Leituras de Agosto: o que andamos a ler no Shifter

Reunimos algumas sugestões de leitura de colaboradores habituais do Shifter.

Seja porque o trabalho abranda e o tempo assim o permite, as tardes entediantes de calor pedem algo para a imaginação ou queres aproveitar a silly season para ter espaço mental para outras histórias mais complexas, Agosto é, por hábito, mês de pôr as leituras em dia. Para os colaboradores do Shifter também, por isso, reunimos algumas sugestões do que andamos internamente a ler — uma mistura entre novas obras, novas traduções e clássicos, ensaios, romances e outros estilos literários.

Sinta-se Livre, Zadie Smith (Rita Pinto)

Sinta-se Livre é a segunda coletânea de ensaios da escritora britânica de 45 anos, lançada em 2018, mas editada pela Dom Quixote em maio deste ano. Para Pedro Mexia, “em ‘Sinta-se Livre’, Zadie Smith trata o ensaio de forma novelística”, misturando textos inéditos e ensaios que já são considerados clássicos, publicados na “New Yorker”, na “New York Review of Books” e na “Harper’s”. A obra está dividida em cinco partes – No Mundo, Entre o Público, Na Galeria, Na Estante e Sinta-Se Livre -, e nenhum assunto é demasiado mainstream ou à margem para Zadie Smith. Das redes sociais às alterações climáticas, passando pela era Trump, o racismo e o surgimento do movimento Black Lives Matter, a autora mergulha em questões que tão bem conhecemos, ao mesmo tempo que nos leva numa viagem pelo mundo da literatura – visitando a obra de Philip Roth, Knausgård, Ballard, Javier Marías, H. G. Wells e tantos outros -, do cinema, da arte e da música – de Billie Holiday a Jay-Z.

Há ironia, sinceridade e uma inteligência mordaz que tornam Sinta-se Livre na companhia perfeita para este Verão ou qualquer outra estação de qualquer outro ano — mas as histórias soltas com resolução entre mergulhos resultam muito bem para os próximos meses. Sinta-se Livre é mesmo jornalismo literário no seu melhor.

Klara e o Sol, Kazuo Ishiguro (João Ribeiro)

Se a escrita de Kazuo Ishiguro já colhia diversos elogios e se tornava motivo de expectativa e interesse, a história central de Klara and the Sun (Klara e o Sol) foi o pretexto certo para a leitura do escritor britânico nascido em Nagasaki. Em Klara and the Sun vemos o mundo pelos olhos de Klara, uma amiga artificial que vai partilhando connosco o exercício de descoberta do mundo, que começa para si na loja onde está à venda. É através da perspectiva de Klara, e da forma como vai partilhando as suas percepções do mundo, que Ishiguro explora as grandes mudanças a que assistimos. Sem o fazer de um modo óbvio ou gratuito, este livro espoleta grandes questões sobre o universo da inteligência artificial, estimulando-nos, simultaneamente, a questionar a nossa forma de perceber o que nos rodeia. Tudo isto escrito de um modo muito simples mas cativante.

Esse Sangue Não É de Menstruação, Mas de Transfobia, Maria Lucas (Carolina Franco)

Maria Lucas abre o prefácio com um aviso: o seu corpo – corpa – em transmutação é, simbolicamente, todo ouvidos num mundo que se ergue com bases altamente transfóbicas. É pelos ouvidos que lhe entram os comentários, as palavras-lâmina de pessoas cisgénero que não compreendem (ou não querem compreender) o seu caminho, que questionam a legitimidade da sua existência. “Esse Sangue Não é de Menstruação mas de Transfobia” é um pequeno livro que deve ser lido também com espaço para a escuta, com ouvidos abertos e sem abrir a boca para falar. As páginas de papel são o lugar de fala de Maria, demarcado pelas suas palavras; um dia na sua vida que se lê num sopro e que nos deixa sem chão. “Você inventa transfobia da sua cabeça para escrever textos e ganhar prêmios, não queremos participar dessa mentira: eu chamo a isso de caô académico”, dizem sobre Ela, em confronto. “Olha para mim! Eu sou Ela e sou gente!”, diz Ela reclamando a dignidade que constantemente lhe querem arrancar.

Editado este ano pela Urutau, “Esse Sangue Não é de Menstruação mas de Transfobia” é uma passagem na vida d’Ela que, se estivermos dispostos, nos dará a ver e a sentir o peso da transfobia no Brasil, até nos meios que à partida seriam mais inclusivos. Um registo poético da vida em transição.

Duna, Frank Herbert (Duarte Cabral)

Eu sou um tipo simples: com o calor, chega-me uma predisposição infeciosa para a Fantasia ou a Ficção Científica, uma leitura relaxada por mundos e universos imaginados que ganhem o seu quê de real através do mero cheiro e toque das páginas dum livro. Este verão não foi diferente. Decidi então que, com o advento da sua mais recente adaptação cinematográfica pelas mãos de Denis Villeneuve, e tendo já passado uns valentes quatro anos desde a minha leitura original, era mais que tempo de retirar Duna da estante, sentir-lhe o aroma das páginas já amarelecidas, e mergulhar novamente naquela que possivelmente é a obra de ficção científica mais celebrada da história. 

