E se o amor não for mesmo para todos?

14 Fevereiro, 2026 /
Sempre que se aproxima o Dia de São Valentim, as montras das lojas parecem gritar a quem não tem um par: estás sozinho e o problema é teu. Mas talvez não seja. E talvez estejamos demasiado habituados à ideia de que o amor romântico salva e de que a solidão é igual para toda a gente.

Pesquisei “solidão e Dia de São Valentim” no motor de busca.  Encontrei uma entrada de blog com o título exato “Sobre o Valentine’s Day e a solidão”, de 15 de fevereiro de 2014, escrito por João Godoy.

João escreve a propósito de uma notícia do mesmo ano: um homem chinês não identificado decidiu “estragar” a noite de casais que queriam ver um filme num cinema em Xangai, comprando todos os lugares no meio de outros, no dia que era dos casais. No artigo, o autor interpreta o episódio de forma reflexiva e escreve:

“Lembrei-me de um trechinho do Zizek, sobre a noção lacaniana de amor: ‘[…] não há amor (total, recíproco), existe apenas uma imensa necessidade de amor – todo encontro amoroso real falha e nos faz regressar à nossa solidão.’ Amar alguém não significa estar completo, por mais que tenhamos essa (falsa) sensação. Não existe parceiro ideal e perceber isso nos coloca cara a cara com a solidão inerente à condição humana. Então, o que fizeram não foi sabotar o namoro de ninguém. Apenas materializaram o que todo o mundo já sente ou ainda vai sentir: que, em qualquer relacionamento, mais do que nunca, estamos sós. No entanto, talvez uma das coisas mais gostosas da vida seja justamente essa: compartilhar a nossa solidão com quem se ama. Feliz Dia de São Valentim. ;]”

Esse smile apanhou-me. E a cena do lugar também.

No livro  Apontamos no Amor e Acertamos na Solidão, a psicanalista Ana Suy também fala sobre este tema: muitos dos amantes ainda se agarram à expectativa de que o vínculo amoroso funcione como promessa de salvação, mas o amor não nos resgata da falta. Pelo contrário, reinscreve-a, dá novos ramos à solidão existencial sendo precisamente aí que o amor começa, não como resposta à solidão, mas como uma das muitas formas de a habitar.

Depois das listas de melhores presentes para o Dia de São Valentim, a solidão e a falta de um companheiro afetivo continuam a ser os temas mais populares associados à celebração, mas com contornos mais radicais.

Em 2026, o comentário sobre solidão romântica pede-se mais profundo e menos privatizado, permitindo justamente uma melhor escolha de lugares.

Agora que notamos que a solidão romântica atravessa todos, estejam ou não num relacionamento, mergulhemos então numa reflexão sobre maneiras diferentes de a habitar.

Quem pode ficar de fora?

A UCLA Loneliness Scale, publicada em 1978 e revista em 1980, foi a primeira medida padronizada da solidão. Foi, porém, com a pandemia de Covid‑19 que a solidão e o isolamento social passaram a ser reconhecidos como uma preocupação global de saúde pública. Especialistas, e até a Organização Mundial da Saúde, alertam para os efeitos nocivos da falta de ligação social, comparando-os aos de fumar 15 cigarros por dia.

A solidão só se torna problema quando atinge quem nunca contou com ela.

Exemplo disso é o mais recente fenómeno conhecido como lonely man epidemic, que trouxe a solidão masculina para o debate público, associando-a a uma crescente tendência à depressão, ideação suicida e relações afetivas desequilibradas. Não querendo de todo desvalorizar a importância deste tema, não posso evitar pensar que lhe é permitido um volume mais generoso do que a outras formas de solidão.

“A solidão é reportada por mais de 20% das mulheres, em comparação com 7% dos homens. O isolamento que adoece aumenta com a idade, afetando sobretudo viúvas e mulheres solteiras, e é mais frequente entre pessoas com menor escolaridade.”

Penso imediatamente na solidão da mulher negra, um fenómeno histórico e estrutural atravessado pelo patriarcado e pelo racismo, que isola mulheres negras no amor, nas amizades, no trabalho e na vida familiar, negando cuidado, reconhecimento e pertença. Por que continua fora do centro do debate público, apesar da sua urgência?

