Medir a temperatura à nova poesia

A livraria Poetria propõe-nos a Fresca como uma coleção, um grupo, uma instituição que se promove a si própria como eixo central da cultura, desde a cidade do Porto.

Editada pela livraria Poetria, no Porto, a coleção de poesia Fresca tem procurado dar voz a novos autores. Parte desta novidade passa pela afirmação desses autores, muitos deles ativos noutras esferas e disciplinas, como poetas. Publicá-los é valorizar a poesia enquanto prática artística com um legado indiscutível de irreverência e poder de transformação.

Numa altura em que as livrarias reabrem, o impedimento decretado pelo estado de emergência veio “condenar e menosprezar os editores que não conseguem ou não querem entrar nos canais de distribuição massiva de bestsellers, os mesmos canais que lhes impõem condições de comercialização a que não podem estar sujeitos” defendia em comunicado a  Rede de Livrarias Independentes no dia 16 de fevereiro. 

Tem sido raro encontrar em Portugal poetas profissionais, cuja prática consubstancie os rendimentos necessários à manutenção de uma vida. Um suposto desinteresse do público pela poesia leva muitos dos autores ao anonimato. A poesia é uma prática que participa no quotidiano, em experiências subjetivas e universais. E isso é o mais importante num projeto como a Fresca, tornar visível o que se faz, documentar alguns dos nossos nomes e gestos.

Os artistas são poetas e vice-versa, por vezes dotados de uma largura de páginas, de diplomas ou tinteiros amigáveis, seres capazes de firmar uma linguagem própria. As palavras cá estão e dois livros desta coleção chegaram-me às mãos, Merda Para as Musas de João Coles e As Mãos Vagas de Hermes. Interessa-me esse jogo entre disciplinas, como ao mudar de ângulo podemos encontrar na mesma pessoa um poeta, um jornalista, um fotógrafo, um trabalhador da indústria, um artista. 

Muita da literatura que hoje se publica está sujeita a um ritmo alucinante de novidades. Por isso, há que saber pensá-la na sua diversidade de tradições e ramificações estilísticas, tentar compreender que meio é este e o que é que nos interessa verdadeiramente. Aí reside o essencial do trabalho de qualquer crítico, editor ou leitor. Uma outra coleção de “nova poesia” que me tem surpreendido é a da Porto Editora, Elogio da Sombra, com curadoria do escritor Valter Hugo Mãe. Em ambos os projetos se percebe que estes “novos autores” são muitas vezes velhos – pelo menos no meu entendimento – se tivermos em conta a sua idade. 

Uma das particularidades destes dois projetos, com catálogos e autores distintos, é que propõem um olhar sobre a obra de artistas que não associamos em primeira instância à poesia ou à literatura, mas que também centram a sua obra na palavra. É o caso de Adolfo Luxúria Canibal, músico, ou Fernando Lemos, fotógrafo e pintor, mas também de Coles e Hermes, fotógrafo e artista, respetivamente, pertencentes a uma geração mais nova. 

Neste ponto, talvez a concepção do valor de uma obra coincida com a premiação de Bob Dylan com o Prémio Nobel, Chico Buarque com o Prémio Camões. Nestes autores a qualidade literária parece ser algo que se revela à posteriori e, ainda assim, merecem lugar de destaque. Além de músicos, tornam-se autores publicados, estudados e lidos por um público cada vez mais vasto, deixando-se envolver pela sensação de uma espécie de novidade ou frescura que se sente com a sua entrada no mundo da literatura numa fase de consolidação do seu estilo e de maturidade.

Mais do que cursos de escrita criativa, cursos universitários (alguns extremamente caros), sucesso em programas de rádio ou televisão, para um autor chegar a uma chancela de qualidade é necessário que ele se ocupe do seu trabalho e o desenvolva até um ponto em que ele, naturalmente, chegue às mãos de uma revista, um editor, um projeto, uma substituição, uma sociedade secreta, um grupo literário, algo exterior a si que possa avalia-lo de forma independente ou, por outro lado, um processo coletivo no qual ele participe ativamente.

