Facebook Papers: as revelações que ameaçam Zuckerberg e o seu império

Os Facebook Papers relembram-nos a importância do jornalismo e de denunciantes como Frances Haugen, numa sociedade largamente influenciada por multinacionais tecnológicas.
15 minutos de leitura
Ilustração de Shifter

Nos últimos tempos, as gigantes tecnológicas como o Facebook têm perdido a sua aura de inovação milagrosa e têm passado a estar debaixo de olhar atento de reguladores e jornalistas. Depois de sucessivos processos e multas, muito se debate sobre as consequências provocadas no mundo por os impérios tecnológico. No último mês foi de Mark Zuckerberg a concentrar todas as atenções da imprensa e do público em geral. The Facebook Files é uma série do Wall Street Journal (WSJ), que podes encontrar por aqui e cujos “capítulos” têm vindo a ser progressivamente lançados por este jornal norte-americano desde o início de Outubro, revelando segredos escondidos da maior rede social do mundo, que podem comprometer o seu futuro.

Este trabalho do WSJ resulta de um conjunto de documentos obtidos internamente pela denunciante Frances Haugen, mas não é tudo o que se escreveu sobre a empresa de Sillicon Valley. Os Files são uma pequena parte dos Facebook Papers, um esforço que junta dezenas de jornalistas num consórcio e que integra outros meios além do do WSJ. Ao de cima, chegam-nos novas revelações sobre as práticas do Facebook, mas também denúncias de situações que já todos conhecíamos, incluindo a própria empresa, mas que nunca resolveu.

Assim, a empresa de Mark Zuckerberg volta a estar debaixo de fogo. Para o reputado jornalista Casey Newton, que integra com a sua newsletter Platformer o consórcio de jornalistas, o Facebook vive a maior crise desde a Cambridge Analytica. Já a CNN vai mais longe e escreve que se trata da “mais intensa e abrangente crise na história de 17 anos da empresa”, uma vez que o Facebook enfrenta pela primeira vez e ao mesmo tempo denunciantes, comunicação social e perguntas do Congresso.

Através dos Facebook Papers, percebemos como o Facebook coloca os seus interesses particulares, como o lucro, à frente do interesse público, não resolvendo questões importantes como a proliferação de desinformação ou o discurso de ódio nas suas plataformas, e como o que o Facebook diz publicamente nem sempre corresponde ao que a empresa faz internamente – e muitas vezes é o seu contrário.

Vamos por partes.

Frances Haugen: a denunciante do Facebook

The Facebook Files, composto por vários artigos e podcasts, resulta de um trabalho de análise de centenas de páginas de documentos fornecidos aos jornalistas por Frances Haugen. Ex-funcionária do Facebook, 37 anos, Frances Haugen identifica-se como denunciante e disse, numa entrevista ao programa 60 Minutes, que decidiu falar por entender que o Facebook não estava a levar a sério o seu impacto na sociedade, colocando o seu lucro à frente do bem comum e não fazendo o suficiente para combater o ódio, a violência e a desinformação.

“O que vi no Facebook vezes sem conta foram conflitos de interesse entre o que era bom para o interesse público e o que era bom para o Facebook. E o Facebook, repetidamente, escolheu optimizar os seus próprios interesses, como fazer mais dinheiro”, disse na mesma entrevista, citada pelo The Guardian. “A versão do Facebook que existe hoje está a dividir as nossas sociedades e a causar violência étnica em todo o mundo.”

Fotografia cortesia de Frances Haugen/DR

Com um currículo de mais de uma década no sector da tecnologia, passando por empresas como o Pinterest e a Google, Frances Haugen juntou-se ao Facebook em 2019 como gestora de produto numa equipa de integridade cívica, que trabalhava questões eleitorais a nível global. Frances diz que aceitou o emprego com a motivação de contribuir para a democracia e, em particular, para o combate à desinformação – um problema que lhe era pessoal, uma vez que havia perdido uma amizade importante para teorias conspirativas e nacionalistas.Uma coisa é estudar desinformação, outra é perder alguém para isso”, comentou numa entrevista ao WSJ.

