Inflação alimentar: o (ainda) indicador da revolta

Tal como em 2010-2011, o mundo passa por um período de recessão económica, combinada com um forte aumento da inflação alimentar.

No dia 17 de dezembro de 2010, o jovem Tunisino de 26 anos, Mohamed Bouazizi autoimolou-se na cidade de Ben Arous, após a polícia confiscar o seu carro de venda ambulante. O acontecimento espoletou ondas de protestos por toda a Tunísia, que rapidamente se alastraram por vários países do mundo Árabe, no que ficaria conhecido como a Primavera Árabe. Contudo, as revoltas que foram de Marrocos até à Síria – com resultados políticos díspares – não eram um simples grito de solidariedade com Bouazizi.

O mundo vivia a ressaca da crise financeira, um período de fraco crescimento económico, alto desemprego e, simultaneamente, forte inflação de bens alimentares – causando um empobrecimento generalizado da população e consequente descontentamento. A forte relação entre inflação alimentar e rebeliões não é nova, a revolução francesa é um claro exemplo histórico disso. Como tal, a sua intemporalidade não pode ser ignorada.

Figura 1: Protestos iniciaram-se em 2010, num período em que os preços dos alimentos cresceram substancialmente acima do aumento do salário mínimo. / Fonte: Trading Economics e Statista.

A anatomia do preço

Nos últimos meses, os receios inflacionários têm vindo a surgir nos principais opinion makers liberais da Europa e Estado Unidos. Porém, nem toda a inflação é igual. Habitualmente, esta é nos apresentada, erradamente, como algo uniforme que afeta todos os consumidores de igual forma. A inflação é essencialmente um processo político-económico, resultado da disputa de recursos entre diferentes grupos sociais. O preço é o intermediário entre compradores e vendedores, e a inflação reflete mudanças de poder negocial entre estes dois grupos. Por exemplo, um aumento (real) dos custos habitacionais, que tem ocorrido em Portugal nos últimos anos, é uma transferência de recursos de inquilinos/novos compradores para proprietários. Todavia, a inflação pode ser resultado de efeitos redistributivos a favor de grupos mais pobres, ao contrário da narrativa dominante.

A redução da desigualdade no Brasil no período 2005-2013 deu-se parcialmente através de processos inflacionários, como aponta a economista Laura de Carvalho. O aumento significativo dos preços de serviços locais (cabeleireiros, restaurantes, serviços domésticos, etc.) marcou uma redistribuição de rendimentos de consumidores (geralmente classes médias) para estas classes profissionais (classes baixas). Tem-se observado uma dinâmica semelhante no sector da restauração nos Estados Unidos, onde os aumentos salariais são acompanhadas por subidas ligeiras dos preços ao consumidor.

No que diz respeito à inflação alimentar, vista como um dos catalisadores da Primavera Árabe, a lógica redistributiva tem características singulares que fazem dela pólvora política. Sendo um bem essencial, é praticamente impossível adiar ou reduzir o consumo, sem afetar o bem-estar da população. Para além disso, e ao contrário de outros bens e serviços essenciais (ex. habitação), os aumentos de preços afetam praticamente toda a sociedade em simultâneo. Esta combinação de fatores é suscetível a gerar um sentimento comum de descontentamento e revolta, facilitando as condições para movimentos de contestação. Com a total internacionalização e liberalização dos mercados alimentares – cada vez mais concentrados em grandes multinacionais – a maioria dos governos nacionais são incapazes de ter mecanismos de controlo de preços, mesmo quando são sujeitos a fortes pressões populares.

É a fome, estúpido!

“[…] Eu vendo o almoço

E a janta não sei se compensa

E a imprensa divulga que vai aumentar o feijão. […]”

Jingle de campanha de Guilherme Boulos e Luiza Erundina. Eleição municipal de São Paulo em 2020

Os versos faziam parte do jingle de campanha de Guilherme Boulos, para a eleição municipal na cidade de São Paulo, cantados por um estafeta. . Apesar do total descontrolo da pandemia no país (final de 2020), o vídeo de três minutos do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), que se apresentava nos antípodas do bolsonarismo, não tinha uma única referencia direta ao vírus. A decisão não refletia apenas uma mera estratégia comunicacional de política municipal, mas ilustrava a trajetória da política global.

Tal como em 2010-2011, o mundo passa por um período de recessão económica, combinada com um forte aumento dos preços alimentares, essencialmente resultado de quatro fatores: secas em várias partes do mundo, resultado de alterações climáticas; um surto de gripe suína iniciado em 2019 que levou ao abate de milhões de porcos; disrupções na produção, transporte e distribuição de bens devido ao COVID; e uma estratégia de armazenamento de comida – na China em particular – de forma a garantir segurança alimentar num período de incerteza pandémica. Consequentemente, a contestação pública tem-se tornado notória, principalmente no continente americano.

O assassinato de George Floyd, apesar de não ser um caso único, levou milhares de norte-americanos para as ruas. Não coincidentemente, no mês do assassinato policial (junho 2020), as condições materiais da população norte-americana  – principalmente a mais pobre – eram especialmente desfavoráveis. O início da pandemia aumentou significativamente o desemprego, em especial para a população mais pobre, e no mês de junho a inflação alimentar disparava para máximos dos últimos 8 anos. No Brasil, as manifestações anti-governo têm se intensificado desde do início de 2021 e o combate à fome tem sido apresentado como uma das principais bandeiras dos manifestantes, a par da vacinação. Desde o lançamento do jingle de Guilherme Boulos em outubro de 2020, os preços dos bens alimentares subiram, em média, 7.5%.  

Figura 2: Inflação alimentar, Estados Unidos da América Fonte: Trading Economics.

 Na última década, a generalização do uso da internet, a recolha de vídeo e a sua disseminação nas redes sociais são frequentemente considerados fortes catalisadores de protestos. Contudo, tais mudanças tecnológicas não têm um propósito político por si só. Grandes movimentos de massas têm como base exigências materiais comuns, seja o aumento de impostos em França e Colômbia, ou o aumento do preço do transporte público em Santiago do Chile. Na ausência de medidas de austeridade diretas, a inflação alimentar provavelmente continua a ser o melhor termómetro político disponível num mundo pós-pandémico.

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