David Shor: “Os indecisos não acreditam nos políticos, se acreditassem não eram indecisos”

David Shor trabalhou na equipa que ajudou a eleger Obama. Cientista de dados, é descrito por Ezra Klein como o Democrata que diz o que os Democratas não querem ouvir. Falou com o Shifter numa longa conversa sobre política, dados e eleições.
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  • O João Gabriel Ribeiro é Co-Fundador e Director do Shifter. Assume-se como auto-didacta obsessivo e procura as raízes de outros temas de interesse como design, tecnologia e novos media.

David Shor fez parte da equipa que trabalhou para a eleição de Barack Obama e foi pouco tempo depois retweetado pelo ex-presidente dos Estados Unidos da América num sinal de reconhecimento desse trabalho. É Cientista de Dados, especialista em análise política e reconhecido pela sua visão da política norte-americana; foi descrito por Ezra Klein no New York Times como “o Democrata que diz o que os Democratas não querem ouvir”, e por Eric Levitz como detentor de uma teoria unificadora da política americana. A poucos dias do sufrágio que viria a consagrar Joe Biden como sucessor de Donald Trump, falou com o Shifter durante uma hora a partir de sua casa nos Estados Unidos da América.

A conversa foi sobre política e, mais especificamente, sobre o panorama político norte-americano. Se as perguntas foram sobre mais do que os candidatos eleitorais, a forma como se pensa e se faz política. As respostas alargaram constantemente a reflexão, em desvios e parêntesis aos pontos centrais à discussão, com exemplos concretos do passado recente dos Dems ou de outras partes do Globo. Os Estados Unidos da América foram o tema principal em debate mas da conversa é possível extrair conclusões sobre as dinâmicas políticas de qualquer parte do mundo.

A conversa decorreu poucas semanas depois de se ter visto envolvido em duras críticas a um tweet em que citava o cientista Omar Wasow, co-fundador da rede BlackPlanet, e que lhe valeu o afastamento da empresa de consultoria onde trabalhava. E, para si, não há dúvidas de que apesar da infelicidade do momento — rapidamente reconheceu e pediu desculpa por eventuais danos causados pelos seus tweets — é também por ter passado por ele que acede a falar tão abertamente. É como quem não tem muito a perder que nos conduz por exemplos da política norte-americana para expôr as suas visões sobre o funcionamento do sistema, o que devem ser as prioridades dos partidos e a sua própria especialidade, a ciência de dados.

Sem o formalismo que seria de esperar, Shor falou ao Shifter a partir do seu apartamento, enquanto bebia o seu café matinal, durante bem mais de uma hora, de forma fluída, entusiasmada e praticamente ininterrupta. Se o seu perfil pode não ser o que se espera de um cientista político norte-americano, o discurso é revelador do foco que tem na área e da perspetiva aprofundada com que nos brinda.

Shifter: “Há um artigo do cientista político David Broockman que faz um ponto muito famoso, de que os votantes moderados não têm visões moderadas, apenas ideologicamente inconsistentes” dizes numa entrevista — achas que os políticos tendem a acreditar que as eleições são momentos para mudar a mente das pessoas, mas deviam antes preocupar-se em conquistar os seus votos? Ou deve haver um equilíbrio entre ambos?

David Shor: Eu acho que o problema neste caso, no contexto da política norte-americana, e provavelmente também fora dos Estados Unidos, é que há pessoas ideologicamente de esquerda e direita, que são qualquer coisa como 20% para cada lado – pessoas que seguem a política de perto, que consomem media ideológicos, e que têm visões ideologicamente consistentes. E, parece-me que, de forma paradoxal, estes eleitores escolhem os seus candidatos com base em valores e não em causas.

Por exemplo, és estudante e sentes que a pobreza devia mesmo acabar, começas a ler imensos livros, descobres o Marx e toda uma constelação de visões, mas a razão deste processo são os valores iniciais – queres realmente saber de igualdade ou, se fores conservador, provavelmente outro valor como a ordem, e a partir daí consegues posicionar-te em cada assunto de acordo com esses valores. E é por isso que se olharmos para aquilo em que as pessoas de esquerda e direita têm acreditado nos últimos 100 anos, vemos que as coisas têm mudado – o planeamento central esteve na moda, depois saiu de moda, os mercados tornaram-se populares e depois impopulares, e novamente populares para a direita. As ideias podem ir e vir mas os valores – na direita representando a ordem e na esquerda a justiça social – mantém-se constantes. Mas isto é algo que é do domínio apenas de pessoas com elevado grau de educação. A restante população não tem a mesma tendência para decidir o seu voto em função dos valores.

