Miia Khan: “Mudar o modelo de fazer cultura é importante para a sustentabilidade do setor”

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Fotografia de concerto / Jay Wennington via Unsplash
Jay Wennington via Unsplash

O impacto causado pela pandemia no panorama cultural vai muito além das restrições implementadas desde março de 2020. Se no último ano artistas, produtores e salas de espetáculo responderam rapidamente aos desafios, recorrendo ao mundo digital, hoje o setor olha para o futuro atento à seguinte questão: como é que o público quer fruir da cultura num mundo pós-pandémico? Tenho feito esta pergunta demasiadas vezes, confesso. Como crítica de dança, foram muitos os espetáculos em livestreaming, muitas entrevistas no Zoom, muitos painéis e webinars sobre o futuro da cultura – e demasiada ausência de corpos, de sensações, de experiência. Se os primeiros meses me comoveram pela forma como a comunidade artística se uniu, este ano desencadeou em mim um crescente desconforto. Criar no digital é um caminho, mas não pode nem deve ser o único. É urgente voltar, mas de que forma? O que podemos aprender com o tempo em que tivemos parados?

A minha incessante procura por respostas fez-me encontrar, no outro lado da Europa, um projeto que procura redefinir o modelo de criação e consumo de cultura, dando maior poder de decisão ao público e mais apoio aos agentes culturais. Esta foi a combinação encontrada por Miia e Uzair Khan, enquanto repensavam uma forma mais sustentável de produzir eventos ao vivo. Foi a partir desta motivação que nasceu a Eventual, lançada na Finlândia na primavera deste ano.

Miia Kahn e Uzair Khan / DR
Miia Kahn e Uzair Khan / DR

A plataforma apresenta-se como uma solução além dos circuitos tradicionais de programação de eventos, permitindo que o público tenha a palavra final sobre os espetáculos a que quer assistir nas suas localidades. Com a missão de diversificar e democratizar o setor cultural, a Eventual torna também mais fácil que artistas e organizadores possam criar e produzir os seus eventos, ao proporcionar a convergência na plataforma de comunidade de espectadores, potencialmente interessados – numa otimização do modelo de crowdfunding ao sector da cultura.

Para saber mais sobre de que forma esta plataforma pode impactar o futuro da cultura, decidi conversar com Miia Khan, co-fundadora da Eventual. E se por ventura é um cliché associar o termo democrático aos países nórdicos, a verdade é que desde os primeiros minutos de conversa compreendi que havia uma forma diferente de olhar o contexto cultural, menos focada nos nichos e mais no poder comunitário. Esta é a democratização que a Eventual quer trazer, não só na Finlândia mas um pouco por toda a Europa.

Em Helsínquia estava já a nevar quando fizemos esta entrevista. No entanto, o frio não faz congelar a atividade cultural; do lado de lá, a equipa preparava-se para ir assistir à estreia do primeiro projeto apoiado pela Eventual — uma exposição e filme realizados por uma artista local, que contou com o apoio de mais de cem pessoas para produzir uma nova curta-metragem. Ainda assim, houve tempo para todas as minhas questões, para refletirmos em conjunto sobre o futuro da cultura e para perceber como é que os utilizadores portugueses podem usufruir desta plataforma, que se prepara agora para expansão internacional.

