Susan Stryker: “Não há nada de intrinsecamente complicado em ser trans”

13 Dezembro, 2025 /
Fotografia a preto e branco onde está a historiadora Susan Stryker, uma mulher branca de meia idade, sentada numa cadeira de jardim de madeira. Susan encontra-se reclinada e veste uma camisa com motivos florais, tem o cabelo solto pelos ombros e uns óculos cat-eye pretos com brilhantes nas pontas.
Fotografia de Sean Black, cortesia de Susan Stryker
No início do mês que marca a passagem por Lisboa da historiadora Susan Stryker, nome incontornável do movimento trans nos EUA e no mundo, Carolina Flores visita-a na sua casa em São Francisco. Conversam sobre tecnologia, política, o passado e o futuro das pessoas trans.

Historiadora, cineasta, ativista, professora universitária, autora de vários livros e vencedora de inúmeros prémios académicos e culturais, Susan Stryker é uma figura incontornável do movimento trans. Encontra-se agora mesmo em Lisboa.

O seu primeiro trabalho publicado numa revista académica (“My Words to Victor Frankenstein Above the Village of Chamounix”, As minhas palavras a Victor Frankenstein acima da aldeia de Chamounix) é um dos textos fundadores dos estudos trans e continua a inspirar pelo mundo fora. Aliás, a peça “Prometo-me Moderna” de Alice Azevedo, em cena no São Luiz em Lisboa até 21 de dezembro, com Stryker à conversa com Alice Azevedo esta tarde, parte deste artigo.

Mas Stryker nunca se ficou pelos ares rarefeitos da academia. No seu trabalho para o público em geral, recupera a história trans esquecida e trá-la, com enorme sensibilidade e cuidado pedagógico, a audiências que podem saber muito pouco sobre vidas trans. Caso em ponto é o documentário Screaming Queens, produzido para a televisão publica, apresentado este domingo no festival de cinema Jaha (com a presença de Stryker) e também disponível no YouTube para mostrarem aos vossos pais, tios e avós.

Converso com Stryker no início de dezembro, na sua casa em São Francisco. Stryker vive numa rua residencial de vivendas coloridas tão características desta cidade, a poucos metros do Mission District (o centro da vida latina em São Francisco) e de vários dos melhores bares queer da cidade. Ainda que eu seja uma desconhecida a criar-lhe trabalho a um domingo à tarde, cumprimenta-me calorosamente com um abraço e oferece-me um chá genmaicha (o seu favorito, também conhecido como chá japonês de pipocas). 

Sentamo-nos na sala de madeira escura—ela numa poltrona e eu numa cadeira de balanço, ambas de veludo verde—e, enquanto escurece, falamos intensamente durante duas horas: de identidades e história trans, claro, mas também da cidade onde estamos, de gentrificação e resistência a ela, do aterrador momento político atual nos Estados Unidos, de tecnologia e vigilância, da organização política de que necessitamos agora. A todos estes temas, Stryker traz uma inteligência acutilante, um olhar aberto e atento à longa duração, e um toque de esperança realista de que todos necessitamos tanto neste momento.

Carolina Flores (C. F.): São Francisco é um lugar muito especial na história trans e queer dos Estados Unidos. Porquê? 

Susan Stryker (S. S.): A resposta cliché é que, desde 1849 e da corrida ao ouro, houve um influxo não apenas de colonos anglo-saxões brancos que vieram para o que até então era o México, mas também de pessoas de toda a costa do Pacífico, da China, da Austrália e da costa do Pacífico da América do Sul.

Quase imediatamente, São Francisco passou de uma vila hispano-mexicana de duzentas a quatrocentas pessoas para a maior cidade da costa do Pacífico do mundo. Havia 50 mil pessoas no espaço de um ano. Portanto, tornou-se uma cidade muito cosmopolita muito rapidamente.

Isso influenciou o legado de diversidade cultural da cidade. E não quero celebrar isso em demasia, porque também houve histórias horríveis de violência aqui: a violência contra os povos nativos, a guerra com o México e todos os tipos de discriminação racial que ocorreram assim que São Francisco se tornou uma cidade dominada pelos anglo-americanos. Mas, ainda assim, havia um tecido social muito diverso aqui. E, durante muito tempo, muitas pessoas tinham a sensação de que era o fim do mundo, de que tudo era permitido. Fica mesmo na costa do Pacífico. A terra mais próxima a oeste fica a milhares e milhares de quilómetros de distância. Para chegar a São Francisco vindo do leste, é preciso atravessar milhares de quilómetros de deserto e a Sierra Nevada. 

Desde a segunda metade do século XIX, São Francisco é famosa pela sua vida noturna, pelos seus salões de dança, bares, teatros, espetáculos de burlesco, prostituição e antros de ópio. Era o lugar onde experimentar o lado mais selvagem da vida na costa do Pacífico. Por esse motivo, era um lugar onde muitas pessoas não conformantes de género encontravam um nicho para si mesmas.

