A sala de cinema ainda está escura quando as primeiras palavras começam a ser digitadas num ecrã com a luminosidade no mínimo. Escreve, apaga, volta a escrever. “Demasiado parado, só os deuses do cinema sabem como não adormeci”. Duas estrelas. À porta da sala n.º5, com o cartaz luminoso como cenário, a review é carregada no Letterbox. A lista de filmes vistos é longa, quase todos acompanhados por crítica e pontuação; a lista de filmes por ver ainda é maior. O autor da crítica não é propriamente o único a identificar-se como cinéfilo no seu grupo de amigos. Todos fazem críticas no Letterbox, como já faziam no Goodreads. A lista a aumentar é um sinal de estatuto — e quanto mais recôndita for a origem dos filmes ou dos livros, melhor.
Ao longo dos últimos anos, ter uma conta no Letterbox tornou-se sinónimo de coolness. Entre as críticas mais curtas e humorísticas e as mais complexas que denotam um pensamento cruzado entre diversas obras de arte, não faltam opiniões sobre os filmes recentemente estreados e aqueles clássicos que antes só se viam na escola de cinema ou na Cinemateca. E se no início só os verdadeiros aficionados do cinema lá estavam, o Letterbox foi crescendo e ganhou uma popularidade que extrapola a crítica de cinema per se. Até Charli XCX começou a andar mais ativamente por lá quando o fenómeno brat acalmou (talvez a antecipar a sua estreia no cinema?). Plataformas como o Letterbox e o Goodreads podem ser úteis para guardar listas de filmes e descobrir sugestões que não nos chegariam de outra forma, mas o imediatismo a que convidam, que passa tanto pela escrita rápida de uma crítica como pela sua partilha nas redes sociais, foi associando a experiência de ver um filme ou de ler um livro à avaliação da obra como um produto.
Ver filmes, ler livros, ouvir músicos antes de se tornarem virais tornou-se cool. Mais do que isso, tornou-se desejável e cada vez mais fácil mostrar aos outros. Num momento em que já todos estamos conscientes dos perigos de ter um tempo de ecrã demasiado alto, dos entorpecimento que o scroll infinito nos traz e em que palavras como “brainrot” e “doomscroll” se tornaram banais, é o conteúdo que estimula o pensamento que parece valer cada vez mais. O impulso de publicar nas redes sociais o que se lê, o que se vê e se ouve, e o que se acha de tudo isso, tem sido crescente. E há quem já tenha atingido o estatuto de influencer a publicar este tipo de conteúdo. Não é só uma trend, é um movimento cultural que terá começado no início desta década como resposta a novos formatos de conteúdos e à constatação de que as redes sociais já estavam a ter um impacto negativo nas nossas vidas. Agora tem um nome: ao que parece, vivemos na era dos influencers intelectuais.
Da Dark Academia a White Lotus — a construção de uma era
Se antes da pandemia o formato de vídeo estava reservado a danças e hauls do TikTok, vlogs e conteúdos informativos no YouTube, e alguns stories de media mainstream, o confinamento levou a nossa existência social para o mundo digital. Os diretos do Instagram trouxeram muitas pessoas para a frente da câmara — inclusive muitos profissionais de diferentes áreas, que começaram a criar conteúdos para tornar a informação mais acessível. A internet encheu-se de conteúdo informativo sem a mediação dos órgãos de comunicação social: eram os próprios profissionais a fazer os seus vídeos, a definir sobre o que falavam, a decidir quando publicar. O mesmo aconteceu com membros de movimentos sociais, académicos, artistas. Tornou-se banal vermos as estantes, as casas ou os assentos dos automóveis uns dos outros. Este movimento surgiu como algo genuíno (e certamente permitiu que muitas vozes diferentes começassem a ganhar espaço), mas com ele também surgiu uma espécie de ditadura da presença nas redes sociais: para existir e ter mais oportunidades, era preciso estar nas redes sociais. Ao mesmo tempo, os cidadãos, de uma forma geral, iam perdendo cada vez a relação de confiança com os media tradicionais e procuravam informar-se pelo mesmo meio.
