Portugal e Marrocos: À distância de um mar que tanto une como separa

Embora possa ser questionada, é inegável a herança histórica e as afinidades que Portugal e Marrocos partilham ao longo dos últimos 70 anos.
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Vista da fortificação portuguesa em Arzila

Em 1978 acontecia o primeiro Festival Cultural de Arzila, em Marrocos, por iniciativa do célebre artista Mohamed Mehli. Numa fotografia que regista o momento, que pude encontrar na exposição Trilogia Marroquí do Museu Rainha Sofia, em Madrid, conta-se um português entre participantes de diversas nacionalidades. Se andava, então, espantado com a quantidade de estórias que marcam as relações entre Portugal e Marrocos, descobrir esta figura cujo rasto se perdeu (pelo que pude averiguar), indicada na legenda como Boca, relembrou-me da importância de documentar e partilhar alguns dos esforços que têm sido feitos no sentido de aprofundar o conhecimento mútuo da história, do património, e do panorama artístico de ambos os países. 

Para isso, há que sublinhar, à entrada, uma permeabilidade no tecido social, que tantas vezes surge abafada num ruído de preconceitos que aqui não cabe alimentar. De facto, os últimos desenvolvimentos das relações históricas e culturais entre Portugal e Marrocos não chegam ainda à generalidade das pessoas. Isto acontece, possivelmente, pela transmissão de notícias dedicadas à migração ilegal, à situação do Sara Ocidental, ou a alterações no circuito do gás natural, que ocupam o pequeno espaço de informação que é consagrado às relações que se mantêm com o Norte de África e particularmente com Marrocos. E sem conhecer os seus antecedentes, é genuinamente difícil acompanhar estas questões, compreender ou ter empatia por fenómenos que vão da guerra da Palestina à dita “Primavera Árabe”. 

Assim, decidi ir falar com o artista Tomás Colaço, o tradutor Hugo Maia, o 1º Conselheiro e a Adida Cultural da Embaixada do Reino de Marrocos em Lisboa e a investigadora Catarina Belo. Tendo, de seguida, partido para Marrocos para realizar esta reportagem, pude ainda encontrar-me com o Embaixador e o Conselheiro da Embaixada de Portugal em Rabat, os responsáveis pela administração marroquina do património em Safim e Mazagão, o professor Luís Graça, em Rabat, e Amine Larache da equipa do LE 18, em Marraquexe, a quem agradeço especialmente, bem como às restantes pessoas e instituições que pude conhecer, entre Marraquexe e Tânger, que contribuíram para expandir o atlas aqui traçado.

Os interessados pela presença árabe e berbere em Portugal recordam certamente sítios como Sintra, Silves ou Mértola, onde se encontram alguns dos vestígios mais significativos dessa ocupação do território que terá durado cerca de 600 anos. Apesar de desprovidos da monumentalidade de construções como a Alhambra, em Granada, ou a Torre da Giralda, em Sevilha, este é um património que reflete um tempo duradouro da nossa história, que nem sempre tem sido tido em consideração, como demonstra a mais recente polémica em volta das escavações na Sé de Lisboa, em que arqueólogos e professores alertaram para a importância de preservar os vestígios islâmicos. 

Letreiro com indicação da Catedral Portuguesa, Safim.

No sentido inverso, a presença portuguesa em Marrocos começa em Ceuta – conquista que marca o início da expansão marítima em 1415 – estendendo-se para oeste e para sul ao longo do litoral. Tânger, Arzila, Mazagão e Safim são algumas das cidades onde as fortificações portuguesas podem ser visitadas, tendo sido incorporadas no espaço urbano. Não são, no entanto, as únicas, uma vez que Agadir, Essaouira, Azamor, Alcácer Ceguer ou Alcácer Quibir se contam entre os pontos estratégicos de um plano da coroa portuguesa, que jamais atingiria o objetivo de tomar Fez ou Marraquexe. Mazagão, abandonada em 1769, é a fortaleza cuja ocupação efetiva se estende por mais tempo. A sua construção constitui um marco na arquitetura renascentista, compondo um sistema defensivo com artilharia integrada que corresponderia à alta tecnologia da época.   

