Dia Mundial do Livro: os livros que encontrámos noutras histórias

Neste artigo partilhamos contigo 7 livros que a equipa do Shifter descobriu noutras histórias - seja em filmes, livros ou momentos em torno destes.
Imagem de Rita Pinto

Para quem aprecia a leitura, seja de que género for, abrir um livro é sempre mais do que abrir um livro. O exercício mistura sempre uma quantidade indescritível de pensamentos menores que se cruzam na cabeça do leitor em potência e criam o ambiente mental com que se confrontarão as primeiras palavras. Esses segundos são como conhecer alguém novo. Estamos atentos a tudo, a cada detalhe, a cada expressão, a cada entoação — que no caso da escrita se expressam em estilos de escrita, figuras de estilo e pontuação. Queremos que o livro nos surpreenda mas que, simultaneamente, corresponda as nossas expectativas – e é raro o livro em que pegamos sem expectativa. Ler é uma actividade que se pode considerar cada vez mais rara e um acto que quem pratica — e quase sempre se queixa de o praticar pouco — cada vez mais valoriza, e portanto a escolha costuma ser minuciosa e a lista de prioridades cuidadosamente trabalhada. Mas para chegar aqui, à lista final, ao momento da compra, à abertura da página, muitas folhas se viraram, muitas referências se apontaram, muitos livros se alistaram. De onde vieram tantas ideias? Tantas sugestões? Tantas leituras apontadas para um futuro incerto? Não há uma resposta certa nem uma lista de todas as listas que condense as escolhas de uma forma objectiva e que aguarda a qualquer um, porque pelo exercício da leitura se navega como pelo próprio livro, um tanto ou quanto à descoberta. É por isso que nesta pequena lista partilhamos algumas das leituras descobertas noutras leituras, em filmes, ou noutros contextos de predomínio cultural — como um manifesto contra a escolha mediada pelos tops ou pelas capas de best-sellers, lembrando a discreta teia que liga a verdadeira cultura e que ainda consegue fugir aos critérios da popularidade ou do sensacionalismo. Livros que nos foram recomendados não por indústrias ou os seus representantes, mas por artífices, por artesãos, da palavra ou da imagem, que tratam o livro como um elemento único, um portal de referências, um projecto de continuidade numa história sem fim à vista. 

Duarte Cabral – Gravity’s Rainbow, de Thomas Pynchon, a partir do filme Knives Out, de Rian Johnson

O meu caso é um tudo-nada peculiar: tecnicamente, já tinha o livro em questão quando obtive o impulso externo para o ler. Devo admitir que sou alguém que compra livros de forma muito impulsiva – por vezes agarrando num somente porque ouvi uma variação da clássica tirada “aquele fulano X escreve muita bem”. Claro que depois vejo-me negro para desenterrar qualquer vontade de o ler, especialmente se souber de antemão o quão complicada é a sua leitura. Foi o que me aconteceu no início de 2019 com Gravity’s Rainbow, de Thomas Pynchon, um infame bicho papão pós-modernista de 902 páginas que comprei num excesso de entusiasmo ingénuo; não tardou até à excitação se esmorecer, ficando o livro pesar-me tanto na consciência como na estante, onde residiu e acumulou pó durante meses a fio. Chegamos então a novembro desse ano, e dei por mim a antecipar com entusiasmo o lançamento nos cinemas do Knives Out, de Rian Johnson. Foi então que ouvi dizer que o filme continha algures pelo meio uma referência cómica e obscura a Gravity’s Rainbow, das que soltam aquele tipo de gargalhada solitária que faz a família na fila atrás de ti questionar se tens ou não um parafuso a menos no crânio. E foi com este minúsculo empurrão do ego que mergulhei de cabeça no livro. Atualmente, Gravity’s Rainbow é um dos meus livros favoritos e, como bónus, realmente fui a única pessoa de toda a sala de cinema que se riu quando ouviu a referência. Vitória dupla! 