Por essa razão, há um grande número de pessoas trans a viver aqui desde há 175 anos. Quando olho para trás como historiadora, encontro registos de pessoas trans em São Francisco que remontam à década de 1850. Não sabemos como estas pessoas se identificavam, mas certamente havia pessoas que usavam roupas que não eram típicas do seu sexo, que viviam nos acampamentos mineiros. 

É muito complicado tentar relacionar esta história com os géneros nativo-americanos e os estatutos e papéis sociais antes da colonização, porque não acho que se possa traçar uma linha reta entre a diversidade de género após a colonização e as culturas nativas americanas. Mas nos registos espanhóis também há descrições de pessoas que hoje seriam chamadas de dois espíritos [two-spirit, um termo utilizado hoje em dia para se referir a pessoas nativas que ocupavam um terceiro género nas sociedades tradicionais e a pessoas nativas não conformantes de género no geral], que foram capturadas e batizadas.  

Apaixonei-me por São Francisco como cidade quando vim para cá em 1983 para me doutorar em Berkeley. Adorei o lugar fisicamente. Gostei da cultura. E depois do meu doutoramento, fiquei e fiz trabalho histórico sobre as comunidades trans e queer daqui. E tenho adorado fazer esse trabalho.

“Havia um grupo chamado Digital Queers de hackers queer que estavam a investigar como usar a internet para fazer ativismo sobre a SIDA e contra a Guerra do Golfo. A indústria tecnológica não era vista como um tsunami prestes a engolir-nos”

C. F.: Mais perto do presente, São Francisco passou por um processo violento de gentrificação com o boom da indústria tecnológica na Área da Baía de São Francisco. Como viste esse processo de gentrificação afetar a vida queer e trans na cidade? E como é que as pessoas trans se organizaram em resposta?

S. S.: Não quero começar a história da gentrificação com o boom da internet. Houve uma onda significativa de gentrificação antes, nas décadas de 50 e 60. Só que não se usava o termo “gentrificação”, mas em vez disso “renovação urbana”.

Durante a Segunda Guerra Mundial, São Francisco passou de 250 000 para 500 000 habitantes. Havia construção naval aqui, porque as Forças Armadas dos Estados Unidos comandavam o Teatro de Operações do Pacífico da Segunda Guerra Mundial a partir do Presídio de São Francisco. Com isto, a cidade tornou-se um lugar totalmente diferente.

Depois da guerra, com os militares a regressarem e muitos novos migrantes do México e do sul dos Estados Unidos, faltava habitação. Os poderes instituídos aproveitaram-se dessa necessidade real de habitação para tentar transformar São Francisco num novo tipo de cidade: uma capital da alta tecnologia e centro bancário, com transportes públicos para trazer os trabalhadores dos subúrbios para o centro, novos museus e sem bairros de lata. Isso levou uma década de planeamento, mas a partir de 1955, começaram a surgir agências de reabilitação urbana, a fazer o que chamavam “remoção de barracas” e a construir autoestradas. 

Acho que a transformação em São Francisco entre 55 e 65 foi, na verdade, mais drástica do que a que aconteceu no final do século XX e início do século XXI. Grande parte da cidade foi literalmente demolida.

Muitos dos movimentos sociais em São Francisco surgiram em resistência a este processo. Um dos primeiros grandes movimentos políticos após a Segunda Guerra Mundial foi a Revolta das Autoestradas, em que os bairros se organizaram para impedir que autoestradas passassem por eles. Houve muito ativismo pelos direitos civis. Houve muito ativismo em torno da comunidade japonesa que tinha sido presa durante a guerra, colocada em campos de concentração como inimigos internos.

Sei como a resistência à renovação urbana foi importante para a luta pela libertação trans a partir da pesquisa que fiz sobre o Motim da Cafetaria Compton em 1966, que foi uma revolta semelhante à de Stonewall, mas três anos antes, em São Francisco. Uma das sementes desse motim foi a organização de bairro que estava a acontecer no Tenderloin [o bairro de entretenimento noturno e prostituição onde ficava o Compton’s] para aceder ao dinheiro federal de programas de combate à pobreza e para resistir ao desalojamento e à maior presença da polícia. Há uma relação direta entre a transformação urbana impulsionada pelo capitalismo e a mobilização das comunidades marginalizadas e minoritárias. 

Acho que a gentrificação tem ocorrido de forma um pouco diferente desde então.

Lembro-me que, no início dos anos 90, quando o boom da internet estava realmente a começar, pelo menos na minha parte de São Francisco, havia muito entusiasmo à volta da tecnologia digital. “Meu Deus, vamos viver no futuro!” Havia um grupo chamado Digital Queers de hackers queer que estavam a investigar como usar a internet para fazer ativismo sobre a SIDA e contra a Guerra do Golfo. A indústria tecnológica não era vista como um tsunami prestes a engolir-nos. Havia muito otimismo tecnológico, até mesmo utopismo. Mas, à medida que a indústria crescia, começou a desalojar pessoas. 

