… Um homem aparece diante de mim em tons de cinza. Está virado para a esquerda e olha para longe, com um sorriso encantador, e os seus dentes de cima — brancos e perfeitos — vêem-se através dos lábios entreabertos. O seu cabelo escuro é curto e penteado para trás, sem dúvida penteado com quantidades generosas de gel. A barba e o bigode, perfeitamente aparados, cobrem a parte inferior do seu rosto sem deixar escapar um milímetro de pele, e as patilhas ligam a barba ao corte de cabelo de uma forma que parece boa demais para ser verdade.
Debaixo das sobrancelhas carregadas e espessas, os olhos ligeiramente semicerrados olham para um ponto alto algures à sua direita. A parte superior do seu peito largo e musculado está coberta de pêlos pequenos e escuros. As sombras projetadas no rosto e no corpo acentuam o seu físico bombado. O seu nariz é firme e pontiagudo, o maxilar irrealisticamente angular, e o queixo parece pesado, como um punho. Todo ele é tão musculado que até o rosto parece ter sido trabalhado no ginásio.
Ao pé de mim ele parece uma torre, mas a sua presença não é ameaçadora, já que a expressão facial transmite alegria e esperança. É impossível dizer para o que é que tem olhado, que o deixa tão feliz, já que o cenário escuro e cinzento não nos revela nada no seu entorno. A imagem até sugerir que não existe nada à sua volta. Talvez não precise de nada à sua volta. Ele parece desligado do tempo e do espaço; simplesmente está. Se tivesse que o descrever numa palavra, diria: livre.

Uma segunda imagem: outro homem, bastante parecido com o anterior, mas com uma estranha desconexão; as suas feições não são exatamente as mesmas. O seu corpo agora está visível, preenche a fotografia quase na totalidade e ocupa um lugar central no enquadramento, revelando o seu físico musculado na totalidade. Veste, nada mais nada menos, do que uma pequena sunga preta, evocando imagens do Mr. Olympia.
Agora encara-me, olha em frente com confiança, com a cabeça ligeiramente inclinada para a frente, e o seu rosto parece cada vez mais angular. Um sorriso muito discreto contorna os seus lábios, parece determinado, mais do que outra coisa qualquer. Por alguma razão está equilibrado nas pontas dos pés, com os joelhos ligeiramente virados para fora, mas a sua pose parece tão segura quanto uma escultura de pedra.
Os músculos entre o seu pescoço e os ombros são impressionantes, elevam-se nas costas quase como a capa de um super-herói. Sob o seu peito perfeitamente tonificado e perfeitamente simétrico, exibe um eight-pack absurdamente pronunciado. Não se vê uma única grama de gordura no seu corpo, e as veias percorrem os seus braços, estômago e pernas.
Os seus braços fortes saem do seu tronco com uma ligeira curva no cotovelo. Os dedos curvam-se como se estivessem prontos a agarrar alguma coisa ou a transformar-se em punhos cerrados. As pernas assemelham-se com um V invertido, tem os pés paralelos aos ombros, o que o faz parecer prestes a levantar voo, pronto para descolar.
O fundo é cinzento e parece — mais uma vez — uma espécie de vazio. A imagem sugere um não-lugar neutro, onde o homem surge como um ser sobrenatural, como um Deus, transcendendo as leis da natureza. O único aspeto da imagem que sugere que é um espaço físico é a sombra do homem por debaixo dos seus pés; mas mais uma vez, o chão que pisa dissolve-se gradualmente no nada.
Nesta imagem, ele é simultaneamente assustador e adorável. Se tivesse o tamanho de uma pessoa real, ou talvez ainda maior, a sua presença seria indubitavelmente bastante assustadora. Ainda assim, há algo na sua aparência hiperbólica, nas suas mãos prontas para agarrar e nos seus pés parecidos com os da Barbie, que me dá vontade de lhe pegar e de brincar com ele como se fosse um boneco Ken militar. Por isso mesmo, ele parece-me tanto omnipotente como completamente inofensivo.

