‘Passagem do Meio’ mostra a magnitude do tráfico transatlântico de escravos

O projecto 'Passagem do Meio' é um exercício de visualização interactivo do tráfico de escravos levado a cabo pelos portugueses desde o século XVI até ao século XIX.

“O comércio transatlântico de escravos é considerado a maior migração forçada de africanos escravizados com destino às Américas. O comércio de escravos existiu entre os séculos XVI e XIX e usava a rota do comércio triangular e a sua Passagem do Meio.”, lê-se em letras brancas sobre fundo preto em passagemdomeio.info, um pequeno website interactivo criado pelo Departamento de Engenharia, em parceria com o Centro de Informática e Sistemas, da Universidade de Coimbra, o Instituto Pedro Nunes e a Fundação Cupertino de Miranda.

O projecto Passagem do Meio é um exercício de visualização interactivo do tráfico de escravos levado a cabo pelos portugueses desde o século XVI até ao século XIX. Com base nos dados disponibilizados na Trans-Atlantic Slave Trade Database, da Universidade de Emory, em Atlanta, Georgia, que contempla dados sobre cerca de 36 mil viagens transatlânticas, o grupo de investigadores portugueses criou uma série de artefactos que promovem uma compreensão mais alargada do fenómeno e da escala em que os portugueses o praticaram. O número de rotas usadas, a estimativa do número de pessoas escravizadas, e o número de barcos que foram usados para as transportar são alguns dos factos que saltam à vista.

No mapa interactivo, disponível no site do projecto, é possível navegar pelos séculos e décadas e perceber não só a quantidade de viagens feitas nesse ano mas também o seu sentido e direção, ou, mais impactante ainda, o número de pessoas que foram obrigadas a embarcar e o número que chegou com vida ao destino final — dados que nos dão uma noção da magnitude da escravatura, do tráfico transatlântico de escravos e das suas circunstâncias.

Já no video interactivo, uma das peças centrais do projecto, e que estará em exposição permanente na Torre Literária, em Vila Nova de Famalicão, os dados são apresentados numa perspectiva menos interactiva mas mais contextual e pedagógica que, recorrendo a outros materiais como gravuras e ilustrações, detalha o fatídico processo da escravatura e a sua divisão em três passagens – desde a sua compra como se de uma mercadoria se tratasse, até aos campos onde eram obrigados a trabalhar.

O título do projecto, Passagem do Meio, ou em inglês, Middle Passage, remete directamente para a maior e mais determinante viagem deste sistema, o transporte de homens e mulheres escravizados de África até à América numa longa e demorada travessia do Atlântico. E este é um dos pontos centrais da narrativa. No vídeo, que na sua versão alargada tem cerca de 9 minutos, recorrendo a recortes históricos, os investigadores explicam a forma como decorriam estas viagens – que duravam entre 6 e 11 semanas – e como se empilhavam centenas de pessoas escravizadas nas embarcações, sem quaisquer condições sanitárias nem nenhum de tipo de prevenção quanto ao contágio de doenças. São também dados a conhecer outros importantes pontos da história como a frequência com que as mulheres e crianças eram vítimas de abusos sexuais durante a viagem, ou como os escravos aproveitavam a travessia para tentar as suas revoltas.

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