Enquanto profissionais das mais diversas áreas se lançavam em vídeos de curto formato durante o confinamento, o próprio TikTok começou a transformar-se num espaço mais plural com pessoas comuns a partilharem os seus hobbies e interesses. Foi assim que o movimento BookTok explodiu: pessoas que gostavam de ler (e tinham muito tempo para ler porque não podiam sair de casa), iam partilhando as suas leituras e opiniões. Os números de vendas de livros aumentaram e as próprias editoras começaram a enviar as novidades do seu catálogo aos principais booktokers, incentivando à criação deste tipo de conteúdo. E cumprindo o sonho de qualquer amante de livros: não ter de os comprar e poder lê-los antes sequer de estar nas livrarias (uma exclusividade essencial à aspiração).
Foi com o BookTok que começaram a surgir trends que serviam de inspiração à criação de vídeos com recomendações de leitura dentro de determinados géneros. Um dos maiores, se não o mais bem sucedido exemplo, foi Dark Academia, uma estética gótico-sombria que tem a universidade como pano de fundo, e que fez ressuscitar o livro A História Secreta da escritora norte-americana Donna Tartt. O livro de Tartt, originalmente publicado nos anos 90 e com perto de 700 páginas na edição portuguesa, representa o ciclo perfeito deste tipo de tendência. Não só tem uma imagem apelativa e uma lombada grossa, mas também a sua história nos remete para um universo próximo daquele a que se aspira online. A obra acompanha um grupo de colegas universitários com uma intelectualidade distinta no seu campus: sabem falar grego e outras tantas línguas, leram todos os clássicos da literatura, têm uma relação peculiar com rituais dionisíacos e são (quase) todos herdeiros de famílias com old money. Vestem-se com fatos, usam gabardinas e óculos. Os seus valores são moralmente questionáveis. Não são como os demais.
Se as vendas do livro A História Secreta subiram, não foi porque um vídeo que o recomendava ficou viral, mas porque muitas pessoas o recomendaram associando-o a essa estética. Apresentar-se como alguém que lê muito passou a ser um traço de identidade valorizado no digital, e mais e mais trends relacionadas com livros foram surgindo no TikTok — também aconteceu com a “analogia da figueira”, uma referência da Campânula de Vidro da Sylvia Plath. Como explica a investigadora Elisha Wise neste texto que publicámos no Shifter, o TikTok tirou a analogia de contexto e o verdadeiro significado da obra perdeu-se. Não é que o problema seja levar a literatura para o TikTok e viralizar livros; a grande questão é como evitar cair nas mesmas lógicas algorítmicas e de mercado a que estão condenadas todas as tendências nas redes sociais.
No célebre ensaio “Against Interpretation”, publicado nos anos 60, Susan Sontag defendia que o excesso de interpretação estava a estragar a experiência da obra de arte:
“Numa altura em que o já clássico dilema consiste na hipertrofia do intelecto à custa da energia e das capacidades sensoriais, a interpretação representa a vingança do intelecto contra a obra de arte.”
Para Sontag, interpretar era sinónimo de empobrecer porque “a interpretação faz da arte uma coisa dócil e obediente”. A análise foi feita a pensar nos críticos literários que tanto esmifraram as obras de Kafka e Beckett, mas podia aplicar-se aos nossos tempos e às críticas em barda que todos os dias surgem no Goodreads, no Letterbox ou num TikTok. Quantas vezes nos cruzamos primeiro com as reações a um objeto artístico antes de termos contactado com o original? Com quantas interpretações e versões fragmentadas de um objeto artístico já nos teremos cruzado? E quantas vezes tudo o sabemos sobre algo se deve a reações de terceiros e não a uma experiência na primeira pessoa?