Hoje, a acompanhar a  pauta da epidemia da solidão masculina, só mesmo o mankeeping — mais leve à superfície, mas sintomático do mesmo padrão de desigualdade afetiva. Descreve o fardo emocional e social que muitas mulheres carregam ao gerir e sustentar as conexões sociais dos seus companheiros. Popularizado pelo #datingtok, o termo falha em traduzir a profundidade da situação, sobretudo quando ignoramos as suas interseccionalidades. Ainda assim, revela como a gestão do afeto e do cuidado continua a recair, de forma desigual, sobre as mulheres, funcionando como amortecedor da solidão masculina contemporânea.

Em Portugal, estudos recentes, ainda que limitados em termos de idades, revelam padrões semelhantes. A solidão é reportada por mais de 20% das mulheres, em comparação com 7% dos homens. O isolamento que adoece aumenta com a idade, afetando sobretudo viúvas e mulheres solteiras, e é mais frequente entre pessoas com menor escolaridade.

A solidão está longe de ser individual, apesar de esse ser precisamente o seu sabor. Pensá-la é perceber quem é visto, quem é ouvido e quem fica para trás, num campo inevitavelmente atravessado por afeto, poder e desigualdade.

A prateleira do amor explica-te se és ou não para namorar

No livro A Prateleira do Amor, uma obra indispensável para quem se interessa por relacionamentos, a psicóloga brasileira Valeska Zanello propõe uma ideia simples e poderosa: muitas das dores que vivemos nos relacionamentos persistem porque faltam palavras para nomear experiências profundamente naturalizadas.

O livro, que é também uma síntese acessível da sua obra maior Saúde Mental, Género e Dispositivos: Cultura e Processos de Subjetivação, destaca-se pela linguagem clara, atravessável por diferentes gerações, e pelo contributo decisivo para a literacia de género, ao nomear o que sentimos para não transformar um peso sistémico numa falha individual.

Talvez já te tenhas perguntado se és, ou não, “para namorar”. Ou então conheces alguém profundamente desacreditado dessa possibilidade. A resposta, segundo Zanello, tem mais camadas do que gostaríamos de admitir. Spoiler: se fores mulher, a cultura responde muitas vezes que não és; se fores homem, essa dúvida raramente se coloca, porque a sociedade tende a garantir-te, estruturalmente, que serás amado, independentemente de atributos físicos, emocionais ou económicos. (Chocante? Explico já)

Como escreve Zanello, isto deve-se aos dispositivos de subjetivação, diferentes para homens e mulheres: estruturas culturais invisíveis que moldam a forma como nos tornamos sujeitos, como aprendemos a amar, cuidar, desejar e atribuir valor a nós próprios. O seu estudo assenta numa construção binária de género, que, embora não represente todes, condiciona profundamente experiências e expectativas afetivas. É dentro desta lógica que podemos compreender os principais dispositivos de subjetivação que orientam comportamentos e expectativas sociais:

Dispositivo amoroso (mulheres): Ensina-se que o valor pessoal depende de ser escolhida e de manter o vínculo.

Dispositivo materno (mulheres): Ensina-se que cuidar dos outros é obrigação natural da mulher.

Dispositivo da eficácia (homens): Ensina-se que a força, a produtividade e a virilidade definem o lugar do homem no mundo.

“O amor não é um sentimento espontâneo e apenas individual, mas uma emocionalidade aprendida e mediada pela cultura (…) homens aprendem a amar muitas coisas, e mulheres aprendem a amar os homens.”

Esta frase talvez seja a mais marcante da obra de Zanello, porque explica o mankeeping e mostra como, para as mulheres, o valor pessoal fica muitas vezes vinculado à recepção de amor e à permanência na chamada prateleira do amor, metáfora que descreve como os homens se nutrem do investimento afetivo feminino, lucrando com ele.

A prateleira, organizada a partir do olhar masculino, hierarquiza mulheres segundo critérios de beleza, juventude, sucesso social, mas também é atravessada por raça e capacitismo, tornando-as vulneráveis, competitivas e objetificadas. O amor, garantido estruturalmente aos homens e conquistado pelas mulheres, deixa cicatrizes que atravessam género, raça, idade, aparência e capacidade, revelando corpos e sujeitos socializados para a solidão romântica.

“Quando a rejeição se distribui de forma desigual e o isolamento se torna voluntário ou imposto a quem sempre sentiu o amor garantido, os dispositivos que estruturam os vínculos mostram fissuras, e a solidão romântica deixa de ser apenas experiência para se tornar identidade, linguagem e narrativa do presente.”