Se é verdade que o património partilhado pertence, de certa forma, a um passado distante, o mesmo não pode ser dito da população árabe e berbere que se manteve em Portugal, misturando-se, aculturando-se e transmitindo tradições que permanecem vivas, das ferramentas agrícolas e sistemas de irrigação ao fabrico de azulejo e à própria língua portugesa, impregnada de nomes e expressões árabes (ver Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa, Adalberto Alves). A situação é semelhante em Marrocos, onde palavras como “castelo” se tornaram parte dos dialetos locais – no caso específico de Safim – e se desenvolvem, hoje, tradições de música e poesia oral associadas ao estilo andalusino, assim como novas cidades sobre o traçado português. Existem, ainda, comunidades marroquinas fixadas em Portugal: comerciantes, professores e estudantes, mesmo se a situação é relativamente difícil para quem quer vir em turísmo à União Europeia, devido ao elevado custo de vida ou à necessidade de um visto.

Vista do Castelo do Mar, Safim.

A atual comunidade portuguesa em Marrocos compõe-se essencialmente por pescadores, empresários, ou por viajantes, que cruzam o Estreito de Gibraltar até esse outro continente, a tão poucas horas de distância, alguns dos quais acabam por permanecer, ou por regressar. O artista Tomás Colaço, com quem pude falar, tem uma história familiar ligada à cidade de Tânger, que vem – diz-me – de Dom Sebastião, algo que como historiador não poderei comprovar. Entre familiares próximos contam-se um Cônsul português em Tânger, um pianista e um pintor, ambos nascidos em Tânger, e ainda duas primas e uma avó que recebiam Tomás todos os anos, quando rumava a Tânger. Conhece, por isso, parte de uma geração de artistas marroquinos que trabalham sobretudo depois da independência, em 1956, ligados à fundação da Cinemateca de Tânger, que atualmente exibe e distribui produções do cinema marroquino e internacional. 

A artista Yto Barrada, com quem dividiu atelier, é uma das pessoas desse meio artístico que melhor descreve Tomás como descendente de uma comunidade de exilados, que habita a cidade desde que esta gozava de um estatuto internacional, entre 1923 e 1956. Na verdade, artistas europeus como Delacroix, Matisse ou Francis Bacon viveram ou passaram temporadas em Tânger, assim como Paul Bowles, William Burroughs, Jack Kerouac e Allen Ginsberg, os pais da beat generation, que talvez procurassem as liberdades que ela oferecia, constituindo-se para eles como um “paraíso sexual”, se tivermos em conta o conservadorismo que dominava a sociedade americana da época. Tratava-se de um destino simultaneamente próximo e exótico, no caso dos europeus. 

A Tânger desse período, que servia como refúgio de acolhimento criativo e libertino, cresceu exponencialmente nos anos 40, 50 e 60 do século passado, transformando-se, com o passar do tempo, numa memória identitária muito procurada e algo decadente nos circuitos do turismo. Muhammad Chukri, escritor que se cruzou em Tânger com Jean Genet ou Paul Bowles – que lhe traduziu o primeiro livro – escrevia uma cidade e um contexto político diferentes, no Marrocos dessa época. Pão Seco, traduzido do árabe por Hugo Maia e publicado recentemente pela Antígona, descreve a fome no Rife (as montanhas a sul de Tânger) e o período conturbado em que os protetorados francês e espanhol, com a colaboração das elites árabes, não eram capazes de responder à escassez de alimentos ou à falta de escolaridade primária da população marroquina. Em conversa comigo, o tradutor sublinha este factor do grupo social em que Chukri nasce como determinante do itinerário que ele percorre e o leva a esta obra autobiográfica, que rompe com as regras de qualquer tradição e com um certo “cuidado formalista”. O livro serve-se do caos, da tragédia e de uma quase obscenidade para contar, de forma límpida e aberta, os desafios da adolescência do autor, vivida no seio da boémia e da instabilidade política, a que assistimos através das cenas que Chukri descreve, mergulhadas na vida social de Tânger.

