Os milhões que o Web Summit online vai receber de Portugal

Apesar de a edição deste ano se realizar totalmente online e de o impacto na cidade de Lisboa ser difícil de quantificar, o Web Summit vai receber na mesma 11 milhões do Governo e da Câmara de Lisboa.
Foto de Piaras Ó Mídheach/Web Summit via Flickr

Arranca esta semana mais uma edição do Web Summit, desta vez online. O certame tecnológico fixou-se em Lisboa em 2016 com um contrato de três anos, tendo a estadia do evento sendo prolongada por mais 10 anos em 2018. Em suma, existirá Web Summit em Lisboa até 2028 e, em caso de cancelamento de alguma das edições, a Connected Intelligence Limited (CIL), a empresa do irlandês Paddy Cosgrave que organiza o evento, terá 24,5 milhões a receber do Estado português.

O valor foi avançado pelo próprio Paddy Cosgrave numa entrevista ao Expresso. O empresário diz ainda que, em caso de cancelamento, o CIL teria de fechar a delegação que tem em Portugal e na qual emprega 250 pessoas, e que muitas das empresas portuguesas que trabalham no sector das tecnologias deixariam de existir no próximo ano. Paddy aponta ainda que vai fazer menos 25-30 milhões de euros em receitas este ano devido à digitalização do Web Summit e que, caso Portugal não quisesse o evento, levá-lo-ia para o sudoeste asiático, de onde recebeu propostas.

Os 24,5 milhões de que Paddy fala resultam dos custos que o Estado português, através de várias entidades, suporta em cada edição do Web Summit e que incluem o aluguer da FIL, um festival gastronómico, Wi-Fi, equipamentos de palco, várias recepções e uma campanha promocional, entre outros. Ao abrigo do contrato, a CIL tem direito a receber esse bolo como indemnização no caso de o país não garantir as condições de realização da conferência. No contrato assinado entre a CIL, a Câmara de Lisboa e o Ministério da Economia e da Transição Digital, citado pelo Expresso, existe uma cláusula para situações de “força maior” como “epidemias ou pandemias”, perante a qual é possível suspender as obrigações de ambas as partes. Ou seja, puxando essa cláusula excepcional seria possível a CIL não realizar a Web Summit e o Estado não ficar a dever absolutamente nada à empresa de Paddy Cosgrave.

Todavia, o Governo português e a Câmara de Lisboa não terão ido por esse caminho nas conversas com Paddy Cosgrave. Estimativas do Governo apontam um impacto de 300 milhões de euros anuais do Web Summit na cidade de Lisboa; já a Universidade do Minho, em 2017, estimou esse impacto em um terço, ou seja, em 105 milhões de euros. Sendo os efeitos de um evento online na economia local discutíveis e difíceis de quantificar, CDS e BE decidiram questionar o Governo e a Câmara de Lisboa sobre o porquê de não ter sido levantada a cláusula de força maior e/ou a outra cláusula que permite a CIL a pagar ao Estado no caso de não organizar o Web Summit dentro dos moldes acordados, bem como sobre o porquê da manutenção do pagamento anual de 11 milhões a Paddy.

Estes 11 milhões são o valor que, além do vale de 24,5 milhões, a CIL recebe de Costa e de Medina para organizar o Web Summit em Lisboa: 8 milhões são do Governo e 3 milhões são da Câmara de Lisboa, suportados pela taxa turística (devido à pandemia, as receitas da autarquia com esta taxa – que é de dois euros por dormida – terão sofrido uma quebra de 20 milhões). Feita a soma, ao longo dos 10 anos de Web Summit em Lisboa, a CIL vai receber do Estado português 110 milhões de euros mais 245 milhões em custos suportados, ou seja, um total de 355 milhões. Se as estimativas governamentais do impacto económico do evento estiverem correctas, trata-se de um bom investimento para Portugal.

Ainda assim, as declarações de Paddy Cosgrave à imprensa moldam um discurso de obrigação do Estado português em indemnizar e compensar. Ao jornal Público (paywall), o responsável alega que “todas as grandes conferências da Europa e dos EUA foram canceladas e, no entanto, mantiveram-se as contribuições estatais ou federais. Era nosso direito cancelar a Web Summit e manter todas as contribuições [públicas] previstas no contrato, porque não podemos ser responsabilizados pela pandemia”. E deixa, também nesta entrevista, a ameaça de se mudar para o sudoeste asiático. “Poderíamos ter recebido 25 milhões [24,5] de euros e ir embora.”

Paddy refere àquele jornal que a decisão de realizar o Web Summit online foi “colectiva” mas que contraria o “conselho dos advogados e dos contabilistas”, que esta vai ser a “edição mais cara de sempre” em comparação a não realizar o evento, que tem um “casamento de 10 anos” com o Estado português e que “nem tudo é financeiro”, motivo pelo qual se manteve em Portugal. Ainda assim, se é verdade que o Web Summit vai permanecer em Lisboa, a CIL irá expandir eventos para novos territórios. A empresa da Paddy já realiza a Collision em Toronto, no Canadá, a RISE no continente asiático, mais concretamente em Hong Kong, e em 2022 pretende criar um Web Summit no Brasil.

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  • Jornalista, adepto de cidades humanas e curioso por ideias que melhorem o país. Co-fundei o Shifter em 2013, sou desde 2020 coordenador do projecto editorial Lisboa Para Pessoas.

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