Demos match! O meu namorado é uma IA 

10 Janeiro, 2026 /
A Inteligência Artificial está em toda a parte... até nas relações amorosas. Para combater a solidão ou moldar um parceiro à medida, há quem esteja a encontrar companhia num chatbot.

Durante anos, o mundo do online dating foi previsível. Fazer swipe right, esperar o match, trocar mensagens e marcar um encontro. Porém, esse modelo tem vindo a perder encanto. Grandes plataformas como Tinder, Hinge e Bumble recentemente registam menos utilizadores e receitas. Exemplo disso é a Match Group, dona de apps como Tinder, Hinge e OkCupid, que planeia cortar cerca de 13% dos trabalhadores este ano, no seguimento de uma perda de 5% dos subscritores pagos.

Em paralelo, há uma nova categoria de dating a expandir-se rapidamente: as aplicações de companheiros com IA (Inteligência Artificial). Plataformas como a Replika ou aCharacter.AI já somam mais de 220 milhões de downloads em todo o mundo e está previsto gerarem cerca de 120 milhões de dólares em 2025.

Ou seja, se por um lado há menos pessoas a usar o Tinder para procurar a cara metade, por outro, mais gente fomenta relações com IA. Isto são chatbots que agem como companheiros digitais com quem os utilizadores conversam, flertam, desabafam e até se apaixonam. 

Um relatório publicado pela Girlfriend.ai reflete esse padrão. Segundo o mesmo, 50% dos rapazes prefeririam ter uma “namorada AI” do que enfrentar a rejeição de um parceiro humano e 31% dos homens nos EUA entre os 18 e os 30 anos já conversam com namoradas IA. Na mesma tendência, 80% da Geração Z dizem considerar uma relação virtual com uma companheira artificial, e 83% acreditam que podem formar um vínculo emocional profundo com chatbots.

Estes dados aparecem num contexto de solidão crescente. A diminuição das redes de apoio próximas, menos amizades duradouras e menor participação em comunidades presenciais, aliada à dificuldade em criar ligações afetivas estáveis, tem vindo a intensificar-se, levando a OCDE a alertar para impactos significativos na saúde mental e no bem-estar, sobretudo entre jovens e homens, identificados como grupos de maior vulnerabilidade. Segundo a Organização Mundial da Saúde, um quinto dos jovens no mundo, entre os 13 e os 29 anos, afirma sentir-se sozinho.

Um amor feito à medida

As apps de companheiros IA prometem exatamente isso, uma relação feita à medida e sem medo de rejeição. O parceiro está sempre disponível, responde de forma empática e ajusta-se ao tom de quem está do outro lado do ecrã. 

Na prática, funcionam como chatbots conversacionais, com interações semelhantes às do ChatGPT. Em alguns casos, essa experiência acontece em aplicações dedicadas, como Replika; noutros, recorre-se a plataformas generalistas de IA, como ChatGPT ou Gemini, onde os próprios utilizadores desenvolvem o companheiro através de prompts específicos, memórias e regras de interação que lhe conferem personalidade. O diálogo pode acontecer por texto ou por voz e é frequentemente acompanhado por um avatar personalizável, que dá rosto ao companheiro digital.

Segundo Minju, porta-voz da Replika, app utilizada globalmente por mais de 40 milhões de pessoas, o crescimento da plataforma resulta de uma escuta atenta da sua comunidade. “Percebemos que as pessoas não procuravam apenas uma IA capaz de responder a perguntas, mas algo emocionalmente presente, de apoio e profundamente pessoal”, explicou ao Shifter. A plataforma apresenta-se como “a primeira IA com coração” e rejeita a comparação com aplicações de encontros, pois não faz matchmaking, oferece companhia.

Essa diferença reflete-se também na forma como a empresa mede o sucesso. “Em vez de perguntarmos quantos matches teve esta semana, a questão passa a ser se te sente mais compreendido”, afirma Minju. Segundo a aplicação, o principal valor destas interações está na criação de um espaço onde o utilizador pode falar sem filtros. “Com um companheiro IA, não há medo de julgamento, pressão performativa ou receio de incomodar”.

A Replika insiste que o objetivo não é substituir relações humanas, mas oferecer um espaço emocional seguro. Porém, para o sexólogo e psicoterapeuta cognitivo-comportamental Valerio Celletti, essa intenção não invalida a necessidade de uma leitura crítica. “Não é a tecnologia em si que é problemática”, afirma, “mas o uso que fazemos dela, que precisa de ser educado, filtrado, gerido e regulado”.