O design das plataformas e os meios onde se debatem objetos artísticos promovem uma relação que privilegia quantidade e performance. Ler muitos livros torna-nos grandes leitores e mostrar o que lemos passa uma mensagem sobre nós aos nossos seguidores. Em 2021, ainda em tempo de pandemia, estreava uma série que se apresentava como uma sátira social aos tempos que vivemos e que conseguiu espelhar estas dinâmicas: White Lotus. Logo no primeiro episódio conhecemos uma família que viaja com os filhos e uma amiga da filha para o resort onde se passa toda a trama. Tanto a filha Olivia (Sydney Sweeney) como a amiga Paula (Brittany O’Grady) estão desde o primeiro momento acompanhadas pelos seus livros, mas é numa cena em que lêem junto à piscina que a tensão entre intelectualidade e performance se escancara: Shane (Jake Lacy), outro hóspede do hotel, tenta flirtar com elas e pergunta-lhes “Vocês estão mesmo a ler esses livros?”
Shane é aquilo que popularmente se chamaria na gíria de macho tóxico (não um macho performativo, um gym bro), mas a pergunta genuína que faz a Olivia e Paula deixa-as desconfortáveis. Mais: deixa o próprio espectador a questionar se não passará tudo de uma performance. Não é que fosse impossível lerem Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud, Frantz Fanon, Judith Butler, Camille Paglia, Aimé Césaire e Jacques Lacan numas férias tranquilas num resort no Hawaii. Aliás, a dado momento Paula diz aos pais de Olivia que está a fazer uma tese sobre “colonialismo”, o que justifica uma grande parte das suas opções literárias para as férias. Mas os livros que carregam dizem-nos mais qualquer coisa sobre o que são ou, pelo menos, o que querem parecer ser. E leituras decoloniais num resort de cinco estrelas no Hawaii são, no minímo, irónicas.
Ler tantos livros de filosofia e psicologia seguidos parece um feito e tanto. Mas terão Olivia e Paula feito leituras aprofundadas ou skimming? A escolha de Nietzsche é particularmente curiosa porque nos transporta para outras referências do cinema e da televisão que surgem a ler o filósofo alemão em situações semelhantes, como Josh em Clueless ou Tony em Skins (que antes disso, logo no primeiro episódio, está sentado na sanita a ler Sartre). Ler determinados autores e carregar o livro consigo sempre teve quê de performativo, essa parte não é novidade. (Quem nunca?!) A diferença para os tempos que vivemos é que a densidade destas referências é comprimida para caber em formatos rápidos e digeríveis, em listas que nos dizem o que devemos ler se quisermos ser pessoas interessantes — ignorando o atrito que existe na leitura de obras que não são, nem é suposto serem, fáceis. E, muitas vezes, o próprio contexto das obras.

Mark Fisher disse-o melhor do que qualquer outra pessoa em Realismo Capitalista, ao refletir sobre o contexto universitário:
“Há alunos que querem ler Nietzsche da mesma forma que querem um hamburguer; não conseguem compreender — e a lógica do sistema de consumo incentiva esse inequívoco — que a indigestibilidade, a dificuldade, é ela mesma Nietzsche.”
Mark Fisher referia-se a uma dificuldade na leitura de autores canónicos que resultava num afastamento por aborrecimento. Mas dez anos depois podemos pensar nas suas palavras à luz das redes sociais, do boom da crítica-cidadã e da intelectualidade como estética de TikTok — com vídeos a sair todos os dias com uma nova reflexão sobre um livro que se leu em tempo record. O problema não está em cada vez mais pessoas quererem ler Nietzsche. Está na forma como o capitalismo tardio nos incentiva a um consumo rápido e, sobretudo, a reações instantâneas, orientadas para o público e condicionadas por o que é suposto sentirmos sobre o que acabámos de ler ou ver. Ai de quem for ver o Hamnet ao cinema e não soltar uma lágrima.
Será que toda a gente pode ter uma opinião sobre todos os livros que lê? Claro que sim. E será que toda a gente deve partilhar todas essas opiniões na internet? Se calhar não. Há coisas que não precisam de sair imediatamente das notas do telemóvel, e que só crescem se lhes dermos espaço dentro de nós.