Foi quando a equipa de integridade cívica do Facebook deixou de existir após as eleições norte-americanas de 2020, que Frances percebeu que a empresa de Zuckerberg não estava disposta a tomar as medidas necessárias para resolver problemas como a desinformação, embora tivesse as ferramentas para tal. Decidiu deixar a empresa em Maio deste ano, tendo antes preparado o leak que viria a entregar ao WSJ. Frances Haugen, que estará presente na edição 2021 do Web Summit, em Lisboa, chega a denunciante (ou whistleblower) com uma postura construtiva: ao WSJ disse que quer solucionar a maior das redes sociais através de uma mudança interna, não fazer-lhe mal. Numa mensagem que deixou na plataforma interna do Facebook, no momento de despedida, terá escrito: “Não odeio o Facebook. Adoro o Facebook. Quero salvá-lo.”

Tal como Snowden e outros whistleblowers, Frances não se encarregou ela mesma de divulgar os documentos internos que tinha retirado dos sistemas internos da empresa; entregou essa tarefa aos jornalistas do WSJ – o primeiro encontro terá sido com a repórter Jeff Horwitz pela primeira vez em Dezembro do ano passado, segundo conta o New York Times. Desde então, Frances tem trabalhado com os jornalistas no lançamento progressivo das informações que leakou do Facebook, segundo um calendário rigoroso. Esse trabalho é visível na página da série The Facebook Files, onde tem havido artigos e podcasts a sair sucessivamente, mas também nos outros meios de comunicação social que integram os Facebook Papers.

Dos Facebook Files aos Facebook Papers

“O Facebook sabe, em acutilante detalhe, que as suas plataformas estão repletas de falhas que causa danos, muitas vezes de maneiras que apenas a empresa entende perfeitamente. Esta é a conclusão central de uma série do Wall Street Journal, com base numa revisão de documentos internos do Facebook, incluindo relatórios de pesquisa, discussões online entre funcionários e rascunhos de apresentações para as chefias administrativas.

Repetidamente, mostram os documentos, investigadores do Facebook identificaram os efeitos nocivos das plataformas. Repetidamente, e apesar das audiências no Congresso, das próprias promessas e das denúncias na comunicação social, a empresa não os corrigia. Os documentos oferecem, talvez, a imagem mais clara até ao momento do quão amplamente conhecidos dentro da empresa são os problemas do Facebook, até pelo próprio director executivo.”

– Facebook Files

A introdução de The Facebook Files do WSJ não deixa margem para dúvidas: este trabalho jornalístico é sobre os mesmos problemas de sempre, aqueles temas que já estamos cansados de saber e que o Facebook aparentemente também conhece, mas não resolve. Mas também é sobre novas informações. Até ao momento, estão publicados 11 artigos, que podes ler aqui, e sete podcasts, que podes encontrar aqui.

Como referido, o trabalho The Facebook Files do WSJ é apenas uma ponta dos chamados Facebook Papers – o nome do conjunto de documentos internos do Facebook obtidos por Frances Haugen e entregues não só aos jornalistas de um consórcio (que integra o WSJ), como ao Congresso norte-americano, com quem Frances decidiu desde logo colaborar.

Numa declaração perante o Comité do Senado para o Comércio, Ciência e Transporte, a 5 de Outubro, Frances Haugen disse que o Facebook precisa de assumir “falência moral”, admitindo que tem um problema e que precisa de ajuda para resolvê-lo. “O Facebook está preso em um ciclo de feedback do qual não consegue sair. Precisam de admitir que fizeram algo errado e que precisam de ajuda para resolver os problemas. E isso é a falência moral.”