Atualmente, estamos a viver um momento de ressurgimento da extrema-direita e de políticas fascistas. É seguro dizer que o Ocidente está a experienciar uma queda para o fascismo em tempo real: isto não é uma simulação. Ao mesmo tempo, um grande número de homens sente-se ameaçado na direção oposta: acreditam que o feminismo e o multiculturalismo são as verdadeiras forças maléficas da atualidade. Esses homens encontram-se frequentemente nas esferas reacionárias online da direita alternativae da manosfera; movimentos que – entre outras semelhanças1[Tanto na extrema-direita quanto na manosfera, o racismo e o antissemitismo estão (ativamente) presentes, embora esse tipo de intolerância desempenhe um papel mais central na extrema-direita, visto que a manosfera se preocupa principalmente com os papéis de género. Outra semelhança fundamental é a sua dependência do determinismo biológico e da pseudociência como fundamento ideológico.] – idealizam a masculinidade e expressam formas distintas e violentas de misoginia, tornando-se cúmplices na sua batalha contra um “inimigo comum”: as mulheres. O papel central da masculinidade nessas esferas é frequentemente alimentado por “sentimentos masculinos de desvalorização política, social e sexual, e orgulho ferido,”2Hermansson et al., “Masculinity and Misogyny in the Alternative Right”, The International Alt Right, 190. resultando em visões tóxicas sobre género e poder.
Neste contexto, alguns gostam de falar numa “crise da masculinidade”. A explicação popular para isso é que, numa era de crescente emancipação feminina — em que as mulheres agora superam os homens em vários domínios académicos e profissionais —, combinada com um discurso cultural que tende a destacar os aspetos problemáticos da masculinidade, muitos homens sentem-se incertos e inseguros quanto ao seu papel na sociedade e percebem que a sua posição já não é de autoridade e poder. Embora esta explicação sociológica faça sentido, eu argumentaria que a crise é muito mais profunda e pode ser inerente à própria masculinidade, devido aos padrões impossíveis que impõe estruturalmente aos homens. Como defendem muitas teóricas feministas, “talvez a própria ideia de masculinidade seja tóxica.”3Sam De Boise, “Editorial: is masculinity toxic?”, NORMA: International Journal for Masculinity Studies Volume 14, Issue 3 (2019), 150. Por outras palavras, a crise da masculinidade é provavelmente crónica, e fenómenos como a direita alternativa e a manosfera são apenas os seus sintomas mais recentes.
Ecoando o discurso popular em torno da “masculinidade frágil”, estes homens acham a emancipação das mulheres e a diversificação da sociedade — que não representa qualquer tipo de ameaça real para eles — “tão existencialmente perturbadora […] que recorrem à defesa das suas identidades masculinas que estão em risco de desintegração.” 4Johansson, “The sexual revolution”, Fantasy, Online Misogyny and the Manosphere, 69. Agarram-se desesperadamente à sua masculinidade, na tentativa de proteger os seus egos de um mundo em constante mudança, e muitas vezes reagem num gesto violento contra tudo o que lhes parece ser a origem da ameaça, normalmente mulheres ou Outros racializados (ou estrangeiros). E às tantas surge uma figura online para lhes oferecer abrigo afetivo e uma armadura digital. O Homem, o Mito: Giga Chad.
Quem é o Giga Chad? É o “filho” digitalmente manipulado de Krista Sudmalis — uma artista russa — que se tornou um meme viral. Uma coleção de imagens de um homem que de alguma forma parece ser mais-do-que-um-humano. O seu físico bombado e as expressões faciais irrealisticamente exageradas revelam todos os sinais do Photoshop, mas as suas imagens têm uma qualidade quase mítica. Nunca visto por ninguém na vida real, o Giga Chad habita a internet — é mais uma entidade digital do que qualquer outra coisa.
As suas fotografias são, supostamente, de um modelo de fitness chamado Ernest Khalimov, que aparece frequentemente no projeto de fotografia “Sleek’N’Tears”, da própria Krista Sudmalis, que gira em torno do corpo humano musculado. 5[5] Know Your Meme, “GigaChad”, https://knowyourmeme.com/memes/gigachad. O estilo de Sudmalis é imediatamente reconhecível: as fotografias são todas a preto e branco, e os modelos posicionam-se todos contra um fundo cinzento, e estão praticamente despidos, o que coloca o foco totalmente nos seus corpos extremos. Os modelos — homens e mulheres — geralmente estão em pose de culturismo e fitness, com os braços e pernas fletidos ou a mostrar as coisas que conseguem fazer com os seus corpos em posições acrobáticas.
A jornada do Giga Chad na manosfera terá começado em 2017, quando um link para a conta de Instagram de Sudmalis, @sleekntears, foi publicado no fórum 4chan /pol/ (‘politicamente incorreto’), acompanhado de uma imagem de Ernest Khalimov. A partir daí, a imagem foi publicada nos fóruns Lookism, onde um utilizador lhe chamou “ultra chad”. E depois de, inicialmente, se ter popularizado na incelosfera, o Giga Chad tornou-se verdadeiramente viral quando apareceu no formato de meme ‘Average … fan vs. average … enjoyer’ em 2021. 6Know Your Meme, “GigaChad”, https://knowyourmeme.com/memes/gigachad.
Agora, alguns anos mais tarde, ele continua “vivo e em circulação”, o que é bastante raro já que grande parte dos memes são “virais” apenas por curtos períodos de tempo. O Giga Chad parece, portanto, ter tocado num certo nervo cultural, ou talvez tenha simplesmente aparecido no sítio certo à hora certa?
Desde os primórdios da escalada à fama do Giga Chad, as pessoas questionavam-se se Ernest Khallimov — supostamente o homem por detrás do meme — seria uma pessoa real. Quando os utilizadores descobriram a sua conta de Instagram pessoal, alguns acharam que era uma prova da sua existência.7u/quaintif, “gigachad is real, and humble and he seems like a pretty nice guy. he’s an actual Chad.”, Reddit, https://www.reddit.com/r/MadeMeSmile/comments/tx0eop/gigachad_is_real_and_humble_and_he_seems_like_a/. Em abril de 2021, Khalimov finalmente reconheceu que as suas fotografias estavam a tornar-se virais num post de Instagram, humildemente dizendo: “Não tenho nada a dizer, provavelmente porque pareço muito mais interessante pelas vossas palavras. É muito lisonjeador e ofusca a minha banalidade.” Isto apenas reforçou o mito do Giga Chad: ele é bonito e tem cabeça, como defendeu alguém no Reddit ao dizer que “ele parece um tipo bastante fixe”. No entanto, a probabilidade das imagens de Khalimov serem representativas de uma pessoa real é na realidade bastante baixa. O seu corpo tem uma forma impossível, e as fotografias são, no mínimo, altamente editadas.
Sudmalis, a criadora, defende a ambiguidade da sua existência. Quando lhe pediram numa entrevista para apresentar Giga Chad, disse o seguinte: “Ouvi dizer que ele é um homem ideal, por fora e por dentro. As imagens são feitas por mim.” A palavra-chave aqui é ideal, no sentido em que ele só existe enquanto ideia. Quando lhe perguntaram se o Giga Chad era real, Sudmalis misteriosamente disse: “Tudo o que posso dizer é que o Ernest é tão real quanto se pode ser, dadas as circunstâncias em que ele está.” É claro que ele ser ou não real não é uma discussão particularmente interessante, e em todo o caso, ela tem razão: o Giga Chad é real no sentido em que existe online, exerce influência, e tem o potencial para desencadear ações.
O incel sobrehumano
Como a imagem do Giga Chad se infiltrou em todos os cantos da internet, tomando tantas formas e evocando tantas emoções diferentes, ele escapa a qualquer significado singular. É, no entanto, dentro da manosfera, especificamente na incelosfera, que a sua imagem parece ter causado uma maior agitação. Os incel são obcecados com o que eles entendem ser uma hierarquia sexual-social, e usam “Chad” como um significante dos homens que estão no topo dessa hierarquia. Eles veem-no como “um ser com uma percentagem superior em termos de aptidão genética.”8Wikipedia, “Chad (slang)”, https://en.wikipedia.org/wiki/Chad_(slang)#cite_note-11. Quando descobriram o Giga Chad, foi imediatamente adotado como a personificação máxima do mais alto nível da ordem sexual-social.
O Giga Chad “excede a virilidade do Chad ao ser mais viril, mais angular, e mais ‘alfa’”9Catherine Tebaldi, Scott Burnett, “The Science of Desire: Beauty, Masculinity, and Ideology on the Far Right”, Journal of Right-Wing Studies, Volume 2, Issue 2 (2024), 27., ele é o “Super-homem [“ubermensch”] Incel, a versão hiper-realista e hiper-realizada do homem aspiracional supremo”.10John Mercer, Clarissa Smith, “Aspirational Bodies: Health, Fitness and the Body Project”, Sexualised Masculinity: Men’s Bodies in 21st Century Media Culture, 1st edition, (London: Routledge, 2025), 90. Como tal, a sua imagem oferece simultaneamente angústia e conforto aos incels. Como afirmam John Mercer e Clarissa Smith: “Giga Chad é o sucesso social e sexual personificado e, simultaneamente, um avatar potente pela sua inatingibilidade e natureza irrealista; parafraseando Lauren Berlant (2011), o otimismo cruel do corpo perfeito” 11Mercer, Smith, “Aspirational Bodies”, 91..

