São 00:39 do dia 7 de Janeiro. Finalmente consegui sentar-me em condições para escrever este editorial com que me tinha comprometido no final do ano passado na nossa reunião de planeamento. O objectivo era claro, a tarefa não é assim tão difícil, mas para ser curto e conciso: entretanto, a vida aconteceu. Sei que pode soar a desculpa começar este texto com esta conversa. A vida acontece a todos. E a tantos mas tantos, acontecem coisas muito piores do que a mim, que felizmente só fui vítima de uma intoxicação alimentar (provavelmente auto-induzida) e de uma urgência veterinária.
Mas num momento em que escrevo sobre o presente e o futuro do Shifter, quero começar por lembrar que somos humanos. Não digo isto com arrogância, nem com qualquer suspeita de que os leitores não nutram de empatia por nós — quem nos acompanha já deu mais do que provas de afecto —, mas com orgulho. E como lembrete, também para quem lê dessa condição que partilhamos. Uma condição que tantas vezes — todos nós — tentamos minimizar em prol do nosso profissionalismo ou da nossa p-r-o-d-u-t-i-v-i-d-a-d-e.
Num media, a equação é clara. Para termos alcance, temos de publicar com consistência (e quanto mais melhor) nas redes sociais. Para sobrevivermos na memória das pessoas, temos de estar constantemente a criar algo novo. Para mantermos o registo de revista sem sermos multados, temos de cumprir a periodicidade estipulada. Para financiar um projecto de media, temos de nos reinventar em formas de arranjar dinheiro para investir em conteúdos que sejam originais, aprofundados e interessantes.
Temos pouco espaço para errar. Mas não escrevo isto para antecipar erros ou para rejeitar as regras a meio do jogo — porque de facto não existe alternativa para continuarmos a fazer aquilo que queremos. Escrevo como forma de explicar como encaramos 2026.
Para começar, este fim de semana, lançamos as versões áudio dos nossos artigos, gravadas e editadas por humanos. Este processo foi longo e demorou mais do que o previsto, mas representa aquilo que tentamos fazer: criar soluções que nos aproximem, e que por muito profissionais que pareçam, nunca deixem de ter o humano como referência. Para além disso, em 2026 planeamos publicar 3 revistas, aumentar o ritmo de publicação de artigos, fazer mais eventos em nome próprio e continuar a levar workshops por todo o país. Provavelmente falharemos algures no percurso segundo os critérios com que comecei este texto. Do que nunca abdicaremos é de ser humanos.
Como diz o cliché, errar é humano. Não porque as máquinas não erram, no sentido literal. Mas porque só nós — na experiência vivida da criação colectiva que é a humanidade — somos capazes de identificar os erros e antecipar os seus efeitos no mundo. No Shifter erramos muitas vezes — prazos, semanas sem publicações, pequenas gralhas aqui e ali. Mas se o continuamos a fazer é porque continuamos a ambicionar errar ainda mais e cada vez melhor. E porque medindo o nosso trabalho pela medida do humano, acreditamos no valor do que fazemos.
O mundo está cada vez mais cheio de slop e de interações tóxicas; a internet é cada vez mais controlada por magnatas vampirescos; os media concentram-se em gigantes conglomerados; as redes sociais tornam-se autênticas air fryers do nosso cérebro. Alinhar em virais vazios, em formatos só para gerar likes, publicar o que já foi publicado, explorar clivagens sociais para cativar atenção, escrever sem pensar, reflectir sem contextualizar, são tentações constantes quando parar é um erro sem perdão.
Pela nossa parte, todos os dias trabalhamos para não repetir as falhas, todos os dias cedemos à nossa quota parte de tentações. Não procuro aqui inspirar qualquer tipo de julgamento ou sinalizar alguma virtude. Escrevo para criar um pretexto para refetirmos em conjunto sobre a nossa percepção da falha num momento em que constantemente nos tentam convencer de que as máquinas, como o ChatGPT, podem substituir os humanos em diversos domínios das nossas vidas — incluindo naquilo que fazemos.
Como disse o escritor brasileiro, Luis Fernando Veríssimo, no encerramento do Fórum Social Mundial de 2001, num discurso proponente de uma alternativa ao neoliberalismo:“Todo o conhecimento do mundo se faz de uma perspectiva humana, todo o julgamento das coisas do mundo se faz por um parâmetro humano. Assim, enaltecer o senso moral do Ser Humano não é um floreio de linguagem que a única espécie que fala se faz, é valorizar este frágil instrumento de medição pelo qual a vida revela seu sentido.”
No Shifter, em 2026, continuaremos a questionar a narrativa que nos impõem, a reflectir sobre as mudanças que nos impactam e sobre a cultura que nos rodeia. Tentaremos também da nossa parte mediar a nossa perspectiva pela medida do humano.


