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Cristiano Ronaldo, um ativo especulativo rodeado de jogadores

Cristiano Ronaldo, um ativo especulativo rodeado de jogadores

Captura da transmissão televisiva do Euro2024, num momento em que o selecionador nacional fala aos atletas. Cristiano Ronaldo surge sentado no meio de uma roda formada pelos seus colegas.
Captura da transmissão televisiva do euro 2024

Índice do Artigo:

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Os 486 minutos de Ronaldo no Euro 2024 mostram como a busca por retornos financeiros consegue distorcer a lógica competitiva do desporto rei.

Na esmagadora maioria dos debates sobre a legitimidade da existência de milionários, os defensores da sua existência rapidamente dão o exemplo dos futebolistas.

João Caetano Dias, Membro da Comissão Executiva da Iniciativa Liberal e outros usuários na rede social Twitter/X.

A tática é compreensível e previsível. O futebol, como a maioria dos desportos de massas, é altamente competitivo e com métricas fáceis de avaliar (vitórias, golos, assistências, etc), o que cria um ambiente bem mais meritocrático do que a maioria das indústrias. É como consequência disso que os plantéis se compõem de uma enorme diversidade de atletas provenientes de classes populares, que se destacam nas escolas de formação dos clubes. As dinâmicas meritocráticas do futebol não são o resultado de uma lei inviolável que sempre existiu, antes pelo contrário.

Nos primórdios do futebol no Reino Unido no final do século XIX, as classes poderosas defendiam a proibição de qualquer tipo de remuneração. Esta limitação era uma forma ativa de condicionar o funcionamento das equipas operárias, que precisavam de fundos para cobrir os custos operacionais das suas equipas (transporte, equipamentos, etc) e os dias de trabalho perdidos nas fábricas, camuflada em argumentos moralistas (bem descrita na série The English Game). As mobilizações operárias acabaram por vencer, o futebol tornou-se mais meritocrático e justo através da sua profissionalização.

Desde então, um processo de comercialização, depois acompanhado pela financeirização, alastrou pelo futebol provocando mais uma mudança paradigmática. Nos últimos anos, isto tem-se refletido num processo em que principais clubes europeus são colonizados por bilionários, e alguns jogadores e treinadores rumam para as ligas secundárias que se tentam impor por meros motivos financeiros. O esforço falhado pela criação da Super Liga Europeia em 2021, que se tornaria a principal competição entre clubes europeus, com traços ainda menos democráticos do que o futebol atual, representa um marco essencial neste processo.

Apesar de todas estas dinâmicas, o objetivo de montar a melhor equipa possível e de vencer o jogo tem-se mantido. Contudo, a mais recente campanha da seleção portuguesa no Euro 2024 mostra que esta lógica meritocrática-competitiva continua sob risco, mesmo depois do falhanço da Super Liga Europeia. Ironia do destino, foi no futebol de seleções – que não envolve transferências e salários milionários – que assistimos a um exemplo perfeito do normal funcionamento do jogo a vergar perante as pressões financeiras.

Ficou óbvio que o número de minutos que Cristiano Ronaldo jogou no Euro 2024 não foi o resultado de uma estratégia desportiva para vencer o torneio. Ronaldo jogou todos os jogos, mesmo contra a Geórgia em que os habituais titulares ficaram a descansar, e manteve-se em campo nos dois jogos que tiveram mais de 120 minutos – registo ainda impressionante quando somamos a idade à posição dianteira do atual jogador do Al-Nassr. Durante todos estes minutos, as câmaras que transmitiam para todo o mundo nunca deixaram de seguir o craque madeirense – ainda que, estatisticamente, e a título de exemplo, tenha tido tantas participações no jogo como o guarda redes da seleção nacional, e herói dos oitavos de final, Diogo Costa.