Capa da edição da Antígona do livro Pão Seco de Muhammad Chukri.

Há, portanto, a Tânger de Muhammad Chukri que, paralela à cidade do comércio livre e dos expatriados, aumenta significativamente a sua área para acolher gente de diferentes geografias e estratos sociais, conciliando línguas, costumes e sistemas de pensamento numa harmoniosa tensão, que será atenuada com a independência, em 1956, e com a integração da cidade no Reino de Marrocos. É de notar a referência, explícita ou implícita, às guerras do Rife e às lutas pela independência, para além da memória da guerra civil espanhola, que Chukri refere na figura do seu pai e dos companheiros com quem ele se reúne, ex-combatentes franquistas em Espanha, falidos e saudosistas das aventuras bélicas na Península Ibérica. 

Do lado português, o regime do Estado Novo favorece durante anos a fuga de opositores, como o arqueólogo responsável pelas escavações em Mértola, Cláudio Torres, que tendo partido de Portugal num navio com a sua mulher grávida, assistiu ao nascimento da primeira filha em Rabat e deixou escrito a nitrato de prata na embaixada portuguesa “À bas Salazar assassin” (abaixo Salazar assassino). Marrocos protegia os movimentos de autodeterminação africanos, providenciando-lhes local de encontro. Apesar das saudáveis relações diplomáticas mantidas com o governo português, parte das crónicas que Ernesto de Sousa – artista cujo centenário se celebra – escreveu para o Jornal de Notícias durante uma viagem ao Magrebe foram censuradas, algo que põe em evidência os problemas decorrentes da guerra colonial, que a perspetiva pacifista do artista contraria, e a perigosa influência magrebina para as causas acesas nos países africanos de língua portuguesa. O 25 de Abril de 1974 tem, por isso, um efeito favorável à dissolução de possíveis adversidades, produzindo a independência das colónias, terá sido bem acolhido em Marrocos.

A verdade é que desde a partida portuguesa de Mazagão, há mais de 200 anos, Portugal e Marrocos não voltaram a interferir diretamente na soberania e no território um do outro. Tem sido possível, ao longo dos últimos anos, chegar a posições conjuntas e prevalece a amizade, como referem os responsáveis pela Embaixada do Reino de Marrocos em Lisboa. Já as relações de Espanha ou França com Marrocos, embora se mantenha a influência das suas línguas no Magrebe, vêm-se de quando em quando perturbadas por “feridas novas que vêm de velhas cicatrizes”, nas palavras do 1º conselheiro da Embaixada. No parlamento marroquino de Rabat, por exemplo, os letreiros estão todos escritos em árabe e amazigh, ainda que o francês seja uma língua usada por parte da administração. 

Vista do Baluarte do Anjo da fortaleza de Mazagão.

Embora possa ser questionada, é inegável a herança histórica e as afinidades que Portugal e Marrocos partilham ao longo dos últimos 70 anos. Em conversa comigo, o Embaixador português em Marrocos, Bernardo Futscher Pereira, reconhece que há um “relativo desconhecimento” que poderá impedir a compreensão da riqueza cultural, humana e material de ambos os países e de aprofundar o potencial dos laços que existem neste momento. Entre as iniciativas culturais das embaixadas portuguesa e marroquina contam-se o intercâmbio de músicos, no contexto do Festival Sete Sóis Sete Luas ou de concertos de Fado em território marroquino, bem como a participação de músicos magrebinos em festivais promovidos pelas câmaras de Sintra e Mafra. Em breve será também partilhada uma série de cinco episódios, com autoria de Frederico Mendes Paula, que abordam a presença portuguesa em Marrocos, uma fonte de informação relevante que se vem juntar, por exemplo, à publicação bilíngue do livro Os Portugueses em Marrocos de António Dias Farinha, apoiada pelo Instituto Camões. 

