Sandra Baldé: “A indignação precisa de sair dos ecrãs e dos teclados para as ruas, rodas de conversa, instituições.”

O Shifter falou com a ativista mais conhecida no meio digital como Uma Africana sobre a forma como usa a sua voz para alertar e gerar mudança, e como o seu percurso de auto-descoberta e auto-estima impactou o trabalho que faz hoje em dia sobre tópicos como o racismo, discriminação e empoderamento.
Fotografia cedida por Sandra Baldé

Este artigo teve o apoio da The Body Shop Portugal. A marca desafiou o Shifter a fazer parte do Movimento Self-Love, a olhar para o seu estudo The Body Shop Global Self Love Index e a dar espaço a este tema tão importante.

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As redes sociais podem ter muitos defeitos e consequências para a nossa saúde mental mas, do outro lado do espectro, continuam a alimentar a promessa que as fez crescer tanto, permitindo um reequilíbrio das vozes que se fazem ouvir. E, se em muitos casos, há quem se faça ouvir com pouco para dizer, noutros essa plataforma é uma forma de reclamar amor próprio e auto-estima, para si e para os seus, como é o caso de Sandra Baldé, uma das embaixadoras da campanha Movimento Self-Love da The Body Shop Portugal e uma das convidadas do podcast da marca, dedicado à campanha.

Nas últimas publicações que fez na sua página, @umafricana, no Instagram, Sandra refletiu sobre temas tão sensíveis como o “black trauma no entretenimento”, o privilégio branco em casos mediáticos da justiça portuguesa com desfechos dependentes da etnianuma alusão ao caso de Deison Camará -, o que é ser “pro-black” e o mito de que opera da mesma forma que a supremacia branca, com violência, o colorismo como uma ferida causada pelo colonialismo, e o “salário emocional” que recebe quando lhe chegam mensagens “de encher o coração” de meninas negras, com o seu tom de pele, que “ainda estão a aprender a gostar delas mesmas” e que lhe agradecem o empurrão nesse percurso.

Descreve-se como uma mente inquieta e o seu trabalho no digital mostra isso mesmo, o questionamento constante do que é normalizado socialmente e o trabalho tão necessário de informar quem precisa de ser esclarecido, por ignorância ou só pela verdade. Nos últimos anos, Sandra Baldé tem-se tornado uma voz ativista cada vez mais sonante, falando abertamente sobre questões raciais, discriminação e representatividade. E se o mundo insiste em tornar o debate sobre os privilégios sociais e a inclusividade cada vez mais urgente, aos 24 anos, Sandra alerta e gera a mudança falando na sua própria experiência. A minha jornada de aceitação foi sem dúvida muito dolorosa e solitária. Mas necessária, porque eu já chegava ao ponto de me ver como minha própria inimiga.”, conta-nos, quando questionada sobre o caminho que fez, desde criança, para criar auto-estima. “A falta de representatividade foi o que mais contribuiu para isso. O meu tipo de cabelo não aparecia nos filmes e séries que eu consumia na altura, o meu tom de pele também não. E isso mexia muito com uma criança como eu, que já se sentia diferente.”

“A falta de representatividade mexe mesmo muito com o psicológico das pessoas, sobretudo com as crianças. Acho que hoje em dia já está melhor, mas acho que ainda é preciso trabalhar muito, ainda estamos muito dentro do estereótipo, daquela necessidade de só termos negros em determinados assuntos, determinados espaços, determinados papéis. As coisas ainda estão a andar muito devagar.”

No segundo episódio do podcast da The Body Shop, dedicado à campanha Movimento Self-Love, onde foi entrevistada sobre auto-estima na comunidade negra, Sandra repetia uma das ideias que mais partilha com os seus seguidores nos seus canais digitais: “Uma das afirmações que fez muito parte da minha vida durante muitos anos foi ‘eu não quero ser negra.’ E isso teve um impacto muito negativo no meu crescimento enquanto menina e mulher negra.” Confessa que, sem referências no entretenimento que tinha disponível na altura, tinha muitas vezes que ser a minha própria referência para não me limitar e deixar de fazer certas coisas. Adoro a Beyoncé desde os 6 anos, e na adolescência a Lupita Nyong’o foi uma inspiração enorme para mim. As meninas de hoje têm muito mais sorte do que eu tive.” A internet trouxe às ‘meninas de hoje’ vozes como a de Sandra que hoje em dia já consegue falar do seu “duro processo de auto-descoberta e auto-conhecimento de um lugar de aprendizagem” mas que, nas suas várias fases, chegou a um ponto “em que já estava acomodada com a facto de não se sentir capaz ou bonita o suficiente”.

“De certa forma, isto estava a limitar-me, eu não conseguia ver um futuro para mim, não me imaginava a fazer coisas incríveis, e acho que isso foi o ponto de viragem.”