Como ser uma pessoa interessante: um guia em 7 passos
Ler dois livros ao mesmo tempo, um de ficção e outro de não ficção. Ver pelo menos um filme por semana (o ideal é ser cinema internacional). Ouvir música clássica. Começar a aprender uma nova língua. Ler ensaios pessoais no Substack. Ter novos hobbies. Aprender sobre movimentos sociais e artísticos. Esta é a fórmula perfeita se te quiseres tornar uma pessoa imaculadamente interessante — pelo menos segundo o TikTok. Ao longo dos últimos meses começou a surgir uma nova vaga de conteúdos que prometem ter a solução para quem quer começar a ter uma vida mais culta e não sabe muito bem por onde começar. Criadores de conteúdo com meia dúzia de vídeos publicados, de quem nunca lemos uma palavra, que subitamente nos vêm ensinar como evitar o brainrot.
Com uma ou outra pequena diferença, sugerem uma check list que inclua as atividades acima citadas. As recomendações que fazem não surgem num contexto mediático que lhes confira qualquer autoridade para nos ensinarem o que quer que seja; eles próprios são as recomendações algorítmicas. Numa altura em que as pessoas estão cansadas de conteúdo sem significado e que entorpece — e num momento de recessão em que as excentricidades de muitas influencers caem mal — , estamos a assistir a um momento de viragem que tem vindo a ser construído ao longo dos últimos anos, mas que agora tem o seu apogeu. Mas até que ponto esta viragem será realmente redentora?
A espontaneidade de uma partilha à mesa com amigos, com espaço para a discórdia, foi-se transformando na partilha individual de opiniões. É como se toda a gente estivesse a falar sozinha e ninguém estivesse realmente a ouvir. A fruição torna-se consumo, e a dimensão relacional com a arte e a cultura torna-se prescritiva. Se queres ser uma pessoa interessante, tens de ler muitos livros. Se queres entrar no universo Dark Academia, tens mesmo de ler Donna Tartt. Se queres ser intelectual, tens de ver pelo menos um filme por semana. No entanto, ao contrário das prescrições médicas para problemas concretos, com características químicas que terão uma reação mais ou menos previsível no nosso corpo, os objetos artísticos vivem muito da sua experiência afetiva: do que sentimos quando nos encontramos com eles, da forma como chegam até nós, do que vai reverberando no tempo. Nem sempre há palavras que cheguem para descrevermos como nos fizeram sentir; nem sempre chegam à velocidade a que vivemos hoje; e nem todos temos de sentir o mesmo.
Ainda em “Against Interpretation”, Susan Sontag defende que “nos dias de hoje” — leia-se nos anos 60 — “o que é importante é recuperarmos os sentidos”. “Temos de aprender a ver mais, a ouvir mais, a sentir mais”. Não em quantidade, mas em qualidade. Façamos um breve exercício, enquanto espectadores: quando é que foi a última vez que vimos um filme ou lemos um livro porque tropeçámos nele e sentimos o apelo, e não por via de uma recomendação na internet? Como é que nos relacionámos com ele antes, durante e depois da visualização ou leitura?
Se plataformas como o Letterbox e o Goodreads podem ser úteis para categorizar os filmes que já vimos e os que ainda queremos ver, reduzi-los a repositórios quantitativos não é útil nem para leitores, nem para autores. Pode o valor da obra literária de um escritor medir-se pela quantidade de reviews positivas de um livro no Goodreads? Não, mas sabemos que essa pressão existe inclusive por parte das editoras. E pode um filme ser tão mau quanto as suas críticas com uma estrela no Letterbox? Também não. Até porque no universo das sensações, as coisas não se resumem a bom e mau, preto ou branco. E a História já nos ensinou que nem sempre o que é mais popular num momento histórico é o que tem mais valor e capacidade de resistir ao tempo.
