Posso esperar mais 10 anos por um álbum do Sam The Kid

Porque ainda é possível produzir verdadeiros clássicos em Portugal.

É do conhecimento geral que o Hip Hop assumiu uma posição dominante no panorâma musical português. A febre das visualizações e tendências, as publicações patrocinadas… Uma geração eufórica e ansiosa por consumir material novo ditou uma estrondosa reviravolta no modo como se produz e consume música no nosso país.

O hit de uma semana é considerado som antigo passado meia dúzia de meses e, entre singles soltos, diversos são os artistas que, num curto espaço temporal, passam por estados camaleónicos inimagináveis. Por outro lado, mesmo quando a pouca singularidade reina, mas se seguem determinadas fórmulas de execução e promoção, na net simplesmente bate – até passado seis meses ninguém aturar aquela merda.

Sem a carga emotiva e temporal que a denominação “som antigo” deveria ambicionar, poucas são as faixas que chegam a merecer a ovação de futuro-clássico ou intemporal, tópico bastante discutido na TV Chelas – plataforma do senhor a quem o título deste artigo apela.

É em contraponto a tudo isto que falamos então de Sam The Kid. Com o terceiro e último álbum de rimas lançado em 2006, há muito que se celebra e evidencia a capacidade do Pratica(mente), mesmo passado 10 anos continuar a ser consumido e ovacionado como um produto atual. A espera por um novo disco a solo de Sam the Kid é sempre assunto nacional mas encontra possível explicação nos muitos projetos paralelos, deste Orelha Negra à colaboração com Mundo Segundo e a plataforma TV Chelas.

No que toca a rimas, e porque é disso que falamos, a colaboração com Mundo Segundo devia mesmo ser um case study. Em quase 3 anos, o resultado é: a promessa de um álbum, 3 singles e dezenas de concertos realizados, sem data de lançamento sequer. Mas se isto tudo podia soar como o inicio de uma crítica ressabiada… népia. Até 2026 está tudo perdoado porque aqui se esquece a quantidade e, embora o perfeccionismo destes artistas implique alguma espera,  retribui com muitíssima qualidade.

Cada lançamento desta colaboração de titãs dá-nos a sensação de ouvir algo realmente inovador. O botão de replay do Youtube, habituado a ser utilizado para decorar os “yeah yeah”, bem apelativos da geração lean, é substituído por palavras de entusiasmo como “pow pow, rewind nessa dica”; aquele puro feeling de ouvir algo de que não estavas à espera, embora estivesses porque sabes sempre ao que vais quando clicas, percebes? Em resumo, a verdade é que mesmo dividindo os singles lançados pelos anos de espera por Gaia & Chelas, o saldo é positivo, seja lá qual for o resultado.

A TV Chelas deveria ser canal TDT. Com a importância e influência que o Hip Hop tem atualmente, é a melhor plataforma educativa possível, não só para ouvintes como para todos os intervenientes da cultura. Esquece o curso de Hip Hop da Restart, subscreve o TV Chelas e vai tirando umas notas, referências não faltam e se em algum momento sentires que não estás a apanhar alguma dica das conversas, é normal, a culpa não é tua – e é para isso que serve o Google.

Nesta plataforma, entre todos os conteúdos publicados há um que tem despertado a minha curiosidade e particular atenção. Falo da série de colaborações com diversos rappers, que desde o inicio, têm vindo a rimar em instrumentais produzidos por Sam the Kid. Com uma periodicidade quase mensal essa rúbrica pode ser vista como uma mixtape não oficial (Se não for essa a ideia, fica a dica). Uma mixtape em constante continuação que já conta com participações de Bob da Rage Sense, Beware Jack, Sir Scratch, Maze, Daddy-O-Pop, Bispo, Zuka, Muleca XIII e Karlon.

Esta forte iniciativa junto da comunidade Hip Hop, criando uma biblioteca online de conteúdos inexistente até então, a par dos projetos com Mundo Segundo e Orelha Negra, acalma a ansiedade por um novo álbum de Sam The Kid. Salvaguardando os princípios da cultura, sem a o sectarismo manifestado por outros “defensores”, é um exemplo a seguir pela partilha, tolerância e respeito demonstrados. Se é para manter esta proatividade junto do movimento então posso esperar mais 10 anos por um álbum do Sam The Kid.

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