O que é que se passa, afinal, entre o WhatsApp e o Facebook?

WhatsApp partilha com o Facebook metadados e informações dos utilizadores. Alteração foi feita em 2016 mas está a deixar algumas pessoas preocupadas agora. Porquê?
Foto de Christian Wiediger via Unsplash

Se usas WhatsApp, é provável que tenhas apanhado o aviso que recentemente apareceu quando abriste a aplicação. Essa janela, em estilo pop-up, dava conta de que os termos e condições do serviço WhatsApp tinham sido actualizados e tenta persuadir-te a aceitar as alterações que, de forma efectiva, vão começar a aplicar-se de 8 de Fevereiro adiante. As alterações estão, entretanto, a causar controvérsia e a levar utilizadores a procurar outras alternativas como o Telegram e o Signal.

O que é que aconteceu? O WhatsApp actualizou, entre outras coisas, a informação nos termos e condições sobre como processa os dados dos utilizadores. A aplicação escreveu algo que tem em prática desde 2016: a partilha de metadados e de informação dos utilizadores do WhatsApp com o Facebook. Segundo escreve a Wired, quando esse processo foi introduzido em Agosto de 2016, o WhatsApp deu aos utilizadores 30 dias para poderem manter a sua conta como estava, isto é, sem a partilha de informações com o Facebook; os utilizadores que decidiram dessa forma, vão continuar a ter essa vontade respeitada pelo WhatsApp.

A grande diferença é, então, que não existe mais essa opção de um utilizador de WhatsApp não ter a sua informação partilhada com o Facebook, pelo que as referências a essa possibilidade foram removidas para tornar os termos e condições e a política de privacidade mais claros.

O que é que o WhatsApp partilha com o Facebook, então? O que o WhatsApp partilha com o Facebook são metadados dos utilizadores, não os seus dados. O WhatsApp é uma aplicação que oferece encriptação de ponta-a-ponta em todos os tipos de comunicações – chat, chamada, vídeochamada. Isso significa que nem o WhatsApp, nem o Facebook, nem uma autoridade política ou policial conseguirá ter acesso às mensagens que trocas e às tuas outras comunicações. Assim, se, por exemplo, estiveres a falar sobre rebuçados no WhatsApp com um amigo, não te vão aparecer anúncios no Facebook sobre rebuçados – se aparecer, será uma grande coincidência. O Facebook quer tornar todas as suas aplicações de chat encriptadas de ponta-a-ponta, como o WhatsApp é actualmente – isso inclui o Messenger –, porque o seu modelo de negócio não envolve monitorizar o que os utilizadores escrevem em privado.

Metadados são um tipo de dados que explicam e contextualizam dados; assim, se considerarmos as tuas mensagens de WhatsApp os teus dados, os metadados são o dispositivo que usas ou o teu fuso horário. De acordo com o FAQ do WhatsApp, são partilhados com o Facebook (isto é, com o universo de empresas do Facebook) “informações de registo da tua conta (como o teu número de telemóvel), dados de transação, informações relacionadas com o serviço, informações sobre a forma como interages com outras pessoas (incluindo empresas) quando usas os nossos Serviços, informações sobre dispositivos móveis, o teu endereço IP”. Já nos termos e condições, na secção ‘Como Trabalhamos com Outras Empresas do Facebook’, é explicado que essas informações são usadas para “melhorar a infraestrutura e os sistemas de fornecimento” ou compreender como é que os serviços do WhatsApp e do Facebook são usados. Servem também para apresentar melhores recomendações no Facebook (“por exemplo, de amigos ou ligações de grupo, ou de conteúdos interessantes”), seja de conteúdo orgânico, seja de publicidade (“ofertas relevantes”), ou interligar o WhatsApp com outros serviços como é o caso da plataforma de pagamentos Facebook Pay ou dos dispositivos Portal.

Em suma, deves preocupar-te? A resposta depende de cada um. Informares-te pode ser um exercício de cidadania importante, pois permite, tal como noutras áreas da vida, decisões mais informadas. O importante a reter é que o WhatsApp encripta todas as tuas comunicações e não partilha as tuas mensagens com o Facebook, apenas metadados sobre como usas o serviço (por quanto tempo, em que equipamento, etc). Isto faz parte do modelo de negócio do WhatsApp, aplicação que se mantém sem publicidade e que, desde que passou para alçada do Facebook em 2014 num negócio de 19 mil milhões de dólares, deixou de ter o sistema de subscrição de cerca de um dólar por ano (em dois mil milhões de utilizadores, significaria uma receita de dois mil milhões de dólares, mas o Facebook acredita que consegue fazer muito mais sem esse mecanismo).

Nos últimos dias, fruto destas alterações nos termos e condições do WhatsApp e de pouca informação clara e acessível em torno das políticas da aplicação, que vários utilizadores terão preferido jogar pelo seguro e explorar alternativas como o Telegram e o Signal. Comparações entre as três aplicações voltaram à baila na imprensa e em canais de YouTube – no Shifter fizemos um comparativo em 2018 que, no geral, se mantém actualizado. Algumas ideias gerais:

  • o Telegram, o Signal e o WhatsApp oferecem comunicações encriptadas;
  • o Signal e o WhatsApp utilizam o mesmo protocolo de encriptação ponta-a-ponta – o Signal Protocol. Este protocolo está disponível em código aberto, sendo o seu principal desenvolvedor a Signal Foundation, organização sem fins lucrativos que Brian Acton, um dos cofundadores do WhatsApp (que saiu em desacordo com o Facebook), cofundou em 2018. Já a aplicação Signal foi criada em 2014 e tem sido alicerçada pela Signal Foundation nos últimos anos – é a aplicação que Edward Snowden recomenda como mais segura e privada, sendo especialmente popular entre denunciantes e jornalistas de investigação;
  • o Telegram não oferece encriptação de ponta-a-ponta em toda a aplicação, à semelhança do Messenger do Facebook. Os chamados “Secret Chats” permitem esse tipo de segurança e as restantes comunicações são armazenadas numa cloud segura, distribuída e encriptada. Pavel Durov, um dos criadores do Telegram, garante que a aplicação é segura, que todo o seu código está à vista de todos (ao contrário do que acontece com o WhatsApp) por ser open source e que é um mito dizer que o Telegram é russo, uma vez que tem estado bloqueado no país desde 2018.

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  • Jornalista, adepto de cidades humanas e curioso por ideias que melhorem o país. Co-fundei o Shifter em 2013, sou desde 2020 coordenador do projecto editorial Lisboa Para Pessoas.

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