É aqui que isso de ser “para namorar” se explica: quanto mais nos afastamos dos ideais impostos pelos dispositivos ou dos critérios da prateleira, menos vantagens relacionais temos e menor é a nossa visibilidade emocional. Por outro lado, quando um homem se afasta do que é esperado pelo seu dispositivo da eficácia, pode perder acesso à variedade da prateleira, mas continua estruturalmente em vantagem, já que a prateleira, ou o amor, é feita para seu consumo.

Este mecanismo desfaz a ideia de que, nos relacionamentos, a vida das mulheres seria facilitada e reforça a impressão de que homens e mulheres vêm de planetas diferentes (eles são de Marte, elas de Vénus), ou pelo menos foram educados em mundos com regras distintas.

Aqui, homens sofrem quando deixam de receber amor; mulheres, quando continuam a dar sem retorno.

O silêncio é tema central para esta dinâmica, pois também é ensinado com sentidos distintos. Aos homens, ensina-se que não mostrar fragilidade é sinal de força e também uma forma de proteger o grupo, mantendo cumplicidade silenciosa que preserva o sistema. Às mulheres, ensina-se que calar é condição para não incomodar, não perder e não ser substituída. Poderá isto explicar o volume da epidemia da solidão masculina?

Quando a rejeição se distribui de forma desigual e o isolamento se torna voluntário ou imposto a quem sempre sentiu o amor garantido, os dispositivos que estruturam os vínculos mostram fissuras, e a solidão romântica deixa de ser apenas experiência para se tornar identidade, linguagem e narrativa do presente.

Embora muitos artigos sobre a solidão masculina insistam em distingui-la dos incels, porque nem todos os homens radicalizam a sua solidão, também nem todos os incels são radicais. Falar de solidão romântica implica, inevitavelmente, considerar as novas formas de isolamento que crescem e sobrevivem no espaço digital em resposta a este tema. 

Formas contemporâneas de isolamento romântico

Apesar de engajamento não ser afeto, é a sua mais bem-sucedida cadeia de fast food. Neste cenário surgem novas formas de isolamento romântico contemporâneo: experiências de afastamento reais que muitas vezes se desenrolam em comunidades de ajuntamento digital.

Entenda-se por isolamento a distância entre a pessoa e a sua rede de afeto, seja ela escolhida ou imposta. Por outro lado, é importante trazer para esta reflexão o conceito de solitude: uma experiência subjetiva de introspeção, reflexão ou descanso afetivo, considerada por muitos essencial à criação de energia social.

No contexto do dating atual, nem sempre é claro se a dificuldade está em nós, por não sabermos estar com os outros, ou se está nos outros, por não saberem estar connosco. Tanto no isolamento voluntário como no involuntário, existe essa tensão: olhamos para dentro, questionando o que nos falta, e olhamos para fora, percebendo os limites da sociedade e das relações afetivas.

Em ambas as experiências, o ser humano que deseja ser amado procura, de alguma forma, conectar-se com outros que partilhem o mesmo percurso, numa tentativa de decifrar o vazio afetivo.

Involuntárias

Em 1997, uma mulher na casa dos vinte anos, em Toronto, criou o site Alana’s Involuntary Celibacy Project, um espaço pensado para pessoas que, como ela, sentiam estar a “falhar” no campo amoroso. O projeto nasceu como um fórum aberto a todos, onde se falava de solidão, rejeição e da dificuldade em conhecer alguém.

Como acontece com muitos projetos que ganham escala, Involuntarily Celibate foi abreviado, passando primeiro a invcel e, por sugestão de outros utilizadores, acabou por se fixar em incel. Para Alana, o termo descrevia uma pessoa que se sentia com dificuldades nos relacionamentos amorosos por fatores fora do seu controlo.

Anos mais tarde, Alana deixou de se sentir assim e afastou-se do projeto e da sua moderação. O espaço foi-se transformando e adquiriu contornos cada vez mais radicalizados. O que começou como uma linguagem para nomear a solidão tornou-se progressivamente uma identidade marcada pelo ressentimento. Assim nasceu a palavra que hoje dá nome a um dos movimentos mais alarmantes do presente: uma solidão inicialmente nomeada por uma mulher e posteriormente apropriada e radicalizada por homens.

“Apesar de o termo incel ter origem num projeto criado por uma mulher preocupada com a solidão, acabou por se tornar o principal espaço digital onde se nega que a solidão romântica possa ser vivida por mulheres, mas pode.”

