O que é ser anti-racista?

O termo não é novo, mas veio à tona porque foi preciso. Ser anti-racista é acreditar que o racismo é um problema de todos, e todos temos um papel a desempenhar para detê-lo.
Foto de Mike Von via Unsplash

“Numa sociedade racista, não basta não ser racista, temos de ser anti-racista.” A frase é da filósofa e activista norte-americana Angela Davis, figura símbolo da causa negra na década de 1960 nos Estados Unidos, e tem sido amplamente divulgada por ocasião do movimento global que se gerou em torno do assassinato de George Floyd.

O termo não é novo, mas veio à tona porque foi preciso. Porque os eventos dos últimos dias vieram sublinhar a ideia de que é preciso fazer mais para ajudar a combater o racismo. Mesmo quem se identifica como progressista, liberal e não-racista, tem falhado sistematicamente com a comunidade negra por não contribuir para o desmantelamento activo dos sistemas que resultaram na lista cada vez maior de mortes às mãos da brutalidade policial, encarceramento em massa e pobreza. A morte de George Floyd desencadeou um movimento no qual pessoas brancas e não-negras estão a ser confrontadas com a sua inação.

A noção de várias raças dentro da raça humana não existe na biologia, mas a forma como nos identificamos racialmente é tão poderosa que influenciou historicamente as nossas experiências e moldou as nossas vidas. O privilégio de uns está tão enraizado socialmente como o sofrimento de outros – as ideias racistas são consideradas normais, inquestionáveis nos media, na cultura, nos sistemas sociais e instituições. Ao longo dos tempos, as visões racistas justificaram o tratamento injusto e a opressão das pessoas negras. A história acumula relatos de escravidão, segregação, internamento.

Podemos ser levados a acreditar que o racismo está apenas contido em atitudes e ações individuais, mas as políticas racistas sistematizadas são o que mais contribui para a polarização neste tema. As escolhas individuais são prejudiciais, mas são as ideias racistas na política com a amplitude do seu impacto, que ameaçam a equidade dos nossos sistemas e a justiça das nossas instituições. Para criar uma sociedade igualitária, devemos comprometer-nos a fazer escolhas imparciais e a sermos anti-racistas em todos os aspectos da nossa vida.

O que é ser anti-racista?

Ser anti-racista é lutar contra o racismo. Um relatório do National Equity Project dos EUA ajuda-nos a navegar a definição. Mas para lá chegarmos, é importante discernirmos que tipos de racismo existem. Historicamente, o racismo assume várias formas e surge mais frequentemente acorrentado a pelo menos uma outra forma de reforçar ideias, comportamentos e políticas racistas.

Existe o racismo individual, que diz respeito às crenças, atitudes e ações de indivíduos que apoiam ou perpetuam o racismo de forma consciente e inconsciente. A narrativa cultural dos EUA sobre racismo concentra-se precisamente no racismo individual e falha em reconhecer o racismo sistémico. Acreditar na superioridade do branco, não contratar um negro pela cor da sua pele, ou contar uma piada racista são exemplos de racismo individual.

O racismo interpessoal ocorre, como o nome indica, entre indivíduos. Engloba expressões públicas de racismo, insultos, preconceitos ou palavras e ações de ódio.

O racismo institucional é aquele vivido dentro de uma organização – tratamentos discriminatórios, políticas injustas ou práticas tendenciosas, que gerem resultados desiguais, baseados na cor da pele, e que vão muito além do preconceito. Na maioria das vezes, essas políticas institucionais não mencionam nenhum grupo racial, mas têm a intenção implícita de criar vantagens. Por exemplo, um sistema escolar no qual os alunos negros são distribuídos pelas salas de aula mais movimentadas e pelas escolas com menos recursos.

O racismo estrutural é um sistema abrangente de preconceito racial entre instituições e sociedade. Esses sistemas concedem privilégios às pessoas brancas, que resultam em desvantagens para pessoas negras. O estereótipo do negro como criminoso nos filmes e séries é um exemplo paradigmático.

Ninguém nasce racista ou anti-racista; um e outro resultam das escolhas que fazemos. Ser anti-racista resulta de uma decisão consciente de fazer escolhas frequentes, consistentes e equitativas diariamente. Essas escolhas exigem autoconsciência e auto-reflexão contínuas ao longo da vida. Na ausência de fazermos escolhas anti-racistas, (in)conscientemente defendemos aspectos da supremacia branca, de uma cultura dominante branca e de instituições e sociedades desiguais. Ser racista ou anti-racista não é sobre quem somos; é sobre o que fazemos.