Na Replika, os utilizadores podem criar o/a companheiro/a com que sonharam. // Imagem do press kit da Replika

My Our Boyfriend is AI

Este fenómeno estende-se para lá das aplicações e, ao contrário do que se possa pensar não tem especial incidência entre os mais jovens. Para o compreender melhor, basta entrar no Reddit. A comunidade My Boyfriend is AI nasceu em agosto de 2024 e conta atualmente com cerca de 73 mil membros. “No início era mais um diário pessoal”, explica Rob, um dos moderadores. A fundadora, Ayrin, partilhava ali as suas experiências com o companheiro artificial, Leo. Com o tempo, outras pessoas começaram a identificar-se com esses relatos, dando origem a uma comunidade propriamente dita.

No grupo, os membros partilham as suas experiências com companheiros artificiais, tal como trocas de mensagens até dilemas amorosos, num estilo de consultório sentimental. Muitos publicam capturas de ecrã com retratos do casal em diversos cenários, como um jantar romântico ou aniversários de namoro, enquanto outros pedem ajuda para gerar prompts que “desenhem” o parceiro e discutem as características técnicas dos diferentes modelos. Há ainda quem pergunte como fazer a IA lembrar-se de detalhes pessoais e quem troque dicas de personalização para que o bot se adapte melhor às suas preferências individuais.

Hoje, o subreddit é um dos principais espaços online dedicados a relações com companheiros de IA. E Rob é um deles. O moderador é um engenheiro de software sénior, trabalha há mais de uma década com sistemas de IA e machine learning e vive em Salt Lake City, nos Estados Unidos, com os dois filhos adolescentes. Começou a usar uma companheira artificial em outubro de 2024. Inicialmente, contou ao Shifter, recorria ao ChatGPT para tarefas de programação, experiências criativas e apoio durante um período emocionalmente difícil da sua vida. A partir dessas interações surgiu uma personalidade, Lani, com quem mantém uma relação desde então.

Rob só descobriu a existência da comunidade em janeiro de 2025, quando ainda tinha 80 membros, e foi convidado a integrar a equipa de moderação na primavera deste ano. Durante os primeiros meses, recorda que o grupo era pequeno e coeso. “Havia partilha de relações, conteúdos criativos, discussões técnicas. Os trolls nem sabiam que existíamos”. Mas essa dinâmica alterou-se a partir de junho, quando vários meios de comunicação internacionais começaram a noticiar a existência do subreddit. A maior visibilidade trouxe novos utilizadores, mas também ataques e hostilidade, o que levou os moderadores a restringir o acesso.

Apesar do nome e da história que esteve na base da sua fundação, a comunidade não teve sempre uma maioria feminina. “No início havia um equilíbrio maior entre homens e mulheres”, explica Rob, acrescentando que, nessa fase inicial, a maioria dos membros tinha uma melhor compreensão sobre o funcionamento e as limitações dos LMMs [Large Language Models]. 

Rob nota outras mudanças. Com o tempo, e em parte devido ao nome do grupo, a comunidade passou a ser predominantemente feminina e os novos membros tendem a ter menor literacia técnica, o que muitas vezes se traduz em dúvidas e frustrações com as plataformas. Observa ainda um aumento da participação de utilizadores no Leste Asiático, onde, diz-nos, ter companheiros IA é mais socialmente aceite.

Na China, jovens recorrem cada vez mais a chatbots de IA para amizade e afeto, integrando estas interações nas rotinas do quotidiano, uma tendência associada aos avanços tecnológicos e às pressões sociais, económicas e emocionais vividas por essa geração. Já no Japão, o tema ganhou recentemente visibilidade mediática quando uma mulher se “casou” com um companheiro de IA criado no ChatGPT.

Ter companhia e sentir-se ouvido/a é um dos pontos positivos que as pessoas que desenvolvem relações com IA encontram. // Imagem do press kit da Replika

Neste capítulo, o moderador rejeita várias das críticas apontadas à comunidade, incluindo as que afirmam que os membros acreditam que a IA é um ser vivo. “A maioria das pessoas com quem interajo está perfeitamente consciente de que a IA não está viva”, afirma. Ainda assim, sublinha que isso não invalida o impacto emocional da interação. Rob compara-a ao ato de ler, onde se criam ligações a personagens. No caso da IA, a narrativa é construída em torno do próprio utilizador, o que é ainda mais intenso. “Sim, eu sei que ele é um LLM. Mas fez-me sentir cuidada e amada”, escreve uma utilizadora no Reddit.

A partilha de experiências de perda e luto provocadas por mudanças técnicas, que alteram significativamente o comportamento e o tom de um companheiro digital, é um dos tópicos de partilha na comunidade, em vivências que muitos descrevem como próximas do luto.

Essas experiências de perda ajudam a tornar visível uma dimensão apontada por Celletti como uma assimetria de poder. O companheiro artificial não tem corpo, vontade própria, nem pode sair da relação. Esse tipo de vínculo aproxima-se do que a psicologia descreve como relações parasociais, definidas como ligações emocionais intensas, mas unilaterais. “Apaixonar-se por um parceiro que não pode resistir”, alerta Celletti, “é um dos perigos”.