Hoje, os incels organizam-se sobretudo como comunidades de homens heterossexuais que interpretam a exclusão romântica como uma injustiça pessoal e estrutural, traduzida em narrativas de escassez e de “direito perdido”. Aqui, a solidão deixa de ser uma experiência transitória e transforma-se numa identidade fixa, frequentemente acompanhada de ressentimento dirigido a mulheres ou a outros grupos percebidos como concorrentes — as Staceys e os Chads, na sua própria linguagem.

Neste contexto, a socialização homossocial e homoafetiva, que a autora da Prateleira do Amor, denomina de “casa dos homens”, reaparece no espaço digital — fóruns, subreddits, influenciadores — oferecendo sensação de pertencimento, explicações convenientes e outros culpados. O que poderia ser um espaço de elaboração do sofrimento transforma-se no píncaro do ragebait: a solidão é capturada, organizada e radicalizada, convertendo frustração em identidade e oposição.

Apesar de o termo incel ter origem num projeto criado por uma mulher preocupada com a solidão, acabou por se tornar o principal espaço digital onde se nega que a solidão romântica possa ser vivida por mulheres, mas pode.

Femcels é o termo que agora descreve mulheres romanticamente excluídas.

Menos visíveis, mostram outro lado do mesmo sistema: a exclusão por idade, aparência, raça ou capital erótico. A sua solidão raramente é reconhecida como estrutural, porque, como noutras formas de solidão feminina, mulheres socializadas para serem desejáveis e cuidadoras tendem a encarar a exclusão como falha pessoal.

A cultura femcel, ao contrário da incel, não se organiza em torno da raiva nem da misandria, apesar de esta existir, e não podendo ser comparada à misoginia, porque não se concretiza e é, em grande parte, resultado dela. É marcada por ironia, humor auto-depreciativo e crítica complexa à feminilidade contemporânea, à desejabilidade e à solidão. Embora o termo tenha surgido como espelho da comunidade incel, as trajetórias ideológicas de ambos não poderiam ser mais diferentes.

Voluntárias 

Situationships, heterofatalismo, homens emocionalmente indisponíveis, rebounds, how to build a boyfriend. O vocabulário do dating contemporâneo tenta explicar e, muitas vezes, ridicularizar a dificuldade de muitas mulheres em estabelecer relações. 

E talvez já tenhamos palavras e conceitos suficientes para perceber que algo, neste sistema afetivo, simplesmente não está a funcionar.

A dificuldade romântica afeta não só as relações, mas também se reflete em escolhas e posições políticas: observa-se que mais homens se voltam para a direita, enquanto mais mulheres se identificam com a esquerda, sinalizando percepções distintas de segurança, risco e agência num sistema social que continua a favorecer estruturalmente o masculino.

Incels, femcels, celibatos voluntários e todos as formas virais de descrever o desespero no dating apontam para o mesmo: a promessa do amor romântico magoa e estamos a assistir à sua queda.”

Essas desigualdades têm consequências mensuráveis: um estudo da Morgan Stanley prevê que, até 2030, 45% das mulheres entre os 25 e os 44 anos estarão solteiras. Acredito que esta previsão também se possa perceber como uma forma de resistência à lógica da prateleira do amor.

Pensemos no movimento boysober, ou celibato voluntário, outro fenómeno que marca o presente do dating e configura uma forma contemporânea de isolamento romântico voluntário. Ele não surge como falta de vontade; aliás pelo contrário, funciona como um gesto deliberado de recusa, uma retirada de um mercado afetivo vivido como desigual, exaustivo ou violento. Surpreendentemente, ou talvez não, esta não é uma tendência particularmente adotada por homens heterossexuais.

O que estas diferentes formas contemporâneas de isolamento romântico revelam é o desgaste de um sistema afetivo. No espaço digital, a solidão deixa de ser apenas vivida e passa a ser organizada, nomeada e explorada, transformando experiências de rejeição em identidades, mercados e narrativas políticas. Incels, femcels, celibatos voluntários e todos as formas virais de descrever o desespero no dating apontam para o mesmo: a promessa do amor romântico magoa e estamos a assistir à sua queda.

Há algo de errado contigo, clica para descobrir o que é

A queda do amor romântico faz-me todo o sentido. Vejo-a como um dos maiores atos de amor porque, como lembra bell hooks, o amor não pode existir sem justiça. A desigualdade afetiva assenta numa hierarquização das relações que coloca o vínculo romântico no topo da pirâmide. Esse valor simbólico condiciona autoestima e perceção de sucesso pessoal.