“Ser anti-racista é uma escolha radical face à história, exigindo uma reorientação radical da nossa consciência.” Ibram Kendi em How to be an Antiracist 

Quando escolhemos ser anti-racistas, tornamo-nos activamente conscientes sobre termos e noções como raça e racismo e tomamos ações para acabar com as desigualdades raciais nas nossas vidas diárias. Ser anti-racista é acreditar que o racismo é um problema de todos, e todos temos um papel a desempenhar para detê-lo.

Algumas referências

Mas o que acontecerá quando este ciclo de notícias terminar, quando os memes sobre justiça social deixarem de ser publicados e as declarações de inclusão e diversidade desaparecerem? O que vai acontecer depois deste momento de despertar do sono confortável do nosso privilégio por um protesto impossível de ignorar? Como é que podemos realmente criar um mundo anti-racista e nos livramos desta pandemia (a do racismo) e do sistema de supremacia branca?

Várixs escritorxs e activistxs estão a fazer chegar as suas importantes reflexões às redes sociais, para onde o protesto naturalmente se espalhou, tomando as proporções que hoje lhe conhecemos. O post acima linkado, da página de boas notícias GoodGoodGoodCo deixa uma reflexão interessante, baseada numa lista extensa de referências. Em baixo, Jen Winston, norte-americana e criativa do Instagram publicou outra, da perspectiva de uma mulher branca. O entendimento de quem vive nos Estados Unidos, e assiste, convive ou lida directamente com situações de racismo dá-nos uma visão mais ampla da questão, e permite-nos perceber mais concretamente o que por lá se passa agora. Mas não há um guia para resolver o racismo em 2020.

Apesar de tudo, a luta é antiga e até por isso devemos honrar a história e os recursos perspicazes, publicados ao longo do século passado por quem a viveu na pele. Pode parecer intimidante saber por onde começar, mas há várias formas de ajudar: através de doações, protesto, e, mais importante, de educação sobre como ser um melhor aliado nesta causa. As obras de ficção e não-ficção de autores negros foram costurando uma malha de dor, injustiça e ação que tanto entristece quanto inspira os leitores em direção ao progresso. Têm surgido várias listas de leitura um pouco por todo o mundo online e, felizmente, as pessoas parecem estar a levar a sério as recomendações e a missão de se educarem, porque os livros sobre a temática anti-racista subiram – e, em muitos casos, esgotaram temporariamente – em sites como a Amazon e outros revendedores online.

Além das leituras supra sugeridas, autores mencionados e posts linkados, também o Shifter escolheu a sua selecção de livros essenciais sobre o tema. Em When They Call You a Terrorist, as co-fundadoras do movimento Black Lives Matter, Patrisse Cullors e Asha Bandele, partilham um conjunto de memórias emocionantes e poderosas sobre o preconceito e a perseguição que muitos americanos negros vivem às mãos da lei. So You Want to Talk About Race de Ijeoma Oluo é para pessoas brancas e não-negras que sentem que não sabem como começar conversas sobre raça e racismo – um recurso generoso e valioso sobre como ser honesto e atencioso ao examinar não só o racismo no mundo, mas o papel do próprio branco nisso. Na sua coleção de ensaios e discursos Sister Outsider, a poeta e activista Audre Lorde iconicamente escreveu “A revolução não é um evento único.” Para entendermos aquilo a que estamos a assistir nas notícias, é importante entender como a história moldou este momento. Mencionando outros livros publicados por pensadoras e feministas negras há décadas, Audre mostra-nos como o mundo de 2020 em pouco mudou no que ao racismo diz respeito, mas dá-nos linguagem e contexto para que o possamos enfrentar com esperança. Terminamos com Be An Antiracist de Ibram X. Kendi, o autor mencionado no início do artigo, que, em vez de teorizar sobre como consertar o mundo com os nossos sistemas pré-existentes, usa o poder das memórias para reimaginar uma sociedade que, não estando livre do racismo, trabalha activamente para o erradicar. Kendi é, aliás, o autor da lista de leitura viral publicada no New York Times, que também é, obviamente, recomendada. Porque é um privilégio podermos educar-nos sobre racismo, em vez de o experienciarmos.

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  • A Rita Pinto é Editora-Chefe do Shifter. Estudou Jornalismo, Comunicação, Televisão e Cinema e está no Shifter desde o primeiro dia - passou pela SIC, pela Austrália, mas nunca se foi embora de verdade. Ajuda a pôr os pontos nos is e escreve sobre o mundo, sobretudo cultura e política.

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