‘GreenEST’: uma conferência sobre green tech na Estónia em tempos de pandemia

No dia 12 e 13 de Outubro realizou-se ao vivo e online a GreenEst, evento que procura juntar corporações, sector público e Startup com projectos relacionados com o ambiente.
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  • Miguel Melo estudou Relações Internacionais na Universidade do Minho e mais recentemente na Universidade de Tallinn na Estónia, onde vive correntemente. Isso é o resultado de uma vida passada numa atmosfera internacional e da presença constante em organizações não governamentais. Os tempos livres são passados com duas obsessões: animação (especialmente japonesa) e música (manifestamente pesada). Hoje trabalha numa empresa de tecnologia de vendas como consultor de parcerias digitais (como quem diz construir pontes entre plataformas online).

Foto de Geir Stint/GreenEst

“A maior conferência de Greentech dos Nórdicos”, foi assim que organizadores e anfitrião apresentaram o evento, repetindo em todas as ocasiões. GreenEST é um jogo de palavras que torna a palavra “greenest” (a mais verde) numa combinação entre “green” e EST, de Estónia. Neste evento, em todo o tipo de circunstâncias existe um colar à designação de país nórdico deixando para trás o rótulo de país de leste, ex-comunista e ex-União Soviética. Faz parte da narrativa oficial das principais instituições estonianas apresentarem-se como um farol de progresso e investimento tecnológico. Por todo o lado encontram-se aceleradores de Start Up e parques de ciência, como a organizadora deste evento, a Tehnopol. Com os tempos de pandemia a devastarem quase todos os eventos públicos em todo o mundo, também não havia muita competição. Assim, já se pode realizar um evento com cerca de 100 pessoas e chamar-lhe “o maior”. Houve também uma emissão online de todos os discursos, com parte dos convidados a falarem sobre os seus países de origem. 

O local físico do encontro foi o Kultuurikatel, um local que está habituado a conferências de líderes europeus, conferências de todo o tipo, de tecnologia à ComiCon, passando por concertos de Heavy Metal e Reggae. O detalhe principal é este centro de eventos ser uma central de energia termo-elétrica convertida do passado, ou seja, não podia estar mais dentro do tema.

Os oradores

Tal como já foi referido, esta conferência procurou unificar três mundos. O mundo do sector público, com oradores do governo da Estónia, representantes da União Europeia, embaixadas, e representantes do poder local, com grandes corporações económicas e investidores, mais Start Ups do sector, à procura de reconhecimento. Os temas andaram sempre à volta do incontornável mundo pós-Covid-19, e do Pacto Ecológico Europeu (Green New Deal) da UE e os fundos de mil milhões de Euros para projectos de investigação e implementação para tornar a União Europeia neutral até 2050.

Foram muitas as apresentações sobre a necessidade de converter a produção de energia em energias renováveis, especialmente porque a Estónia tem um alto consumo de combustíveis fósseis na produção de electricidade. Não será de admirar que grande parte dos fundos do Pacto Ecológico sejam alocados à indústria da energia da Estónia que precisa de renovação forte. Ainda assim, existem planos para empresas pequenas, Start Ups ligadas à produção de comida e gestão ambiental. Um dos painéis mais interessantes foi precisamente sobre o futuro da alimentação, com investigadores universitários, pequenos empresários da área e representantes políticos locais. Fungos, vegetarianismo e corte no consumo de carne e uso de insetos foram as mega-tendências apresentadas e aconselhadas para investimento.

Exibição de Projectos

O evento contou com um espaço de exibição de bancadas onde pequenas empresas apresentavam os seus produtos. Não eram muitos, mas ainda se viram algumas ideias interessantes.

Devido ao tema, a maior parte eram empresas e instituições ligadas ao ambiente, como a Universidade de Tartu, a apresentar um carro movido a energia solar, Solaride, que vai à Austrália participar numa corrida com outros concorrentes (geralmente vai uma equipa da Universidade de Aveiro também). Relacionado com transportes, foram apresentados projetos como o Ecorent, um sistema de aluguer de carros a electricidade, ou scooters eléctricas com caixa de transporte. Claro que nos podemos questionar sobre a eficiência das baterias de lítio e dos meios de transporte a electricidade quando a produção é feita por meios não sustentáveis, mas não há como negar que há uma intenção de reduzir o diesel.

Outros projectos tinham objectivos mais práticos, como a Timbeter, que procura registar toda a produção de madeira do princípio ao fim para assegurar a eficiência do transporte e a certificação de origem. Do outro lado da exploração florestal também apareceu uma empresa chamada Single.earth com o objectivo de tornar a exploração florestal menos centrada no abate de árvores para produção de madeira, procurando compensar os proprietários de área florestal por redução de carbono e manutenção de ecossistemas.

Em relação à produção de comida, uma das empresas em exibição era a Greenbite, que procura produzir barras energéticas com insectos como um dos ingredientes centrais. Os seus parceiros, BugBox, apresentam-se como uma empresa que fornece tecnologia de produção insectos como grilos e gafanhotos para alimentação humana e animal, curiosamente também em actividade em Portugal.

É sempre bom verem-se fundos destinados a este tipo de eventos, mas também é bom que nos questionemos sobre a utilização e eficiência dos projectos, por mais bem intencionados que sejam. É difícil acreditar que vamos ver grandes fatias de orçamentos serem disponibilizados a pequenos projectos sem serem agarrados por grandes conglomerados económicos. De qualquer forma, iniciativas deste tipo têm de acontecer para continuar o fluxo de ideias e a procura de soluções por todos. Esta foi a terceira conferência e já há promessa de uma 4ª GreenEST. É ver o que acontece para o ano, se é online ou não.

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  • Miguel Melo estudou Relações Internacionais na Universidade do Minho e mais recentemente na Universidade de Tallinn na Estónia, onde vive correntemente. Isso é o resultado de uma vida passada numa atmosfera internacional e da presença constante em organizações não governamentais. Os tempos livres são passados com duas obsessões: animação (especialmente japonesa) e música (manifestamente pesada). Hoje trabalha numa empresa de tecnologia de vendas como consultor de parcerias digitais (como quem diz construir pontes entre plataformas online).

Miguel Melo

Miguel Melo

Miguel Melo estudou Relações Internacionais na Universidade do Minho e mais recentemente na Universidade de Tallinn na Estónia, onde vive correntemente. Isso é o resultado de uma vida passada numa atmosfera internacional e da presença constante em organizações não governamentais. Os tempos livres são passados com duas obsessões: animação (especialmente japonesa) e música (manifestamente pesada). Hoje trabalha numa empresa de tecnologia de vendas como consultor de parcerias digitais (como quem diz construir pontes entre plataformas online).

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