Desculpem, mas preciso falar sobre a pobreza

Desculpem, mas preciso de falar sobre a pobreza. Preciso tentar pôr ordem a todos esses episódios dispersos, dúbios, a essa sensação de que há alguma coisa errada na forma como lidamos com as pessoas mais pobres. Para estruturar o pensamento, dividirei o tema em duas partes, uma primeira que tem a ver com a minha experiência e outra em que apresentarei uma referência que me parece fundamental quando abordamos esta temática.

1. Claro que em parte sinto isto porque temos, hoje em dia, partidos que defendem retirar os subsídios mais baixos de quem mais precisa, e têm eco nas redes sociais. Ou porque cada vez que surge uma notícia aparentemente boa, como uma nova ajuda do Estado a pessoas mais pobres, a caixa de comentários se enche de opiniões contrárias, de ofensas, do que se intitulou um discurso de ódio. Ou porque o pobre continua tantas vezes a ser intitulado de preguiçoso, aproveitador, viciado, e outras coisas piores. Mas esse ódio e generalização das redes sociais é comum a tantos outros temas, que não digo propriamente por isso. 

É mais subtil que isso. Porque diz respeito a esses pequenos episódios que acontecem no dia-a-dia, e são muito mais próximos. Às vezes pessoais. 

Digo isto pela história do meu amigo que deu um par de sapatos a um sem-abrigo descalço e no dia a seguir o viu a vendê-los. E desde aí resolveu não ajudar mais nenhum porque se sentiu enganado. 

Ou pela vez que saí para comprar frango na pandemia e, na fila, um rapaz com aspecto de quem vive na rua há pouco tempo, se pôs a pedir que alguém lhe comprasse um menu, tendo sido ignorado por toda a gente como se fosse invisível, como se não estivesse ali. 

Digo isto porque sinto que todas essas histórias pintam um retrato de como lidamos mal com a pobreza. Mas também porque noto que a conversa em torno do tema ainda é tão desconectada da realidade, que ninguém sabe bem qual é. Ainda se baseia tantas vezes numa narrativa que memorizámos há muito tempo, e não voltámos a questionar.  

Pelas mil variações da mesma história, em que alguém ofereceu um pão com fiambre a um sem-abrigo e este não aceitou. Porque não gostava, ou estava cheio, ou simplesmente não queria aquilo naquele momento. E como sempre é contada com surpresa, como se ao ser pobre a pessoa perde-se o direito a ter escolha ou gosto. 

Pelas tantas vezes que alguém pediu dinheiro na fila de trânsito e fechámos a janela. 

Pelo encolher do meu próprio corpo cada vez que sou abordada na rua e me pedem alguma coisa, uma moeda, um cigarrinho. Um desconforto involuntário. Ou pelo agradecimento excessivo que recebo quando dou umas míseras moedas e pelo pequeno relato que me oferecem da sua vida a jeito de justificação. Porque a pobreza parece estar sempre cheia de culpa. 

E por esse senhor idoso que me pediu que lhe pagasse um almoço e chorou quando lhe perguntei o que queria. Oxalá não fosse preciso tanto esforço emocional por um prato de comida. Para algumas pessoas é. 

Digo isto porque sinto que todas essas histórias pintam um retrato de como lidamos mal com a pobreza. Mas também porque noto que a conversa em torno do tema ainda é tão desconectada da realidade, que ninguém sabe bem qual é. Ainda se baseia tantas vezes numa narrativa que memorizámos há muito tempo, e não voltámos a questionar.  

E, o que me parece mais grave, é que tantas vezes essa história serve para nos protegermos de um tema complexo, que nos dá medo, que sentimos que será desconfortável lidar com ele. Tantas vezes essa história é útil para legitimar não querermos dar nada ao pedinte no café, ou para não nos sentirmos mal quando passamos sem olhar para os sem-abrigo que dormem na rua. E talvez por isso não a queramos desmontar ou aprofundar. Essa história dá-nos tranquilidade em relação a uma realidade incómoda. A verdade é que dar dinheiro é incómodo, ser abordado por pedintes é incómodo, até ver as pessoas pobres na rua é incómodo. Não queremos essa realidade a atrapalhar a nossa cerveja, o nosso passeio no parque. Mas é preciso admiti-lo, porque só assim podemos começar a resolver o problema. 

2. Foi quando andava à volta deste tema que encontrei a filósofa Adela Cortina e o termo  Aporofobia, que se define como “ódio, repugnância ou hostilidade ante o pobre, o sem recursos, o desamparado”. Encontrar a palavra foi importante porque deu nome a uma  coisa que eu sentia há algum tempo que existia, mas que não conseguia definir com exactidão. E perceber as causas da aporofobia ajudou-me a perceber muitos dos  porquês da nossa relação problemática com a pobreza. 