No meu meio profissional oiço muito dizer que o problema dos Democratas é que são demasiados intelectuais, que se preocupam demasiado com causas e que deviam falar mais sobre os valores mas isso está errado. As pessoas não concordam com os nossos valores, esse é o problema. Nós somos como que extremistas ideológicos, se elas partilhassem os nossos valores também seriam. Em vez disso, as pessoas têm uma mistura de visões. Isso cria uma espécie de paradoxo, as pessoas nos extremos olham para os líderes dos partidos para saber em que acreditar, mas as pessoas ao centro escolhem os partidos com base nas causas de que estes falam. Claro que isto é uma uma super simplificação mas acho que é uma boa forma de olhar para as coisas.

Isto deixa-nos perante uma tensão. Por exemplo, no Partido Democrata, se tiveres uma ideia que é impopular, a melhor maneira de a tornar mainstream é fazendo com que todo o partido a adote e fale dela. Se tivermos, por exemplo, o ‘Abolish ICE / Defund the Police’ [movimentos políticos pela abolição do ICE (análogo ao SEF português) e pela realocação de orçamentos destinados à polícia noutras formas de segurança pública e suporte a comunidades] com 10% das sondagens e, de repente, puseres toda a máquina liberal a falar sobre isso durante algum tempo, esse valor sobe para 30%. E isso é algo muito poderoso, mas o problema é que ao mesmo tempo as pessoas ao centro que não querem cortar o financiamento à polícia decidem votar nos Republicanos. Esta tensão é real. Os ativistas veem esta ferramenta como muito poderosa e querem usá-la, mas vem com um custo eleitoral associado.

O que quero dizer é que pode ser bastante tentador ver um assunto a subir 20% e dizer “Wow! Quero fazer isto” mas se olharmos para a história, fazer algo subir de 10% para 30% não faz com que a mudança aconteça. Ter um partido a adotar uma ideia como porta-estandarte não tem um grande registo de sucesso. O que se quer realmente é o que aconteceu com o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em que a aceitação era de 20%, depois 50%, depois 70%, ou com a legalização da marijuana. E isso aconteceu sem os partidos adotarem os assuntos – os Democratas não adotaram o casamento gay até se tornar bastante popular e ainda não adotaram definitivamente a legalização da marijuana (talvez devessem). Tudo isto aconteceu sem partidos e leva-nos para esta dúvida sobre o que determina o quê, quando queres ganhar uma eleição tens de trabalhar com o eleitorado que tens.

Os partidos não têm capacidade para mudar a visão dos eleitores indecisos, porque os eleitores indecisos não acreditam nos políticos, se acreditassem não eram indecisos. Portanto esse é um constrangimento real. E se se quer encetar essa mudança de longo prazo tens de o fazer de outras formas para além de tentar que os políticos Democratas falem de assuntos impopulares. E há várias formas de o fazer, como organizar protestos ou, provavelmente, como Gramsci escreveu, pondo os assuntos nos media. Parece-me que foi porque os media começaram a falar destes assuntos [casamento homossexual e marijuana] de uma forma mais favorável que eles se tornaram populares.

Mas depois penso no outro lado que é muito subvalorizado, e há uma sondagem para que gosto de apontar. Só 7% da população concordava que o nível da imigração devia ser maior do que é agora, isto significa que o tema era menos popular que a legalização da heroína, mas agora que esses números são maiores, um número quase igual de pessoas quer aumentar e diminuir a imigração, e anteriormente esse rácio seria provavelmente algo como 10 para 1. Por isso, ao ver o que aconteceu, e testemunhar o progresso em muitos dos temas, eu acho que este se deve a fatores estruturais, como o facto de haver mais pessoas com cursos universitários e a população ser cada vez mais laica.

Acho que a infeliz conclusão é que mudar a perceção sobre assuntos é muito difícil; os ativistas têm-no feito nas últimas décadas sem muito sucesso, e os maiores sucessos são graduais e moldados por estas amplas forças estruturais. Por isso, diria, que se estás insatisfeito com o que o público americano acredita hoje em dia – o que eu, pessoalmente, estou, visto que me considero de esquerda – o importante é levar a sério a história dos movimentos do passado e tentar encontrar que mecanismos funcionaram. Acho que a resposta, geralmente, é não perder eleições e não ceder o controlo das instituições à direita. No final de contas, se as coisas mudam mesmo a longo prazo, talvez a coisa mais importante que se pode fazer seja ganhar eleições e tornar mais fácil as pessoas irem para a universidade, mais do que conseguir o Joe Biden comprometer-se com algo em particular.