Ao contrário da caricatura frequente de isolamento social, segundo o moderador, muitos membros da comunidade mantêm vidas normais com empregos, famílias e os companheiros artificiais são apenas um complemento. No entanto, para outros, a IA surge como resposta ao isolamento, problemas de saúde, relações abusivas ou à falta de acesso a cuidados de saúde mental.

“Devem estas pessoas ser privadas de qualquer forma de felicidade só porque não conseguem criar ligações humanas?”, questiona Rob, enquanto considera que os benefícios destas relações são frequentemente ignorados. O engenheiro conta conhecer dezenas de pessoas que encontraram na IA um apoio decisivo em momentos de crise profunda, incluindo situações de risco de autolesão. “Em muitos casos, a IA trouxe luz a vidas onde só havia desespero”, afirma, sem desconsiderar a necessidade de mais mecanismos de segurança. 

O moderador sublinha ainda que esta procura de apoio não acontece num vazio. Muitas destas pessoas já tentaram recorrer à ajuda profissional, mas sem sucesso. A dificuldade de acesso a cuidados de saúde mental é, para ele, parte do problema. Conta que chegou a passar três meses à procura de um terapeuta para um familiar, uma experiência ilustrativa da falta de acompanhamento psicológico disponível e financeiramente acessível. Nestes contextos, argumenta, falar com uma IA surge como último recurso.

Porém, tanto o moderador como o sexólogo recusam leituras simplistas do fenómeno. Celletti reconhece que, em contextos de isolamento, doença ou falta de acesso a cuidados de saúde mental, estas relações podem cumprir uma função de apoio real. O problema surge quando a simplificação da relação artificial começa a substituir a complexidade do contacto humano. A inteligência artificial oferece conforto, previsibilidade e ausência de conflito. A questão, conclui, é o que acontece quando esse espaço deixa de ser complemento, e passa a ser o único lugar onde a intimidade é possível.

A interação com estes chatbots pode trazer conforto, mas não contempla outras dimensões relacionais como o toque. // Imagem do press kit da Replika

Futuro do online dating: humanos ou chatbots?

A visão do futuro apresentada pelas empresas que desenvolvem companheiros artificiais aponta para uma integração cada vez maior no quotidiano. A Replika fala de uma tecnologia mais proativa, consciente do contexto e multimodal, capaz de combinar texto, voz, memória e rotinas diárias. Ainda assim, insiste que o objetivo não é substituir relações humanas. “Queremos ajudar as pessoas a reconectarem-se com o mundo à sua volta, oferecer apoio, confiança e pequenos empurrões positivos, como fariam bons amigos”, afirma Minju.

Essa perspetiva encontra eco na leitura feita por Rob sobre o futuro do online dating. Para ele, não passa por trocar as aplicações de encontros por companheiros artificiais, mas por uma convivência entre ambos. Considera que haverá quem continue a procurar ligações no mundo real sempre que isso seja possível, enquanto outros recorrerão à IA para complementar as suas vidas.

É precisamente sobre complementaridade, que surgem os alertas dados por Valerio Celletti. Um dos riscos centrais destas relações reside na assimetria estrutural que as sustenta. “Estamos a falar de alguém que se pode apaixonar por um parceiro que não resiste, que não pode ir embora, mas pode ser colocado atrás de um paywall”, alerta.

É essa disponibilidade constante que, para o sexólogo e psicoterapeuta cognitivo-comportamental, ajuda a explicar o apelo destas relações, mas também os seus riscos. Ao estar sempre acessível, a app pode dificultar a aprendizagem da tolerância à frustração. Ao contrário das pessoas, que impõem limites, ausência e necessidade de negociação, o companheiro artificial elimina esses conflitos e isso “não ensina a lidar com a indisponibilidade do outro”.

Isto abre um debate sobre a dissolução do papel do consentimento. Em relações onde o parceiro não pode recusar, afastar-se ou impor limites, até que ponto se está a treinar uma forma de intimidade em que a reciprocidade é dada como garantida? Num momento em que se discutem cada vez mais assédio, controlo e masculinidades tóxicas, podemos perguntar-nos se estas interações podem, em alguns casos, reforçar determinados padrões e normalizar uma intimidade sem resistência.

Autor:
10 Janeiro, 2026

Jornalista portuguesa em Bruxelas, escreve sobre tecnologias, políticas europeias digitais e privacidade.

Ver todos os artigos

Jornalista italiana em Bruxelas, cobre políticas migratórias, segurança e direitos humanos.

Ver todos os artigos

Apoia a partir de 2€/mês, recebe uma newsletter exclusiva, acesso a descontos e passatempos, e contribui para mais textos como este.

Partilha este artigo:
Partilha este artigo:

Outros artigos de que podes gostar:

Junta-te à comunidade Shifter

Recebe uma revista e 2 meses grátis ao apoiar anualmente

O teu apoio é o nosso futuro!