O Giga Chad confirma o maior medo dos incels: que nunca terão uma oportunidade no mundo do dating porque homens que se parecem com ele são os seus principais rivais. Ele torna-se a prova do seu sistema de crenças, que é essencial para a sua identidade e, portanto, tem grande importância emocional. Há algo reconfortante em descobrir que o teu maior medo é verdade: pelo menos não és louco. Mas claro, tudo isto é paradoxal: sendo uma imagem photoshopada e construída digitalmente, o Giga Chad serve como umafata morgana para os incels, um sonho febril que confundem com realidade. E há algo quase masoquista nisto; o Giga Chad é um rival alucinatório para estes homens, com o qual ficam obcecados para se torturarem. Este tipo de comportamento é exemplar da psique incel: eles orquestram uma visão de mundo na qual estão constantemente a ser humilhados e oprimidos pelas pessoas à sua volta e por criaturas inimigas fantásticas, como o Giga Chad.
De acordo com Jacob Johansson, Chad também é uma figura racializada: “em última análise, o homem branco é mais desejado pelos incels e articula-se a si mesmo na construção da fantasia do Chad”.12Johansson, “Incels and fantasies of destroying/desiring the other”, Fantasy, Online Misogyny and the Manosphere, 111. Chad — representado como branco, alto, extremamente musculado, de queixo largo — representa, para estes incels, a fantasia suprema da masculinidade branca, que consideram, tal como o seu corpo musculado, a chave para uma vida (sexual) bem sucedida. A natureza racial de Chad é evidenciada pelo facto de ele ter um homólogo negro chamado Tyrone.13Kim Ebensgaard Jensen, “Cultural Categorisations of Men in a Notorious Online Community”, The Handbook of Cultural Linguistics, (Springer: Singapore, 2024), 368. Uma pesquisa pelos posts de incels sugere que o Chad branco é frequentemente considerado superior aos Chads de outras etnias. 14Ebensgaard Jensen, “Cultural Categorizations”, 368.

Não é surpreendente que além de ter sido adotado pela mano- e incelosfera, o Giga Chad também seja popular nos círculos de extrema-direita e da direita alternativa. Como utilizadora ativa de redes sociais, eu sabia da existência do Giga Chad, mas só lhe dediquei mais atenção quando descobri estas imagens incorporadas em memes racistas e neo-nazis enquanto fazia pesquisa de campo sobre a extrema-direita holandesa no Twitter/X. Analisei diversas contas de extrema-direita holandesas que publicam conteúdo sobretudo relacionado com o ódio contra Muçulmanos e outras minorias, teorias da conspiração anti-semitas, e a glorificação da história (colonial) holandesa; quase todas incorporavam memes, tal como o Giga Chad.
Numa thread do Twitter/X onde o usuário “critter” [bicho] (@BecomingCritter) pediu para nomear um “programa de TV com QI de 120, ou até de 130”, ‘Hoeder van waarden’ [Guardião de Valores] (@HoederVanWaarde) respondeu: “Chama-se Forum Inside” e inclui uma imagem editada com a cara de Thierry Baudet a fundir-se no corpo do Giga Chad.15Forum Inside é um podcast no YouTube, produzido pelo FvD e protagonizado por Thierry Baudet e outros membros do FvD, muitas vezes em conversas com outros convidados de direita. Thierry Baudet é o líder do Forum voor Democratie (FvD) [Forum para a Democracia], um partido político holandês de extrema-direita que se tornou popular entre 2019 e 2021.16O período de crise de COVID-19 (2020 – 2022) presenciou uma aceleração da extrema-direita e do pensamento de extrema-direita e o FvD aproveitou esta oportunidade para surfar a onda dos sentimentos anti-governamentais e anti-globalistas que se seguiu. Durante esse momento de fama, o FvD conseguiu introduzir novos sentimentos de direita alternativa no discurso político holandês, deslocando com sucesso a janela de Overton para a direita através do seu discurso conspirativo e até mesmo de teorias raciais.17Já em 2017, Thierry Baudet defendeu que as pessoas holandesas estavam a ser “homeopaticamente diluídas” por se “misturarem” com pessoas de outras partes do mundo. Durante o seu discurso de vitória em 2019, Baudet argumentou que as pessoas que “deviam estar a proteger-nos” estavam a destruir o mundo “boreal”. Jornalistas apontaram para as conotações fascistas da palavra “boreal”. Nazis como Heinrich Himmler acreditavam que a raça ariana tinha origem numa província mítica do norte: a “Hiperbórea”.
Outro utilizador, “Pier”(@Pier_NL), usou a imagem de Giga Chad numa discussão online sobre racismo, na qual segurava uma caneca com o nome e a cara de Hitler enquanto dizia a outro: “tu também vais entrar no comboio”, referindo-se aos comboios que levaram Judeus e outros grupos subalternizados para os campos de concentração nazis.18Pier (@Pier_NL), X, 8 October 2024, https://x.com/Pier_NL/status/1843526525486026938. Noutro post, via-se uma espécie de decoração digital onde o Giga Chad tinha uma cruz cristã-ortodoxa à volta do pescoço, tornando-o numa espécie de boneco de vestir fascista.19Pier (@Pier_NL), X, 30 Janeiro 2025, https://x.com/Pier_NL/status/1885068561439248402. O cristianismo oriental/ortodoxo é particularmente popular na extrema-direita devido às suas associações com o conservadorismo forte e o “tradicionalismo”.