Na linha do Letterbox e do Goodreads, surgiu mais recentemente uma plataforma que prometia ser o futuro das pessoas que escrevem textos ensaísticos e gostavam de ter uma newsletter: o Substack. A premissa mais forte que oferece é a de que cada autor é livre para escrever e publicar o que e quando lhe apetece, sem os guardiões dos media mainstream a decidir quem pode ou não entrar no clube dos eleitos. O que esconde desde o princípio é que é mais uma rede social que funciona, como todas as outras. À primeira vista, o Substack pode assemelhar-se ao velho tempo da blogosfera onde essa liberdade existia, a diferença é que o Substack pede outro branding pessoal, envia e-mails não solicitados aos leitores e funciona por recomendações algorítmicas… como todas as outras redes sociais.
Há uns tempos circulou pelas redes sociais um texto publicado curiosamente no Substack que tinha um título sugestivo (e que, aliás, tem sido usado em diversos contextos): “Everyone wants to be a DJ, no one wants to dance”. Embora sejam sintomas do mesmo problema, o ponto neste texto não é mostrar como subitamente toda a gente se tornou DJ — sobre isso escrevi outro texto que sairá em breve na Revista MIL —, mas mostrar como isto se aplica às dinâmicas atuais das redes sociais. O argumento da artista Dani Offline, autora do artigo, é que a ideia de ser artista tem uma aura facilmente desejável e que com a democratização no acesso aos meios para fazer trabalho artístico se tornou mais acessível. E se por um lado isso é ótimo, porque tira barreiras à entrada de uma prática, por outro faz com que o lifestyle do artista se torne em mais uma forma de empreendedorismo pessoal. “À medida que a criação se confunde com o empreendedorismo, fazer arte torna-se uma experiência, um estilo de vida, para ser comprado e vendido.”
Nas redes sociais, o fenómeno é o mesmo: toda a gente quer ser produtor de conteúdos e ninguém quer ser recetor. Mesmo as propostas de conteúdos que têm um embrulho “intelectual” fazem parte de uma cadeia que está para lá do controlo dos próprios criadores, que não podem fazer muito mais do que tentar seguir algumas métricas que acham que podem resultar para serem beneficiados pelos algoritmos. Fazer conteúdos com recomendações culturais várias vezes por semana faz-nos entrar num loop de consumo acrítico e condicionado pela rapidez com que o vamos digerir — vê-se um filme e lê-se um livro já a pensar na criação de conteúdo, como quem vai a um restaurante e tem de fotografar a comida para publicar nos stories porque é essa a combinação. Não é muito diferente de um influencer que recomenda os restaurantes mais genuínos e secretos, que acabam por ser referenciados por tantas outras pessoas em vídeos do mesmo estilo, que rapidamente o deixam de ser.
Vai-se gerando uma espécie de loop auto-confirmatório: ficamos com a sensação de que estamos a descobrir e a apresentar coisas novas, mas na verdade estamos todos a descobrir as mesmas coisas. Não é sobre estar “do lado certo do algoritmo”; é sobre estar constantemente a ser recordado de que há um lado certo para estar, um filme certo para ver, o livro certo para ler. As recomendações são tão mais fortes quanto mais se repetirem… e, ao contrário do que possa parecer, tudo isto nos torna defensivos em relação à novidade. Há um certo conforto na auto-confirmação e um condicionamento inevitável pelo que é visualmente mais apelativo (muitas vezes sobrepondo a estética ao conteúdo) e adaptado aos algoritmos e aos seus sistemas de recomendação e moderação.
Não é por acaso que em muitos destes vídeos os criadores de conteúdos surgem com um caderno na mão. Afinal, os intelectuais ainda escrevem em papel e usam óculos. Pelo menos, é a ideia que temos sobre como se parecem. E como mostra o hype em torno dos óculos da Miu Miu que, até há uns anos, provavelmente seriam catalogados de uncool, assim como o clube literário da marca, esta tendência “intelectual” já está a ser capitalizada. Toda a estética intelectual liga-se a uma tendência maior: o apelo à nostalgia do tempo em que tudo era melhor e a vida era vivida com outra intensidade. Como mostrou este artigo do Expresso publicado recentemente, a Gen Z está à procura de uma vida mais analógica — e a fazer TikToks com dicas sobre como o fazer. Visitar photobooths, fazer journaling, arranjar um hobbie, ler livros e revistas em papel são alguns dos pontos das listas. Mas será isto um vislumbre do futuro ou apenas um fantasma do passado a assombrar-nos?
