Juventude, alicerces de vidro

Esta não é uma crónica sobre a perda de alguém. É, sim, uma reflexão sobre a forma inelutável com que escondemos a fragilidade da nossa própria existência, sem a qual não seríamos sequer dotados de experiências e vida.

Uma tarde de verão de 2017. O meu pai vai chegar atrasado, interromperam a circulação devido ao violento choque de dois veículos. O motociclista, jovem, ficara desfigurado. Recebo outra chamada, um anúncio entre lágrimas. O motociclista, jovem, era um dos meus melhores amigos.

20 anos. E o primeiro pensamento consistente que consegui formular dizia “vão ser anos duros de recuperação”. Como uma daquelas bolas para o alívio de stress que comprimimos mas, inevitavelmente, observamos a recuperar a forma original, lentamente. Era uma vida terrivelmente posta em pausa, sim; mas, naquele imediato que se seguiu à notícia, irreversibilidade nunca me cruzou a mente e a possibilidade de um desenlace fatal só se materializou quando ouvi, de facto, palavras que o anunciavam.

Esta não é uma crónica sobre a perda de alguém. É, sim, uma reflexão sobre a forma inelutável com que escondemos a fragilidade da nossa própria existência, sem a qual não seríamos sequer dotados de experiências e vida.

Quando, como aconteceu com Sara Carreira, como aconteceu com o meu amigo em 2017, aprendemos que uma vida jovem foi ceifada repentinamente, sem preparações e despedidas, parte de nós quer transcender os limites do nosso corpo e exteriorizar-se e expandir-se em urros de inconformismo; uma outra parte de nós parece encolher e refugiar-se num pânico de presa. A primeira reação é emocional e pessoal, consequência das vivências em comum com quem já não está cá e da realização de que tudo o que restará são velhas memórias. A segunda é visceral, instintiva e comum a todos nós, e prende-se com a insustentabilidade da consciência de que desenlaces irreversíveis espreitam em cada esquina.

O humano tende a criar rotinas que evitem riscos. A adrenalina parece acordar em nós sensações nunca antes experimentadas, mas esse fusível arde rápido e consome-nos. Não; procuramos homeostasia, equilíbrio, estabilidade. A nossa aprendizagem não passa da observação de padrões nos acontecimentos, e construímos a nossa perceção dos mecanismos do mundo com base em noções de previsibilidade. O Sol ergueu-se no horizonte todos os dias da minha existência. Assim, também amanhã se erguerá. Quando largo uma pedra, ela cairá no chão. Não há razão para achar que começaria a flutuar. Quando saio de casa para me deslocar para o trabalho, nunca tenho acidentes fatais. Porque haveria tal de ter lugar amanhã?

Mas ei-la: a aleatoriedade que se associa a cada corpúsculo do Universo. A aleatoriedade não faz parte dos padrões que aprendemos – quebra-os. Assim, quando fazemos uma decisão, tendemos a ignorar esta componente e, em vez disso, focamo-nos na repetibilidade que tendemos a experienciar. Se saio de casa para o trabalho, não penso que um meteorito, ou um vaso, vai cair sobre mim. É possível, mas pouco provável, e isso é o suficiente para não nos demover a ir para o emprego. Mais: é essencial que ignoremos estas possibilidades a favor da sua pequena probabilidade, pois de outra forma congelaríamos, incapazes de fazer seja o que for, assoberbados pelas ameaças à nossa existência que se materializam a cada segundo. Ignorância é uma bênção – forçamo-la sobre nós próprios de forma a tornar o nosso pensamento compatível com o estabelecimento de uma vida não despojada de qualquer interesse.

Porém, de vez em quando, ouvimos relatos de histórias como a da Sara. Desenlaces possíveis, mas pouco prováveis. Os jovens não deviam sumir-se assim, pensamos. E é particularmente difícil de processar para aqueles que são jovens também.

A morte própria não faz parte do conjunto de conceitos quotidianos de alguém na casa dos 20. Sem que nos apercebamos, achamo-nos invencíveis. Planeamos objetivos para 5, 10, 30 anos. Adiamos experiências porque temos uma vida à nossa frente para usufruir de aprendizagens e para realizar sonhos. Posso perder o contacto com amigos, mas não vou perder amigos.

Não somos frágeis até que uma notícia como a de Sara surja e revele a fragilidade dos alicerces com que sustentamos a nossa existência e valores. Põe a nu todas as atitudes irreverentes que tomamos rotineiramente, expondo a nossa própria concepção do mundo perante a realidade crua de que desfechos terríveis podem chegar a qualquer um de nós, porque chegaram a um de nós. E pesa-nos essa conclusão, a vertigem de, repentinamente, conseguirmos ver o abismo ao lado do qual caminhámos sempre.

Todos damos por nós a procurar causas, razões que expliquem o que aconteceu, justificações para a quebra do padrão. Como se pudesse ter sido previsto, como se pudesse ter sido evitado. Fazemo-lo porque aceitar o acaso é aceitar que podíamos ter sido nós, ou os nossos filhos, ou os nossos netos. A gigantesca carga de nos sabermos tão voláteis – a insustentável leveza do ser. Não somos feitos para saber lidar com estes conceitos a longo prazo.

Mas, se não nos deixarmos esmagar numa espiral descendente, tudo isto passa. Passa sempre. Pode demorar minutos, dias ou anos, mas recuperamos velhos hábitos e comportamentos. Porque somos humanos e aprendemos com padrões. Porque somos humanos e ignorância é uma bênção. Seguimos irreverentes até que outra Sara venha expor os nossos alicerces de vidro.

Texto de: Maria Teresa Parreira

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