Nestes exemplos, Giga Chad funciona como uma máscara morfo-digital: ao usares esta máscara mostras aos outros que és inabalável e invencível nos debates digitais, independentemente do quão politicamente incorreto possas ser. Curiosamente, no entanto, o Giga Chad funciona para ambos os lados do espectro político, já que também surge em memes de esquerda.
No site Know Your Meme, encontram-se “Chad-ificações” de Hitler, Putin, Xi Jinping e Zelensky, o que mostra como o conceito do Giga Chad ultimamente funciona como um símbolo vazio ou permutável, desprovido de qualquer significado consistente ou inerente. Isso corresponde à noção de que os memes são polivocais: flexíveis, abertos e, portanto, nunca carregam inerentemente um único tipo de conteúdo ideológico. flexíveis, abertos e, portanto, sem nunca transportarem inerentemente um tipo de conteúdo ideológico. Devido à sua aparência extremamente musculada e hiper-masculino, o Giga Chad enquadra-se especialmente nas políticas machistas e potencialmente fascistas da extrema-direita e da manosfera. Em termos estritamente ideológicos, o Giga Chad é uma figura ambígua no seu melhor, talvez imparcial na sua essência, mas certamente não é inocente.

Catherine Tebaldi e Scott Burnett defendem que na ideologia fascista, os corpos masculinos são instrumentalizados sob o pretexto de alcançar um novo futuro fascista: “a renovação, o renascimento e a recuperação física e cultural são concretizados através de uma visão estética específica. A perda de peso e o ganho de massa muscular não se tratam meramente de ter uma boa aparência, mas da recuperação da masculinidade – a própria e a das nações”.20Tebaldi, Burnett, “The Science of Desire”, 40. Tebaldi e Burnett também afirmam que o “sabor moral”21O alinhamento de diferentes qualidades físicas e psíquicas num único termo. do fascismo é a “dureza”.22Tebaldi, Burnett, “The Science of Desire”, 20. Descrevem essa dureza como sendo “tanto força física quanto determinação intelectual, unindo o sensorial e o ideológico num ícone da dominação masculina idealizada”. 23Tebaldi, Burnett, “The Science of Desire”, 20. Soa familiar? Essa combinação de força física e determinação intelectual é uma descrição perfeita do arquétipo do Giga Chad.
No fascismo, esta dureza funciona de duas formas. Primeiro, o corpo é visto como um instrumento, uma ferramenta para uma batalha fascista. O corpo masculino serve no exército, defende a nação fascista, mostra trabalho e sacrifica-se a si mesmo: e para fazer todas estas coisas, tem de estar fit e musculado. Mas o corpo também é estetizado e simbolizado: corpos fortes e bonitos servem como prova da potência, do poder e da retidão do fascismo. Como Tebaldi e Burnett defendem: “Ao tornar-se forte, viril e atraente, um homem pode incorporar a beleza masculina como o significado e o poder que foram perdidos graças à degeneração moderna”24Ibidem., 21. e, como tal, a beleza masculina ideal é essencialmente instrumentalizada a favor do argumentário da ideologia de extrema-direita.25Ibidem., 43.
Não é coincidência que o Giga Chad, ao incorporar o ideal de beleza masculina, se relacione com a noção de estar certo ou based. Na internet, “toda a gente sabe que se publicaste uma fotografia do Giga Chad, a tua opinião está correta. Nenhuma combinação de factos, lógica ou retórica consegue resistir à tua publicação daquela fotografia fatídica, supremamente masculina, e com jugo, a preto e branco do homem mais masculino no mundo.”26Marlon Ettinger, “Who is GigaChad?”, Dailydot.com, https://www.dailydot.com/memes/gigachad-meme/.


Um dos pontos em que a extrema-direita e a manosfera divergem das mentiras fascistas tradicionais prende-se com esta atitude dual em relação ao corpo enquanto instrumento/símbolo. Estes movimentos, em grande parte, abandonaram essa função instrumental e tendem a ficar obcecados em relação ao corpo enquanto símbolo (estético) mais do que com a “exig|encia que ele aja sobre o mundo”.27Josh Vandiver, “Alt-Virilities: Masculinism, Rhizomatics, and the Contradictions of the American Alt-Right”, Politics, Religion & Ideology, Volume 21, Issue 2, (2020), 174 É por isso que eles não têm, ou não precisam, de um exército físico. De qualquer forma, os seus soldados estão por detrás dos computadores — ou talvez no ginásio.
Para a extrema-direita, a manosfera e o fascismo, melhorares a tua força física através do exercício é visto como uma ferramenta essencial para alcançar “todo o potencial masculino” e para dominar tanto outros homens como as mulheres. De acordo com Johansson, “O supremacismo branco, e a forma como é utilizado na manosfera, privilegia o corpo masculino branco em forma, mais do que o de outros.”28Johansson, “The sexual revolution”, 64. Esta dinâmica é facilmente discernível na cultura masculina contemporânea, uma vez que a promoção do fitness e da força física é generalizada, sobretudo em espaços (online) de extrema-direita.

Enquanto treinar é uma atividade física, a transformação que os rapazes fit de extrema-direita procuram é grande parte das vezes mais físico-espiritual. O corpo masculino fit serve como um símbolo da progressão mental. O Giga Chad, uma presença irreal, um morto-vivo, ausente de uma presença física, a flutuar no espaço, torna-se um arquétipo ideal quando os corpos masculinos se tornam símbolos em vez de estarem ligados à terra. Ele torna-se um símbolo puro de domínio, disciplina, estoicismo e superioridade genética. Ele não precisa marchar ou disparar uma arma para incorporar o fascismo; dentro das esferas fascistas, ele torna-se um simulacro perfeito da masculinidade fascista.