Quanto à ligação entre os portos de Portimão e Tânger, serão realizados estudos para averiguar a sua viabilidade, uma vez que a vontade de concretizar o projeto foi expressa. Esta poderá ser, no meu entender, mais uma forma de facilitar a circulação entre os dois países, mantendo a segurança exigida pela abertura de uma nova fronteira Schengen.

No que diz respeito ao património de origem portuguesa em Marrocos, o diálogo que tem sido estabelecido nem sempre é favorável a um entre os vários estratos culturais que povoam o litoral magrebino. Das fortalezas deixadas pelos portugueses fez-se cidade, ruína, monumento habitado, nada de essencialmente errado num país com as suas diferentes heranças, uma pobreza pragmática e, sobretudo, legitimidade para decidir como gerir os seus monumentos, muitos dos quais fundados e mantidos pela monarquia, ou no caso dos morabitos, erguidos pela população local em homenagem a antigos santos. Ainda assim, em Safim e Mazagão as construções portuguesas sobressaem, hoje, no traçado urbano e em Tânger ou Arzila o crescimento da zona da casbah soube adaptar-se ao perímetro muralhado edificado.

Estes vestígios alimentam uma memória dissoluta, mas especial, da portugalidade. Talvez a língua seja a maior das barreiras, uma vez que o português não faz parte do ensino básico ou secundário em Marrocos nem o árabe das opções da escolaridade em Portugal. Ainda assim, a investigadora Catarina Belo acredita que existem hoje mais traduções do árabe do que quando começou a interessar-se pelas matérias que estuda, assim como publicações que nos permitem aceder ao conhecimento dessa história partilhada, indo ao encontro do espectro cultural que ela engloba. Isto beneficiará o ensino e a aprendizagem em contexto escolar por parte das novas gerações, a longo prazo, desprendidas também das narrativas parciais e mistificadoras do Estado Novo. 

Algumas construções adaptadas ao traçado da muralha, Tânger.

No período temporal que Catarina Belo, especializada em filosofia islâmica, trabalha, por exemplo, o território português, integrado no Al-Andalus e no mundo islâmico, estava ligado a uma rede de cidades onde a língua franca era o árabe, absorvendo o conhecimento que vinha dos grandes centros religiosos, políticos e intelectuais da idade média, como Bagdade, ao mesmo tempo que patrocinava o trabalho de filósofos, historiadores e viajantes, como Averróis, ibn Khaldun ou ibn Battuta (este último uma espécie de Marco Polo do século XII) que mais do que andalusinos, gozavam de um estatuto e de uma audiência verdadeiramente internacional. Parece-me um excelente exercício que quem passe, hoje, por Santarém recorde que o alcaide da cidade foi um dos mecenas de Averróis, escritor de A Incoêrencia da Incoerência, uma crítica a al-Ghazali que demarca duas das mais influêntes escolas do pensamento islâmico. 

Um outro filósofo medieval, al-Farabi, está agora disponível no catálogo da Fundação Gulbenkian (em livre acesso aqui), fruto do trabalho de tradução e comentário de Catarina Belo, tendo sido também recentemente objeto de trabalho do historiador Rui Tavares. A Cidade Virtuosa é uma obra inaugural da filosofia islâmica, com as raízes bem assentes na tradição filosófica grega e na teologia árabe. O nome do seu autor, al-Farabi, tornou-se na designação para “livro antigo” (alfarrábio) no português atual, algo que documenta a sua circulação – possivelmente em diferentes versões – pelo território nacional. Estas são, portanto, algumas das fontes disponíveis para pensar o período da permanência árabe e berbere na Península Ibérica, às quais se juntam a obra incontornável de António Borges Coelho Portugal na Espanha Árabe ou o trabalho do arabista David Lopes, entre outros. Há, ainda, que notar um certo fascínio pela língua e cultura árabe presente no trabalho de alguns dos artistas contemporâneos portugueses e europeus, que vai de um olhar orientalista ao simples prazer do indecifrável (Hugo Bernardo, João Viotti), passando por um ímpeto de ação artística política e sustentável (Francesca Masoero). 