Está provado que em Portugal esta oportunidade, ou a falta dela, é uma questão geracional. Uma geração de escritores acaba por formar a sua editora, por publicar numa certa revista, coleção ou plataforma comum. Alguns dos autores da Fresca, por exemplo, publicam também no site Enfermaria 6. A atividade de uma editora passa, não só, por operar neste lugar difícil de exposição, espetáculo, grupos e influências, mas também por pegar no que está por fazer, reedições, traduções, enveredar por catálogos originais e inovadores, exigir-se qualidade tendo consciência do seu papel e do lugar que se propõe ocupar no meio. E em todo este processo as livrarias independentes são uma peça fundamental para que o trabalho que é desenvolvido, tanto pelos autores como pelos editores, conte com um lugar para se tornar público e chegar aos leitores.

Alguns problemas parecem surgir quando se tem de escolher um entre inúmeros manuscritos recebidos, mediar egos em disputa – como em qualquer área humana – e lidar com uma noção de novidade que é, ela própria, estéril. Muito pouco do que se faz hoje é verdadeiramente novo, menos ainda quando pressentimos o cheiro a engano e apropriação que é regra nas principais superfícies comerciais e expositores. A novidade é, aí, estabelecida por um critério monetário, em suma, é novo aquilo que paga para ser novo, ter lugar no expositor, publicidade nos principais meios de comunicação, alguns referentes internacionais, frases elogiosas a condizer com as cores vivas da capa e, no atual contexto, ponto de venda nas grandes superfícies comerciais.

Os novos autores que publicam com trinta, quarenta anos, são simplesmente novos autores e não uma espécie de Rimbaud fantástico que floresce jovem e vai morrer num país distante. As obras publicadas parecem acumular-se numa torrencial de novidades. O mito Rimbaud assombra, ainda, muitos autores que pretendem começar a publicar cedo o seu livro, como que embutidos de uma ansiedade precoce. Há um motor de onanismo na base de muitas das coleções hoje organizadas, que se centram em novos autores, na nova poesia, na nova corrente estética ou no novo filão de vendas.

É sobretudo o excesso de autores com ânsias de ter obra publicada, aliado à cumplicidade de marcas que lucram através desse processo, que faz a abundância do mercado. A desvalorização das obras num curto período temporal leva, muitas vezes, à existência de excedentes que acabam por ser destruídos (como noticiado recentemente pelo jornal Público).

Esta vontade de novidade e celebridade, operada através do livro, poderá ajudar a uma melhor compreensão da natureza do meio editorial e das várias perspectivas que nele colidem. Mas não tomo o todo pela parte. Trato os dois livros da Fresca como uma amostra que não substitui a leitura dos restantes para elaborar considerações possivelmente mais abrangentes e definitivas sobre a literatura de hoje e as obras de poesia que vêm sendo publicadas.

Volto a olhar para os poemas de Coles e Hermes como para a cauda amputada a uma lagartixa: possuem vida ainda que separados do todo que é a coleção Fresca e dessa entidade abstrata a que se chama de “nova poesia”. Cada um deixa a sua marca individual, distinguindo-se dos restantes, do conjunto da coleção e do projeto que ela propõe.

merda para as musas

enchem-nos a cabeça de nuvens

e o estômago de sol

Assim começa o poema que dá título ao livro de Coles. O tom usado poderá denunciar o obsoleto de certa tendência que procura na poesia o belo através da rima, do floreio de linguagem, do reminiscente épico, ou da obsessão de contar estórias. Para que o poema se afirme a si próprio e à sua tradição, terá primeiro de renegar possíveis afinidades, da Arcádia ao bucólico e ao tão comum pastiche. O lugar da poesia é, aqui o da sujidade, da paisagem urbana, do amor improvável e do inevitável Bukowski.

sempre soube que os deuses me castigariam 

com uma mulher francesa

parisiense

ainda por cima

Aqui, Coles volta a falar de amor, não através do clichê romântico, mas operando a sua desconstrução com estes versos que se repetem ao longo de um poema fluído. Se o livro começa por se afastar de um posicionamento idílico, sugeridos pelas musas, aponta agora para um entendimento da paixão que firma a sua aparição em tradições pouco habituais, fora dos circuitos da lamechice e do estereótipo amoroso.

tomar o gosto da memória salubre

em sono sincero de gato

Hermes, por outro lado, surge mais preocupado com o lugar da poesia enquanto memória e objeto para a leitura de um certo tempo (tempo este que pode durar para sempre ou, pelo menos, até ao Fim da História). Fá-lo através de passagens ternurentas quando comparado com Coles. Alguns dos seus versos remetem para o próprio encontro com a leitura e a palavra escrita, por exemplo, ao lado de um gato que dorme.

e quando a terra tremer velejante

saberei então a fama do poeta

Entre o microcosmo sob olhar de um leitor e as consequências universais sugeridas nesta passagem, talvez se situe a mais importante poesia. Do acontecimento ínfimo, quase microscópico, ao tremer da terra que, séculos depois, provoca a palavra do poeta. Quanto à fama, reside na maioria dos casos em preservar-se um nome, alguns traços de uma vida ou de um carácter, o que não é pouco. 