“Temos de encarar o facto de a confiança social estar em declínio. O General Social Survey tem vindo a perguntar desde 1970 “acha que as pessoas são confiáveis?” e esse número tem vindo a decair nos últimos quarenta anos.”

S: Considerado a mesma ideia sobre os moderados. Mesmo que a ideologia do Trump não seja assente em qualquer ciência política, ele parece consistente nas suas ideias e na sua radicalidade. Neste contexto, como achas que o Bernie se sairia?

D.S: Quando analisamos a aliança do Sanders, se olharmos para as suas sondagens nas eleições gerais e olhamos para os eixos da educação e da idade, vemos que o Sanders teve melhor resultado que o Biden entre os mais jovens, a classe trabalhadora e os votantes brancos, e pior entre os eleitores mais velhos com educação superior. Essa é a dinâmica geral: o Bernie dá-se melhor com pessoas mais jovens e com menor nível de escolaridade do que o Biden. E isso é uma questão interessante, visto que as sondagens acabaram por estar erradas.

Quando olhamos para o Bernie Sanders, a vantagem da sua abordagem desde 2016 é que ele foca a sua mensagem nas questões económicas — o que lhe valeu sempre muitas críticas dentro do Partido Democrata. Não importava que questão lhe fizessem ele responderia sempre “os bilionários, os milionários, vamos tornar as coisas mais baratas” e eu acho que isso é uma vantagem. Acho que o que o prejudicou entre os eleitores mais velhos foi a etiqueta de “socialista” que se tornou mais saliente; e isso é uma realidade da Guerra Fria.

Eu acho que o mais interessante do Bernie é que o seu apelo e a sua mensagem é sobre soluções simples para os problemas complexos. Quem segue a política de perto fica muito chateado com isso porque passa a mensagem de que a razão para tudo estar falido é ‘das pessoas em Washington que estão nos bolsos dos ricos’. Mas há vários aspectos a considerar.

Um amigo meu costuma dizer: “Eu não pediria ao Bernie Sanders para ensinar uma aula de ciência política”. Algumas das teorias que ele sugere não são completamente verdade, e as pessoas que seguem a política de perto, particularmente no Partido Democrata, e que confiam nas instituições, não gostam mesmo disso. Nesse aspecto, há uma divisão interessante nos Estados Unidos Unidos. As pessoas mais velhas tendem a ter mais confiança na instituições do que os jovens — por isso acho que a abordagem do Bernie Sanders, das soluções simples para os problemas complexos, é o futuro da politica.

Temos de encarar o facto de a confiança social estar em declínio. O General Social Survey tem vindo a perguntar desde 1970 “acha que as pessoas são confiáveis?” e esse número tem vindo a decair nos últimos quarenta anos. Eu acho isso péssimo, mas temos de encarar o que isso significa: o eleitor médio é muito mais conspirativo do que a típica pessoa que trabalha em política. Isso é uma forma de olhar. Mas outro exemplo disto que não é tão popular à esquerda, é o Andrew Yang [candidato às primárias nacionais do partido democrata em 2020 e candidato nas primárias Autárquicas dos Democratas em Nova Iorque em 2021], que fez um excelente trabalho, trazendo muitos eleitores que normalmente não querem saber de política, TAL como o Bernie fez. Mas, se virmos, [Yang] fê-lo com pessoas menos educadas e ‘menos brancas’. O que acho engraçado é que, em ambas os casos, as pessoas que trabalham em política e dizem que “querem um candidato que eleitores que normalmente não estão interessados em política”, quando estes candidatos o conseguem, respondem “não, não, assim não”.

Eu acho que no futuro, e o futuro são os eleitores mais jovens, o estilo de política do Bernie resultará melhor. Mas eu acho que a esquerda não deve ficar demasiada entusiasmada com poder ter uma mensagem focada na baixa confiança nas instituições porque isso não muda o facto de os aumentos de impostos serem pouco populares. Eu acho que o Bernie Sanders foi a primeira pessoa a encontrar a sua mensagem neste estilo mas o Andrew Yang mostrou que não tens de ser um verdadeiro esquerdista para ter o seu estilo.

