O que é que sabes sobre o movimento Beast Coast?


A cidade de Nova Iorque pode ser vista como a Meca do Hip Hop. Berço dos primeiros profetas desta, espécie de, religião e primeiro local destinado ao seu culto, a cidade norte-americana goza até hoje de uma espécie de estatuto sagrado no panorama. O movimento Beast Coast

Desde o princípio, nos anos 1970, que um pouco por toda a Big Apple foram surgindo nomes capazes de marcar gerações e reinventar a arte. E se o borough de Bronx marcou o começo, Brooklyn impôs o ritmo de crescimento e expansão. Foi de lá que saíram alguns dos nomes maiores, capazes de ombrear com os primeiros profetas, como Notorious B.I.G., Ol’ Dirty Bastard, Jay Z ou Mos Def.

Contudo, na primeira década deste século, o espaço para o surgimento de novos talentos foi diminuindo com a aposta sistemática das editoras em nomes de retorno garantido. Com o circuito fechado e as majors sem arriscar, foi a Internet que permitiu a ressurreição do movimento, quebrando as velhas regras do mercado.

A facilidade de edição e divulgação possibilitou o hype espontâneo de novos artistas, sem a necessidade de cumprir com nada para além de serem “reais consigo próprios” e ter uma conta de YouTube. É assim que surge o movimento Beast Coast, e quem o diz são os próprios em entrevistas espalhadas pela web. Um conjunto de rappers e produtores, de alguma forma interligados entre si desde a juventude que se estabelecem no hip hop e atingem a ribalta.

Há quanto tempo não víamos algo assim? Com confiança, trabalho e uma dinâmica regional invejável, a mais recente demonstração de força da Beast Coast trouxe ao rap uma tremenda frescura, sempre com referência clara aos tempos dourados. Já se fazem comparações com alguns nomes do passado e Joey Bada$$ é exemplo. 

Fuck the Church and go blow your smoke
The new religion is here nigga named Beast Coast

Seria possível os membros do Beast Coast reunirem-se em torno do seu movimento, sob a concepção de um álbum ou mixtape? Eles não negam; contudo, o primeiro foco a curto-médio prazo serão as suas carreiras a solo. Como disse Joey Bada$$: “In Honor Of Pro STEEZ, we proceed.”

Pro Era (Capital Steez, Joey Bada$$, Cj Fly, Kirk Knight…)

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É em 2012 que vemos este conjunto de rappers sair do underground nova-iorquino. Através do single “Survival Tactics” com Capital Steez, Joey Bada$$ lançou o álbum 1999 para as bocas do mundo, levando a crítica a comparar o trabalho deste rapper de 17 anos com o de Nas, que, em 1994, aos 19 anos, lançou Illmatic, considerado um dos maiores clássicos de sempre de rap.

Contudo, os Pro Era sofrem um revés no final desse mesmo 2012, com o seu principal fundador, Steez, a suicidar-se, saltando do topo do edifício da Cinematic Music Group. Apesar da perda de um dos co-fundadores dos Pro Era e também do movimento Beast Coast, o foco e determinação do super grupo aumenta ainda mais.

Com cerca de 20 membros, entre MCs, produtores, DJs, fotógrafos, realizadores e designers, os Pro Era foram capazes de criar uma dinâmica e organização não muito comum num grupo de jovens músicos stoners com 18-24 anos.

À partida, o logo do grupo pode parecer associado ao nazismo; todavia, não esqueçamos que a cruz suástica é suposto ser um símbolo espiritual e não ofensivo, sagrado para culturas como a indiana, a hindu ou a budista.

Entre diversos trabalhos, destacamos o já referido 1999 de Bada$$, a mixtape Amerikkan Korruption de Steez ou o álbum B4.DA.$$, lançado no início deste ano, ao qual nem a filha do presidente dos EUA, Malia Obama, ficou indiferente.

Em 2016, será prestada devida homenagem a Steez com lançamento do álbum KING CAPITAL.

The Underachievers (AK e Issa Gold)

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Após assinar com a editora de Flying Lotus em 2012, seguiram-se três anos de ascensão, entre diversas mixtapes e digressões, quer pelos Estados Unidos, quer um pouco por toda a Europa. Os The Underachievers transformaram-se, assim, num dos nomes a ter em conta durante os próximos tempos.

As constantes referências a uma nova geração, a geração Indigo, focada na elevação espiritual e partilha de knowledge, com uma sonoridade caracterizada e “afinada” pelas experiências psicadélicas, trazem consigo uma frescura na forma como percepcionamos o uso de drogas na música.

Se, por um lado, temos uma perspectiva mais recreativa bem ao estilo banger, por outro, uma muito mais introspectiva na versão counscious deste duo. Com um state of mind muito próprio e um establishment muito vincado, osThe Underachievers acreditam que o a dualidade é realmente um critério, sendo o equilíbrio importante, não só na criação musical, mas em tudo na vida.

Durante o ano de 2014, juntaram-se aos Flatbush Zombies, dando origem aos Clockwork Indigo, numa clara referência ao filme de Stanley Kubrick, Clockwork Orange. O novo colectivo lançou um EP de 6 faixas, sendo que muitas outras ficaram na gaveta.

Apesar desta expontânea junção no último ano, a principal prioridade dos membros neste momento é continuar as suas carreiras enquanto grupos separados. Assim, dia 25 de Setembro, sai o álbum Evermoree: The Art Duality, com o carimbo dos The Underachievers.

Flatbush Zombies (Erick Arc Elliot, Juice e Meechy Darko)

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The Architect projectou os beats e os zombies nasceram. Em entrevista à Complex, Erick conta que conhece Meechy desde os 4 anos, pois cresceram no mesmo bairro, enquanto Juice conheceu-o no liceu, quando já todos de nutriam uma forte paixão pela música. A junção foi simples: Eric já produzia e, como passava muito tempo com Juice e Meechy, foi uma questão de tempo até estes artistas subirem à terra enquanto Flatbush Zombies. 

Meechy refere na mesma entrevista que não existiu um plano para tal, simplesmente era porreiro passar algum tempo com os amigos a fumar erva e a fazer música. Contudo neste processo criativo, apesar de natural, teve a participação do spiritual advisor do grupo e membro dos Madburry Club: Phillip T. Annand, envolvido em quase todos os videoclips e covers de mixtapes.

Além do projecto Clockwork Indigo, destacamos o álbum Better Off Dead, editado em 2013, como um dos melhores trabalhos dos Flatbush Zombies.

A$AP Mob (A$AP Rocky, A$AP Ferg, A$AP Yams…)

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Apesar do grupo A$AP Mob não constar neste tridente de forma directa, o buzz que A$AP Rocky e Joey Bada$$ atingiram abriu as portas a esta nova geração de rappers. Só em 2011/2012, Rocky lança uma série de singles que se tornaram hits, desde “Purple Swag”, “Peso”, “Goldie” ou “Fucking Problems (feat. Drake)”.

Por trás deste sucesso de A$AP Rocky, está A$AP Yams, fundador e mastermind da crew A$AP Mob. Ambicioso e crente nas suas ideias, incentivou não só o seu grupo a produzir, mas também outros rappers do movimento Beast Coast, com quais mantinha ligação desde a adolescência. Apesar do seu recente desaparecimento, o legado de A$AP Yams permanece.