Tal como pela primeira vez, fui abalado pela qualidade dramática que Herbert consegue extrair de toda a intriga política, senti-me afogado pela dantesca densidade da sua mitologia, vi-me cativado pelas suas várias personagens e desenvolvimentos inesperados da trama. O que não me recordava, talvez pela ingenuidade/ignorância dos meus 20 aninhos da altura, era a determinação com que Duna se declarava como um manifesto ambiental sóbrio e penetrante, cuja tese só foi ganhando peso com o passar dos seus quase 56 anos de idade. Um livro antigo que se faz moderno, intemporal, essencial.

Manual para Mulheres de Limpeza, Lucia Berlin (Alexandre Couto)

Há muitos motivos para ler este livro. A prosa económica e cristalina da Lucian Berlin é um dos melhores. Retrata-nos os dilemas da classe trabalhadora americana em sítios tão banais como lavandarias automáticas e hospitais. O colorido rico de sentimentos e emoções que encontramos seria outro. Só que esses não foram os motivos pelos quais escolhi recomendá-lo. Acredito que a empatia sempre foi importante, mas um espírito inter-classe capaz de aproximar pessoas com interesses radicalmente diferentes começa a tornar-se urgente. Afinal, vivemos separados por núcleos de interesses específicos, fragmentados brutalmente por redes sociais e outros agregadores digitais. É bom estar a par das lutas dos outros — até nos podem ajudar a ligarmo-nos com as nossas.

99% Invisible City, Roman Mars e Kurt Kohlstedt (Edgar Almeida)

Este livro (filho do podcast 99% invisible) é um leve dicionário ilustrado sobre o mundo escondido das cidades onde vivemos. Apesar de ser escrito a partir da América muitos dos pontos que aborda verificam-se um pouco por todo o mundo. 

Um livro oportuno agora que a vacinação começa a debelar a pandemia e a permitir-nos sair mais e mais de casa, este livro é um excelente guia para nos abrir os olhos para tantos pormenores que ignoramos e dar uma sensação de redescoberta a esta fase em que se pode flanar pela urbe sem culpas. Há outra lição a retirar sobre as virtudes dos anacronismos, mas isso ficará para cada um a descobrir por si próprio.

PS: Outro livro que cheira a férias e a algo mais é a antologia “Querosene” da Chili com Carne. Banda-desenhada com impulsos pirómanos casa bem com altura do ano em que por costume regressamos às terrinhas que nos pariram.

Sitopia: How Food Can Save the World, Carolyne Steel (Helena Trigueiro)

Sitopia é o termo que Carolyn Steel nos apresenta para exprimir a sinergia entre sitos (σίτος, a parte mais comum das refeições, o grão) e a utopia. É um termo que descreve bem o papel integral, ainda que discreto, da comida na sociedade.

Aquilo que Carolyn Steel faz é pensar nas várias esferas em que o Homem atua (casa, cidade, sociedade, etc) e descrever como a comida as influencia, sem grandes dogmas nem promessas. Apesar da capa do livro vender a maior promessa alimentar “how food can save the world”, esta ideia vai sendo contrabalançada com uma boa dose de realismo, que nos vai guiando pela roupagem histórica e sociológica com que a autora nos apresenta o contexto alimentar de que vivemos. Este é um livro para quem quiser (re)pensar a comida e o seu papel vital, que é urgente proteger.  

Humanidade: Uma História de Esperança, Rutger Bregman (Pedro Caldeira) 

Não me considero fatalista mas desde o início da pandemia que me tenho sentido gradualmente menos esperançoso pelo futuro no nosso pequeno planeta azul. O facto de ler livros que acabam por corroborar a minha visão distópica do mundo, não ajuda e no mês passado senti que tinha de ler algo que me desse alguma esperança. 

Eis então que encontrei uma solução. Peguei no livro mais recente do historiador holandês Rutger Bregman, Humanidade: Uma História de esperança. Neste livro, o autor procura desmistificar algo que nos incutem desde sempre: que o Ser Humano, por natureza, é mau e ganancioso. Através de uma linguagem muito acessível e com exemplos práticos e relevantes, Bregman leva-nos a cada canto do mundo para demonstrar que somos, na  verdade, bons. 

Ao ler este livro sinto que restaurei grande parte da minha esperança na Humanidade e ganhei uma nova visão sob a nossa sociedade. É definitivamente digno de se ler! 

Comece Pelo Porquê, Simon Sinek (Miguel Melo)

Eu sei, é mais um livro sobre negócios que procura ser inspirador e fazer-nos acreditar que tudo é possível. Em geral sou bastante crítico em relação a livros que expõem a “fórmula secreta” de sucesso. Este livro não é diferente, e também tenho as minhas críticas, mas tenho que o recomendar a todas as pessoas que, como eu, estão a passar por uma mudança profissional. Não lhe vou chamar um livro de auto-ajuda, mas até podia ser.

O autor, Simon Sinek, explica porque é que perguntar “porquê?” é importante nas organizações de pessoas. A sua formação é em Antropologia e tem uma história em Marketing. Para além dos exemplos das empresas exemplo, Microsoft e Apple, também usa o exemplo do movimento dos direitos civis de Martin Luther King e até, imagine-se, a Força Aérea dos Estados Unidos. É uma boa síntese histórica dos exemplos organizacionais de relevância que não se medem só com dinheiro.

Recomendado para quem gosta de ciências sociais e economia. Como disse antes, a mim está-me a ajudar a reconsiderar prioridades profissionais e pessoais.

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