“Mas quem quer que veja os jogos da seleção portuguesa chega a várias conclusões. A primeira é a de que Ronaldo transcende a equipa em tração, visibilidade, capacidade marquetizável, em suma. E dele que se fala em todo o lado, é ele que motiva invasões de campo para as selfies, é ele que causa as reações mais encaloradas no público generalista internacional. Dir-me-ão:
“isso não é importante”. Mas é. Não é quando se pensa sobretudo em formar uma equipa ganhadora, mas acaba por sê-lo se entendermos que o futebol é, hoje, um negócio antes de ser um jogo. Podemos gostar disso ou não, mas o facto de acharmos bem ou mal não muda a realidade nem faz o Mundo girar para”

Excerto da Newsletter de António Tadeia, comentador habitual da seleção nacional

O caso de Ronaldo não deve ser interpretado como a incapacidade de um treinador de lidar com um jogador com um enorme ego, como foi assinalado num artigo do The Guardian. Por mais que isso seja verdade, a situação revela como as dinâmicas financeiras estão a afastar o futebol do desporto e aproximá-lo do entretenimento. 

O jornalista António Tadeu, na sua newsletter, afirmou que “Ronaldo transcende a equipa em tração, visibilidade, capacidade marquetizável”. O que assistimos nos cinco jogos de Portugal foi a presença de um ativo especulativo em campo no meio de trabalhadores da indústria do futebol. Esse ativo é resultado da suas conquistas do passado (“trabalho morto”) e é co-detido entre Ronaldo e as empresas multinacionais que o rodeiam. No processo, o ativo é uma forma de financiamento da Federação Portuguesa de Futebol e traz benefícios indiretos para indústrias em crise como a comunicação.

As decisões do treinador Roberto Martinez fazem mais sentido se deixarmos de parte a hipótese de que o seu objetivo era maximizar o sucesso da seleção das quinas no Campeonato Europeu de Futebol. A grande prioridade era obter o máximo de tempo de Ronaldo em frente a uma câmara.

Os paralelos que podemos traçar com o professional wrestling, uma prática que segue um guião e tem as suas raízes no desporto, são óbvios. Neste, tanto ou mais que as capacidades físicas, o star power de um pro wrestler é vital para a sua carreira. Os atos performativos de Ronaldo antes dos livres diretos têm semelhanças com signature moves dos lutadores de wrestling da WWE. Se o futebol seguisse um guião como o wrestling, provavelmente Cristiano Ronaldo, com a sua popularidade atestada, dominaria os torneios durante décadas.

Tomando emprestada uma analogia feita por Noam Chomsky numa entrevista, o treinador da seleção portuguesa não é forçado, de forma brutal e diária, a colocar Ronaldo em campo. Ele é treinador da seleção de Portugal porque vai colocar o ativo Ronaldo em campo sempre que possível.

O mais interessante deste caso não é até onde Portugal poderia ter chegado no Euro 2024, mas o que este revela sobre a relação entre concorrência e capitalismo. Os maiores defensores do capitalismo defendem que este tem de operar num clima concorrencial. O futebol tornou-se (através da luta popular) uma indústria em que a competição disciplina o fracasso. Este é um dos motivos pelos quais o desporto é tão popular no globo. 

Contudo, o caso de Ronaldo mostra que quando o Capital identifica a possibilidade de gerar retornos financeiros, este é capaz de minar qualquer lógica competitiva-meritocrática, até mesmo do desporto rei. Se o Capital levar a sua adiante, o desporto vai sendo gradualmente substituído pelo entretenimento. As raízes populares deste são — e não a suposta magia auto-reguladora dos mercados — o baluarte que assegura as suas virtudes competitivas.


Este texto foi originalmente publicado na República dos Pijamas, conhece o seu substack, ou segue-os nas redes sociais (X ou Instagram) para mais conteúdos como este.

Autor:
8 Julho, 2024

Guilherme Rodrigues

O Guilherme Rodrigues é co-autor da República dos Pijamas, newsletter de economia e política, e membro do conselho editorial do Shifter.
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