O nosso lugar na história: conflito Rússia-Ucrânia

Por muita informação que consigamos recolher e relacionar, é difícil, se não impossível, percebermos ao ritmo exigido pelo presente um conflito desta magnitude e complexidade
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Ilustração de Shifter

A digitalização submergiu-nos por completo no mundo que nos rodeia. O nosso olhar já não se estende sobre um plano a perder de vista. Mediados por plataformas digitais onde a paisagem é feita de fracções e fragmentos da realidade, olhamos o mundo pelo pequeno visor do aparato que tanto garante essa imersão como o nosso isolamento. Estamos, quase todos, no mesmo sítio de sempre, mas mais perto do que nunca do sítio para onde olhamos.

A densidade da informação que constitui o mundo digital ilude-nos com uma falsa sensação não só de clarividência como de pertença. A história do mundo está na Wikipédia, a pluralidade de visões está na curadoria dos nossos feeds, e os créditos de cada um nas suas bios de Twitter. A história avança ao ritmo que a digerimos, mas o vício da contemporaneidade parece ser ruminar no presente  até já não sentirmos qualquer sabor reconhecível.

Enquanto mais um importante momento da história se discute nas fronteiras da Ucrânia, concentrando esforços diplomáticos de todo o mundo, obrigando a leituras da história para além dos horizontes próximos e a especulações  ideológicas em que se “escondem” particularidades culturais, insistimos em reduzir tudo à dicotomia habitual. Olhamos para o mundo com as mesmas lentes que olhamos para o país. Olhamos para a guerra com as mesmas lentes com que olhamos para a política do quotidiano. Uma visão fractal da realidade que faz mais pela nossa sensação de compreensão do que pela real apreensão dos fenómenos.

Se é certo que a história do século XX se fez, em parte, em torno da divisão entre dois blocos concorrentes, protagonistas de uma longuíssima guerra suspensa em que a tensão nunca pareceu desvanecer, a verdade é que a constituição desses blocos assumiu ao longo dos diversos anos diferentes configurações que dificultam a tentação de tentar encontrar uma saída linear para um conflito geopolítico.

A tensão entre um bloco expansionista e os seus vizinhos dissidentes é um fenómeno comum no ambiente geopolítico. A juntar a esta combinação, surge, geralmente, o apoio do bloco concorrente a essas dissidências, numa posição que pode ser por seu turno mais ou menos ameaçadora. O conflito entre esses dois ou mais blocos antagonistas disputa-se, geralmente, nessas franjas ou margens geográficas. E se, em traços largos, é isso que explica o momento da história que agora vivemos, são, também, esses traços largos que se compõem com uma vastidão de cores impossível de ignorar.

Nestes traços largos, é fácil perceber que a natureza do incómodo da Rússia se prende com a presença a Leste da Aliança do Atlântico Norte (NATO) e com a possibilidade de expansão desta aliança militar a países que lhe fazem fronteira, como a Ucrânia ou a Finlândia. Puxando a fita atrás na história da relação entre Ucrânia e NATO, percebe-se o crescimento da possibilidade desta adesão e da vontade popular estatisticamente auscultada. Essa vontade foi variando consoante os presidentes no poder e disparou depois da anexação da Crimeia, em 2014, que contribuiu para disseminar um sentimento patriótico e nacionalista entre os ucranianos.

Mais difícil de perceber são as várias cores com que se preenche esta ilustração. Começando desde logo pela diferença de estratégia assumida pelos blocos em confronto – Rússia e NATO; é neste ponto elementar reconhecer a estratégia de expansão da Aliança do Atlântico Norte e a forma como, a seu cobro, os Estados Unidos da América, a maior potência entre os membros integrantes da Aliança, expandem as suas fronteiras militares. Os países alinhados com a NATO servem quase sempre para a consolidação de bases militares e, neste caso, à medida que a fronteira se aproxima da Rússia a tensão, naturalmente, aumenta.

Para além desta dimensão geopolítica, acresce à confusão no local a história e as identidades culturais de cada país. Se nos últimos 20 anos as grandes fronteiras do mundo permaneceram mais ou menos intocadas, a sua aparente objectividade escondeu, regra geral, a composição plural dos povos que integram esses territórios delimitados e a força das soberanias que se procuram fundar numa identidade homogénea. Esse é um dos argumentos usados pelos russos nos últimos passos das suas investidas, nomeadamente na anexação da Crimeia.

