Pedro Matos: “A arte é um instrumento contra a ‘ditadura do ausente'”

Na mais recente série de trabalhos de Pedro Matos, sobre fundos sólidos irrompem traços carregados de expressão que, ora mais abstractos, ora mais concretos, dificultam a cristalização de qualquer interpretação ou resposta. "Terão sido estas marcas intencionais? Recriadas?" Convidámos o pintor para uma pequena conversa de partilha e diálogo sobre esta visão.

Quando no Shifter decidimos que o tema da 2ª edição da revista seria “Conhecimento”, sabíamos que queríamos expandir o conceito até um ponto quase indeterminado — até ao ponto em que o conhecimento deixa de se apresentar como algo normativo e quase autoritário, e se torna num elemento de intermediação entre as várias consciências. Para essa leitura, surgiu-nos imediatamente, mais do que uma imagem, os mais recentes trabalhos do artista plástico português Pedro Matos. Telas de fundo sólido de cor única em que marcas na superfície surgem ampliadas e convidam a um pensamento quase arqueológico colocam no plano artístico algo que debatíamos como transportar para o plano editorial — uma ideia de que o conhecimento, no sentido lato, é uma espécie de marca do humano que se expõe sobre superfícies sólidas e com elas interage; da mesma forma que qualquer outro elemento ou material, sujeitando-se a deterioração material por uma série de processos, neste caso não necessariamente físicos e químicos, mas sociais e culturais.

Na mais recente série de trabalhos de Pedro Matos, sobre os tais fundos sólidos irrompem traços carregados de expressão que, ora mais abstractos, ora mais concretos, dificultam a cristalização de qualquer interpretação ou resposta. “Terão sido estas marcas intencionais? Recriadas?”, “Serão estes traços parte de um desenho? Sobras de letras de uma palavra?”, “Qual seria a intenção deste nome que aparece aqui escrito?” são algumas das possíveis perguntas provocadas pelas pinturas. Perguntas que de forma tácita desafiam a uma reflexão, sobretudo pela sua estranheza que provam ao serem expressas num mundo cada vez mais digital, menos passível de erosão, e mais distante dos tradicionais fenómenos naturais. Foi com isso em mente que, para além do convite para a capa, convidámos o pintor para uma pequena conversa de partilha e diálogo sobre esta visão.

Pedro Matos, artista plástico nascido em Santarém, desde 2010, tem exposto o seu trabalho em exposições individuais e coletivas, em galerias e instituições, num crescente número de cidades e países, onde se incluem Saatchi Gallery (Londres), JD Malat Gallery (Londres), Galerie Clemens Gunzer (Áustria), Galleria Bianconi (Milão), Pal Project (Paris), Museu do Côa (Vila Nova de Foz Côa), National Army Museum (Londres), e The Gross-Michael Foundation (Dallas), entre outras. Ao longo deste período desenvolveu várias séries de trabalhos tendo como tema transversal ao seu corpo de artista uma exploração consistente da tensão entre o efémero e intemporal – uma reflexão pertinente nos tempos que correm, em que a aceleração parece cada vez mais tomar conta dos nossos dias, das nossas vidas e do nosso conhecimento.

Num mundo em que a efemeridade (rapidez e volatilidade) é uma característica cada vez mais transversal dos vários domínios, o teu trabalho explora muito as dimensões inversas, da minúcia e de uma certa perseverança dos materiais. A ideia de que a arte é um instrumento de resistência contra a ‘ditadura do presente’ passa, no teu entender, por esta abordagem que se foca não só na forma (no ser artista) mas também no conteúdo (o que exprime o artista)?

Na minha opinião tudo é efémero, o que muda é a escala com que se mede essa mesma efemeridade. Existe essa sensação coletiva de que a escala ou a velocidade é cada vez mais rápida, que o tempo é mais curto ou que “passa mais depressa”, mas talvez isso seja uma ilusão ou apenas um reflexo do facto de sermos cada vez menos presentes. Não sei se a arte é um instrumento de resistência contra a “ditadura do presente”, ou se também faz parte do mesmo presente, com um ritmo talvez mais lento do que outros domínios, mas ainda assim efémero e parte do zeitgeist do momento. Talvez pusesse a questão de outra forma e dissesse que a arte é antes um instrumento contra a “ditadura do ausente”.

