Linux chegou a Marte à boleia da Perseverance

Com uma missão não tão sonante como a do Preserverance, o Ingenuity é um pequeno helicóptero que foi enviado para Marte tendo como principal missão demonstrar o potencial da tecnologia que lhe dá forma na difícil missão de voar na fina atmosfera do planeta vermelho.
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Ingenuity em Marte (Ilustração)
Ingenuity em Marte (Ilustração) | NASA/JPL-Caltech

A semana passada ficou marcada por uma notícia globalmente impactante. A Perseverance aterrou no solo do planeta vermelho, juntando-se assim à Curiosity, com o objectivo específico de procurar vestígios de qualquer forma de vida que possa ter habitado Marte. Depois de uma viagem longa e de uma entrada atribulada na atmosfera marciana, o pequeno veículo não tripulado chegou com sucesso à superfície planetária e não chegou sozinho. A acompanhar o Perseverance, veículo que podes conhecer na imagem abaixo, foi um pequeno robot, o Ingenuity que, apesar de partilhar o momento não recebeu tanta atenção.

Com uma missão não tão sonante como a do Perseverance, o Ingenuity é um pequeno helicóptero que foi enviado para o planeta vermelho tendo como principal missão demonstrar o potencial da tecnologia que lhe dá forma na difícil missão de voar na fina atmosfera. E, para além de no sentido específico da missão para que foi designado o Ingenuity ser também ele um marco dos avanços da tecnologia, outro ponto adensa a curiosidade em torno da sua estadia fora do planeta terra. É que este pequeno helicóptero levou consigo o Linux para outro planeta.

Como explicou Tim Canham, responsável pela missão do Mars Helicopter Operations Lead, protagonizada pelo Ingenuity, este projecto tem como único objectivo provar que é possível um helicóptero voar autonomamente na atmosfera de Marte, abrindo caminho para que este tipo de veículos possa vir a desempenhar outros papéis em missões futuras. Assim, depois da Perseverance aterrar em Marte com o Ingenuity acoplado na sua parte inferior, os dois veículos separar-se-ão para se dedicarem às suas missões específicas. O Ingenuity, que pesa apenas 1.8Kg, foi pensado especificamente para conseguir levantar voo na atmosfera de Marte que tem cerca de 1% da densidade da atmosfera terrestre, pelo que necessita de afinações de voo específicas, e nesta sua primeira viagem não deverá voar mais do que 90 segundos, o suficiente para, segundo os cálculos, percorrer distâncias de cerca de 300 metros, num voo totalmente automático e sem mão humana. Apesar de este valor parecer pouco, como explica a NASA no site, é considerável, tendo em conta que o primeiro teste de voo em terra durou apenas 12 segundos.

A unir todos os componentes de hardware encontra-se então, como referido, um programa que corre sobre o sistema operativo Linux, o F’ Prime, disponibilizado em Open Source pela JPL, divisão da NASA responsável por este tipo de programação. O F’ Prime foi desenvolvido pela JPL para equipar pequenos satélites (CuboSats) e sucessivamente actualizado ao longo dos tempos, estando desde há alguns anos acessível a qualquer pessoa, sob a licença NASA Open Source 3.0 que permite que qualquer pessoa possa descarregar e utilizar. Como explica Canham na mesma entrevista, esta é a primeira vez que um aparelho da JPL vai voar usando Linux depois de anos em que preferiram outros sistemas operativos considerados mais estáveis e seguros – o que de certa forma atesta a segurança e estabilidade do Linux no seu estádio de desenvolvimento.

Para além do lado simbólico inerente à chegada do Linux a Marte, esta experiência tem também um outro lado que pode interessar ao leitor. Na citada entrevista, Tim Canham explica que o Ingenuity foi montado com componentes comerciais que se encontram à venda em lojas de electrónica avançada e o software open source que mencionámos pelo que, qualquer pessoa com conhecimento avançados na área tecnológica, pode seguir as instruções disponíveis e montar o seu helicóptero automático.

O software partilhado em open source caracteriza-se por decompôr a experiência de voo detectada pelo computador do pequeno Ingenuity em diversos factores, optimizando a partir daí a sua estabilidade no ar, e tendo a capacidade para autonomamente gerar código que lhe permita desempenhar a sua missão. Mais pormenores técnicos sobre o software podem ser encontrados aqui, e outros detalhes mais amplos sobre a missão do helicóptero em Marte podem ser encontrados aqui.

Depois de aterrar com sucesso com a Perseverance, o Ingenuity espera agora o momento para sair da “bolsa” deste veículo para que possa a partir daí partir na sua missão. No espaço de 30 dias é expectável que o helicóptero se consiga aquecer para resistir à atmosfera marciana, activar os painéis solares que tem por cima das hélices para carregar as suas baterias, confirme a ligação ao Perseverance e aos laboratórios na terra, gire pela primeiras vezes as pás que o farão voar e, finalmente, levante voo, levando consigo pelos ares de marte o sistema operativo Linux que apesar da sua baixa notoriedade continua, ano após ano, a dar provas da sua resiliência e utilidade.

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