Comecemos por aí. Em 2014, Viktor Yanukovych era o presidente da Ucrânia até que a chamada ‘Revolução de Maiden’ rebentou. Este momento, epílogo de um longo processo, foi espoletado pelo facto de Yanukovych ter recuado nas negociações para a adesão da Ucrânia à União Europeia, e pela concomitante aproximação à Rússia, e foi acicatado pelas denúncias de corrupção que recaíam sobre o presidente. Yanukovych acabou deposto e em exílio na Rússia, enquanto que para Putin a perda deste poder simbólico parece ter despertado para a necessidade de afirmar essa influência de outro modo – desta feita, não através de acordos diplomáticos mas de ocupação prática. Segundo as reportagens à data, fora Putin a dar ordem à anexação, enquanto paralelamente foi fulcral na retirada de Yanukovych do país. Este episódio, que já parece longínquo, viria a abrir uma nova frente de conflitos naquela zona do globo — olhando o mapa, percebemos que a província da Crimeia tem uma extensa fronteira marítima com o Mar Negro, e que as regiões no centro da disputa são todas elas junto ao mar de Azov. Isto não é coincidência e funda-se na história da formação de ambos os países, marcada por diversas configurações administrativas e políticas.

Assim, dado que o que hoje é a Ucrânia, fora outrora incluso no Império Russo e na própria União Soviética – parte dos territórios da actual Ucrânia foram praticamente ‘oferecidos’ em processos administrativos da URSS – a composição étnica da população em determinadas regiões adensa o conflito, impregnando-o na cultura local. Essa peculiaridade é, de resto, uma das pedras de toque dos Acordos de Minsk, acordo trilateral entre a Ucrânia, a Rússia e as regiões separatistas, em que se propôs (muito simplificadamente) que o governo central ucraniano reconhecesse uma série de direitos excecionais aos povos daquelas regiões – Lugansk e Donetsk –, nomeadamente o direito à autodeterminação linguística, à criação de milícias pelos parlamentos locais, e à cooperação. Direitos a que se somaram exigências do lado russo para que as auto-proclamadas Repúblicas Populares de Lugansk e Donetsk pudessem ser administrativamente responsáveis pela gestão das suas fronteiras.

Contudo, se os Acordos de Minsk pareceram uma via aberta para a paz, por preverem o cessar-fogo imediato, rapidamente a ambiguidade do tratado começou a dar lugar a desresponsabilizações e cedências. Por exemplo, do lado russo, diz-se que o facto de ter sido um Embaixador, Mikhail Zurabov a assinar o acordo significa que a Rússia o fez na condição de moderador, entre as repúblicas populares – não como entidades totalmente soberanas mas com autonomia consagrada pela descentralização do poder do governo de Kiev – e o governo ucraniano, e não como parte integrante e sujeita ao definido. Para além disso, especialistas internacionais argumentam que por terem sido assinados em momentos de fragilidade para a Ucrânia os acordos a prejudicam.

Os ‘Acordos de Minsk’ referem dois memorandos, assinados em Setembro de 2014 e Fevereiro de 2015, respetivamente, e tinham como objetivo principal pôr termo à guerra não declarada que decorria em território ucraniano, na região de Donbass. O primeiro acordo fora promovido pelo então presidente ucraniano, Porošenko – resumidamente, contrário à Rússia, favorável a uma integração europeia e promotor de um nacionalismo ucraniano. Já o segundo foi resultado das lacunas do primeiro, e teve a colaboração externa de Angela Merkel e François Hollande. Em suma, estes documentos estabeleceram limites militares como o cessar-fogo e a retirada de armas pesadas, regras sobre gestão de fronteiras, e até uma nova constituição ucraniana que reconhecesse as peculiaridades das regiões em causa, mas a sua implementação foi sempre a verdadeira luta diplomática.

