Será que Zuckerberg já ouviu falar em Platão?

Mark Zuckerberg fez um discurso sobre liberdade de expressão (foto via Facebook/DR)

Será que Zuckerberg já ouviu falar em Platão?

Mark Zuckerberg acredita que o Facebook não deve fazer fact-checking a anúncios políticos. Talvez ainda não tenha ouvido falar em Platão e na famosa alegoria da caverna.

Talvez Zuckerberg ainda não tenha ouvido falar em Platão e na famosa alegoria da caverna. No escuro, agrilhoados, vivem aqueles que acreditam que as sombras são o mundo real, não sabendo – e não podendo saber – de um mundo lá fora cujos reflexos vão vendo na parede.

Mark Zuckerberg acredita que o Facebook não deve fazer fact-checking a anúncios políticos. Diz que não compete à sua plataforma verificar a credibilidade dos mesmos. “Numa democracia as pessoas é que devem decidir o que é credível, não as empresas tecnológicas”, sugeriu durante um discurso na Universidade de Georgetown, aludindo ao princípio da liberdade de expressão – e esquecendo, aparentemente, todas as polémicas que marcaram a história recente da sua plataforma em matéria de interferência eleitoral.

Como pode alguém decidir o que é credível quando recebe propaganda política baseada no seu perfil, nas suas amizades e nos seus gostos? Tem realmente as ferramentas para o fazer? Podemos achar que isto não é um problema, com tudo o que se sabe sobre viéses cognitivos (ver, por exemplo, viés de confirmação), efeitos da bolha e as consequências do micro-targeting (capacidade de dirigir publicações a alvos escolhidos detalhadamente, graças a dezenas de características pessoais, e de dirigir publicações diferentes a públicos diferentes, alterando a mensagem consoante a resposta prevista)? Zuckerberg parece ignorar todo este poder nocivo das complexas tecnologias de publicidade que criou e, mais do que isso, fá-lo com um argumento demagógico, jogando a cartada da censura e da liberdade de expressão.

Não, não é uma questão de “censura”. Até porque o Facebook já remove conteúdos da sua plataforma, e não há queixas quanto a muitos deles. Impedir a propagação de discurso de ódio, de pornografia infantil, de vídeos de suicídios ou de massacres não é um problema. Em sociedade, existem regras para o que se pode dizer, e para as consequências de dizê-lo. O Facebook até pode argumentar que não é ele a “dizer”, mas certamente não é neutro quanto às consequências daquilo que é dito. Publicar um post no Facebook não é o mesmo que gritar na praça central, por muito grande que seja a multidão a assistir. Especialmente se, para além de publicar esse post, este puder ser promovido com largas somas de dinheiro e a sua audiência puder ser determinada, como antes referido, ao mais ínfimo detalhe.

Foto de Facebook/DR

O Facebook quer ditar regras para a liberdade de expressão, e quer fazê-lo de forma global, ignorando as histórias e os contextos das várias sociedades, em prol de uma rede social que aos poucos se vai tornando, pura e simplesmente, numa das maiores e mais lucrativas plataformas de publicidade do mundo. De repente, a soberania que os Estados tanto prezam deixa de incluir controlo sobre as regras de liberdade de expressão. Isto às vezes pode dar jeito, mas nem por isso o justifica – citemos o povo quando fala nas excepções que confirmam as regras.

O poder de plataformas globais poderia ser interessante para garantir a circulação de informações indesejadas por Estados opressivos, mas essa possibilidade não deveria ser carta verde para a desregulação completa. E a informação que temos mostra que é mais fácil esses estados usarem as redes para oprimir do que os cidadãos para se libertar. A sociedade alemã tem, por razões históricas, sensibilidades diferentes quanto à liberdade de expressão relativamente aos EUA. E o Facebook não tem a legitimidade de o alterar.

Vivemos num mundo onde a informação está disponível, mas onde somos guiados para a informação por aqueles que detêm os canais onde ela é apresentada e onde os utilizadores mais navegam. Google, Facebook (que detém Instagram e WhatsApp), Amazon e outros decidem tacitamente o que lemos, o que compramos, ou que sites usamos para “verificar” se determinada informação é credível. São eles que o fazem para quase todo o mundo, ignorando voluntariamente quaisquer sensibilidades culturais.

Em analogia, poderíamos comparar estas ferramentas a um placard de cortiça à entrada da escola, onde quem afixa os panfletos tem inteira responsabilidade sobre eles. Mas o determinante destas plataformas é a forma como reorganizam determinados panfletos e amplificam o seu alcance, aumentando a letra de uns e escondendo outros ao canto.

Foto de Facebook/DR

Por ironia do destino, o live-stream do discurso de Zuckerberg no Facebook mostrou sobretudo comentários positivos, apesar de também terem sido feitos comentários negativos. A explicação dada pela rede social foi que, quando os eventos recebem demasiados comentários, há um algoritmo desta rede social que vai mostrando apenas os mais relevantes consoante umas ponderações que, é claro, não são públicas. Liberdade de expressão, não era? Mas sujeita a um filtro invisível de relevância definido por critérios que nunca vamos conhecer.

Zuckerberg faz dinheiro à custa da exploração das nossas emoções e da nossa estrutura de cognição. Faz dinheiro ao garantir que quem tem dinheiro encontra na sua plataforma o canal perfeito para fazer chegar uma mensagem, seja ela qual for, à audiência que estrategicamente definiu. E fá-lo independentemente de estar em causa a venda de bugiganga ou a viabilidade de uma democracia. Lamentável.

(Nota: texto escrito em colaboração com João Gabriel Ribeiro.)

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  • Jorge Félix Cardoso

    Estudante perpétuo, atualmente a completar o curso de Medicina na U.Porto e o mestrado em Filosofia Política na U.Minho. Apaixonado por perguntas e desconfiado das respostas. Ávido leitor, criador das newsletters "Qu'ouves de Bruxelas" e "Ementa do Jorge". Investigador do AI4Health, CINTESIS. Co-fundador do FÓRUM Diplomacia da Saúde. No Twitter em @jfelixcardoso.

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