks; agora, temos de ser metapunks14. A admissão da autora revela a dificuldade de acompanhar conceptualmente o desenvolvimento tecnológico dos meios que induzem novos tipos de abstracção e que intensificam o domínio vectorialista nas relações sociais de produção que marcam o (pós)capitalismo actual. Apesar de Wark reconhecer não ter antecipado os novos modos de captura de informação que vieram a caracterizar o actual modus operandi da classe vectorial, e que têm na exploração agregada dos metadados dos utilizadores a base do seu negócio15, os pressupostos teóricos que orientam o Manifesto e, fundamentalmente, o projecto ético-político que se desenha nas suas entrelinhas, permanecem actuais. As lógicas que presidiam à sedimentação do mundo vectorial aquando da publicação original do texto continuam em constante aceleração, renovando os debates, hoje ubíquos, em torno da erosão da privacidade na era da digitalização, codificação e mercantilização da experiência humana. Se, como afirma Wark, o conceito de privacidade é fundamentalmente burguês16, e absolutamente inoperante quando confrontado com as actuais assimetrias colossais no que toca à posse e controlo da informação, o pensamento hacker precisa de se munir de um outro arsenal conceptual capaz de gerar atrito na engrenagem vectorial e no projecto político que lhe subjaz. Cultivar produtivamente — abstrair de forma diferente — a opacidade17, o segredo18, ou a não-existência19 servirá talvez para aperfeiçoar a arte das distâncias relativamente à política da representação e ao fetichismo da transparência20 que lhe serve de imperativo, preparando o terreno para a chegada de outros fantasmas, prontos para assombrar este mundo.

Sabe mais sobre a editora e a edição de Um Manifesto Hacker em português aqui.

  1. Para uma análise das raízes sociais e políticas da “ideologia californiana”, ver Fred Turner, From Counterculture to Cyberculture: Stewart Brand, the Whole Earth Network, and the Rise of Digital Utopianism (Chicago: University of Chicago Press, 2008).
  2. Acerca do conceito de hantologia, ver Jacques Derrida, Espectros de Marx (Coimbra: Palimage, 2021). Para uma utilização do termo que se aproxima mais do processo ao qual aqui se alude, ver Mark Fisher, Fantasmas da minha vida: Escritos sobre depressão, hantologia e futuros perdidos (Lisboa: VS, 2021
  3. Ver Enzo Traverso, Left-Wing Melancholia: Marxism, History and Memory (Nova Iorque: Columbia University Press, 2017).
  4. McKenzie Wark, Capital is Dead (Londres: Verso, 2019), p. 29.
  5. Wark reconhece posteriormente que um limite ausente deste binómio negação/aceleração é o substrato espacial no qual se desenrola a oposição temporal que estrutura esta discussão: a instanciação material da explosão vectorial, que além de renovar as oposições clássicas entre detentores e expropriados dos meios de produção, confronta qualquer projecto político com os limites terrenos, antropocénicos, da sua concretização. Ver Wark, Capital is Dead, pp. 124-127.
  6. Ver Michael Hardte e Antonio Negri, Multidão-Guerra e Democracia na Erado Império (Porto: CampodasLetras, 2005).
  7. Para uma apreciação crítica de McKenzie Wark ao trabalho de Nick Land, ver https://www.versobooks.com/blogs/3284-on-nick-land. Para uma discussão alargada do pensamento aceleracionista ver Robin Mackay e Armen Avanessian, ed., #Accelerate: The Accelerationist Reader (Falmouth: Urbanomic, 2014).
  8. Wark, Capital is Dead, p. 13.
  9. Kathy Acker é, aliás, uma figura central do pensamento de McKenzie Wark, cuja influência ressoa em grande parte da sua obra. Ver McKenzie Wark, Philosophy for Spiders: On the Low Theory of Kathy Acker (Durham: Duke University Press, 2021).
  10. Steven Shaviro, Doom Patrols: A Theoretical Fiction about Postmodernism (Londres: Serpent’s Tail, 1997), e-book.
  11. Sousa Dias, Lógica do Acontecimento: introdução à filosofia de Deleuze (Lisboa: Documenta, 2012), p. 153.
  12. Giorgio Agamben, A Comunidade Que Vem (Lisboa: Presença, 1993), p. 17.
  13. Em [Escritos 274] Wark explicita os pontos de sua discordância com a teoria da história de Agamben, fazendo referência ao pendor eminentemente filológico da concepção agambeniana, ecoando algumas das críticas mais repetidas ao trabalho do filósofo italiano. Para uma crítica da teologia política de Agamben no contexto biopolítico actual ver Benjamin Bratton, The Revenge of the Real: Politics for a Post-Pandemic World (Londres: Verso, 2021), caps. 16 e 17.
  14. Entrevista publicada na Los Angeles Review of Books a 17 de Dezembro de 2013. Disponível em https://lareviewofbooks.org/article/courting-vectoralists-interview-mckenzie-wark-10
  15. Ver Shoshana Zuboff, A Era do Capitalismo da Vigilância (Lisboa: Relógio D’Água, 2020).
  16. Wark, Capital is Dead, p. 1.
  17. Ver Édouard Glissant, Poétique de la relation (Paris: Gallimard, 1990).
  18. Ver Clare Birchall, Radical Secrecy: The Ends of Transparency in Datafied America (Minneapolis: University of Minnesota Press, 2021).
  19. Ver Alexander R. Galloway e Eugene Thacker, The Exploit: A Theory of Networks (Minneapolis: University of Minnesota Press, 2007), pp. 135-137.
  20. Ver Bernard E. Harcourt, Exposed: Desire and Disobedience in the Digital Age (Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 2015).

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