Se houver 3ª Guerra Mundial, já tem uma identidade gráfica

Como é habitual no processo de definição da identidade gráfica de uma marca, todos os pormenores foram tidos em conta e carregam consigo uma carga simbólica para além do óbvio.
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Há sensivelmente 100 anos e num mundo claramente diferente daquilo que é agora estalava o primeiro grande conflito da era moderna, a Primeira Grande Guerra que pela força da sua abrangência geográfica se denominava mundial. Apesar da dispersão, os grupos de guerra baseados em alianças diplomáticas estavam bem definidos: de um lado, os Aliados e, do outro, os Impérios centrais. Esta divisão era firme e tácita mas não se revelava em mais do que pormenores algo que seria difícil de imaginar nos dias de hoje em que tudo tem uma marca.

Foi com essa ideia em mente que o estúdio de design independente, Animal, criou uma identidade gráfica para uma hipotética 3ª Guerra Mundial. O objectivo é, mais do que definir a estética de um eventual conflito futuro, chamar à atenção para o facto de hoje em dia qualquer guerra se passar muito além do campo de batalha, estendendo-se por outros domínios como a comunicação gráfica, essenciais para, por exemplo, recrutar soldados.

O exercício é ousado e procura explorar vectores de comunicação que pudessem realmente vir a ser utilizados em tempos e com propósitos de guerra, utilizando referências como Platão e Hitler para enquadramento estratégico. De Platão recupera-se a ideia de que se se conquistar um homem pela lógica se consegue mudar-lhe as ideias – a dimensão persuasiva da comunicação. Já de Hitler o estúdio repescou a teoria de que a capacidade de receber e perceber mensagens das massas é relativamente limitada, algo que implicou a simplificação do discurso gráfico utilizado.

“The receptivity of the masses is very limited, their intelligence is small, but their power of forgetting is enormous. In consequence of these facts, all effective propaganda must be limited to a very few points and must harp on these in slogans until the last member of the public understands what you want him to understand by your slogan.”

Adolf Hitler

Como é habitual no processo de definição da identidade gráfica de uma marca, todos os pormenores foram tidos em conta e carregam consigo uma carga simbólica para além do óbvio. Por exemplo, a fonte, é a Hiragino KAku StdN, descrita como bold e sem sentido porque a doutrinação deve ser “uma bela mentira”. Já a tipografia utilizada no corpo de texto, Calibri, segue a filosofia “guerra para todos”, daí a escolha tão óbvia e compreensiva.

Por agora, conhecem-se algumas peças do processo, mas o trabalho final deverá ser ainda mais abrangente na definição das linhas guias para a comunicação gráfica em tempos de guerra, algo que seria central à unificação do discurso dos intervenientes. O resultado final deverá ser publicado num livro com cerca de 400 páginas durante o ano de 2019.

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  • O João Gabriel Ribeiro é Co-Fundador e Director do Shifter. Assume-se como auto-didacta obsessivo e procura as raízes de outros temas de interesse como design, tecnologia e novos media.

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