“Estamos a direcionar-nos para um mundo pós-materialista; anteriormente havia o modelo “pessoas ricas votam em conservadores, e pessoas pobres votam em liberais que lhes deêm dinheiro” e toda a política fazia sentido, agora vivemos num mundo onde as pessoas não votam sequer nos partidos que melhor representam os seus interesse económico.”

S: O escritor Milan Kundera no seu livro Imortalidade escreve sobre a ‘Imagiologia’ como a morte da ideologia e a sua substituição por reflexos simbólicos de ideologias do passado sem substância real. Concorda com esta descrição aplicada à política contemporânea?

D.S.: Eu diria que no sistema político o Estados Unidos é mais ideológico e contempla mais divisões ideológicas do que alguma vez nos últimos cem anos. O contraste aqui é grande e há várias formas de medir a ideologia dos legisladores e partidários. Eu acho que o que se consegue ver é que os Democratas e Republicanos estão cada vez mais distantes em termos de ideologia e política do que em qualquer outro ponto antes. Se olhares para dentro dos partidos, há uma facção considerável do Partido Republicano que está a flirtar com o franquismo, e há uma facção considerável do Partido Democrata que se identifica como socialista. Só por aí vê-se que a divisão ideológica é maior do que algum dia foi, em parte, porque os Estados Unidos da América nunca foram muito ideológicos. Eu não percebo muito de política europeia mas percebo porque alguém, de Itália, digamos, pode notar que há pouca divisão ideológica. O que acho de realçar é, sobretudo, que ser socialista nos Estados Unidos hoje significa defender o sistema de saúde e isso não é o que ser socialista nos anos 1920 significava.

Estamos a direcionar-nos para um mundo pós-materialista; anteriormente havia o modelo “pessoas ricas votam em conservadores, e pessoas pobres votam em liberais que lhes deêm dinheiro” e toda a política fazia sentido, agora vivemos num mundo onde as pessoas não votam sequer nos partidos que melhor representam os seus interesse económico. Temos Kensignton, em Londres, a votar em Corbyn, e as zonas mais pobres a votar Tories. Por isso, quando se pensa no que as motiva, tem de haver algum tipo de ideologia

“As pessoas convencem-se a elas próprias de que uma coisa que é impopular se torna popular se se falar mais dela, que se inspirarem as suas bases os eleitores vão votar mais.”

S: És cientista de dados, contudo, parece um pouco mais céptico do que a maioria quando se fala de dados, adicionando sempre alguns enquadramentos relevantes. Como vês esta evolução tecnocrática da política? Parece-me que começa a triunfar uma espécie de ‘dataísmo’, uma crença cega no poder e na verdade dos dados que não contempla a sua falibilidade…

O papel dos “dados” na política dos Estados Unidos da América tem vindo a crescer há alguns anos. Eu fiz parte da campanha do Obama em 2012 em que fizemos ‘todas essas coisas’, e apesar de toda a gente achar que a razão da sua vitória foi tudo o que fizemos, eu acho que não é bem assim. O Obama ganhou porque era bastante carismático, e a sua equipa fez um excelente trabalho a apelar à classe branca trabalhadora no midwest — eu estava lá, ele tentou realmente apelar a este eleitorado e conseguiu fazê-lo com muito mais sucesso do que os democratas antes ou depois, e foi por isso que ganhou.

Eu acho que esta ideia de que a ciência de dados, e os dados em si, podem ganhar eleições é muito sedutora e apelativa porque providencia um escape. É como se não se tivesse de haver nenhum compromisso ideológico, ou fazer coisas desconfortáveis, tudo o que é preciso é contratar estes wizkids e construir os rankings, bater às portas e vencer.

Eu lembro-me da primeira vez que trabalhei na área. Tinha 20 anos, comecei na campanha do Obama, e era muito impressionável; lembro-me que me sentaram e disseram “campanhas é fazer listas: listas de pessoas a persuadir, lista de pessoas a dissuadir, lista de pessoas a quem pedir dinheiro, lista de pessoas para voluntários, e o teu trabalho como cientista de dados é organizar essas listas, usando matemática. Eu pensei “ok, vou construir estes modelos e organizar estas listas” e ao longo do tempo, depois da campanha, fui-me apercebendo que isto é uma loucura. Isto não é o que a política é, a Hillary Clinton não perdeu porque as listas não estavam suficientemente bem organizadas. Nesse sentido, o que tento fazer é trazer a política para o campo onde ela pertence. A política é fazer com que o eleitor médio vote em ti. Eu sei que isso pode soar maluco, que é uma expressão controversa hoje em dia, mas a política é sobre encontrar os assuntos com que os eleitores se importam, falar deles e fazer com que concordem contigo. Se encontrares assuntos de que os eleitores querem saber mas em que discordem de ti – já o tentámos fazer – não corre bem, é má ideia. E aí acho que há um papel para a matemática.

