Killing in Thy Name: o regresso mini-documental dos Rage Against the Machine

Numa parceria com a coletividade The Ummah Chroma, os Rage Against the Machine produziram Killing in Thy Name, um mini-documentário onde um grupo de crianças e adolescentes é diretamente confrontado com a sua própria cor de pele e o privilégio inerente.

Poucas bandas deixaram uma pegada no panorama musical moderno como os californianos Rage Against the Machine. Nos anos 90, a banda de Zach de la Rocha, Tom Morello, Tim Commerford e Brad Wilk incendiou rádios e plateias com uma fusão então inovadora de punk e rap, fundidos sob uma filosofia de despertar um espírito de mudança revolucionária no peito dos seus ouvintes.

O meu primeiro encontro com a banda surgiu em 2009, quando saquei a demo do jogo Skate 2 para a minha há tanto avariada Playstation 3. Preso num parque de skate coberto de rampas, todo ele à minha disposição, sempre que a “Sleep Now in the Fire” explodia pelas colunas da minha televisãozeca, todo eu ficava elétrico, vivo, pronto para me mexer e fazer algo — partir algo, quiçá. 

Passados quatro anos, foi quando me sentei e ouvi o primeiro e auto-intitulado trabalho da banda, lançado em 1992. Poucos são os álbuns que ganham um lugar imediato nas prateleiras dos meus ouvidos, mas Rage Against the Machine lá se instalou confortavelmente ao fim de uma única passagem. Desde o momento em que as rimas e gritos de de la Rocha e a guitarra riscada de Morello me romperam os tímpanos, senti algo em mim mudar, embora tenha demorado um bocado a perceber exatamente o quê. 

Sim, eu achava todo o espírito revolucionário da banda fixe e energético, mas naquela fase algo/demasiado ingénua da minha vida, não fazia questão de perceber o que motivava de la Rocha a gritar coisas como

“What? The ‘land of the free’?

Whoever told you that is your enemy!”

Foi nos últimos dois anos que tomei real consciência do motor que moveu a banda ao longo de 30 anos muito conturbados, pautados por quatro álbuns, concertos caóticos, polémicas atrás de polémicas, roturas internas e reconciliações, a última destas que era para acontecer neste passado ano, quando a banda tinha confirmado a sua presença na edição de 2020 do festival de música Coachella (a reunião ao vivo não foi consumada por motivos evidentes).

Mesmo assim, pode-se dizer que foi em 2020 que a banda teve o seu ressurgimento, reaparecendo nos tops globais de música rock aquando do incremento público das manifestações anti-racismo desencadeadas pelas mortes de George Floyd e Breonna Taylor. Mas o grupo, sedento ainda por espalhar a sua mensagem numa das épocas que mais implora por ela, não se contentou com uma presença nominal em listas que, no fundo, nada dizem.

Numa parceria com a coletividade de artistas internacionais, The Ummah Chroma, os Rage Against the Machine produziram Killing in Thy Name, um mini-documentário onde um grupo de crianças e adolescentes é diretamente confrontado com a sua cor de pele e o privilégio inerente, o conceito de “branquitude” e a sua própria história. As imagens segmentam e intercalam-se com citações de ativistas negros e brancos que fizeram de tudo para consciencializar as incautas massas da desigualdade sistémica que assalta a vida de inúmeros negros e negras em solo americano, imagens de arquivo histórico e entrevistas da banda, com samples da música “Killing in the Name” a pautar cada um dos 15 minutos do trabalho. Além do conteúdo pertinentemente actual, o filme é um exercício técnico e visual a não perder.

Pode não ser correcto falar deste trabalho como “o documentário dos Rage Against the Machine”, sob pena de dar a entender um filme sobre a banda. Não é um doc de behind the scenes com a história do seu percurso musical, o momento em que se conheceram, por aí. Mas não deixa de ser um documentário pensado por uma banda que fez da sua luta contra a máquina a principal bandeira da sua actuação pública – que é como quem diz que, provavelmente, não haveria melhor espelho dos Rage Against The Machine do que um documentário centrado nas suas lutas por cumprir, com foco na verdade, acima de tudo. Porque “o racismo nunca deve ser ignorado, deve ser sempre confrontado”, como afirma Morello num dos momentos pivotais do filme.

O lema da obra: “lembrem-se, as crianças estão sempre à espreita.” Espreitem vocês também.

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  • Tem 24 anos, tirou o mestrado em Engenharia Informática e de Computadores e trabalha atualmente como engenheiro de dados. A sua real paixão reside nas artes, nomeadamente no cinema, literatura, e videojogos. Planeia eventualmente aventurar-se na área de cinema, mas até lá contenta-se a escrever sobre tudo aquilo que o inspira.

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