Entre a ‘gripe espanhola’ e o ‘vírus da China’: todo um contexto histórico como diferença

O surto do vírus Influenza de 1918 não ganhou o nome por que é conhecido por ter começado em Espanha.
Domínio Publico nos EUA

Desde que o surto de coronavírus se começou a propagar que, um pouco por todo o mundo, nas bocas de alguns dos principais intervenientes, o vírus ganhou o nome de “Vírus da China”. Foi assim com o Correio da Manhã, em Portugal, pela voz de pivots e jornalistas, e com líderes como Donald Trump ou Bolsonaro.

Os utilizadores desta expressão justificam-se com o facto de que o vírus ter sido primeiramente detectado na China para, mesmo contrariando as indicações da ONU, o nomearem desta forma. E para compor o seu argumento dão como exemplo o caso da gripe espanhola. Contudo, esse exemplo revela uma falta de conhecimento do contexto histórico e do porquê do vírus da Influenza ter ganho este nome.

Ao contrário do que se alega no caso do coronavírus, atribuindo ao nome do vírus o nome do país onde surgiu, no caso pandémico do vírus Influenza, conhecido como Gripe Espanhola, a atribuição do nome deve-se a outros motivos, nomeadamente ao contexto de informação limitada que se vivia na época.

O surto começou em 1918, último ano da Primeira Guerra Mundial, e foi pelo apertado controlo de informação promovido por este confronto político que o surto epidémico não foi comunicado antes ou por outro país. Assim Espanha, com alguma imprensa livre, acabou por se destacar por ter sido o primeiro país a reportar casos – ainda que a análise epidemiológica não conclua que foi lá que começou o surto.

Alguns estudos sobre o fenómeno apontam uma cidade no estado do Kansas como o primeiro foco da epidemia, enquanto outros sugerem que possa ter começado na China ou até mesmo num posto do exército britânico sediado em França.

Assim conclui-se a brutal diferença entre um apelido histórico como Gripe Espanhola ou uma má referência aos factos como a que está a ser feita com o apelido “Vírus da China”. Este tipo de atitude fomentam, como refere em entrevista ao Shifter, Srecko Horvat, ódio e racismo na direção daqueles que já são vítimas da própria epidemia. Para além disso estas expressões aparentemente simples podem ser também catalisadores de preconceitos que conduzem à discriminação de comunidades, nomeadamente a chinesa, no seio de países como Portugal ou outros, com uma taxa considerável de emigrantes chineses enquadrados no tecido económico e social.

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