Por volta de 2002, a bolha das dot-com rebentou, da mesma forma que a bolha da IA provavelmente vai rebentar em breve. Isso criou uma pequena pausa entre dois picos diferentes de gentrificação impulsionada pela tecnologia. 

Depois, os problemas recomeçaram em maior escala por volta de 2014, quando a cidade tentou revitalizar uma área que estava meio abandonada desde a década de 1960, cedendo-a ao Twitter, Square, PayPal, Uber, Lyft… Houve todo um período em meados da década de 2010 em que tudo o que consideramos tecnologia tinha a sua sede nessa área, e isso mudou completamente a cidade.

Eu diria que São Francisco é como o pão de fermento natural. Para fazer pão de fermento natural, é preciso ter o fermento, que dá ao pão o seu sabor específico. São Francisco tem o seu sabor, mas no boom tecnológico da década de 2010, foram adicionados tantos ingredientes novos tão rapidamente, a maioria deles muito semelhantes entre si, que o sabor da cidade se transformou. 

As novas pessoas eram principalmente jovens profissionais da tecnologia na faixa dos 20-30 anos, que vinham trabalhar na sede da empresa e diziam: “Sim, vou trabalhar em São Francisco por dois anos e depois serei transferido para o escritório em Dublin ou Singapura”. Não tinham nenhuma lealdade particular a São Francisco. Tratavam a cidade apenas como um lugar para se divertirem depois do trabalho. 

Isso mudou as coisas para pior até à chegada da COVID, quando muitos deles partiram para trabalhar remotamente e pagar rendas mais baixas. Por essa mesma altura, os fundamentos tecnofascistas destas grandes empresas estavam a tornar-se mais visíveis. Elon Musk comprou o Twitter e seguiu na sua direção reacionária, Larry Ellison mudou a Oracle para o Texas e houve uma evacuação de São Francisco. 

Agora, não tenho certeza de para onde as coisas estão a caminhar, porque não houve recuperação pós-COVID. Mas uma nova bolha tecnológica em torno da IA começou, e São Francisco é o seu epicentro. A Open AI e a Anthropic estão sediadas em São Francisco, não nos subúrbios como a Apple ou outras grandes empresas anteriores. Dá para ir a pé da minha casa até às sedes dessas empresas. Não está claro o que vai acontecer, porque o governo da cidade foi basicamente capturado pelos bilionários da tecnologia.

C. F.: Falaste sobre a recente viragem tecnofascista, que é obviamente parte de uma viragem fascista de maior escala nos Estados Unidos. Como descreverias o momento político atual a partir do interior dos Estados Unidos?

S. S.: Embora a direita fascista estivesse a ganhar força há praticamente uma década, foi só quando Trump assumiu a presidência pela segunda vez este janeiro, há apenas 11 meses, que eles começaram a sua blitzkrieg. É partir, partir, partir, com tudo o que têm. A velocidade com que a sociedade civil está a ser desmantelada nos Estados Unidos é simplesmente chocante. O principal ponto que eu quero que o público fora dos Estados Unidos realmente compreenda é que a sociedade americana está a ser esvaziada. A sociedade civil está a ser destruída. 

A administração Trump não é ideologicamente coerente. Acho que ele pessoalmente é movido principalmente por um narcisismo maligno psicopatológico e por enriquecer as pessoas ao seu redor. É apenas corrupção comum, uma espécie de capitalismo de compadrio, como na Rússia de Putin. Trump é um mafioso que só quer colocar a sua gente no poder. Estão a lucrar obscenamente.

Mas também há fanáticos religiosos, nacionalistas cristãos que realmente querem que este lugar seja uma teocracia. E há supremacistas brancos racistas. Não é “só” que estejam a deportar principalmente pessoas de pele morena que falam espanhol. Há uma espécie de namoro sorridente com a supremacia branca explícita e o neonazismo.

Ao mesmo tempo, muitas das coisas terríveis que aconteceram muito rapidamente podem acabar derrocadas, porque estas diferentes correntes na administração não são necessariamente compatíveis.

Infelizmente, desde os movimentos sociais dos anos 60 e dos assassinatos dos membros desses movimentos, há muito pouca esquerda organizada nos Estados Unidos. Não há uma esquerda eficaz aqui há 50 anos. 

E agora, a maioria das pessoas ainda está assustada e atordoada com o que está a acontecer. Mas também há uma base sólida de resistência, de gente a dizer não. As pessoas ainda não estão organizadas, mas não acho que seja uma ilusão dizer que, se as coisas continuarem a piorar tão rapidamente como ao longo do último ano, e especialmente se a economia piorar e os Estados Unidos entrarem em guerra com a Venezuela, existe um cenário credível de resistência em massa mais disruptiva.