O espelho de uma geração, foi no digital que Sandra, conseguiu encontrar um espaço que se foi tornando sinónimo de confiança. Há mais de sete anos tornou-se Uma Africana, como é conhecida online, e criou o blogue Diário de Uma Africana: “Ajudou-me muito neste processo. Comecei a perceber que tinha capacidades, que tinha opiniões e que a minha opinião era válida e que as pessoas realmente tinham interesse em ouvir-me.” E a sua história pessoal, o seu caminho como pessoa negra e mulher empoderada ditaram o rumo das suas reflexões: “Foi tudo muito natural. Eu não comecei no digital a falar sobre o que eu falo hoje em dia. Tive várias fases que refletiram o meu crescimento e amadurecimento. Mas acredito que o fato de eu ser uma mulher negra alimentou em mim essa necessidade de transmitir sempre essas mensagens de alguma maneira durante todo esse percurso.” 

Sandra conta ao Shifter que sentiu necessidade de começar a criar conteúdo sobre racismo e discriminação quando descobriu os movimentos Pro Black do Brasil e EUA: Fiquei surpreendida ao perceber que, afinal, as minhas vivências não eram casos pontuais e que até tinham nomes e tópicos que lá fora são discutidos com uma profundidade que nem de longe existe em Portugal. Senti necessidade de contar tudo aquilo que estava a aprender, na perspetiva e contexto português e PALOP.” Reconhece que Portugal “ainda não chegou ao ideal, mas tem havido uma mudança significativa” na forma como temas como estes são abordados, principalmente no sentido de incluir e acompanhar a auto-estima de crianças negras – “Tenho adorado a onda de livros com protagonistas negros que têm sido publicados nos últimos anos. Como uma menina que sempre gostou muito de ler, eu sei que isso fará uma diferença gigante na vida de uma outra menina negra como eu outrora fui.” -, mas diz-nos que “a indignação precisa de sair dos ecrãs”.

“[O ativismo online] É muito importante e já fez mudanças significativas e históricas. Mas não chega. As nossas vidas ainda continuam fora do digital e é lá fora que o real preconceito, racismo e discriminação acontecem e violentam diariamente as vidas de muita gente. A indignação precisa de sair dos ecrãs e dos teclados para as ruas, rodas de conversa, instituições. Se não não passará de um ciclo vicioso.”

No podcast da The Body Shop Portugal, Sandra estende o apelo às marcas e empresas, sublinhando que “enquanto estivermos em negação não vamos sair da primeira página”. “Educação é fundamental. Hoje em dia informação não falta. As marcas podem ouvir mais as pessoas. (…) Se calhar se nos ouvissem mais [às mulheres negras], se tivessem mais interesse em ter-nos na construção de base de campanhas, de produtos, tudo o mais, acho que isso já faria toda a diferença, porque atenderia muito melhor as nossas necessidades. Ir um bocadinho mais além da questão da representatividade, não é só aquela parte bonitinha de ‘olha temos uma modelo negra na campanha’, e pronto, já é inclusivo.” 

Sandra Baldé é uma das caras do Movimento Self-Love da The Body Shop em Portugal. A marca lançou um relatório global no passado dia 8 de Março, Dia da Mulher, onde identifica uma crise de auto-estima nas mulheres de todo o mundo, constatando que a maioria das mulheres inquiridas sente mais inseguranças do que amor próprio. Através dos resultados do estudo, a marca lançou o objetivo global de concretizar 1 milhão de atos de Self-Love em todo o mundo. O de Sandra é um ato contínuo: “Uma coisa que eu vou fazer sempre por mim é garantir que nunca mais vou voltar a ver-me como uma inimiga. Não quero voltar para esse espaço.” Para si, também a auto-estima é um ato de revolução. “Vivemos numa sociedade que lucra bastante com as nossas inseguranças e quando vamos contra essa narrativa acaba por ser revolucionário.” 

É precisamente por ter cruzado o seu caminho de auto-descoberta com o seu caminho interior por valorização, que nos seus canais online Sandra cruza a liberdade de dançar, livre e confiante, com as aprendizagens que vai partilhando. E acredita no poder do digital para mudar o mundo de tal forma, que é aqui que centra grande parte do seu trabalho. A voz que começou num blogue, evoluiu para um canal de YouTube e para uma página de Instagram que usa para espalhar a sua verdade, e para outros dois lugares online onde Sandra dá asas às suas paixões, em @sandyfromthablock, o amor pela moda, e em @boldndigital, pela comunicação de influência e estratégia digital para criadores e empresas. Aos 24 anos, Sandra ainda está a aprender a balançar a sua experiência pessoal com a internet, com o mundo de oportunidades profissionais que nela conseguiu encontrar. Mas se em tudo o resto, o que tem para partilhar é um exemplo, também sobre como sobreviver às redes sociais o seu caso é uma lição: Estamos a viver uma fase muito intensa em relação ao digital. Os cancelamentos, novos talentos que surgem todos os dias e com isso a necessidade de inovar e estar sempre presente… São coisas que mexem imenso com o psicológico. Eu tento desprender-me disso ao máximo e ser fiel a mim mesma em primeiro lugar. Se eu estiver em paz com as minhas escolhas e com o meu posicionamento é muito mais fácil lidar com esses monstrinhos do digital.”

“É necessário que sejamos cada vez mais e com urgência de mudança. Desde que haja verdade e constância por trás, e se saiba minimamente do que se está a falar, são todos bem vindos na causa.” 

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