A origem deste projeto cruza-se com a própria história dos seus criadores, que se conheceram num evento ao vivo. “Conheci o Uzair, agora meu marido, em frente ao Club Kaiku, em Helsínquia. Mal fazia ideia de que esse momento ia mudar a minha vida para sempre e culminar na Eventual”, partilha Miia entre risos. Descontentes com a falta de diversidade na programação cultural da capital Finlandesa, o casal decidiu erguer a sua voz em alguns dos espaços culturais da cidade, ou melhor, conceber um plano para que todos se pudessem fazer ouvir: “O público não deve ser uma entidade diferente do setor cultural. Como espectadora e consumidora regular de eventos, sentia muitas vezes que não estava conectada com a programação, numa dualidade entre fazer e não fazer parte. Foi por isso que comecei a sugerir diferentes artistas aos meus espaços culturais favoritos. E então percebi que o público pode e deve ter um maior poder de decisão sobre os espetáculos que quer ver” – explica-nos Miia. A partir daí o caminho até à criação da Eventual foi inevitável, sempre norteado pela missão: mudar o modelo e tornar os espectadores como elementos ativos ao invés de passivos, dando-lhes uma voz numa indústria que tem muitas vezes medo de arriscar. E se esta viragem no papel do público pode pequena e localizada, Miia acredita que a mudança de mindset pode vir a beneficiar todos os agentes envolvidos. Os artistas ganham maior liberdade criativa sem o medo de não conseguirem fundos. Organizadores e salas de espetáculos podem ativar as suas comunidades sem dependerem na totalidade das estruturas tradicionais. E, por fim, o público pode ter na sua localidade uma mais variada oferta cultural.

O modelo da plataforma é bastante simples, tal como nos explica Miia, de forma a ser acessível para todos os entusiastas de eventos culturais: “A Eventual permite que qualquer pessoa – artistas, promotores de eventos ou até o público – possa criar novos eventos e encontrar uma comunidade que apoie a sua produção. O crowdfunding foi o ponto de partida da plataforma. Se uma campanha for bem sucedida e alcançar o seu objetivo, o dinheiro é enviado para o organizador e é aí que são ativadas as outras ferramentas existentes. É então possível encontrar e reservar um espaço para o evento, através do calendário de marcações de salas de espetáculo, e após ser definida a data exata e o local, cada apoiante da campanha recebe o seu bilhete para aceder ao evento. Ao providenciarmos todas estas ferramentas importantes na organização de eventos, permitimos também que a produção seja mais simples e feita num local só, na Eventual”.

Numa altura em que a indústria de artes e entretenimento recupera da crise da Covid-19 e procura novas direções para se reerguer, Miia Khan sente que tem a responsabilidade de partilhar o conceito da Eventual e assim ser capaz de contribuir para um setor mais sustentável e plural.

“Mudar o modelo de fazer cultura, e até de como a audiência se comporta, é importante para a sustentabilidade do setor”

O poder da comunidade, dentro e fora do digital

De acordo com um artigo da ArtsNews, publicado em junho do ano passado, as experiências virtuais deverão influenciar fortemente a forma como consumimos cultura ao longo da próxima década, principalmente no que diz respeito à relação entre artistas e público. Mas num fervilhante universo digital, onde comunidades se unem em torno de interesses comuns e novas vozes encontram o seu lugar, não podemos esquecer o outro lado da moeda. Numa sociedade digital que tem sido marcada por uma polarização de ideologias, é mais importante do que nunca encontrar um equilíbrio e espaços seguros para uma maior pluralidade. Oferecer diversas perspetivas nunca foi tão relevante como hoje. E é aqui que a cultura tem a sua maior missão. A arte traz-nos diferentes perspetivas, conta a história de uma sociedade a partir de diferentes vozes. É uma forma de despolarizar e desencadear importantes conversas sobre a forma como estamos no real e no digital, como individuais ou coletivos.

“O maior objetivo dos eventos ao vivo é conectar pessoas. Vivemos num mundo bastante polarizado. E por isso é tão importante visitarmos as bolhas uns dos outros. Na Eventual, queremos desfazer essas bolhas e criar experiências que unam, não separem. Numa altura em que vemos constantemente discursos de ódio, a cultura dá-nos a possibilidade de termos acesso a novas perspetivas e repensarmos a forma como olhamos o mundo. Ao contactar com a obra e perspetiva de um artista, sou capaz de olhar para as circunstâncias com um olhar diferente. Porém, para termos essas experiências, precisamos de maior diversidade e abertura entre quem decide as vozes a serem ouvidas. Se continuarmos a confiar apenas nos tradicionais gatekeepers, estamos a perder um oceano de novos artistas e novas mensagens. Com a Eventual e a plataforma que estamos a construir, trazemos a diversidade à cultura permitindo que todos tenham uma voz e espaço para se expressarem”.