Quanto aos esforços de investigação associados, não só ao património português em Marrocos, mas também ao ensino da língua, existe hoje na Universidade Mohammed V, em Rabat, uma licenciatura em Estudos Portugueses, a única no Magrebe. Luís Graça, professor colocado num concurso conjunto do Camões e desta Universidade, descreve-me uma situação delicada, uma vez que a língua portuguesa não goza do alcance nem dos apoios que têm a espanhola ou a francesa e as referências culturais dos seus alunos provêm muitas vezes do Egipto, em vez da Europa e dos EUA. De qualquer modo, desta licenciatura, assim como das de estudos árabes oferecidas por universidades portuguesas como a de Lisboa ou Évora, têm saído estudos especializados de qualidade sobre o património e a influência da língua portuguesa em Marrocos. O marroquino Abdoulkacem Chebri, com quem falei, é um dos que tem trabalhado nesta área ao longo dos últimos anos, a partir do modesto instituto de estudos Luso-Portugueses, em Mazagão/El Jadida, contando com bastante material publicado em livro e em jornais, em língua árabe (fala também um pouco de português).

Não necessariamente ligadas às universidades, têm surgido importantes instituições, coletivos e movimentos culturais em Marrocos ao longo dos últimos anos. Sendo o território marroquino extremamente diverso, os projetos que pude conhecer, em desenvolvimento por uma nova geração de artistas, apontam para a consciência de um tempo de maturidade das formas criadas e preservadas desde a independência do seu país, embora outras preocupações sociais persistam. O espaço artístico LE 18, em Marraquexe, ou as edições Kulte, em Rabat,  têm trabalhado o espólio do escritor e cineasta Ahmed Bouanani, cujo trabalho pioneiro procuram valorizar através de sessões de cinema, publicações como La Séptieme Porte: Uma História do Cinema em Marrocos de 1907 a 1986 (2020), ou exposições como a mais recente Todos os países sem lendas estão condenados a morrer de frio (2021). 

Também em Marraquexe se pode visitar o jardim e o museu Majorelle, que contam uma outra história onde, à semelhança de Tânger, os protagonistas são o famoso designer de moda francês Yves Saint Laurent e as duas gerações de artistas da família Majorelle. Existe, ainda, um impressionante museu da música – onde decorrem há anos trabalhos de restauro – e o MACAAL, museu situado num complexo de golfe, entre hotéis de luxo, que se afirma como um local privilegiado para a exibição de arte africana. Na altura em que o Amine Larache, da equipa do LE 18, me convidou para jantar, soube-se que o projeto irá integrar um painel de discussão na próxima edição da Documenta de Kassel, algo que comprova o alcance das suas propostas, mesmo que elas respondam tantas vezes às exigências do ecossistema e da comunidade local. 

“Tal como Ernesto de Sousa ou o poeta Luís Miguel Nava – que morreria em Bruxelas num crime levado a cabo por um amante marroquino – encontraram em Marrocos alguns dos lugares da sua imaginação, não faz menos sentido partir hoje. Os lugares estão lá, alguns guardam marcas de uma presença portuguesa muito antiga, outros perpetuam costumes nunca verdadeiramente abarcados pelo jugo ocidental, permanecendo como que à nossa espera nesse outro continente tão próximo.”