Talvez devido a uma afinidade pessoal, reconheço António José Forte na poesia que se fez nas últimas décadas, parece-me nítido que uma geração de novos poetas voltou a pegar nele e a encontrar na sua poesia alguma influência, uma força de irredutibilidade que atravessa as paisagens diárias para se assumir como algo fora do tempo e desse quotidiano, onde se viria a inscrever muita da poesia do nosso século.

No prefácio de Uma Faca nos Dentes, escrevia Herberto Hélder que a verdadeira poesia «possui apenas a sua tradição(…) imemorial, dinâmica, abrindo para trás e para diante». Escrever bem significa, neste sentido, servir-se de uma tradição, ter a habilidade de a moldar de acordo com um projeto individual. A ideia de um talento literário está, aqui, distante dessa conceção de novidade. Esse talento será apenas alcançável através de um trabalho prolongado de estudo e experimentação. 

Tenho aprendido a entender a historiografia como uma prática crítica, que coloca questões aos documentos, aos acontecimentos e às narrativas dominantes. Olhando-se com um certo distanciamento a quantidade de livros que têm sido publicados será percetível essa obsessão pela novidade de que falo. Talvez se trate de um sintoma de alguns dos mais básicos mecanismos do capitalismo: a metanarrativa do produto/consumo que aceitamos, muitas vezes sem a reconhecermos conscientemente, ou simplesmente o mercado livre a funcionar. O problema é que grande parte daquilo que se afirma hoje como novo acaba por cair na crença ingénua de estar a inventar formas de dizer e fazer sobejamente repetidas.

O livro não é já o objeto sagrado, criador de uma marca duradoura, de uma abertura a meio no tempo, um corte que permita ler o que é ou o que terá sido a existência que acompanha o ato de quem escreve. Não digo isto com nostalgia, a transformação operada por autores que levaram ao extremo a ideia de romance, novela, ou mesmo de livro, demonstra, como daí resultam propostas muito mais interessantes do que a banalidade de um bestseller.

A partir do Porto surgiu, então, esta proposta de nova poesia, a partir do bairro, digo, da Rua das Oliveiras, da mesa do café de um pequeno grupo, da livraria independente Poetria. É um fenómeno que conta com antecedentes históricos, da Brasileira e do Martinho da Arcada, ao Café Gelo ou aos cafés do surrealismo português. A livraria Poetria, propõe-nos a Fresca como uma coleção, um grupo, uma instituição que se promove a si própria como eixo central da cultura, desde a cidade do Porto.

Num contexto de pandemia e de agravar da situação das livrarias e circuitos independentes, há que lutar para que tenham, ambos, longa vida. Para isso torna-se imperativo aproximar o público de leitores – resistentes  filantropos dispostos a desfrutar dos pequenos prazeres do livro – deste tipo de superfícies e iniciativas. Que venham novos autores, novas coleções de poesia, cá estaremos nós, leitores, para lhes medir a frescura.

Partilha nas redes sociais:
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
  • Licenciado em História pela FLUL, passei pelo Kings College de Londres e estudo, atualmente, na pós-graduação Artes da Escrita da FCSH. Tenho publicado crítica, assim como poesia (Fazedores de Letras e Apócrifa – PLEC). Faço parte da banda Paradoxo e do coletivo multidisciplinar La Maga.

Contribui para o Shifter para mais artigos como este:

2 €/mês

5 €/mês

10 €/mês

15 €/mês

Donativo

Junta-te à Comunidade
Jornalismo é aquilo que fazemos todos juntos. Entra na Comunidade Shifter e faz parte da conversa.
Sabe mais
Em teste

Bem-vind@ ao novo site do Shifter! Esta é uma versão beta em que ainda estamos a fazer alguns ajustes.Partilha a tua opinião enviando email para comunidade@shifter.pt