Nos tempos que correm, mais do que nunca, vivemos uma hiper-realidade Baudrillardiana: uma sistema no qual os signos já não se referem à realidade mas apenas a outros signos e no qual a realidade, ela própria, se desfez. Especialmente porque as nossas vidas estão entrelaçadas com a internet e a cultura digital: um sistema auto-referencial por excelência, uma máquina de simulação perfeita. Os memes, claro, florescem neste tipo de sistema: circulam e sofrem mutações constantemente, emergindo num canto da internet e acabando noutro completamente diferente, muitas vezes funcionando dentro de um quadro de referência puramente memético. O ecossistema dos memes é um simulacro por natureza.
Realidades Simulacrais
Quando olhamos para a extrema-direita e a manosfera, conseguimos ver como ambos são essencialmente estruturas simulacrais, baseadas em visões de mundo que não estão conectadas com nenhuma realidade histórica ou empírica mas são inteiramente auto-referenciais: onde o sistema de crenças, os símbolos e a gíria simplesmente se constroem uns em cima dos outros: uma estrutura auto-referencial que se parece a um castelo de cartas.
Por exemplo, a extrema-direita adora a estética da antiguidade clássica porque, para eles, simboliza a superioridade da cultura Ocidental e da raça branca.29Hermansson et al., “Art-Right: Weaponising Culture”, The International Alt-Right, 1st Edition, (London: Routledge, 2021), 109. Isto é, no entanto, uma fantasia racista que não está ancorada à realidade: o símbolo supostamente representa um passado místico, mas é um simulacro: não existe um passado (místico) para reivindicar. Então, acelerado pela cultura da internet, algo como a “fash-wave” entra em cena: um estilo musical e uma estética online (muitas a partir de imagens clássicas) que parasita simulcracos pré-existentes.

Outro exemplo é que os homens da manosfera acreditam numa hierarquia sexual-social, criando imagens que simbolizam ou personificam esta ordem. “Chad” e “Stacy” são dois cartoons que supostamente representam os dois tipos de pessoas no topo desta hierarquia sexual-social. Como signos, eles são inseminados com outros signos. A Stacy supostamente personifica a mulher moderna como sendo superficial, calculista e hiper-gâmica. O Chad supostamente personifica o homem bem sucedido como alguém que é dominador, musculado e frio. Para a manosfera, estes símbolos representam a realidade social. Mas, em vez disso, eles mascaram o facto de que tal realidade, e na verdade qualquer “realidade sexual-social fundamentalista” não existe de todo: as hierarquias sexuais-sociais são demasiado complexas e diversas para serem representadas por tais figuras.

Dentro do contexto tóxico da masculinidade da extrema-direita e da manosfera, uma figura como o Giga Chad funciona como a última fase do simulacro. Inicialmente, pode ter sido uma representação distorcida ou editada de um modelo de fitness, mas depois de se tornar Giga Chad e ter sido contaminado com os sinais (já distorcidos) de hiper-masculinidade, perdeu qualquer conexão com a realidade. Agora ele simplesmente reflete outros signos que referem signos que referem signos, enquanto circula pelo sistema simulacral da internet-meme.
A extrema-direita e a manosfera são, portanto, simulacrais, no sentido em que já não se relacionam com realidades empíricas ou históricas, mas operam como sistemas de signos fechados e autorreferenciais. Para esses homens, no entanto, esses signos são “mais reais do que a própria realidade”. A sua visão de mundo é vivida como realidade verdadeira, mas mascara o facto de que ela não existe realmente: não há feminismo aterrorizante, não há grande substituição, não há guerra contra os homens.
Entretanto, símbolos hiper-reais como o Giga Chad são aceites como sendo mais representativos da realidade do que a própria realidade, e exortam uma influência real. Baudrillard escreve sobre a “precessão do simulacro”, no sentido em que a vida começa a imitar a realidade simulacral.30Baudrillard, “The Precession of Simulacra”, 1. Isto relaciona-se com a forma como uma figura hiper-real como Giga Chad influencia os padrões de beleza, resultando em formas estranhas e extremas dos homens melhorarem a sua aparência, tal como a trend ‘mewing’.31‘Mewing’ é uma tendência online que se apresenta como um “método de reestruturação facial faz-tu-mesmo”. É praticado principalmente por homens jovens que desejam realçar a beleza facial fortalecendo a mandíbula e tornando o queixo mais proeminente. O mewing é um aspeto essencial do fenómeno ‘looksmaxxing’, popular entre os incels, mas não exclusivo desse grupo. Na incelosfera, existe a convicção de que ‘a mandíbula é fundamental’, ou seja, para um homem, a mandíbula desempenha um papel essencial na aparência e na atratividade.