As pessoas que trabalham em política são muito motivadas ideologicamente e desligadas do eleitor indeciso e isto não é um problema novo. É aquela ideia dos intelectuais de esquerda que se encontravam nos cafés, muito distantes das massas que tentavam inspirar. E este isolamento provoca muito pensamento ilusório — as pessoas convencem-se a elas próprias de que uma coisa que é impopular se torna popular se se falar mais dela, que se inspirarem as suas bases os eleitores vão votar mais. Há muitas coisas de que as pessoas se convencem a elas próprias que não são verdade e eu acho que aí é que a matemática é um mecanismo muito útil. Se estiveres numa sala e disseres “acho que devíamos fazer isto que é popular” é diferente de dizeres “eu fiz uma sondagem com 4 milhões de pessoas e temos de fazer isto porque é popular”. Política é coordenação de problemas e isto é especialmente verdade nos Estados Unidos onde não há partidos.

Quando olho para trás, onde acho que tivemos mais sucesso, foi no sentido de a tecnologia se tornar num schelling point [uma solução para qual as pessoas tendem na ausência de comunicação]. Todos podemos concordar e usar a tecnologia e isso é uma forma de cooperarmos uns com os outros. Isso é o que acho que é o progresso. E não acho que isso mude a natureza, a física, ou a arte de descobrir o que os eleitores querem ou não queres. Eu, pessoalmente, como alguém que se interessa por história e por política, sei que estas áreas me tornam muito melhor naquilo que faço do que se soubesse mais matemática.

É muito importante que colectivamente percebamos como ganhar eleições, porque isso determina literalmente o futuro da humanidade, e é muito importante manter os fascistas longe do poder.

S: “Penso que é realmente consistente com um corpo de provas bastante amplo e transversal (um pedaço do qual obviamente tweetei em algum momento) que o protesto não violento é politicamente vantajoso, tanto em termos de mudança de opinião pública sobre questões discretas como de eleição de partidos simpáticos às preocupações da esquerda.”
Tenho acompanhado a história sobre o teu “cancelamento” em relação a um tweet sobre protestos violentos, acha que as pessoas entenderam mal o seu ponto de vista? Slavoj Zizek assinala que hoje em dia, socialmente, tendemos a fazer alguma hiper-moralização do discurso na esfera pública, achas que pode prejudicar a política progressista e a democracia em geral, negligenciando a sua complexidade?

D.S.: Eu diria que é muito importante ter uma visão clara e um discurso honesto. É muito importante que colectivamente percebamos como ganhar eleições, porque isso determina literalmente o futuro da humanidade, e é muito importante manter os fascistas longe do poder. Eu acho que o problema, mais uma vez, tem a ver com o facto de as pessoas muito motivadas ideologicamente deixarem o pensamento enublar-se por narrativas imprecisas que levam a más decisões. E isso pode ter consequências catastróficas.

Um exemplo vindo de 2012, é esta narrativa de que todos conhecemos, de que a razão porque o Obama ganhou foi porque basicamente a participação de eleitores não-brancos aumentou. O Obama saiu-se realmente bem no programa de voto Get Out, converteu de facto os votantes não brancos e foi por isso que ele ganhou. Essa foi a narrativa e isso teve um grande efeito dentro do Partido Democrata e na forma como os ‘Liberals’ pensavam sobre as coisas. Havia esta ideia de que se a razão por que o Obama ganhou foi por mobilizar as pessoas de cor então não era preciso preocupar com o que os moderados brancos pensam – não era preciso preocupar com persuasão, ou com a classe branca trabalhadora. Havia realmente esta narrativa que se podia ganhar apenas com base em pessoas brancas com formação universitária e no turnout. Eu estava no partido e vi este pensamento a ganhar forma. Havia um desinteresse em testar a repercussão das mensagens, a prioridade era a mobilização. E depois chegamos a 2016, e isso influencia a estratégia que os diferentes actores do partido seguem e as mensagens que as escolhem, e o problema é que a narrativa não era verdade.