Já se vê em pequena escala. Recentemente, em Nova Iorque, houve rumores de que o ICE [Immigration and Customs Enforcement, a controversa agência de imigração e fronteiras criada após o 11 de Setembro que se encarrega de prender e deportar imigrantes sem documentos, com frequência recorrendo a métodos violentos] ia fazer uma grande rusga nas ruas de Manhattan. E centenas de pessoas apareceram espontaneamente para proteger os imigrantes.

As pessoas têm construído as suas redes e as suas bases. Vejo coisas assim a acontecerem a um nível muito local. As pessoas dos grupos comunitários dos quais faço parte estão a fazer vigílias nas esquinas para acompanhar os trabalhadores por dia que precisam de encontrar trabalho e ficar de olho no ICE. Acho que é imprevisível onde essa mobilização social de base vai chegar.

C. F.: Que nota invulgarmente otimista nos dias de hoje!

S. S.: Sim. Mas depois olha-se para a escala de vigilância hoje em dia e para as formas draconianas como o governo esmaga qualquer tipo de resistência…Não quero ser demasiado otimista. Penso no que a China está a fazer com os uigures. Basicamente, a China transformou parte do seu oeste num centro de detenção a céu aberto, onde todos são vigiados, as pessoas passam por reeducação cultural e as crianças são separadas dos pais. Esse nível de repressão é algo que considero totalmente possível nos Estados Unidos.

C. F.: Certamente existe a tecnologia e a vontade política para o fazer. Como é que as pessoas trans em particular estão a ser afetadas no momento atual?

S. S.: Não acho que o Trump em particular se importe com as pessoas trans, mas as pessoas que escrevem os seus discursos e põem as ordens executivas na mesa dele para assinar são definitivamente motivadas por uma ideologia anti-trans. E essa ideologia não é específica aos Estados Unidos, é global. Acho que temos de levar a sério quando influencers de direita dizem coisas como que o transgenerismo deve ser erradicado da esfera pública. Temos de levar isso a sério porque eles estão a tentar impossibilitar a transição de género nos Estados Unidos.

Se já passaste por um processo de transição, querem tornar a tua vida um pesadelo burocrático. E se és um jovem a tentar fazer a transição, ou se és pai/mãe de um desses jovens, é incrivelmente difícil. E se estiveres no exército, preso, ou em qualquer tipo de ambiente institucional, algumas das políticas que já foram implementadas são realmente draconianas. Para as mulheres trans no sistema prisional de alguns estados, o único tipo de assistência médica que podem obter é essencialmente terapia de conversão, psicoterapia para tentar persuadi-las de que a sua identidade de género está errada.

Não está claro se vão conseguir que novas medidas sejam aprovadas legalmente, mas o tom da conversa pública definitivamente mudou. Demonstra como o apoio às pessoas trans desde o governo Obama tem sido superficial. Os direitos trans eram vistos como mais uma faixa na bandeira arco-íris, a moda do momento. E agora as mesmas pessoas estão a dizer: “Bem, na verdade, acho que os homens não deveriam jogar em equipas desportivas femininas”.

A chamada janela de Overton mudou definitivamente e não acho que vá voltar atrás tão cedo. Mas não está claro para onde as coisas vão caminhar.

“Aceitar a expressão de uma identidade trans como real exige que as pessoas coloquem entre parênteses algumas crenças ideológicas profundamente enraizadas e não examinadas”

C. F.: Na tua opinião, por que é tão fácil transformar as pessoas trans em bodes expiatórios para vários tipos de frustração social e vê-las como monstros, como dizes no seu trabalho? E isso não acontece apenas à direita. Nos últimos meses, muita gente de centro tem comentado que talvez a esquerda esteja a falar demais sobre as pessoas trans e que devemos deixar de priorizar os direitos trans. 

S. S.: Sim, os centristas, mesmo os liberais, definitivamente veem as pessoas trans como dispensáveis.

Aceitar a expressão de uma identidade trans como real exige que as pessoas coloquem entre parênteses algumas crenças ideológicas profundamente enraizadas e não examinadas. Vivemos sob uma epistemologia materialista científica (ou prática representacional) que considera que as palavras em última instância se referem a características físicas ou biológicas, de modo que “ele”, “ela”, “homem” e “mulher” apontam para alguma condição física, material e biológica. Dessa perspetiva, as pessoas trans são uma espécie de contradição. Mas essa posição vem de uma confusão sobre como atribuímos significado aos corpos. Ignora o papel da prática social. Toma como ponto de partida a ideia de que a capacidade do teu corpo de produzir esperma ou óvulos determina quem tu realmente és. Mas não é assim; isso só determina o que o teu corpo é biologicamente capaz de fazer, mais nada.