Carolina Franco – Correspondência a Três de Boris Pasternak, Marina Tsvetayeva, Rainer Maria Rilke, a partir de Walk Through Walls: A Memoir de Marina Abramovic

Na 15ª página de Walk Through Walls: A Memoir, Marina Abramovic conta que o único presente bom que a mãe lhe ofereceu foi um livro chamado Letters: Summer 1926, que é uma reunião de cartas trocadas entre três grandes poetas do século XX: Rilke, Marina Tsvetayeva e Boris Pasternak. “Conseguem imaginar uma miúda de 15 anos solitária chegar até uma história assim?”, pergunta Abramovic depois de contar que os três nunca se tinham conhecido mas admiravam-se profundamente, e durante quatro anos trocaram cartas e sonetos. Muitos anos mais tarde, Marina Abramovic vai viver para Nova Iorque, começa a dar-se com Susan Sontag e esta oferece-lhe um livro para o qual tinha escrito o prefácio. Era o mesmo livro, o tal “único presente bom” que a mãe lhe tinha dado, uma história que a acompanhava há anos. Soube que queria ler Letters: Summer 1926 desde a primeira vez que Abramovic o mencionou na 15ª página e dei por mim numa busca incessante em livrarias e alfarrabistas. Nada. A única edição em português, da Assírio e Alvim, com tradução de Armando Silva Carvalho, estava esgotada em todo o lado. Um dia, depois de uma entrevista, entrei por instinto numa livraria e encontrei uma pequena pilha de exemplares de Correspondência a Três, o título em português, à venda. Pareceu-me haver uma certa continuidade cósmica desta passagem de testemunho de Marina Abramovic, Susan Sontag e agora eu, uma simples leitora que o quis agarrar. Comecei a lê-lo no dia 07.08.2020, em Sintra, e acabei a 07.09.2020, em Lisboa (tenho este hábito de apontar na primeira e na última página dos livros onde estava quando os comecei e terminei de ler). Quando li Correspondência a Três dei por mim a pensar na generosidade destes poetas uns com os outros, nos comentários que faziam aos textos dos seus pares, na sua vontade de os traduzir para outras línguas que falassem, nesta partilha tão espontânea de quem admira sempre mais o outro do que a si — um registo generoso e que me parece já raro nestes tempos em que o indivíduo se sobrepõe tantas vezes à comunidade. A história de Rilke, Pasternak e Tsvetayeva tem tanto de bela como de trágica, tem tanto de universal como de rara. Lê-la nas palavras dos próprios, com todos os percalços de comunicação normais à época, é entrar no acaso mais bonito que se sucedeu nas vidas literárias dos três: o seu encontro.

João Pinho – Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares

Trata-se de um livro recomendado por uma amiga. Nunca tinha contactado com a obra deste autor, constatando, agora, que estranhamente me bastaram as seguintes palavras para ficar seduzido: “o livro tem citações da Bíblia e da Hannah Arendt”. A leitura foi intensa e fez-me reflectir imenso sobre a miséria como condição humana. Ainda tenho algum medo de olhar para ele, o que revela uma relação poderosa entre o leitor e o livro, uma relação até desigual, mas não menos estimulante e necessária. 

Pedro Caldeira – The Science of Interstellar, de Kip Thorne

Em 2014 juntei-me à multidão e fui ver o (na altura) mais recente filme de Christopher Nolan. Ao contrário da maioria dos fãs, saí desapontado porque achei o filme pouco interessante e com pouco fundamento científico. Apesar de não ter procurado mais sobre o assunto, esta opinião polémica não se disseminou em mim, e ainda bem! Em 2020 descobri uma pérola de livro, The Science of Interstellar, que, tal como o nome indica, fala dos conceitos teóricos sob os quais o filme está erigido. Ao escrever Interstellar, Nolan queria certificar-se de que o filme era o mais realista e fundamentado possível e para esse efeito contratou um físico teórico, Kip Thorne, que o auxiliou ao longo da produção do filme. Por entre as várias páginas deste magnífico livro, o leitor pode encontrar as justificações e as explicações para os mais diversos eventos relatados ao longo do filme: desde as condições adversas em que o planeta Terra se encontra ao tamanho do buraco negro e do planeta seu vizinho, tudo é explicado ao detalhe, sempre com uma linguagem informal e acessível a qualquer um que esteja interessado no tópico. 