Essa é uma boa forma de inverter a questão. No fundo trazes uma dimensão inalienável da questão do tempo, a influência da consciência da relação entre o indivíduo e o tempo e a forma como modela a percepção sobre o próprio tempo. Nesse sentido, a arte, e o tipo de trabalho que costumas fazer, propõe quase como uma reconfiguração do tempo à escala do humano? Quase como se tentasse resgatar a atenção da tal ausência ao tornar tão presentes marcas que seriam de outra forma efémeras? 

É difícil generalizar sobre arte porque é um conceito muito aberto em constante evolução e diferente para cada artista. O tipo de arte que me interessa tem esse efeito de resgatar a atenção, de exigir tempo ou uma pausa consciente para ser experienciada. No caso desta série, acho que existe até um jogo entre dois tempos e duas escalas de efemeridade. Por um lado as marcas escritas neste contexto são normalmente mensagens do momento, datas, nomes, piadas, desenhos, etc.. Ao mesmo tempo, a superfície onde essas marcas são feitas tem uma durabilidade muito maior do que o momento da gravação/marcação e a sua degradação é muito mais lenta e varia também com o tipo de superfícies onde escrevemos. Existe essa tensão entre duas escalas de tempo, uma delas mais humana e breve, outra mais “geológica” e mais lenta.  Isso é uma das partes do que me interessa neste trabalho, mas a principal está mais ligada à experiência humana, ao desejo de deixar uma marca, ao desejo de vencer o tempo, de gravar momentos.

Cortesia Pedro Matos

E como foste parar a esta reflexão e como te apercebeste do seu interesse como campo temático para o trabalho? Há uma dimensão quase metafísica em toda esta relação, quase que tu amplias a “escala” da efemeridade, quebras o ciclo natural da degradação daquelas marcas…

Foi um encontro natural e uma evolução/continuação de séries anteriores que lidavam com algumas questões semelhantes de efemeridade, ação humana, etc. 

A qualidade “metafísica” não é consciente ou intencional e é a primeira vez que alguém faz essa ligação. Curiosamente é um uma área que me interessa bastante a nível pessoal, por isso até é natural que de alguma forma permeie o meu trabalho.

Outra pergunta que aproveito para te deixar já é, como vês a relação do público com esta temática. E como vês a necessidade de “compressão” das tuas peças para formatos como o Instagram que, de certo modo, impedem a total experiência da obra. 

Não sei ao certo qual é a relação do público.. Há vários públicos, vários contextos e cada um tem relações diferentes. Desde quem não gosta ou odeia, a quem gosta de visitar uma exposição 5 minutos, a quem compra e vive com elas durante anos, a quem escreve textos, quem põe um like e continua o scroll.. São todas relações diferentes e todas válidas e importantes e cada pessoa pode oscilar entre elas ao longo do tempo. Essa questão da compressão em modo de instagram é bastante ambígua para mim. Por um lado tem as vantagens já muito conhecidas e debatidas da “acessibilidade democrática” das redes sociais, por outro tem também as suas limitações.. Ver uma fotografia de uma pintura no instagram não é o mesmo do que ver uma pintura ao vivo num espaço dedicado. Acho que muita gente tem consciência disso e continuam a visitar exposições. Por outro lado, o que acho que não é tão óbvio, são as tendências criadas pelo algoritmo.. O que é que é mostrado a quem, quanto reach tem o que, com que critérios, que tipo de arte funciona nesse formato.. Etc.

O Jonathan Beller, neste texto, diz que a explosão recente dos NFTs pode tornar o campo artístico numa competição da arte pela arte – a arte tornar-se apenas e só na “arte de fazer dinheiro” – falando exactamente disso que dizes, a criação de tendências “patrocinadas” por algoritmos e que geralmente obedecem a critérios como a popularidade ou o alcance de que falas – e como isso é, em certa medida, uma dinâmica “fascizante” ao alimentar cultos de personalidade e de génio. Achas que isso já acontece actualmente? Quem acaba mais desprotegido nesta relação parece-me ser o artista que fica entre o tal paradoxo…

Exacto! Em relação à aparente explosão recente de NFTs existem até à data várias questões que me parecem tornar a balança bastante mais negativa do que positiva. Sem querer desvalorizar os possíveis benefícios da tecnologia blockchain já tão anunciados, existem muitos pontos que me parecem bem mais negativos do que positivos. Não só ao nível das tendências criadas por algoritmos ou como isso poderá aumentar ainda mais o já atual culto de personalidade e de crescimento rápido a qualquer custo, existem as questões ambientais e a gigante pegada de carbono aparentemente causada por cada NFT. O “gatekeeping” feito por parte de alguns dos mais conhecidos “marketplaces” de NFTs, e talvez o maior dos paradoxos, o risco de expor artistas a um mercado público sem controlo e especulativo. 