Vários estudos têm mostrado que os jovens estão cansados dos formatos de media tradicionais. Cansados de comentadores tudólogos, do excesso de notícias, da falta de pluralidade. Se tudo isso tem um ponto — de facto, as direções dos media mainstream estão envelhecidas e raramente estão realmente comprometidas com as novas gerações, os canais de televisão têm comentadores que falam sobre assuntos que não dominam e sem tempo para refletir, centenas de notícias são publicadas todos os dias —, é preciso refletir sobre a mimetização destes problemas nos canais que nos são apresentados como alternativos.
Nos primórdios das redes sociais, houve uma utilidade na organização e mobilização de movimentos sociais que nos fez acreditar que o mundo mediático se estava a tornar, de facto, mais democrático. Pessoas que nunca seriam citadas pelos principais jornais e canais de televisão, tiveram pela primeira vez um espaço para contar as suas histórias e fazerem-se ouvir. Mas entretanto passaram mais de quinze anos, a arquitetura e a dinâmica das redes sociais mudou para se tornar numa espécie de centro comercial aberto 24 horas por dia e ficou a promessa e a ilusão de democratização e pluralidade. Hoje em dia é tão fácil encontrar tudólogos nos painéis de comentários das televisões como é nos feeds das redes sociais.
Mea culpa (ou como este texto podia ser um TikTok)
Estaria a mentir se dissesse que nunca senti uma ponta de injustiça por ver pessoas que produzem conteúdo “informativo” para as redes sociais a terem possibilidades de financiamento que eu nunca terei. Sabem o que é que difere um jornalista que publique um vídeo informativo de um influencer que faça o mesmo? O escrutínio, a responsabilidade e o dinheiro na conta ao final do mês.
Aproveitando a era dos influencers intelectuais e um aparente interesse por conteúdos com outra profundidade, eu própria comecei a fazer conteúdos para o TikTok. Algo que seria impensável até há cerca de um mês, quando publicámos esta entrevista com Sarah Stein Lubrano, autora do livro Don’t Talk About Politics: How to Change 21st Century Minds. A dado momento, a autora partilha que acredita que os vídeos curtos podem ser uma forma de trazer as pessoas para um espaço comum fora da internet e que podem ser uma ferramenta útil porque “vivemos num mundo solitário e ver 90 segundos de um vídeo de alguém que acredita numa causa, e ainda está empenhado, pode ser motivador”.
Foi ao lê-la e refletir sobre a possibilidade de um outro lado nas redes sociais e em conteúdos que sempre me pareceram redutores que decidi começar a fazer pequenos vídeos que remetem para artigos que escrevi. O intuito é gerar interesse para que quem os vê queira ler mais. Será que resulta? Alguma vez irá além da pasta de guardados que já acumula centenas e centenas de vídeos? Se calhar não. E o que significa resultar? Ter likes e partilhas ou influenciar de facto alguém a envolver-se com o que partilhei?
Seis anos depois da pandemia, e depois de muita resistência, também eu achei que podia ter espaço entre os milhares de conteúdos que são partilhados todos os dias. A verdade é que também já li livros que foram recomendados e comentados centenas de vezes no Booktok. Até hoje não esqueço como fiquei impactada com Uma Pequena Vida de Hanya Yanagihara; às vezes dou por mim a lembrar-me de Jude, Willem, JB e Malcolm. Penso muitas vezes na mestria de Yanagihara a escrever sobre a passagem do tempo. Ao mesmo tempo, há tantas referências que guardei e me escaparam por entre os dedos porque no TikTok não existe uma forma de guardar um conteúdo que não seja no próprio TikTok. É aí que quero chegar: as redes sociais não podem ser o fim em si mesmo, têm de ser uma ferramenta para chegar a outros lugares com outra profundidade.