Há aqui uma obsessão com o que eles entendem ser “distorções da realidade”. O discurso red pill organiza-se em torno da crença de que os pontos de vista feministas e progressistas são, na verdade, aparições malignas que distorcem a realidade, e que a verdadeira visão da realidade se encontra no seu ponto de vista — no qual os homens (brancos) são os mais oprimidos — quando se tornam um red pill. Os red pilled parecem intuitivamente sentir a situação pós-moderna e simulacral em que nos encontramos e, a partir daí, criar defensivamente a sua própria realidade, afirmando que sim, vivemos num mundo ilusório, mas que NÓS conseguimos ver através da ilusão — enquanto, é claro, não há nada do outro lado.
Eles apenas criam uma nova ilusão oposta à que experienciam. Sentem que penetram o simulacro, apenas para criar um contra-simulacro, para saciar a sua sede pelo real, talvez? Segundo Jean Baudrillard, o desaparecimento do real será acompanhado por uma obsessão histérica pelo real, e o discurso dos red pill é um ótimo exemplo disso.32Baudrillard, “The Precession of Simulacra”, 26. Essa histeria também se reflete no discurso sobre o próprio Giga Chad, quando gira em torno da pergunta: SERÁ QUE ELE É REAL?
Se olharmos para a situação política atual através da lente Baudrillardiana, especificamente a ascensão das forças e tendências fascistas, talvez consigamos vir a compreender por que é que o fascismo dos dias de hoje muitas vezes não é reconhecido como tal. Podemos dizer que o fascismo hoje bate de outra forma. Como Baudrillard escreveu, os simulacros tornaram-se substitutos da própria realidade. Como tal, a política é substituída pelo simulacro político; o poder já não é verdadeiro poder, mas é substituído pelo seu duplo operacional ou pela performance de poder.33Baudrillard, “The Precession of Simulacra”, 21-22. Noutras palavras, parece-se com um pato e nada como um pato, mas não é um pato.34É importante ressaltar, porém, que ele ainda funciona como um pato. Ele ainda pratica o fascismo.
Baudrillard escreve sobre o desaparecimento do poder: “O poder, em si mesmo há muito tempo que não produz nada mais do que sinais da sua semelhança. E ao mesmo tempo, outra figura de poder entra em cena: a de uma de uma exigência coletiva por sinais de poder – uma união sagrada que é reconstruída em torno de seu desaparecimento.”35Baudrillard, “The Precession of Simulacra”, 23. O poder tornou-se um poder do imaginário (coletivo), da narrativa e dos gestos. 36Nos Países Baixos, vemos isso muito claramente. Wilders, líder do PVV, evoca constantemente imagens de um país em crise, especificamente uma crise de refugiados, que supostamente mantém a nação e seu povo sob controlo. Nos seus discursos, soa o alarme, descrevendo os refugiados como uma onda catastrófica e o seu partido como o único que ousa dizer essa “verdade” e que irá combatê-la. Claro que, agora que o seu partido está de facto no poder, nada muda. Todos estão furiosos e nada acontece. É claro que, em certo sentido, isso também é intrínseco ao fascismo: ele precisa de um inimigo (interno) para funcionar, e é por isso que uma figura como Wilders tem interesse em manter a “crise” viva. Com Baudrillard, podemos descrever a política de Wilders como uma forma de dissuasão: fala constantemente de crise e agitação, não para tomar medidas concretas, mas para impedir que algo real aconteça. Quando Baudrillard disse que “a Guerra do Golfo não aconteceu”, ele quis dizer que o evento real foi substituído – na experiência coletiva da realidade – por uma imagem construída e distorcida da guerra, tal como foi transmitida pelos media.
A imagem, o simulacrum, é uma ferramenta de poder. Os nazis sabiam disso. O fascismo “tradicional” sempre se baseou em mitos e simbolismo, funcionava através de estruturas de intenso poder afetivo que eram mediadas (sobretudo) por propaganda com base em imagens. Como tal, o fascismo nunca esteve realmente ligado a uma realidade material: a realidade não é importante para os fascistas. No entanto, o fascismo tradicional ainda precisava de uma força física e violência para ganhar poder, e isto pode ser diferente hoje em dia.
Na hiper-realidade, o fascismo depende menos de eventos da vida real e mais em signos e símbolos (digitais). Isto não significa, no entanto, que o fascismo se tornou inofensivo: pelo contrário, o fascismo hiper-realista, ou hiper-fascismo, pode representar um perigo ainda maior, já que não depende de estruturas de poder “tradicionais” no mundo físico para gerar poder e influência. É um fascismo flutuante: flutua entre as bases de dados e as esferas online, mas mesmo assim afecta corpos e mentes, dividindo-nos e polarizando-nos. Veja-se esta perigosa combinação de afecto e sistemas globais em rede. As estruturas afetivas do Terceiro Reich, mediadas pela imprensa, a rádio e o cinema, vão parecer “engraçadas” em comparação com o incompreensível ciber-alcance do fasciscmo contemporâneo. O hiper-fascismo continua a espalhar violência (simbólica) e com base no ódio, mas já não precisa de botas no terreno para o fazer — os Freikorps da atualidade estão no Reddit.
O ciber-fascismo
A formação do fascismo está em aceleração, e o seu campo de batalha é cada vez maior: o Pepe the Frog só se podia ter tornado um símbolo fascista na hiper-realidade. Como consequência, o fascismo não se torna menos perigoso, mas pode ficar mais esquisito. As suas manifestações tornam-se estranhas, mais bizarras. A saudação nazi de Elon Musk deixa-nos perplexos; as coisas que vemos nas notícias fazem-nos questionar a realidade todos os dias. Ao mostrar-se em formas nunca antes vistas, o fascismo torna-se mais difícil de identificar, mais difícil de capturar; mas também mais escancarado do que nunca. Pode parecer uma contradição, mas a confusão sobre o que é o fascismo e como funciona, resulta em favor do fascismo; isto é importante. Movimentos fascistas, como a extrema-direita, podem crescer quando a consciência moral coletiva está ocupada a ser confundida e distraída. Este pode ser um dos motivos pelos quais a direita alternativa abraçou a internet e a cultura meme e por que adotou uma figura aparentemente absurda como o Giga Chad.


Enquanto figura mitologizada e simulacral, Giga Chad torna-se um potencial (e potente) veículo para o hiper-fascismo. Na circulação pelo ecossistema simulacral que é a internet, adotado pelas esferas fascistas da extrema direita e da manosfera, Giga Chad tornou-se um símbolo da superioridade masculina e até da teoria da raça nazi. Ele começa a incorporar não só a fantasia incel da ordem sexual-social, mas também a ideologia fascista mais ampla que glorifica o corpo branco musculado masculino como um veículo de controlo, ordem e potencial violência. Claro que esta apropriação e transformação do Giga Chad não é aleatória. À boa moda do fascismo, Giga Chad combina um sentido de masculinidade mítico com uma estrutura afetiva particular: a do homem impenetrável.