O aumento do valor de revenda de um NFT era um bom headline em Março de 2021, mas os milhares de NFTs criados e nunca vendidos ou a desvalorização futura da maioria dos NFTs comprados vão destruir a continuidade de muitas carreiras de muitos artistas. Já este mês (Abril de 2021) os headlines que se podem ler na Bloomberg já são sobre a queda de valor médio na ordem dos 70%. Ainda é demasiado cedo para saber o que vai acontecer daqui para a frente.

Sem querer voltamos à questão do foco, da atenção, e há uma coisa que me chama a atenção na resposta. Dizes “era bom headline para fazer em março” e é de facto importante não esquecer que os media também são um negócio. Isto traz-me de volta ao tema do teu trabalho, a acção humana, sobretudo um tipo de acção/expressão que costumas registar que tem algo de desinteressado, de desalinhado com qualquer sistema – algo que seria impossível para as máquinas lerem e que não tem valor comercial nenhum. Eu revejo neste fenómeno uma ilustração do que o filósofo André Barata chama de Desligamento – desligámo-nos de coisas que conhecias e religámo-nos digital. Concordas com esta ideia? 

Sim, concordo que é o que se passa grande parte do tempo.

Achas que estamos como que a dar os primeiros passos no espaço digital e que, por isso, é como se tivéssemos de reaprender e redefinir o valor de cada ação?

Tanto o valor, como o custo. Acho que o mundo, a vida, a realidade, a cultura, etc estão sempre em constante mutação e nesse sentido, estamos sempre a reaprender e a redefinir valores. Não vejo o espaço digital como uma “substituição” de nada, é apenas uma adição de um pequeno novo universo que funciona em simbiose com o universo já existente. 

Tu ainda podes ser considerado um artista jovem mas já tens trabalhos e já pudeste expôr em algumas galerias internacionais e já estás neste percurso há algum tempo o que te permite aferir sobre o mercado. Sentes que a tendência para a valorização das tais “tendências criadas pelo algoritmo” dificulta o percurso de um artista e a sua entrada nos circuitos? Torna o mercado ainda mais “elitista” mas agora fruto de um elitismo tecnologicamente induzido?

Penso que não.. Em termos de mercado, apesar de tudo, a realidade hoje é mais democrática, mais acessível, mais transparente e com um grande crescimento a nível de escala. (Existem hoje muitos mais artistas, galerias, colecionadores, museus, vendas, etc. do que há 50 anos atrás) A internet e as plataformas digitais deram um grande contributo para esse crescimento. Talvez as “modas” sejam mais acentuadas e passem mais rápido..

Voltando a centrar a conversa no teu trabalho e nas tuas reflexões artísticas, para onde te tem levado estas experiências? O que te anda a interessar agora – falando quer numa perspectiva concreta em termos de estilos ou abordagens à importante mas também numa perspectiva mais ampla, de que reflexões andas a cogitar para de alguma forma incluir no teu trabalho? 

De uma forma mais sucinta, o que posso dizer é que me tenho focado cada vez mais naquilo que realmente é importante e sincero, e tentado cada vez mais abstrair-me de todo esse outro “ruído” de coisas que não interessam. 

E, concretizando um bocadinho o que te perguntava acima, que artistas, referências, projectos, te andam a inspirar de momento ou achas que deveriam ter mais alguma atenção? (É a nossa oportunidade de contrariar o algoritmo) 

Não sei se precisa de mais atenção mas a última exposição que gostei bastante e que é de um artista muito pouco “instagramavél” foi a do Luc Tuymans na galeria Zeno X.

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  • O João Gabriel Ribeiro é Co-Fundador e Director do Shifter. Assume-se como auto-didacta obsessivo e procura as raízes de outros temas de interesse como design, tecnologia e novos media.

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