Nada me garante que não vou, também eu, cair nas armadilhas da esfera “intelectual” do TikTok. Na verdade, este texto começou com uma ideia para um pequeno vídeo que pensei fazer para a minha conta recém-criada. Talvez chegasse a mais pessoas, mas certamente não passaria pelo processo de dias de reflexão e leitura, e pelas várias horas de edição, por que este texto já passou muito antes de ser publicado (com dois dias de atraso face ao plano original, porque não há um algoritmo para alimentar).
Estamos todos a jogar o mesmo jogo, no mesmo tabuleiro, mas as condições e os recursos são diferentes para toda a gente. Se tiveres dinheiro para comprar uma câmara e um microfone, os teus vídeos vão parecer mais profissionais e o teu alcance será maior. Se puderes trabalhar para que a tua imagem seja apelativa, dentro dos cânones de beleza e estética apreciados na contemporaneidade, idem. E se começares a receber o patrocínio de alguma marca é como teres um distintivo de que subiste para o nível seguinte e estás a ser premiado por seres “tu próprio” e dares as tuas opiniões. Quanto mais poder económico tiveres, mais possibilidade terás de singrar. Porque nas redes sociais parecer continua a pesar mais do que ser.
Às vezes parece que não temos alternativa. O mundo em que vivemos leva-nos a crer que o sucesso está ao nosso alcance, basta querermos; do outro lado da moeda, dizem-nos que cada indivíduo é responsável pelas suas ações. É essa a força do neoliberalismo: responsabilizar cada indivíduo pela sua própria vida. E no meio de todas estas correntes e tendências esquecemos que mesmo no que toca ao intelecto a meritocracia é um mito. Há quem tenha de trabalhar mais horas para se sustentar, quem não tenha oferta cultural no local onde vive, ou quem simplesmente não tenha as condições que habitualmente damos por adquiridas.
Se nos dissessem que capitalizámos o que sempre nos trouxe uma fuga do ritmo frenético do mundo, talvez tivéssemos dito que jamais o faríamos. Se, seguindo a teoria de Walter Benjamin, uma obra de arte perdia a sua aura na era da reprodutibilidade técnica, chegámos a um ponto em que já quase não sabemos o que é a aura da obra para além das estrelas nas plataformas de avaliação ou das campanhas de marketing que nos perseguem. Não é sobre sabermos que se perdeu, é sobre não sabermos sequer o que é que perdemos no meio de tantos estímulos.
Não me interpretem mal: é melhor performar intelectualidade do que alimentar o conteúdo de brain rot, é melhor fazer vídeos sobre movimentos sociais do que partilhar conteúdo da incelosfera. A questão não é essa; são os limites dessa contradição. E até que ponto as condições impostas pelos algoritmos e a apropriação capitalista não sacrificam toda a essência do que é, de facto, intelectual. Até que ponto se cultiva alguma dissidência num terreno tão normativo?
No ensaio O Pintor da Vida Moderna, publicado originalmente em várias partes no Le Figaro em 1863, Baudelaire apresenta-nos um homem que sabe ler o seu tempo. Resgato esta referência que me foi apresentada na universidade e à qual regresso vezes e vezes sem conta porque nunca deixa de me parecer atual: Sr. G, a personagem principal, é um ilustrador publicado em jornais que Baudelaire caracteriza como sendo “não um artista, mas um homem do mundo”. Diz-nos:
“O Sr. G. não gosta de ser chamado artista. E não terá ele alguma razão? Ele interessa-se pelo mundo inteiro; quer saber, compreender, apreciar tudo o que se passa na superfície do nosso esferóide.”
Sr. G., também conhecido como Constantin Guys, tem uma série de ensinamentos sobre a vida menos aconselháveis e que envelheceram mal. Mas se há alguma coisa que podemos aprender com ele, 163 anos depois, é que mais interessante do que sermos artistas, intelectuais, ou influencers é sermos cidadãos do mundo.