Agora mais maturo e com maior capacidade de formulação de opiniões, olho para Interstellar como uma genial aventura espacial e como uma representação visual das belíssimas fórmulas que Einstein nos deixou. O livro de Kip Thorne é o companheiro perfeito para mergulhar ainda mais fundo nos seus detalhes. 

Rita Pinto – The Waves, de Virginia Woolf via Patti Smith

É ingrato para qualquer pessoa que tenha estudado literatura, pensar em apenas um livro para esta lista. Os livros que nos são, naturalmente, aconselhados (ou impingidos) por professores são como que validados pela sua experiência e escolhas óbvias para quem dela quer beber. Foi assim que mergulhei em Virginia Woolf, no meu primeiro ano de faculdade. Li Orlando e A Room Of One’s Own de seguida e descobri uma espécie de spirit animal ou alma gémea, aquela que é até hoje uma das minhas escritoras favoritas de sempre. Alguns anos mais tarde, Just Kids, de Patti Smith, juntou-se ao meu top — o primeiro livro da artista em prosa é uma viagem à Nova Iorque que a maioria de nós já não vai conhecer, uma homenagem a Robbert Mapplethorpe e à amizade, à arte, com muito sex, drugs e rock n roll à mistura. E apesar de Smith citar dezenas de obras de outros autores em Just Kids — Collages, de Anaïs Nin, Ariel, de Sylvia Plath, Paris Spleen, de Baudelaire, Little Women, de Louisa May Alcott, ou Les Enfants Terribles, de Jean Cocteau — não foi o livro que me fez regressar a Woolf. Foi a sua autora, que até então conhecia mais pelo seu trabalho musical e me fascinou pelo registo ritmado da sua escrita. Foi ao pesquisar sobre Patti Smith nessa altura que me deparei com um vídeo onde recita excertos de The Waves, romance de Virginia Woolf, publicado originalmente em 1931, considerado o mais experimental de todos os seus trabalhos. Nesse vídeo, de 2008, Patti declama partes da obra acompanhada pelos filhos no piano e na guitarra, para marcar a abertura da sua exposição Land 250, na Fundação Cartier para a Arte Contemporânea, em Paris, no mesmo dia em que se assinalaram 67 anos desde a morte por suicídio de Virginia Woolf. A forma como a artista conjugou as passagens do livro com as suas próprias considerações sobre Woolf fizeram-me querer voltar à obra de Virginia o quanto antes. Foi como assistir à união de duas mentes separadas pelas barreiras do tempo e do espaço, ao fluxo de consciência (a técnica literária modernista que marcou o estilo de Woolf) de Patti Smith e à relação impossível entre ambas que se traduziria quase certamente numa admiração mútua caso fossem contemporâneas, unidas pela destemidez.

The Waves — que Virginia considera um “jogo poético” mais do que um romance — mostra-nos seis personagens que a escritora via mais como várias vozes de uma mesma consciência, partes de um todo maior e em constante mudança. Não é o romance narrativo a que estamos acostumados, é mais um poema em prosa. São seis monólogos interiores, os pensamentos de cada personagem, que nos guiam a reflexões sociológicas mais do que a uma história — Woolf explora conceitos como individualidade, consciência, ser e comunidade, sublinhando a ideia de que somos todos mais parecidos do que pensamos à partida e dissipando as diferenças entre as pessoas no geral através dos discursos semelhantes de personagens diferentes.