No passado mês de novembro, a artista pop Zara Larsson passou por Lisboa como oradora da Web Summit para partilhar a sua experiência no metaverso. Através da plataforma de videojogos Roblox, a cantora protagonizou uma festa virtual que permitiu aos seus fãs interagirem com o seu avatar e assistirem a um concerto. Mas à medida que ouvia este testemunho, na minha cabeça não parava de ecoar a questão que tem marcado o último ano: Como queremos usufruir da cultura? Se os mundos virtuais oferecem cada vez mais possibilidades para criadores, serão suficientes para emular a experiência real da cultura? Miia Khan defende que nada será capaz de substituir inteiramente a experiência ao vivo. Para si, a tecnologia deve ser olhada também como um meio e não apenas como um fim, sobre a forma de melhorar as experiências de espetáculos, concertos ou exibições – e é a isso que a Eventual se propõe.

O poder da comunidade passa também pela redefinição das estruturas de poder e de tomada de decisões. No ciclo criativo de um artista, grande parte do tempo passa por candidaturas a fundos, muitas vezes quase impossíveis de adquirir. Num país como Portugal, onde a cultura é a terceira despesa mais baixa no Orçamento de Estado (apresentado em outubro de 2021), torna-se um desafio adicional conquistar financiamento para desenvolver projetos artísticos. Esta é uma problemática que a Eventual procura resolver, embora consciente de que esta mudança não irá acontecer da noite para o dia, e que este conceito tem ainda que ser compreendido e incluído no comportamento dos espectadores: “Mudar o modelo de fazer cultura, e até de como a audiência se comporta, é importante para a sustentabilidade do setor” – defende Miia – “O que acontece muitas vezes é que é demasiado arriscado produzir um evento, pois as pessoas ainda mantêm o hábito em comprar bilhetes muito perto da hora do espetáculo. Isso traz muita instabilidade aos organizadores. Mudar este comportamento e introduzir um modelo como o da Eventual é agora mais importante do que nunca, numa altura em que muitos artistas se sentem frustrados pela falta de apoios públicos à cultura e se sentem incapacitados de continuarem a criar”.

A forma como o público contacta com a cultura está constantemente em mudança. Não podemos tentar encontrar uma só resposta, mas sim várias propostas que acompanhem a evolução social e tecnológica, para chegar a um fim comum: o de continuarmos a querer construir uma sociedade mais justa, diversa e unida. Plataformas como a Eventual procuram seguir esta mesma missão, e convidam a que se pense em novas formas de criar cultura nos dias de hoje. A plataforma está agora disponível globalmente e com o objetivo de continuar a crescer e desenvolver mais ferramentas que tornem a experiência de eventos ao vivo mais rica, quer seja para os artistas, organizadores ou para o público.

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  • Inês Carvalho é licenciada em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e pós-graduada em Dança Contemporânea pela Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE). Em 2014, iniciou no Porto a sua carreira em dança como professora, intérprete, coreógrafa e diretora criativa. No mesmo ano, co-criou o projeto de dançaterapia 'Movimente', em parceria com o Centro Hospitalar de São João, e colaborou como jornalista na revista Move e Porto Canal. Em 2018, mudou-se para Londres, onde concluiu o mestrado em Arts Management pela Middlesex University. Desde então, trabalha como coordenadora de comunicação em projetos culturais na Europa e Estados Unidos, sobretudo no setor da dança. Em 2020, fundou a agência de comunicação diagonal dance. Como jornalista e crítica de dança, colabora regularmente com a revista britânica Dance Art Journal e o mídia português Gerador.

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