Se os Acordos de Minsk previam o reconhecimento da legitimidade política das regiões, por um processo de descentralização política, propunha-se que as eleições na região de Donbass, para serem consideradas legítimas, decorressem apenas depois da retirada das tropas russas. Tal não aconteceu e, em 2018, a região foi a votos num processo altamente criticado pela Ucrânia e pelos EUA, que defenderam o boicote das eleições. Poroshenko – que viria a abandonar o poder um ano depois – dera as eleições como exemplo do carácter subversivo da estratégia russa. O sucessor, Zelenskyy, no poder atualmente, herdara assim uma das mais complexas questões geopolíticas dos últimos anos e, logo nos primeiros dias, veio dizer que não havia soluções fáceis para a região.

No recobro de todo este processo, com a subida ao poder de Zelenskyy, a vontade de entrar na NATO voltou acima da mesa. Numa emenda constitucional aprovada em Fevereiro de 2019, a Ucrânia sublinhava o seu compromisso com a integração na NATO e na União Europeia. E, com o recuperar do tema, a posição da Rússia, perante essa possibilidade voltou a agudizar-se. Resumidamente, como visto, Putin não quer que a NATO cresça para o seu lado, por muito que esta aliança se diga defensiva. Por outro lado, a NATO não quer que Putin ache que comanda os seus desígnios e faz questão de deixar em aberto a possibilidade de integração da Ucrânia. Numa cimeira da NATO, em Dezembro do ano passado, essa posição ficou expressa nas palavras do seu secretário-geral, Jens Stoltenberg “A Rússia não tem qualquer tipo de veto, não tem nada a dizer e não tem nenhum direito em estabelecer uma espiral de influência para tentar controlar os seus vizinhos”.

Recorde-se, neste ponto, que entre os “vizinhos” da Rússia apenas Estónia, Lituânia e Letónia fazem parte da NATO, ao contrário de Geórgia, Bielorrússia, Moldávia, Ucrânia, Cazaquistão, Suécia e Finlândia – ainda que, todas elas com posições bastante diferentes. O processo de integração da NATO é moroso e burocrático. Assim, geralmente divide-se em dois grandes momentos: a intensificação do diálogo e um plano de integração. Neste caso, Ucrânia e Geórgia são dois dos países que já demonstraram a sua vontade de fazer parte da NATO, ao passo que a Bósnia e Herzegovina (noutro ponto do globo, mas útil aqui para comparação do processo) está desde 2018 no processo de integração, pelo qual passaram, em várias rondas, os países de que depois da Guerra Fria se foram juntando ao pacto. Já a Suécia tem mantido a sua tradição de não-alinhamento formal com nenhum dos blocos, apesar de a proximidade à NATO, por via da União Europeia (e não só), a ter feito integrar exercícios conjuntos. Numa posição similar encontra-se a Finlândia, cujo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Pekka Haavisto, se pronunciou, entretanto, contra a chantagem russa.

Para Pekka Haavisto, a NATO deve manter a sua política de portas abertas e a Rússia não pode impedir os países vizinhos de se juntarem à aliança. Já para Zelenskyy, a integração da Ucrânia na Organização do Tratado do Atlântico Norte seria a única forma de acabar com a guerra na região de Donbass. Essa hipótese, contudo, não passa de uma suposição teórica, cuja possibilidade de se concretizar parece distante – até porque a NATO não inclui países envolvidos em conflitos ativos e sem passarem pelo mesmo processo por que agora passa a Geórgia.

É assim, neste complexo xadrez geopolítico, que se podem avaliar os movimentos possíveis das diversas peças, tendo em vista a de-escalada do conflito e a fuga à inevitabilidade da guerra – cenário temido por todos. Impossível descurar é a retórica recente do presidente Vladimir Putin que alude às fronteiras do Império Russo, negando a soberania real da Ucrânia, apontando a cedência de terrenos à Ucrânia por Estaline e a concessão da Crimeia por Khrushchev como ‘mais do que erros’, num discurso bastante revelador da sua visão do mundo.