Para demonstrar a aporofobia, Adela Cortina dá o exemplo dos turistas que chegam a  Espanha todos os anos e são acolhidos com entusiasmo porque são uma fonte de  rendimento para o país, em oposição aos refugiados que quando chegam ao país  geram todo o tipo de reacções hostis e discursos de ódio.  

“Será xenofobia ou aporofobia?”,  questiona a autora. Aparentemente, nesse caso, o que hostilizamos é o pobre e não necessariamente o  estrangeiro.  

Haver uma designação parece-me particularmente importante para que se possa falar  objectivamente sobre este fenómeno. Basta que nos lembremos da novilíngua de 1984, o emblemático livro de George Orwell, em que ao limitar o vocabulário se limitava o pensamento. Algo especialmente verdadeiro quando se trata de conceitos  abstractos, coisas para as quais não podemos apontar, como explica Cortina. E mais ainda quando se trata de um conceito incómodo, como é qualquer um do reino das fobias. 

Tratando-se de uma fobia, Adela Cortina tenta encontrar a origem da aporofobia na nossa biologia. Apoia-se para isso em estudos que demonstram que o nosso cérebro tende a ser xenófobo, isto é, tendemos a preferir estar rodeados de pessoas parecidas a nós, agradáveis para nós. Em situações que nos perturbam também tendemos a pôr  em acção um mecanismo de desassociação que nos leva a distanciar dessas coisas  que nos desagradam. «A meu ver», diz, «a aporofobia tem raíz aqui, nessa tendência de colocar entre parênteses o que consideramos perturbador». 

Mas se é verdade essa tendência mais egoísta do ser humano para se proteger, também é verdade que somos seres altamente sociais. Capazes de nos preocuparmos  com os outros, de cuidarmos dos outros. De facto, foi esse sentimento de cooperação  que tornou possível as sociedades de hoje. Inclusivamente essa cooperação que vai  além do próximo, do familiar. No entanto, explica Cortina, a nossa sociedade vive da troca. Sim, estamos dispostos a ajudar, mas se houver uma recompensa, se o outro  também o fizer. «Se estamos numa sociedade contratual há um pequeno inconveniente», explica a autora, «o que acontece com todos aqueles que parecem ser incapazes de dar alguma coisa em troca?»

O que acontece com os mais pobres, com os doentes, com os idosos, com todos que  por alguma razão não conseguem contribuir economicamente para a sociedade?  

A ideia de que o pobre é alguém sem nada valioso para dar em troca parece estar ainda muito presente na narrativa sobre a pobreza. Ou na ideia de que não se deve dar dinheiro, porque não saberá geri-lo. Ou apoios, porque não quererá trabalhar. Ou uma casa, porque não poderá pagá-la. Ou escolha de qualquer espécie, porque não terá capacidade para decidir. A pobreza infelizmente ainda é tantas vezes encarada como uma falha, uma falta de energia, de capacidade, de mérito.  

Todos esses pequenos gestos que tantas vezes são distraídos, ou pouco informados, em que ignoramos o tema da pobreza, ou insistimos numa narrativa desinformada sobre ela, também contribuem para que esta realidade não mude.  

Então perceber o erro é importante; perceber que a aporofobia existe, e ter a certeza  de que não caímos nesse mesmo discurso. Estar atento, conhecer-se a si mesmo.  Perceber que há uma parte biológica que talvez nos faça retrair, sentir desconfortáveis  perante a miséria e contrariá-la, perceber que ela é nociva para o outro, para a  sociedade. Só com essa investigação interna podemos de facto agir.  

No entanto, não quero com isto argumentar que todos somos aporofóbicos, não acredito nisso. Acho que vivemos numa sociedade que é aporofóbica, para a qual contribuem alguns extremistas que vemos, em geral, nas redes sociais e que de facto têm fobia ou aversão ao pobre, mas também contribui a passividade dos demais. Todos esses pequenos gestos que tantas vezes são distraídos, ou pouco informados, em que ignoramos o tema da pobreza, ou insistimos numa narrativa desinformada sobre ela, também contribuem para que esta realidade não mude.  

Uma das propostas que Adela Cortina dá para combater a Aporofobia é educar para a compaixão. Lembrei-me dessa música dos Smiths que diz «It takes strength to be gentle and kind» [“é preciso força para ser gentil e amável”]. Talvez a compaixão às vezes exija trabalho, força. Talvez seja  preciso contradizer um pouco esse instinto primário. Talvez seja preciso usar a razão para ser gentil. 

E, principalmente, parece-me essencial quebrar a história única sobre a pobreza. Informar-nos, falar com a nossa família, com o nosso vizinho, os nossos amigos, com as pessoas na rua, com as pessoas que pedem. Ver o tema de diferentes perspectivas, mesmo que gere desconforto. Provavelmente vai gerar desconforto.  

Desculpem, eu sei que é incómodo, mas é preciso falar sobre a pobreza.

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