Há construção social naquilo que o nosso corpo significa e na razão pela qual nos apegamos a algumas coisas em vez de outras para fazer com que o corpo signifique o que significa (e o que é útil que ele signifique em cada contexto). Adoro o título do livro recente de Paisley Currah, Sex is what sex does (O sexo é o que o sexo faz). E o que é que nós pomos o sexo a fazer?

Essa é uma questão política, social e epistemológica. Acho que as pessoas trans levantam questões que as pessoas cis gays e lésbicas não levantam. No caso da orientação sexual, posso não achar que o que outra pessoa está a fazer é imoral, ou sentir repulsa pelo que ela está a fazer com o seu corpo, mas não surgem dúvidas sobre que tipo de pessoa é.

Na questão trans, ou se tem de dizer “é complicado, mas eu posso explicar; vem ao meu seminário e, em 15 semanas, vou explicar algumas coisas que te podem ser úteis”. A maioria das pessoas não vai alinhar nisso. A outra opção é dizer: olha, é assim tão difícil assim tratar outra pessoa como pessoa? 

Podemos fazer uma analogia com a religião. Mesmo que eu não acredite que o seu Deus exista, não tenho nenhum problema com morar ao lado de uma pessoa religiosa. Podemos conversar apesar das nossas diferenças. Existe um tipo de cosmopolitismo ao qual podemos recorrer. Talvez, no final das contas, o meu vizinho ache que eu sou apenas um homem muito excêntrico, mas se tivermos uma conversa agradável quando estamos a tirar os caixotes do lixo para a rua e ambos gostarmos da mesma taqueria, o que é que isso importa? Eu ficaria contente se essa fosse a norma social. 

Mas não é aí que estamos. 

As complexidades de compreender as identidades trans devem-se à construção ideológica do nosso modo de fixar identidades. Não há nada de intrinsecamente complicado em ser trans. Só parece complicado devido à ontologia-epistemologia da modernidade secular (fortificada por ideias religiosas específicas).  

As complexidades que surgem destas relações de poder-conhecimento estão a ser deliberadamente utilizadas como arma neste momento. Podemos encontrar os registos de e-mails e quem são os financiadores; é muito claro que estas complexidades estão a ser utilizadas com propósitos políticos. Eu diria mesmo que a ideologia anti-trans e anti-género está, neste momento, a servir a mesma função unificadora para os fascismos contemporâneos que o antissemitismo serviu para os fascismos históricos do início do século XX. Eles dizem: “Podemos discordar sobre se devemos entrar em guerra com a Venezuela, ter uma teocracia ou demolir a ala leste da Casa Branca, mas homens não podem praticar desportos femininos”.

A nível global, a existência de pessoas trans é ameaçadora porque é uma manifestação visível do facto de que os corpos não são âncoras seguras para posições sociais

C. F.: O que estou a ouvir é que as pessoas trans e genderqueer realmente questionam suposições muito básicas e antigas sobre género. Acho que isso é parte do motivo pelo qual as pessoas resistem tão violentamente à presença visível das pessoas trans. As pessoas trans desafiam a forma como as pessoas cis se entendem a si mesmas, e é difícil conviver com desafios a ideias profundas que temos sobre quem somos.

S.S.: Acho que, a nível pessoal, a nível da identidade psíquica e da subjetividade individuais, todos assumimos identidades específicas, negando a possibilidade de sermos outros tipos de pessoas. Eu sou um X, o que significa que não sou um Y ou um Z. O que a transgeneridade representa a nível pessoal para algumas pessoas é um confronto dramático com a possibilidade de sua própria ruína.

Ao olhar para uma pessoa trans, essas pessoas veem como poderiam ser profundamente diferentes do que são. E se admitirem que isso é uma possibilidade, perdem o chão debaixo dos seus pés. Então, matem essa coisa!

Acho que isso acontece a nível interpessoal. Mas quando olho para a história de um modo mais alargado, vejo que há uma contingência nesse processo. A forma como pensamos sobre identidades é, em certo nível, parte do legado da escravatura. A escravatura racializada baseava-se na ideia de que há algo no corpo que nos prende permanentemente a uma posição social.

Em Inglaterra, havia prisões para devedores. Faziam os pobres trabalhar, colocando-os atrás de paredes e obrigando-os. Mas na América do Norte, o ambiente colonial construído não era tão robusto. O que impedia as pessoas de simplesmente fugirem de serem servos num campo de tabaco? 

Bem, se podes identificar quem é o trabalhador do campo porque ele não pode tirar a pele, isso resolve um problema de mão de obra, que também é um problema geográfico, que também é um problema do ambiente construído. Há um desenvolvimento de uma ideologia do corpo em que o corpo é essencialmente a prisão da pele. Há um imaginário carcerário do corpo que sustenta o sistema mundial eurocêntrico moderno. 