Na sua obra seminal Männerphantasien (1977), Klaus Theweleit analisou a psique “proto-fascista” dos soldados dos Freikorps, os grupos paramilitares que estiveram ativos na Alemanha pós I Guerra Mundial. Para entrar na psique desses soldados, Theweleit analisou diários, cartas, e literatura escrita por eles. Leu estes registos escritos sintomaticamente, para detetar como é que estes homens imaginavam os seus corpos, as mulheres, a nação, os inimigos, e eles próprios. Theweleit descreve como os egos dos soldados parecem estar “fragmentados e menos manifestados do que noutros sujeitos” e como, consequentemente, os homens estão aterrorizados com a ideia de perder a pouca estabilidade e firmeza que lhes resta, de caírem e se desintegrarem.37Johansson, “Male fascist bodies”, 42. No exército, os soldados desenvolvem uma armadura, teorizada por Theweleit como uma estrutura psicológica e física de defesa — um escudo tanto emocional como muscular — para proteger os egos fragilizados dos soldados contra tudo o que for fluído, vulnerável ou incontrolável.
O corpo blindado está protegido da vulnerabilidade emocional ou sexual, e torna-se uma espécie de forte em que o ego se encontra a salvo. As mulheres — que estes homens associam a fluidez e a sexualidade — tornam-se um inimigo. No exército e no fascismo, os soldados encontram uma estrutura que reflete e amplifica a sua própria noção interna de controlo, invulnerabilidade e violência, e passam por um processo de fusão com estas estruturas. Theweleit chama a isto auto-fusão: os homens simultaneamente dissolvem-se num corpo maior e recolhem-se cada vez mais em si mesmos, blindando-se contra qualquer influência externa.
Da mesma forma, os homens da manosfera também sentem que as mulheres e o feminismo são uma ameaça para o seu ego masculino e cometem atos de violência (simbólica) contra elas num contra-ataque defensivo através de narrativas, discursos e memes que espalham online. A extrema-direita, um movimento que é uma espécie de cúmplice da manosfera através da misoginia partilhada, atua com as mesmas táticas. Tal como Theweleit leu os registos dos Freikorps de forma sintomática, numa tentativa de desvendar as suas estruturas psíquicas, o Giga Chad pode ser lido como um produto, ou ilustração, da psique masculina dos homens online que fazem parte da manosfera e da extrema-direita.
No online, qualquer imagem serve como uma potencial plataforma de identificação. Os utilizadores da internet muitas vezes utilizam avatares, personas ou arquétipos com que se identificam ou atrás dos quais se querem esconder. Por exemplo, a fotografia de perfil assemelha-se a uma máscara digital ou uma fantasia. Na cultura meme, também há uma tendência consistente para dizer “isto sou eu” em reação a imagens que mostram animais fofos, tipos que parecem engraçados, modelos lindos de morrer, ou qualquer outra coisa, na verdade. Um coelho bebé é “com quem estás a ser mau”, a Megan Fox em calças de fato de treino e um top de alças é “eu a ir ao supermercado”.

O Giga Chad funciona desta mesma forma: como uma persona online que está disponível para qualquer um, no sentido em que qualquer pessoa pode “ser” ele num tipo de roleplay digital e hiper-real. Este processo de identificação funciona num campo simbólico. Tal como um coelho bebé simboliza um sentido de inocência, amabilidade e brincadeira, o Giga Chad simboliza auto-confiança, auto-suficiência e estabilidade. O seu sorriso sem fim, olhar confiante e o físico incrivelmente forte contribuem todos para esta imagem. Tal como as suas imagens sugerem que existe fora do tempo e do espaço, ele próprio parece ter alcançado a auto-confiança e o auto-controlo emocional. Os efeitos negativos ou perturbadores fazem ricochete no seu corpo, nunca o impactam ou se instalam nele. Giga Chad é um ícone estoico, imune à vulnerabilidade, à crítica ou ao fracasso, alheio ao mundo real e às suas ameaças — numa única palavra, impenetrável.

Para homens com egos ameaçados e frágeis, o Giga Chad serve como um ponto de identificação fantasmagórico ideal. Para esses homens, ele é uma máscara digital e um escudo afetivo; uma armadura personificada através da lógica hiper-real da cultura online. A identificação pode ser tão forte que os homens conseguem reprimir emoções reais fingindo que não são afetados por elas. Nesse processo, uma figura digital como Giga Chad funciona como um mecanismo de defesa digi-psicológico, semelhante a uma armadura. Giga Chad, portanto, incorpora uma espécie de espaço seguro digital para esses homens.

As implicações do Giga Chad enquanto escudo afetivo não são necessariamente tóxicas ou fascistas. Os normies também gostam do Giga Chad. Ele pode ter sido coroado “Giga Chad” pela comunidade incel, mas tem-se tornado muito mais do que isso. Ele aparece em memes de esquerda tal como em memes de direita, e até existe uma vertente distinta da sua personagem que o apresenta como intrinsecamente íntegro, pacífico e prestável com os outros.

Graças à sua aparência hiperbólica, Giga Chad também poderia ser uma caricatura, e talvez até mesmo minar, a idealização da hiper-masculinidade, mas o zeitgeist não é favorável a isso: a hiper-masculinidade é levada a sério pela maioria, tanto homens como mulheres. A caricaturização do Giga Chad, no entanto, já está a acontecer online, juntamente com o seu funcionamento como um ícone da hiper-masculinidade e até mesmo do hiper-fascismo. O hiper-realismo online é um espaço no qual tudo acontece em todo o lado ao mesmo tempo. E o Giga Chad é muitas coisas, até uma criptomoeda.38 Gigachad.com, https://www.gigachad.com/.
À medida que a bússola sociopolítica aponta para o fascismo, precisamos de estar em sentido de alerta. O Giga Chad funciona como o último reduto fantasioso da masculinidade fascista: atraente, forte, impenetrável. A sua armadura, personificada e digitalizada, recusa qualquer intrusão externa, tanto emocional como física. Contudo, ao contrário dos históricos soldados Freikorps, o Giga Chad é uma imagem sem corpo. O Giga Chad representa uma estrutura afetiva — é a projeção de uma figura masculina ideal que existe para nos proteger do mundo caótico e pluralista que ameaça o ego masculino através do feminismo e da diversidade. E quando a masculinidade se blinda, a violência tende a segui-la.