Edgar Almeida – Voyage au bout de la Nuit de Louis-Ferdinand Céline, através de José Rentes de Carvalho e António Lobo Antunes

Muito antes da tão proclamada “cultura do cancelamento” tivemos os escritores malditos. Céline é um deles, e talvez seja por isso que tenha demorado tanto tempo a cruzar-me com ele. Outra razão poderá ser a cultura francesa ter perdido mais e mais destaque face à cultura de língua inglesa. Mas não me poderia ter aparecido anunciado de forma mais cativante. A primeira vez que me recordo de ter ficado curioso foi numa entrevista do decano José Rentes de Carvalho, que no seu jeito crítico quase de maledicência conseguiu arranjar umas quantas palavras elogiosas para colocar a obra prima de Céline entre os melhores livros da história e caracterizar o seu autor como o melhor dos melhores. Mas a verdade é que não me atirei logo à sua leitura pois apesar de gostar da escrita de Rentes de Carvalho, as suas declarações têm tendência a procurar a provocação e não me queria devotar a um livro de tamanho considerável só por o seu autor ter sido uma figura controversa (para dizer o mínimo) da história das letras europeias. Não foi então até António Lobo Antunes ter também louvado a capacidade de Céline para descrever a cobardia e a viagem que o ser humano é capaz de fazer até ao fundo mais miserável da existência sem se deixar de reconhecer a um espelho antropomórfico que o fiz, porque se há alguém que percebe desse assunto é o próprio Lobo Antunes. E foi então que me atirei a um livro que é uma crónica de viagem, escrito numa linguagem quase de café que chocou os círculos literários da altura, mas capaz de prender e desenhar com clareza a alienação humana quando nos desprendemos de tudo o que nos liga ao próximo. O egoísmo, a primazia da sobrevivência, a cobardia sumarizadas num desrespeito por tudo, principalmente pelo próprio ser.

João Ribeiro – McKenzie Wark via livraria Universo

Apesar de tantas vezes associarmos a leitura a uma espécie de ritual íntimo entre o autor e o leitor, a verdade é que o mundo que cabe num livro é muito mais do que redutível aos dois polos terminais de uma comunicação. Num livro cabem dezenas de referências, mais discretas ou mais concretas, e numa livraria esse número multiplica-se. É por isso que se torna tão frequente conhecermos livros em livros, descobrirmos autênticos universos em livrarias, ou reencontrarmos casualmente uma paisagem que nos era familiar mas da qual tínhamos perdido as coordenadas. Foi isso que me aconteceu, há uns bons anos, quando numa conversa com outro cliente da Livraria Uni Verso, onde compro a maioria dos meus livros em português, como troco para a minha revelação de fascínio por não-ficção e tecnologia, ele me sugeriu a autora McKenzie Wark. Ao pesquisar o nome no Google depois de sair da livraria acabei por perceber que era uma autora com quem já me tinha cruzado — especificamente com o seu Hacker Manifesto — mas o reavivar da pista na memória fez-me mergulhar noutras partes do seu trabalho, seguindo, na altura, para Spectacle of Desintegration; livro esse que, por sua vez, acabou por reavivar a vivacidade das memórias sobre o trabalho dos situacionistas e fazer-me retornar a um caminho que trilhara antes pelos autores que em tempos se juntaram para assinar essa publicação revolucionária. Mas não só. Também o interesse pela autora me fez acompanhar de perto, nomeadamente nas redes sociais, aquela que para além de autora, também é professora de Estudos dos Media na New School em Nova Iorque, colecionando a partir daí e ao longo dos últimos anos uma considerável quantidade de referências que ajudam a construir o meu próprio universo. Nem de propósito, é uma das autoras citadas no ensaio que recentemente assinei para o Shifter, num gesto que continua o mapeamento não propositado do mundo que acaba por ser o exercício da escrita.

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