“A internet tornou-se em pouco mais de 20 anos num novo normal”

"Um novo Mundo" é o título do primeiro capítulo do ensaio da autoria do jornalista e diretor do Shifter João Gabriel Ribeiro sobre a tecnologia e sobre as palavras e o seu efeito na nossa compreensão do que nos rodeia, que acompanhou o lançamento da edição #2 da Revista do Shifter.

[infobox title=’Prefácio’]Quando comecei a escrever o texto que segue nestas páginas, a ideia era de forma sucinta reflectir sobre o uso da expressão ‘inteligência artificial’ na redação dos artigos do Shifter, tentando estabelecer uma política editorial que evitasse o abuso desta expressão. Contudo, depressa esse desafio se revelou maior do que o previsto e a reflexão se espraiou pela diversidade de perspectivas e referências. Assim o texto foi assumindo uma forma mais longa do que previsto, e tornou-se numa espécie de ensaio que procura situar-nos nesta interessante questão. Através de uma contextualização do momento em que vivemos, e da revisão de alguns dos argumentos e ideias que pontuam este tópico desde a sua origem, procuro exprimir e sublinhar a importância deste debate. Um debate não só sobre a tecnologia mas sobre as palavras e o seu efeito na nossa compreensão do que nos rodeia. – João Gabriel Ribeiro[/infobox]

Vivemos tempos de grandes mudanças. Basta olhar para o princípio do século para perceber como o nosso dia-a-dia mudou. Ainda que o mundo a um olhar distante se assemelhe mais ou menos ao que conhecemos nessa altura, uma revolução microscópica assolou os pequenos comportamentos na sociedade portuguesa. Em 1965, Gordon More, fundador da Fairchild Semiconductors e co-fundador da Intel, previu que o número de transistores num circuito integrado de um dado tamanho duplicaria a cada ano da seguinte década, baixando o seu preço e aumentando exponencialmente a capacidade de processamento de informação por unidade de espaço de um computador, no sentido mais lato; em 1975 repetira a profecia mudando para dois os anos da equação. O descrito foi-se verificando sucessivamente e a ideia tornara-se lei no sentido simbólico, a Lei de Moore, alegadamente por sugestão inicial de um professor de uma universidade privada na Califórnia, Carver Mead, aceite por toda a indústria como um caminho a seguir.

Mais ou menos ao mesmo tempo, meados dos anos 1960, princípio da década seguinte, começava a trabalhar-se nos primeiros protocolos de interconexão. A história da internet não é linear e, tal como a internet, não é completamente centralizada, contudo, seguindo o eixo central é possível, em poucos momentos, contar os principais acontecimentos. Foi entre 1960 e 1980 que se deu a criação da maior parte dos métodos e processos que tornaram a internet possível. A pesquisa dividia-se entre os principais centros de investigação do mundo, nomeadamente de França e do Reino Unido, mas foi o projecto financiado pelo Departamento da Defesa dos Estados Unidos da América que assumiu a dianteira da pesquisa – mais concretamente, o braço conhecido como DARPA, Defense Advanced Research Projects Agency (Agência de Investigação em Projectos Avançados) no projecto que ficaria conhecido como ARPAnet. Mil novecentos e setenta e quatro foi o ano em que se começaram a registar os primeiros grandes avanços, como a documentação do Transmission Control Protocol (TCP) ou do Internet Protocol (IP) que ainda hoje são essenciais à navegação. Essa mudança de paradigma foi protagonizada por Bob Kahn, da DARPA, e Vint Cerf, da Universidade de Stanford, recrutado pelo primeiro para que cruzassem esforços das diferentes investigações, e contou com a inclusão de princípios do projecto Cyclades, levado a cabo em França. Poucos anos depois, em 1980, o projecto de criar uma rede que ligasse o mundo saía da alçada do Departamento de Defesa norte-americano e passava a estar sob liderança da Fundação Nacional para a Ciência, responsável por coordenar o acesso à NSFNET, uma rede baseada nos protocolos anteriormente definidos e de acesso restrito a universidades e outras instituições governamentais autorizadas. Os anos seguintes marcam a disseminação dos projectos pelo mundo, e a criação de projectos de investigação europeus, como o conduzido na Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN). Foi nesta instituição que Tim Berners-Lee, o conhecido cientista da computação britânico, deu o seu contributo para a fundação da World Wide Web. Em 1991, a NSFNET mudou a sua política permitindo o tráfego comercial nas suas redes num momento que viria a ser assinalado na capa da Business Week como a transição para uma economia baseada na Informação. Quatro anos mais tarde, em 1995, começaram a surgir os primeiros provedores de internet comerciais, não só nos Estados Unidos como um pouco por todo o mundo, e a partir daí a evolução da internet dá-se a uma velocidade estonteante. Em 1993 representava apenas 1% das comunicações bidirecionais de todo o mundo, ao passo que em 2000 esta quota já atingia os 51%, mostrando a penetração global deste novo meio de comunicação.

Nesse ano, 2000, Mark Howard Kryder propôs que a capacidade de armazenamento digital em disco duro ultrapassaria o ritmo evolutivo proposto por Moore para os processadores, e que a descida de preço acompanharia esta evolução, numa profecia que, tal como a Moore, subira ao estatuto simbólico de lei. Em 2019 percebeu-se que a Lei de Kryder não se aplica de facto, porque os preços não descem ao ritmo previsto. Uma curiosa refutação que nos lembra, desde logo, do papel do mercado nesta imensa construção.

Apesar do carácter simbólico e não empírico, o sentido apontado pelas profecias ditava que os aparelhos electrónicos se tornassem cada vez mais pequenos e mais capazes, quase simultaneamente.

Os computadores rapidamente passaram de uma possibilidade a uma banalidade, e os já então populares telemóveis, com um preço tradicionalmente mais acessível, democratizaram-se através de uma complexa segmentação. A internet tornou-se em pouco mais de 20 anos num novo normal. A proliferação de aparelhos tecnológicos dentro da casa das pessoas é uma evidência, ainda que altamente marcada por desigualdades sociais e promotora de exclusão a diversos níveis. Se é verdade que a evolução tecnológica, no seu sentido mais objectivo – de desenvolvimento de diferentes protocolos, métodos e aparelhos – é um processo interativo e com diversas nuances, foi a diminuição do preço que pagamos por um desses aparelhos com as tais capacidades digitais que universalizou o acesso a este novo mundo. Os smartphones surgem já intimamente ligados a um novo paradigma, como objectos de uma nova natureza no mundo. A natureza digital, a sociedade da informação. Portugal não foi excepção neste desenrolar dos acontecimentos. Com a ubiquidade de computadores, tablets ou smartphones, a internet tornou-se uma janela comum na casa da maioria dos portugueses como mostram os dados estatísticos: em 2019, 80,9% dos agregados familiares portugueses declararam ter acesso à internet em casa, 25 anos depois do lançamento da tecnologia em Portugal e apenas 19 depois da sua comercialização em massa.

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Podes encontrar o ensaio “Uma Questão de Inteligência” à venda na Loja Shifter, seguindo este link. O ensaio acompanha o tema da edição #2 da Revista do Shifter que também podes comprar, na sua versão PDF, aqui.

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  • O João Gabriel Ribeiro é Co-Fundador e Director do Shifter. Assume-se como auto-didacta obsessivo e procura as raízes de outros temas de interesse como design, tecnologia e novos media.

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