É nessa altura que surge a ideia de que os corpos não são mutáveis e que as características corporais imutáveis são a forma como colocamos um determinado corpo numa determinada etnocasta ou classe. A nível global, a existência de pessoas trans é ameaçadora porque é uma manifestação visível do facto de que os corpos não são âncoras seguras para posições sociais como se imagina — e que, a um certo nível, é economicamente necessário acreditar que sejam. Negar esse papel do corpo puxa o tapete debaixo de todo o conjunto de práticas sociais sob as quais vivemos.

Dizer que um corpo pode vir a significar verdadeiramente algo diferente, porque os significados que atribuímos aos nossos corpos são o resultado de práticas sociais de como vivemos uns com os outros, é revolucionário. 

C. F.: Talvez isso nos possa dar alguma esperança. Diria que toda a gente, mesmo as pessoas cis heterossexuais brancas, têm a ganhar ao escapar do imaginário extremamente restritivo de que o nosso corpo determina tudo o que podemos fazer e ser. Se olharmos para as pessoas cis heterossexuais brancas, não parecem estar muito bem neste momento.

S. S.: Certamente passam muito tempo em cuidados corporais coercivos para afirmar o seu género.

Essa sensação de encontrar liberdade em si mesmo, mesmo diante da opressão externa, é o presente mais bonito de ser trans

C. F.: Sim, e vistos de fora, esses cuidados (desde a depilação ou gastar dinheiro que não se tem em roupa e manicuras, a cirurgias plásticas perigosas) muitas vezes parecem mais auto-destruição. Talvez as pessoas cis tenham muito a aprender com as pessoas trans. E dessa perspetiva, a existência das pessoas trans deveria ser vista mais como um presente do que como uma ameaça. O que achas que todos podem aprender com as pessoas trans, com a sua relação com o corpo e com as suas formas de viver no mundo? E como podemos transmitir isso? Que imaginários, narrativas, formas de falar e pensar precisamos de inventar para o fazer?

S. S.: Parte do que mostramos é que uma pessoa pode ser livre em si mesma, mesmo quando é oprimida externamente. Após aceitar a identidade trans, há uma sensação tremenda de liberdade e libertação. Mesmo que haja opressão externa, que a vida seja terrível ou que ser trans possa levar à morte, és livre em ti mesmo. Acho que essa sensação de encontrar liberdade em si mesmo, mesmo diante da opressão externa, é o presente mais bonito de ser trans.

Como comunicar isso? Não sei. Estou a tentar há 35 anos.

C. F.: E que mudanças viste nesse período na forma como as pessoas trans são vistas e compreendidas?

S. S.: Em alguns aspetos, acho que o mundo mudou muito e noutros, acho que o mundo não mudou nada. Há 10 anos, eu achava que as pessoas que odeiam as pessoas trans eram e continuariam a ser completamente marginais, dinossauros agarrados a ideias conspiratórias estúpidas. Eu não teria previsto que as suas opiniões poderiam tornar-se tão rapidamente o novo padrão, a nova visão dominante que capturaria o estado, ou que as pessoas trans seriam demonizadas de maneiras tão estúpidas e ignorantes.

Uma das coisas que costumo dizer é que tenho idade suficiente para me lembrar de quando, se dissesses que eras trans, te consideravam doente mental, podias perder o emprego, a tua casa e a tua família, o teu casamento podia ser dissolvido, os teus filhos podiam ser-te tirados. Simplesmente caías num precipício. Ainda era assim quando fiz a minha transição, em 1991. 

Havia uma enorme liberdade, em certo nível, em ser um fora da lei depois das margens do mapa, onde há monstros. São águas interessantes para se nadar. Mas, para algumas pessoas trans nas últimas décadas nos Estados Unidos, tem havido mais oportunidades de viver sem esse tipo de preconceito extremo. 

Mas o que também mudou é que, há 30 anos, havia uma espécie de negligência maligna em relação à vida trans. Talvez visses alguma notícia sensacionalista ou uma revelação repentina de um assassino psicopata trans num filme. Havia esses momentos em que se via pessoas trans, mas a maioria das pessoas não a via e não pensava em nós como parte do tecido da vida quotidiana.

Muitas das dificuldades que tínhamos eram que ninguém se importava e o mundo não era construído para nós. No meio isso, encontrávamos as nossas maneiras de viver e fazíamos o que podíamos para mudar o ambiente ao nosso redor. Nos anos 90, esse movimento mais amplo pelos direitos trans cresceu e, apesar de todas as suas falhas e deficiências, ser trans tornou-se mais fácil para algumas pessoas em alguns sítios.

