F.A.D.O. da Pandemia: de volta à partida?

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First. Alfa. Delta. Omnicron.

Uma das frases mais citadas, de Ortega y Gasset, poderia ser aplicada ao vírus Sars-CoV-2. Um vírus é o vírus e as suas circunstâncias. Quanto ao vírus: “first” – a estirpe original (ou próxima); alfa – dezembro de 2020; delta – junho de 2021; omicron – dezembro de 2021. Quanto às circunstâncias: desconhecimento do vírus e do seu comportamento até abril de 2020; vacinação iniciada em dezembro de 2020, ainda que com a sua parte mais importante terminada apenas em julho de 2021; reconhecimento em Portugal das limitações da vacinação no bloqueio de transmissão do Sars-CoV-2 no último trimestre de 2021, juntamente com a necessidade de doses de reforço.

Em fevereiro de 2019, era escrito um artigo premonitório sobre a falta de preparação perante uma pandemia. Hoje, janeiro de 2022, é uma boa altura para regressar a ele. Quase dois anos volvidos, afinal em que progredimos e o que falta fazer? Será realmente boa altura para lá voltar?

Para alguns, existiu uma frustração antecipada em dezembro, perante aquilo que ia ser a casca de banana à frente de todos: uma variante muito transmissível, de severidade incerta (sabe-se agora que menor, felizmente) numa altura de campanha eleitoral. Felizmente os partidos estiveram genericamente à altura das responsabilidades e a pandemia não foi muito instrumentalizada.

As insuficiências da comunicação de risco e da rapidez em ajustar o leme da atuação iriam ser mais notórias na transição de janeiro.  Assim foi, apesar de em menor grau do que em outros momentos. Em outubro de 2021, em “lua de mel” de atividade epidémica, os sinais eram claros. Tínhamos demorado demasiado tempo a ajustar normas de isolamento, e a vontade de recuperar velhos hábitos era demasiado notória. Depois de termos deixado os cuidados de saúde primários à mercê da avalanche burocrática de uma onda ómicron para a qual epidemiologicamente as semanas de contenção foram corretamente preparadas, práticas que foram criticadas por algum corporativismo e rigidez tornam-se, feliz e finalmente, norma.

Em boa verdade, o desafio agora é díspar e a sapiência reside em nos sabermos ajustar. Apesar de termos que levar agora com proclamações de razão de quem sempre desvalorizou a ameaça nas piores alturas, no início, na alfa ou mesmo na delta, é um dever saber reconhecer que, perante o contexto atual, a vigilância e normas de isolamento deviam ser modificadas. Quanto mais tempo isso demorasse, maior prejuízo para a adesão voluntária e racional a medidas voluntárias de precaução, sobretudo em espaço fechado, que terão de ficar mais algum tempo. 

Julgo que a abertura das escolas era inevitável mas fica a responsabilidade coletiva (e algumas mais particulares) face à falta de investimento em ventilação. Iríamos ter mais infeções em idade escolar, com impacto ainda por determinar. A vacinação das crianças continua a ser a melhor opção na minha opinião, assim como a prudência do uso de máscara – dado recentes apoiam a vacinação na prevenção do síndrome inflamatório multissistémico pós-infeccioso que tem preocupado a comunidade científica. Esperamos todos, apesar dos absolutismos de que as crianças não transmitiam nem ficavam doentes de todo, que não tenhamos cenários expressivos de aumento de internamentos hospitalares de crianças à imagem de outros países – isto só será percetível mais tarde em fevereiro.

Ninguém consegue dizer com certeza o que se passará neste ano de 2022. Temos experiência acumulada (imunidade por contacto e por vacinação) mas isso poderá ser de valor variável consoante a variação algo imprevisível do vírus. Uma das hipóteses é encaixarmos coletivamente um modelo de precaução baseado em recomendações sazonais com a incógnita da necessidade de uma vacinação sazonal síncrona com o do vírus influenza, com destaque para as populações mais vulneráveis. Existem outras hipóteses, à medida que os avanços tecnológicos nas vacinas se sucedem.

Reconhecer a importância destas próximas semanas em ajustar o leme também é crucial para fazer frente a uma retórica que nos levará a um ponto de preparação para pandemias de comparação incerta face a fevereiro de 2020. Para alguns, isso pouco importará. Julgo que, para boa parte da sociedade portuguesa, isso não é bem assim. Não queremos que o fado se repita para as novas gerações; os partidos que se apresentam a eleições no dia 30 de janeiro têm uma visão reformista e de futuro nesta área da resposta pandémica e da saúde pública? Afinal, o que é que nós andamos a fazer se negligenciarmos a hipótese de deixar o país mais bem preparado para os nossos filhos?

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