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Este ensaio foi originalmente publicado na plataforma do Institute of Network Cultures, um centro de investigação com foco na cultura digital, sediado em Amesterdão. A versão em português foi traduzida por Carolina Franco/ Shifter.
Notas de Rodapé
- 1[Tanto na extrema-direita quanto na manosfera, o racismo e o antissemitismo estão (ativamente) presentes, embora esse tipo de intolerância desempenhe um papel mais central na extrema-direita, visto que a manosfera se preocupa principalmente com os papéis de género. Outra semelhança fundamental é a sua dependência do determinismo biológico e da pseudociência como fundamento ideológico.]
- 2Hermansson et al., “Masculinity and Misogyny in the Alternative Right”, The International Alt Right, 190.
- 3Sam De Boise, “Editorial: is masculinity toxic?”, NORMA: International Journal for Masculinity Studies Volume 14, Issue 3 (2019), 150.
- 4Johansson, “The sexual revolution”, Fantasy, Online Misogyny and the Manosphere, 69.
- 5[5] Know Your Meme, “GigaChad”, https://knowyourmeme.com/memes/gigachad.
- 6
- 7u/quaintif, “gigachad is real, and humble and he seems like a pretty nice guy. he’s an actual Chad.”, Reddit, https://www.reddit.com/r/MadeMeSmile/comments/tx0eop/gigachad_is_real_and_humble_and_he_seems_like_a/.
- 8Wikipedia, “Chad (slang)”, https://en.wikipedia.org/wiki/Chad_(slang)#cite_note-11.
- 9Catherine Tebaldi, Scott Burnett, “The Science of Desire: Beauty, Masculinity, and Ideology on the Far Right”, Journal of Right-Wing Studies, Volume 2, Issue 2 (2024), 27.
- 10John Mercer, Clarissa Smith, “Aspirational Bodies: Health, Fitness and the Body Project”, Sexualised Masculinity: Men’s Bodies in 21st Century Media Culture, 1st edition, (London: Routledge, 2025), 90.
- 11Mercer, Smith, “Aspirational Bodies”, 91.
- 12Johansson, “Incels and fantasies of destroying/desiring the other”, Fantasy, Online Misogyny and the Manosphere, 111.
- 13Kim Ebensgaard Jensen, “Cultural Categorisations of Men in a Notorious Online Community”, The Handbook of Cultural Linguistics, (Springer: Singapore, 2024), 368.
- 14Ebensgaard Jensen, “Cultural Categorizations”, 368.
- 15Forum Inside é um podcast no YouTube, produzido pelo FvD e protagonizado por Thierry Baudet e outros membros do FvD, muitas vezes em conversas com outros convidados de direita.
- 16O período de crise de COVID-19 (2020 – 2022) presenciou uma aceleração da extrema-direita e do pensamento de extrema-direita e o FvD aproveitou esta oportunidade para surfar a onda dos sentimentos anti-governamentais e anti-globalistas que se seguiu.
- 17Já em 2017, Thierry Baudet defendeu que as pessoas holandesas estavam a ser “homeopaticamente diluídas” por se “misturarem” com pessoas de outras partes do mundo. Durante o seu discurso de vitória em 2019, Baudet argumentou que as pessoas que “deviam estar a proteger-nos” estavam a destruir o mundo “boreal”. Jornalistas apontaram para as conotações fascistas da palavra “boreal”. Nazis como Heinrich Himmler acreditavam que a raça ariana tinha origem numa província mítica do norte: a “Hiperbórea”.
- 18Pier (@Pier_NL), X, 8 October 2024, https://x.com/Pier_NL/status/1843526525486026938.
- 19Pier (@Pier_NL), X, 30 Janeiro 2025, https://x.com/Pier_NL/status/1885068561439248402. O cristianismo oriental/ortodoxo é particularmente popular na extrema-direita devido às suas associações com o conservadorismo forte e o “tradicionalismo”.
- 20Tebaldi, Burnett, “The Science of Desire”, 40.
- 21O alinhamento de diferentes qualidades físicas e psíquicas num único termo.
- 22Tebaldi, Burnett, “The Science of Desire”, 20.
- 23Tebaldi, Burnett, “The Science of Desire”, 20.
- 24Ibidem., 21.
- 25Ibidem., 43.
- 26Marlon Ettinger, “Who is GigaChad?”, Dailydot.com, https://www.dailydot.com/memes/gigachad-meme/.
- 27Josh Vandiver, “Alt-Virilities: Masculinism, Rhizomatics, and the Contradictions of the American Alt-Right”, Politics, Religion & Ideology, Volume 21, Issue 2, (2020), 174
- 28Johansson, “The sexual revolution”, 64.
- 29Hermansson et al., “Art-Right: Weaponising Culture”, The International Alt-Right, 1st Edition, (London: Routledge, 2021), 109.
- 30Baudrillard, “The Precession of Simulacra”, 1.
- 31‘Mewing’ é uma tendência online que se apresenta como um “método de reestruturação facial faz-tu-mesmo”. É praticado principalmente por homens jovens que desejam realçar a beleza facial fortalecendo a mandíbula e tornando o queixo mais proeminente. O mewing é um aspeto essencial do fenómeno ‘looksmaxxing’, popular entre os incels, mas não exclusivo desse grupo. Na incelosfera, existe a convicção de que ‘a mandíbula é fundamental’, ou seja, para um homem, a mandíbula desempenha um papel essencial na aparência e na atratividade.
- 32Baudrillard, “The Precession of Simulacra”, 26.
- 33Baudrillard, “The Precession of Simulacra”, 21-22.
- 34É importante ressaltar, porém, que ele ainda funciona como um pato. Ele ainda pratica o fascismo.
- 35Baudrillard, “The Precession of Simulacra”, 23.
- 36Nos Países Baixos, vemos isso muito claramente. Wilders, líder do PVV, evoca constantemente imagens de um país em crise, especificamente uma crise de refugiados, que supostamente mantém a nação e seu povo sob controlo. Nos seus discursos, soa o alarme, descrevendo os refugiados como uma onda catastrófica e o seu partido como o único que ousa dizer essa “verdade” e que irá combatê-la. Claro que, agora que o seu partido está de facto no poder, nada muda. Todos estão furiosos e nada acontece. É claro que, em certo sentido, isso também é intrínseco ao fascismo: ele precisa de um inimigo (interno) para funcionar, e é por isso que uma figura como Wilders tem interesse em manter a “crise” viva. Com Baudrillard, podemos descrever a política de Wilders como uma forma de dissuasão: fala constantemente de crise e agitação, não para tomar medidas concretas, mas para impedir que algo real aconteça.
- 37Johansson, “Male fascist bodies”, 42.
- 38



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