Não quero tirar o mérito disso, por mais imperfeito que fosse o movimento liberal pelos direitos civis trans. Mas o que aconteceu agora é que, em parte devido à visibilidade, devido a um pouco mais de conhecimento sobre a existência das pessoas transgénero, agora as pessoas cis veem-nos e estão a vir atrás de nós. É como um filme de zombies: estávamos a mover-nos no escuro, mas agora saímos do edifício e eles viram-nos e aí vêm eles e o que é que vamos fazer? 

A transfobia passou de uma negligência passiva e maligna para retórica eliminacionista e tentativas ativas, motivadas e armadas de agressão e eliminação.

C. F.: À luz dessas tentativas violentas de eliminação, o que é que a história trans ou a tua própria experiência ativista nos ensinam sobre como resistir agora?

S. S.: Que simplesmente continuas e sobrevives. E talvez nós, as pessoas trans, tenhamos que nos conformar com um lugar diminuído na esfera pública. Talvez deixe de ser possível transicionar com o tipo de práticas médicas e legais que foram desenvolvidas ao longo do último século e que usamos agora. Talvez, para que as pessoas se possam expressar da maneira que desejam, precisem de recorrer ao mercado negro ou a redes DIY, ou talvez isso coloque as pessoas trans perto da criminalidade em relação a documentos de identidade ou a passar fronteiras.

Mas só porque as pessoas trans estão numa posição contrária à cultura dominante, criminalizadas ou proibidas, isso não significa que vamos parar de viver as nossas vidas. Vamos simplesmente viver e talvez precisemos de descobrir como viver de uma forma um pouco diferente relativamente às últimas décadas. 

Como digo no meu livro sobre a história trans [Transgender History, de 2008], à medida que o clima político muda, vejo-me, enquanto pessoa trans branca, a recorrer cada vez mais frequente e profundamente à obra escrita de pessoas nativas e negras nos Estados Unidos. Como povo, sobreviveram durante centenas de anos sob tipos de opressão que eu nunca tive de viver diretamente. E ainda têm esperança, amor e comunidade. Como é que se faz isso? Como é que se vive sob opressão sem se ser simplesmente esmagado?

Sempre achei que é melhor assumir-se do que esconder-se. Entendo por que motivo algumas pessoas trans optam por passar por cis, mas quando fazemos isso, esse segredo fica suspenso sobre a nossa cabeça e alguém eventualmente vai descobrir. É melhor fazer o trabalho de aceitar que se é diferente das outras pessoas e insistir em ser tratada como se é. 

Acho que há muita coragem quotidiana a ser reunida neste momento em assumir-se publicamente como trans e recusar-se a ser varrida para debaixo do tapete. Eu sou tua vizinha. Eu moro na tua cidade. Nós andamos pelas mesmas ruas. 

Mostrem-se desta forma e, se possível, tenham conversas difíceis com as pessoas. Com algumas pessoas da minha família, não há hostilidade, mas nos últimos dois anos, tive conversas com elas em que falavam sobre ter amigos trans e gostar de shows de drag, mas depois começavam a falar sobre pessoas trans no desporto e diziam coisas como: “Quero que a minha filha possa competir em igualdade e não me parece justo que mulheres trans possam participar”. 

Acho que é muito importante ter essas conversas com pessoas que não são más ou hostis, onde há uma diferença legítima de opinião ou há alguma educação que precisa acontecer.

Precisamos realmente de nos esforçar para isso e não adotar uma postura demasiado defensiva quando outro elemento de uma frente unida não concorda 100% connosco. Vai ser complicado. Isso não significa que comprometas os teus princípios, pares de defender o que achas certo ou de pressionar aliados a atender às tuas necessidades, como às deles. Talvez alguém apoie os cuidados de afirmação de género para menores, mas tenha dificuldades quanto ao desporto. Aceita o que é possível no momento sem abandonar o que levará mais tempo a alcançar.

“Temos de construir coligações amplas, e coligações amplas envolvem, por vezes, estar com pessoas com quem concordamos em algumas coisas e discordamos noutras, mesmo em questões que são realmente importantes para nós”

C. F.: Precisamos de trabalhar na construção de coligações mais amplas?

S. S.: Certo, temos de construir coligações amplas, e coligações amplas envolvem, por vezes, estar com pessoas com quem concordamos em algumas coisas e discordamos noutras, mesmo em questões que são realmente importantes para nós. As frentes unidas contra o fascismo terão elementos contraditórios. Aceitar que não se vai conseguir tudo de uma vez não significa reconciliar-se com a injustiça ou considerar algumas pessoas ou preocupações dispensáveis. 

Também tento ter uma visão realista do que está a acontecer. Embora me sinta ansiosa em relação a atravessar fronteiras, tome precauções e faça muita higiene digital em torno das passagens de fronteira, realisticamente, hoje em dia não estão a impedir mulheres trans brancas nascidas nos Estados Unidos de atravessar a fronteira, acusando-as de fraude de identidade ou de se envolverem em extremismo violento influenciado pela ideologia de género e dizendo: “Venha comigo, senhor”.