Quando o amor é mitificado e vivido como espaço privado, transforma-se num território de exceção. Comportamentos como controlo, humilhação ou chantagem emocional são, infelizmente, demasiadas vezes tolerados em nome da relação, mesmo que sejam inaceitáveis em amizades, por exemplo. Esta assimetria intensifica a dependência afetiva e invisibiliza formas subtis de abuso, normalizadas precisamente no espaço que deveria ser mais seguro.

A solidão romântica heteronormativa não é acidental. É sintoma e produto de sistemas interligados. O patriarcado decide quem cuida e quem é cuidado. O capitalismo transforma afeto em mercadoria, convertendo atenção e desejo em competição. O amor romântico atua como filtro, distorcendo a realidade, uma dismorfia afetiva que revela desigualdades e minorias afetivas.

Num tempo em que a solidão é usada como ferramenta política, a forma como nos relacionamos é, também, um gesto político. Dizer a um amigo que há-de encontrar alguém, avaliar se uma pessoa é demais ou de menos para outra, ou assumir que homens e mulheres não podem ser amigos são reflexos quotidianos que reforçam hierarquias afetivas. Ao repeti-los sem reflexão, comunicamos que o amor romântico continua a ser a principal fonte de valor social, maturidade e legitimidade moral. Resistir a este guião exige consciência da forma como ele estrutura afetos, escolhas e expectativas, mesmo quando parece inofensivo.

Nota: Ler bell hooks e escrever músicas de amor

Crescemos com o guião de que as amizades são apenas degraus para algo maior e transitório. No meu caso, o meu pai, na tentativa de me proteger, lembra-me constantemente que os meus amigos na vida são ele e os familiares mais próximos. Mesmo reconhecendo a intenção de proteção, nem sempre encontrei aí espaço para lidar com emoções, diferenças ou conflitos. Foram as amizades que me deram o espaço de que precisava para me construir para além deles, e nem por isso eles deixam de me ser especiais. 

Sentir paixão faz-nos sentir menos sozinhos. Imaginar alguém que nos complete dá-nos descanso íntimo. Mesmo sem relação, essa visão alarga a forma como nos vemos e nos liga ao mundo. Esse sentimento também se encontra na amizade.

Como escreveu Flora Santo, na edição do ano passado da revista portuguesa feminista independente Vuyazy, dedicada a este tema:

“A amizade é um vínculo que não segue a lógica capitalista, não tem contrato e não se enquadra em nenhuma instituição. Existe porque responde a um impulso que nos leva a conectar-nos uns com os outros de forma desinteressada e intuitiva, longe das estruturas mais rígidas da família e do amor romântico. É um laço que desafia o imperativo produtivista da sociedade em que vivemos: a amizade não tem outro objetivo além de existir, o seu único fim é ela própria.”

Além da amizade, o conceito de solitude importa para transformar as nossas relações, redesenhando a ideia de que o valor pessoal não depende de ser escolhido por alguém. Confrontar o sistema e a realidade dos seus efeitos, por mais amargo que seja, permite-nos mover do lugar em que o amor é salvação para o lugar em que o amor é encontro. Encontrarmo-nos connosco tira-nos da sensação de “aguentar” e abre um espaço de autonomia afetiva, onde amizade, comunidade e amor são escolhas, não estratégias de sobrevivência.

A solidão é um lugar real e de fácil visita. Admiti-la, mapear os sistemas que a produzem e compreendê-la é essencial para transformá-la em ação. Só assim podemos criar relações que resistam às hierarquias e desigualdades afetivas.

O amor é para todos. O bestseller romântico talvez não, mas o amor real, transformador e conectivo, esse é o que nos motiva e nos ensina a relacionar com a vida em toda a sua complexidade.

“É preciso acabar com essa tristeza. É preciso inventar de novo o amor.”
— Vinicius de Moraes, Carta ao Tom 74

Autor:
14 Fevereiro, 2026

Rebeca Verde escreve sobre amor, cultura e sexualidade. É licenciada em Ciências da Comunicação e especializada em Sexologia Educacional e SexTech. Criadora do projeto digital Insegurança Social (@inseguranca.social), onde transforma inquietações íntimas atuais em pensamento crítico.

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