Neste passa culpas da política internacional, é interessante observar a posição do Partido Comunista Russo que rejeita a guerra, mas acusa os Estados Unidos da América de serem os únicos que a querem, e de treinarem grupos fascistas para criarem bolsas de resistência nas republicas populares recentemente reconhecidas – uma posição que condensa a complexidade histórica a que aludimos no princípio desta reflexão. Nesse comunicado, Zyuganov relembra o facto de muitos dos habitantes da região de Donbass já terem nacionalidade russa e afirma que não é a Rússia que está a preparar uma guerra contra a Ucrânia, mas sim a Ucrânia que está a preparar uma guerra contra as Repúblicas Populares. Para além disso, introduz na equação o papel da Europa.

Para Zyuganov, os Estados Unidos da América usam a ‘cartada da Ucrânia’ para impor sanções à Rússia e dificultar a ligação económica entre o gigante de leste e a União Europeia – uma ligação que se materializa num dos maiores projectos de engenharia do século, o Nord Stream 2, o gasoduto entre a Rússia e a Alemanha, entretanto ‘congelado’ em reação ao reconhecimento da Rússia das Repúblicas Populares da região de Donbass.

Expresso: Alemanha “congela” o Nord Stream 2. O que significa isso para o abastecimento de gás da Europa?

De resto, essa posição em relação ao Nord Stream, um gasoduto que surge numa altura de apelos pela transição energética, é por si só bastante interessante do ponto de vista geopolítico, colhendo diferentes análises. Por um lado, há quem diga que aumenta a dependência europeia face à Rússia; por outro, há quem defende que essa dependência – mais uma interdependência, em função dos proveitos económicos que a Rússia vê na transação – dá algum poder à Europa para ter uma palavra a dizer.

Chegados a este ponto da história, algures próximo do que vivemos, permitam-me que volte ao ponto inicial que espoletou esta reflexão. Por muita informação que consigamos recolher e relacionar, é difícil, se não impossível, percebermos ao ritmo exigido pelo presente um conflito desta magnitude e complexidade. Se no ocidente pairou tantas vezes a ideia de que a história havia chegado ao fim, os ventos de leste mostram que essa hiper-racionalização do mundo é débil perante blocos com tanto poder – político e militar –, democracias tão recentes, e todo o património histórico que alimenta culturas e ideologias.

Prova disso é que enquanto editava este texto e o Conselho de Segurança da ONU se reunia, as tropas comandadas por Putin deram início a um movimento ofensivo inesperado, com bombardeamentos à capital da Ucrânia, Kiev que embora pudessem ser de algum modo expectáveis, não era previsivel que ocorrossem tão cedo.

A única certeza que podemos ter perante toda esta história é de que faltam dados que permitam aferir com exactidão quem deu o primeiro passo, quem agiu e quem reagiu, quem mais subverteu a moral, a de que cada parte defenderá a sua visão do mundo como se fosse a mais lógica – ou a única com lógica. E de que o nosso lugar na história não é mais do que um pequeno ponto numa teia muitíssimo complexa de relações, pelo que talvez a dicotomia e a polarização não sejam mais do que uma oportunidade perdida para sentir o sabor do nosso tempo. Por muito amargo que seja.

A informação que nos chega pode ser muita, as imagens e os vídeos podem parecer esclarecedores, mas só uma análise aprofundada e cuidada dos factos permitirá distinguir a realidade da propaganda, as declarações tácticas das genuínas, a estratégia do improviso, a ideologia da diplomacia.

P.S.: É importante assumir que, tal como me sugeriu um dos camaradas a quem pedi comentários sobre este artigo: quando terminamos uma síntese deste género apontando para a nossa impotência perante a complexidade dos factos revelamos sobretudo o nosso desconhecimento sobre o que se passa. Não o nego e aproveito este ponto para uma nota. Numa altura em que todos expressamos com a máxima força a mais pequena certeza, este é um exercício de partilha de dúvidas. Serve esta síntese dos acontecimentos para contextualizar mais e melhor quem foi apanhado de surpresa pelo conflito e despertar a curiosidade dos que acham que isto é algo ‘do outro lado do mundo’ e não para propôr uma visão única e definitiva sobre acontecimentos desta magnitude histórica.

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  • O João Gabriel Ribeiro é Co-Fundador e Director do Shifter. Assume-se como auto-didacta obsessivo e procura as raízes de outros temas de interesse como design, tecnologia e novos media.

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