Hoje, isso não está a acontecer. Mas o que acontecerá daqui a três ou seis meses, quando Peter Thiel tiver feito com que a Palantir cruze todas as bases de dados governamentais anteriormente isoladas e puder ligar uma lista de pessoas que mudaram os marcadores de género no registo da Segurança Social ao seu passaporte, com informações recolhidas das suas publicações nas redes sociais e dados da tecnologia de reconhecimento facial que vigia os espaços públicos? Quem sabe para onde estamos a caminhar ou quanto tempo levará para chegarmos lá?

Mas tento manter os pés no chão. Como é a situação hoje? O que está a acontecer agora?

E também reconhecer que as coisas podem piorar muito. 

Uma vez, participei num festival de cinema na Rússia, organizado por ativistas LGBTQ no exílio. Eles exibiram o meu documentário Screaming Queens e eu participei num painel de discussão online ao vivo com eles. Alguém disse: “O que me impressionou no seu filme foi que as mulheres trans podiam ter um lugar para se reunir em público, mesmo que fosse num bairro de má fama, enquanto nós não temos uma cultura pública, temos apenas uma cultura de apartamentos.”

Neste momento, nos Estados Unidos, ainda temos mais do que uma cultura de apartamentos. Talvez cheguemos a esse ponto, mas mesmo que isso aconteça, as pessoas sobrevivem a isso.

Eu tento manter essas duas coisas em mente. É mau. Poderia ser pior. E mesmo que piore, há maneiras das pessoas sobreviverem.

C. F.: Um tema importante que surgiu em muito do que disseste é a tecnologia de vigilância como fator crucial que torna o momento político atual mais assustador. A indústria tecnológica construiu um enorme aparato de vigilância que o Estado pode usar para reprimir e eliminar grupos da vida pública.

S. S.: Sim, e é difícil escapar. Neste momento, precisamos dos nossos telemóveis para fazer qualquer coisa. E somos totalmente rastreáveis o tempo todo. Estamos profundamente envolvidos em redes para fazer coisas básicas como falar com alguém ou aceder a documentos. E então temos que tomar um monte de decisões sobre como nos protegemos. Levar um telemóvel sem nada instalado vai realmente salvar-me de alguma coisa? Vão ter o meu passaporte. Podem pesquisar coisas. Se o governo quiser perseguir-me por alguma coisa, consegue.

No meio disto, qual é o nível de profilaxia suficiente para nos mantermos relativamente seguros? Isso levanta questões constantes e intermináveis.

C. F.: Sim, e a ansiedade que isso provoca pode levar as pessoas a desistir preventivamente, a isolar-se e deixar de intervir politicamente. Última pergunta: como é que imaginas uma utopia trans? E que elementos do passado te inspiram e a que futuros trans podemos aspirar?

S. S.: O que me inspira no passado é que, literalmente, para onde quer que se olhe, é possível encontrar pessoas a viver vidas que se assemelham às vidas trans contemporâneas, independentemente de como elas se viam a si mesmas ou do que era socialmente aceitável. 

Para mim, ser trans é como ser canhoto. A maioria das pessoas não é canhota, mas algumas são, e sempre foram. E não precisamos de saber porquê. Acho valiosa a ideia de que, mesmo que ser trans seja minoritário, há algo intrinsecamente humano no potencial trans na vida. 

Para o futuro, o que realmente espero é que as questões trans não sejam vistas como algo importante apenas para um número ínfimo de pessoas. Como discutimos anteriormente, as pessoas trans apresentam problemas para os Estados e as sociedades, não porque haja algo essencialmente problemático em ser trans. Ser trans torna-se um problema devido à forma como o poder e o conhecimento estão organizados no mundo moderno eurocêntrico. E isso, em última análise, tem mais a ver com raça, trabalho e capital do que com qualquer outra coisa.

As pessoas trans podem falar de forma profética ou oracular para mostrar o que sabemos por viver as nossas vidas trans, de uma forma que mostre às outras pessoas que uma transformação profunda é realmente possível e viável. E que essa transformação já está aqui e agora. Somos apenas parte do movimento em direção a um futuro viável.

Autor:
13 Dezembro, 2025

Carolina Flores é filósofa e professora auxiliar de filosofia na Universidade da Califórnia, Santa Cruz. Investiga e escreve sobre conhecimento e ignorância, crença e mudanças de opinião, estilos de pensamento, identidades sociais e como moldam as nossas perspetivas, delírios e (ir)racionalidade. É mestre em matemática e filosofia pela Universidade de Oxford e doutorada em filosofia com uma pós-graduação em ciência cognitiva pela Universidade de Rutgers. Divide o seu tempo entre Lisboa e basicamente-Silicon-Valley, enquanto encontra forma de abandonar definitivamente o coração do império.

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