Se foi ao programa 60 Minutes da CBS News que deu a primeira entrevista e ao WSJ que primeiro começou a lançar os Facebook Papers, este gigante leak de documentos internos de uma das mais poderosas empresas do nosso tempo tem sido tratado por um consórcio de jornalistas, envolvendo 16 órgãos de comunicação social: Associated Press, Reuters, The New York Times, The Washington Post, CNN, NBC News, CBS News, USA Today, Financial Times, The Atlantic, FOX Business, NPR, Bloomberg, Politico, Wired e ainda o Platformer, newsletter do jornalista Casey Newton (The Verge).

O que dizem os documentos?

Deixamos-te uma síntese do que, à data deste artigo, os Facebook Files e os Facebook Papers trouxeram de novo, bem como sugestões directas de leituras para que possas aprofundar cada um dos pontos:

Outras sugestões de leitura:

Os Facebook Papers começaram a ser publicados pelo consórcio nesta segunda-feira. O volume de artigos tem sido tal que o Protocol decidiu fazer aqui uma compilação do que saiu. Se falhámos algum artigo nesta lista ou tens alguma nova sugestão de leitura, escreve-nos para marioandre@shifter.pt ou fala no Telegram.

Dos EUA até Londres (e até Lisboa), e a resposta do Facebook

Frances Haugen, com a sua equipa de advogados, não se limitou a facultar os documentos que obteve do Facebook aos jornalistas do WSJ e do restante consórcio. Entregou-os à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC, na sigla norte-americana), a agência federal de regulação e supervisão dos mercados financeiros, semelhante à portuguesa Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). A queixa que Frances apresentou à SEC – que trata de empresas cotadas em bolsa como é o caso da de Mark Zuckerberg – era uma das poucas opções que tinha, dado o limbo regulatório em que o Facebook actua.

No dia 5 de Outubro, Frances Haugen testemunhou no Congresso norte-americano, perante o Comité do Senado para Ciência e Transporte Comissão de Comércio, Ciência e Transporte. Esta segunda-feira, 25 de Outubro, falou no Parlamento britânico. Dia 1 de Novembro, estará num evento mais popular: na abertura do Web Summit, em Lisboa, que terá transmissão gratuita através do canal de YouTube do evento.

O Facebook não ficou calado perante as denúncias de Frances Haugen, os Facebook Files ou os Facebook Papers. Numa thread no Twitter através da sua conta de relações públicas, a empresa escreveu que os artigos que têm sido publicados pela comunicação social resultam de um “cronograma estabelecido por uma equipa de relações públicas que trabalhou nos documentos previamente” e que essa “selecção curada de milhões de documentos sobre o Facebook não pode de forma alguma ser usada para tirar conclusões justas”. Na mesma mensagem, publicada a 18 de Outubro e assinada por John Pinette, vice-presidente de comunicações da empresa, acrescentou: “Às organizações que notícias que gostariam de ir além de uma campanha ‘gotcha’ orquestrada, estamos disponíveis para falar com substância.”

Já internamente, também houve reacções do Facebook. Numa mensagem obtida pelo Axios, Nick Clegg, vice-presidente dos assuntos globais, avisou os funcionários: “Precisamos nos preparar para mais manchetes más nos próximos dias, estou com medo.” Nick advertia, na mesma mensagem interna, que a cobertura presente ou futura da comunicação social poderia “conter caracterizações erróneas das nossas investigações, dos nossos motivos e das nossas prioridades” e que devemos “ouvir e aprender com as críticas quando estas forem justas e reagir com veemência quando forem”. “Mas, acima de tudo”, disse ainda às equipas do Facebook, “devemos manter nossas cabeças erguidas e fazer o trabalho que temos feito até aqui”.

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  • Jornalista, adepto de cidades humanas e curioso por ideias que melhorem o país. Co-fundei o Shifter em 2013, sou desde 2020 coordenador do projecto editorial Lisboa Para Pessoas.

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