Uma experiência musical sobre demência: Everywhere at the end of time

Poucos são os álbuns que tentam cobrir tópicos fortes. Ainda menos são os álbuns que o tentam fazer em 6 horas e meia, em 6 lançamentos, ao longo de 3 anos.

Everywhere at the end of time é o mais recente e último projeto do alter-ego de Leyland Kirby, The Caretaker (nome inspirado pelo memorável bartender do filme The Shining). O conceito do álbum baseia-se no que uma pessoa com Alzheimer ou com demência pode sentir durante as várias fases da doença. Confusão, solidão e caos são algumas das emoções que o projecto pretende transmitir, e são algumas das palavras que usaria para descrever superficialmente o que senti durante a experiência de ouvir este álbum.

Everywhere at the end of time está dividido em 6 partes (ou stages), e cada uma representa artisticamente os sintomas da progressão da doença. As diferentes partes do projecto lançadas ao longo de 3 anos, com intervalos de 6 meses, sendo que a primeira saiu em setembro de 2016 e a última em março de 2019. Everywhere at the end of time apresenta-se assim como o pináculo da expressão artística musical onde entre música e ruído é possível discernir uma história com princípio, meio e um inevitável fim.

O projeto é catalogado como Dark Ambient, Drone e Experimental e até então nunca tinha ouvido nada que se enquadrasse nestes géneros musicais. Entrei nele com algum receio, como uma criança que tenta entrar no mar pela primeira vez sem estar a dar a mão aos pais, mas também com uma curiosidade importante. Não sabia o que esperar mas sabia que, no final, toda a experiência seria algo maior do que uma simples sessão musical, algo que iria permanecer na minha memória durante mais tempo do que qualquer outro álbum, mais que não seja pela sua extraordinária génese. E o meu palpite não estava errado.

Ao longo de 3 dias sentei-me a ouvir e a digerir este colosso musical. As primeiras três stages são suaves e, em determinadas alturas, calorosas – o artista dá muito uso a samples de ballroom music dos anos 30 e 40, uma época, nas palavras do artista, “ghost-like”, por se enquadrar no intervalo entre duas guerras mundiais e caracterizada por muita incerteza. De uma forma muito subtil e aparentemente aleatória, somos confrontados com alguns indícios de que algo de muito mau está para vir, através, por exemplo, de cortes repentinos na música ou até mesmo de um forte uso da repetição de melodias, sugerindo uma quebra na memória do sujeito artístico mas sentido um certo conforto na sua repetição.

No entanto, suavemente e sem darmos conta da progressão, entramos nas fases mais avançadas da doença e as mesmas melodias calmas transformam-se em sons cada vez mais etéreos e carregados de reverb, tentando assim demonstrar que algo está a escapar do alcance do sujeito artístico. A sensação que fica é a de queda num poço interminável e de uma existência permanente num labirinto sem saída possível.

Enquanto que as três primeiras stages têm todas cerca de 40 minutos cada, as três últimas são bastante mais longas, com durações sempre acima de 1 hora e 25 minutos. Este simbolismo poderá estar associado à rapidez inicial com que a memória de uma pessoa com a mencionada doença se desintegra e a sensação posterior de infinitude associada a estas condições. Apesar de a transformação ser sempre gradual, a partir da quarta fase é sentida uma diferença abismal, em comparação com as fases anteriores e entramos de facto nos momentos mais desesperantes, mais tensos e, consequentemente, mais confusos e abstratos. É a partir deste limite que a separação entre música e barulho se tornam cada vez mais ténues mas ainda assim, no meio de tanto som, é possível discernir uma ou outra reminiscência daquilo que foram memórias felizes da música que ouvimos durante as três primeiras stages. Ainda assim, estas vagas memórias são apenas uma pequena migalha daquilo que é uma sinfonia perfeita de horror e que reitera continuamente a sensação de impotência, confusão e de conflito interno.

Finalmente, na stage 6, é possível discernir alguma aceitação em relação ao destino e a música caminha para o género Drone, inundada em sintetizadores etéreos. Para além disto, as melodias que nos acompanharam especialmente nas primeiras três perdem-se e não se ouvem de todo, fazendo aumentar uma sensação muito profunda de vazio e de abandono.

A faixa final, com um total 21 minutos e 19 segundos, é um crescendo de energia, uma aceitação da inevitabilidade do tempo e do fim de uma vida e a entrega total para o vazio que fica. Depois de 15 minutos de Drone nu e cru, somos impressionados com o som de uma agulha a cair num vinil e ouvimos tocar a última peça que o sujeito artístico ouve, num momento lúcido final, depois de ter sido consumido por tanta obstrução, confusão e desespero. É sem dúvida alguma o momento mais belo do álbum, provando que até nos piores momentos e nos fundos mais fundos ainda é possível vislumbrar uma réstia de esperança, por muito pequena que seja. Claro está que a melodia que toca não tem a qualidade sonora das melodias do início do projeto: está sem dúvida mais distorcida, mais cansada e menos perceptível para o ouvinte, mas este pormenor demonstra ainda mais o valor que esta última faixa adiciona a este projeto. A 1 minuto do fim do álbum, a música simplesmente pára, numa tentativa de demonstrar o fim definitivo e demorado de uma vida que durante os momentos finais pareceu encontrar a sua paz.

No fim da experiência não pude deixar de ouvir de seguida a primeira faixa e analisar o óbvio contraste entre ambas. Dei por mim a divagar mentalmente e a refletir sobre o que acabei de ouvir e sentir. Senti-me quebrado e triste, mas acima de tudo, sensibilizado.

Everywhere at the end of time é um álbum extremamente ambicioso que tenta trazer à luz do dia a sensação de esquecer a nossa existência e esquecer que nos esquecemos. Mas fá-lo com o maior respeito possível e a sua execução é, numa palavra, perfeita. Fez-me perder a noção do espaço à minha volta e fez-me pensar na fragilidade humana e na inevitabilidade da morte. E se estes pensamentos costumam estar envoltos numa conotação negativa, fui capaz de extrair o lado positivo (e um tanto banal) de que devemos sempre aproveitar ao máximo o tempo que temos e nunca dar nada por garantido. Porque algo tão pessoal e inato como a nossa identidade pode desaparecer sem darmos conta e sem termos hipótese de a recuperar.

Não conseguindo sequer imaginar o que será passar por este processo, acredito que este álbum consiga transparecer de forma muito fiel algumas destas emoções e outras tantas associadas a este estado. Se pegarmos neste projeto e começarmos a ouvir a meio ou no fim, nada nos fará sentido – contexto é a palavra certa para descrever a experiência que é ouvir este álbum de 6 horas e meia. Somos levados por um processo de criação de memórias e à sua posterior destruição, portanto sem passar pelos primeiros stages, nunca iremos compreender os últimos.

Não é um projeto para ser ouvido todos os dias ou em qualquer circunstância e, neste momento, não consigo conceptualizar a ideia de voltar a ouvi-lo na íntegra, mas isto significa que, no meu caso pessoal, o álbum conseguiu cumprir de facto o seu objetivo final.

Everywhere at the end of time pode ser ouvido na íntegra no bandcamp ou no canal de youtube do artista: 

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  • Engenheiro Informático de profissão, Pedro Caldeira é um apaixonado por tecnologia e acima de tudo música. Escreve regularmente sobre temas relacionados com tecnologia disruptiva e sobre álbuns e artistas que o inspiram.

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