Em Essaouira, a poucos quilómetros de distância, acontece anualmente um festival de música Gnawa, que atrai todo o tipo de fiéis e curiosos. Mais a norte, em Casablanca, situam-se as principais editoras discográficas, cujos catálogos se têm renovado, embora muitos deles estejam, também, em risco de desaparecer (pelo menos as edições físicas), como aconteceu recentemente com a loja histórica Disques Gam, após a morte do proprietário. Antes disso, porém, o coletivo belga Rádio Martiko reeditou três discos do compositor e teclista Abdou El Omari, que terá ganho a vida a tocar nos hóteis de Casablanca – talvez para portugueses? – e a trabalhar como cabeleireiro. A sua música está, hoje, disponível para ser escutada e poderá despertar o interesse pelo vasto panorama musical de Marrocos. 

Do Instituto Nacional de Belas Artes, em Tetuão – a única faculdade de Belas Artes oficialmente reconhecida – saem a maior parte dos artistas marroquinos graduados. Nas proximidades, em Tânger, para além das instituições e agentes do circuito internacional, contam-se projetos emergentes como o centro de serigrafia Think Tangier, o espaço de exposição Mahal, ou a já referida Cinemateca de Tânger, onde pude assistir à longa-metragem Le Miracle du Saint Inconnu de Alaa Eddine Aljem, realizador marroquino que reflete, ele próprio, sobre a história recente do seu país, através de um estilo sóbrio e elaborado.

E para completar a descrição de alguns dos caminhos que mais me interessaram no atual meio artístico magrebino, sem intenção de ser exaustivo, não poderia deixar de referir a riqueza da cidade de Fez, onde se preservam técnicas ancestrais de trabalhar as peles para o vestuário – que acaba nas coleções das grandes marcas europeias e, depois, em lojas vintage e de segunda mão – ou as tapeçarias, a madeira, a cerâmica (que também encontrei em Safim), e o azulejo. Deste modo, torna-se notória a vocação da cidade, que espelha de certa forma o país, para criar pontes entre o tradicional e o contemporâneo. 

Para lá destes centros urbanos, existem ainda circuitos ligados ao surf, aos pontos de encontro anuais das caravanas ou ao deserto, que desta vez não pude visitar. Ao regressar penso como todos estes coletivos, jovens e alternativos, trazem com eles as sementes do futuro, através da reescrita da história do seu país e de uma procura íntima por novas narrativas. Tal como Ernesto de Sousa ou o poeta Luís Miguel Nava – que morreria em Bruxelas num crime levado a cabo por um amante marroquino – encontraram em Marrocos alguns dos lugares da sua imaginação, não faz menos sentido partir hoje. Os lugares estão lá, alguns guardam marcas de uma presença portuguesa muito antiga, outros perpetuam costumes nunca verdadeiramente abarcados pelo jugo ocidental, permanecendo como que à nossa espera nesse outro continente tão próximo.

Também em Portugal devíamos fazer por receber de uma forma mais continuada a cultura deste país vizinho, aproximando-o do nosso naquilo que ele tem de mais significativo: as suas pessoas, para que ao final do dia, a matéria de estórias pela qual se pauta esta relação, que procurei esboçar, não acabe. Certo é que, também por cá, se perdeu o rasto dos autores de inscrições como a divisa dos reis de Granada و لا غالب إلا الله, «E não há vencedor senão Deus», que se encontram na Quinta do Relógio, em Sintra, ou na Casa do Alentejo, em Lisboa. 

Deixo-vos, então, aqui todos estes fragmentos do trabalho de jornalista: texto, livros, discos, filmes e imagens, objetos devolvidos dos seus nichos a uma ponte que luto por suster sobre um mar que tanto une como separa. E se estas mãos falharem, que bebam ox investigadorxs, ou os curiosos, da amálgama intentada com a mesma avidez com que a busquei nas suas fontes. 

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  • Licenciado em História pela FLUL, passei pelo Kings College de Londres e estudo, atualmente, na pós-graduação Artes da Escrita da FCSH. Tenho publicado crítica, assim como poesia (Fazedores de Letras e Apócrifa – PLEC). Faço parte da banda Paradoxo e do coletivo multidisciplinar La Maga.

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