A razão por que o Obama ganhou foi porque falava sobre problemas económicos e evitava temas culturalmente controversos, como resultado acabou por ter óptimos resultados entre os brancos ocidentais que concordam com o partido nos assuntos económicos. Para pôr isto em números, há um gráfico dos eleitores que concordam connosco na questão do saúde de saúde e discordam na questão da imigração, o Obama conquistou 61% desses eleitores e a Hillary apenas 39% e essa é a história da eleição. Vários analistas que conheço, com quem trabalhei, e eu próprio, queríamos dizer algo mas sentimo-nos pressionados porque dizer algo contra esta narrativa emocionalmente satisfatória poderia trazer problemas políticos; podia até conotar-nos um pouco como racistas, e então ficámos calados. Eu acho que isso teve um grande papel na definição da estratégia das eleições catastróficas vencidas por Donald Trump.

Eu acho que lutar contra estas dinâmicas é muito importante. Recentemente publiquei sobre as tendências de voto na Georgia contradizerem a narrativa, com a quota de eleitores negros a cair e os maiores ganhos entre os eleitores com rendimentos mais altos, e várias pessoas me retweetaram a tentar que fosse despedido do meu emprego actual – essa pessoas provavelmente são ninguém mas acho que há algo tóxico nisto. Eu tenho alguma sorte agora, dado que já fui cancelado, posso dizer mais algumas coisas do que o normal – é essa a razão porque dou entrevistas como esta e mais ninguém o faz. Acho que o problema empírico de perceber como ganhamos as eleições é o mais importante. E para acertarmos é preciso fazer perguntas importantes que vão contra aquilo que queremos acreditar.

“Há muitas coisas de que as pessoas se convencem a elas próprias que não são verdade e acho que aí é que a matemática é um mecanismo muito útil.”

S: “Por isso, penso que as pessoas subestimam a abertura dos Democratas a políticas de esquerda que não lhes custarão eleições.”
Em geral, achas que os democratas poderiam ser mais populistas? Porque não? Pensa que o medo de perder as eleições acaba por criar esta possibilidade de pensar radicalmente nas políticas de esquerda que podem efectivamente ganhar eleições?

D.S.: Eu acho que há um conjunto de questões estruturais relevantes. Se olharmos para a base de pessoas que se tornam políticos, e o conjunto das pessoas que conseguem dinheiro, são pessoas com altos níveis de educação, e não só, são também pessoas que confiam muito nas instituições. E se olharmos para os candidados mais entusiasmantes, são advogados de 60 anos porque são aquele que decidem coisas, como o Joe Biden, ou a Hillary Clinton. Para que fique claro, o Joe Biden ganhou e esteve muito bem, eu não quero tirar mérito. Mas a ideia central por de trás do populismo, especialmente como seria implementado nos Estados Unidos da América, seria a ideia da falência das instituições – algo em que o Bernie Sanders tocava. Parece-me muito difícil que um partido gerido por profissionais altamente educados se vire numa direção populista. Acho que há muita procura por esse tipo de política mas acho genuinamente difícil que aconteça porque, geralmente, as pessoas que chegam a políticos trabalharam na política a vida toda.

Ironicamente, agora que temos mais pessoas ricas, é interessante ver os partidos populistas em sítios como o centro da Europa em que os ricos concorrem às eleições como fora-do-sistema. Talvez comecemos a ver mais disso, e o Donald Trump tenha sido o princípio dessa tendência que vimos expressa em sítios como a Chéquia ou a Eslováquia [Andrej Babis, ex-primeiro ministro da Chéquia dado como exemplo perdeu o cargo nas eleições de Outubro de 2021 sendo substituído por uma coligação de 5 partidos].

Estruturalmente a média de idade dos eleitores em primárias é algo como 58 anos – em New Hampshire só 15% dos eleitores inscritos nas primárias dos democratas tinham menos de 45 anos, e isso é que empurra os procedimentos dos partidos numa direção conservadora (talvez não no sentido ideológico). As pessoas que andam por aí há muito tempo, que são familiares aos eleitores, que são vistos como seguros, têm uma vantagem natural no processo eleitoral do partido, o que é uma pena porque com esta correlação entre confiança social e idade, este tipo de candidatos mais populistas poderiam no geral dar-se melhor.

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