Blockchain é mais do que criptomoedas?

Nos últimos tempos, com a subida da inflacção, a oficialização de uma crise, e casos como a Luna, a fama da blockchain não está nos melhores dias – nem o seu valor. Contudo, essa não deve ser a métrica do sucesso, da sua implementação nem do seu desenvolvimento.
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  • O João Gabriel Ribeiro é Co-Fundador e Director do Shifter. Assume-se como auto-didacta obsessivo e procura as raízes de outros temas de interesse como design, tecnologia e novos media.

O ano era 2008. O mundo começava a dar os primeiros sinais de recuperação da primeira grande crise financeira do século. A procura de mudanças estruturais que pudessem evitar a sua repetição voltava a trazer à tona o sonho da criação de uma moeda digital, baseada em criptografia, como nos idos anos 90 sonhara o movimento Cypherpunk. Criada por Satoshi Nakamoto, nome pseudónimo de alguém até hoje por descobrir, surgia então, numa mailing list de criptografia, a Bitcoin – o projecto para uma criptomoeda.

Anunciada no final de 2008, foi no principio de 2009 que a rede de Bitcoin se lançou como a primeira blockchain pública, no momento simbólico de geração do primeiro bloco: o genesis block. Este projecto explorava assim resultados de décadas de investigação em criptografia – em espaços mais underground ou mais institucionais – e explorava pela primeira vez a solução que permitia a criação de uma moeda digital distribuída: um sistema de dinheiro electrónico peer-to-peer, como descrito no respectivo whitepaper

Apesar de gerar algum entusiasmo inicial entre quem acompanhava a área de desenvolvimento da criptografia ou outros circuitos específicos mais interessados neste tipo de inovação, os primeiros tempos da Bitcoin – a bandeira da blockchain – não foram particularmente sonantes porque a utilização não era particularmente fácil. Com pouca assimilação da tecnologia era pouco o que se podia comprar com a moeda electrónica. A primeira compra ficaria para sempre registada na história, tornando-se num dos dias sagrados para os crentes da tecnologia: a 22 de Maio de 2010, um entusiasta das criptomoedas pagou em Bitcoin a um intermediário para que lhe trouxesse duas pizzas. E se o volume de negócios não foi propriamente relevante, o momento serviu de prova de conceito. 

Dois anos volvidos entre defesas da Bitcoin, tentativas de implementação marginais, memes e holders (pessoas que guardam grandes quantidades da moeda), surgiu o Ethereum. Concebido pelo programador russo Vitalik Buterin – então redactor da Bitcoin Magazine –, e fundado em parceria com Gavin Wood, Charles Hoskinson, Di Iorio e Joseph Lupin, o Ethereum representa não só a segunda blockchain pública, como uma evolução das possibilidades desta tecnologia. O Ethereum apresentava-se ao público por volta de 2015, não só como um sistema de dinheiro electrónico, mas também como uma plataforma descentralizada onde qualquer utilizador podia criar as suas aplicações descentralizadas. Resumidamente, o sistema de validação de transações do Ethereum era capaz de correr não só operações de cálculo como de transações, mas como contratos mais complexos. 

Foi por esta altura que o tema começou a ganhar maior tração, como de resto mostram de forma bastante elucidativa os relatórios de pesquisas no Google. E se em 2016 a Bitcoin atingiu um dos primeiros patamares de popularidade, na relação que se estabelece entre a popularidade e o valor da moeda, foi pouco depois que atingiu uma das valorizações mais surpreendentes – tendo atingido um pico em 2017 que só viria a repetir em 2020. As subidas do valor da moeda traziam, naturalmente, alguma popularidade entre quem via nas cripto uma forma de gerar rendimento. Em sentido inverso, os momentos de descida, conhecidos no universo como bear markets resfriavam os ânimos e empurravam a discussão para os chamados invernos, momentos de pouco entusiasmo

Depois de alguma acalmia, em 2020, muito provavelmente por influência da pandemia que obrigou a alterações na rotina de pessoas um pouco por todo o mundo e a alterações nos mercados financeiros, a blockchain voltaria a ganhar tração no espaço público. À boleia, desta feita, dos NFTs e de todo um manancial de aplicações de blockchain que se apresentava como inovadoras. Foi nesta altura que se tornaram mais visíveis os projectos que prometiam ser a base de ecossistemas de Finanças Descentralizadas (DeFi), de mundos virtuais, e que surgiram com igual impacto nas redes sociais as alt coins e as meme coinscriptomoedas sem grande utilidade aparente mas que graças a ciclos de entusiasmo tiveram valorizações absurdas e fizeram internautas aleatórios muito ricos (e outros muito, muito pobres). Em suma, fora entre 2020 e 2021 que o hype subira em flecha – tal como mais uma vez a valorização – e se notabilizou o conceito de web3, como uma iteração revolucionária da internet global, em que os criadores poderiam monetizar directamente o seu trabalho, seja através de NFTs ou outros modelos de tokenização.

“Houve uma outra fase que se manifestou durante o início da pandemia com um influxo grande de novos criadores (alguns deles já com forte presença online e seguidores nas rede sociais); atraídos pela tecnologia, pelos ideais mas também pela possibilidade de poderem monetizar o seu trabalho digital”, contava em entrevista ao Shifter em 2021 o artista de crioptoarte que assina como Oficinas TK, reconhecendo como a ânsia dos valores acabava por ser um aliciante para muitos os que agora se juntavam ao universo cripto. 

Este dinheiro e a possibilidade de monetizar parecia resultar de uma conjuntura muito particular de apoio à economia que era canalizado para as cripto por cidadãos comuns confinados em suas casas, mas também pode ter sido alavancado pelo investimento institucional de bancos como o Morgan Stanley e a JP Morgan que lançaram produtos financeiros associados à Bitcoin. 

Com a escalada de entusiasmo, e a multiplicação dos evangelizadores das cripto, deu-se também uma grande escalada da crítica quer ao carácter ideológico de muitos dos projectos e das criações, quer ao perigo ambiental que representavam. Sem que nada de substancialmente novo viesse à tona, a conversa ganhava uma nova profundidade no contraste entre posições. No mesmo sentido, as posições dos mais crentes começaram a agudizar-se e subdividir-se: de forma simples, há os que acreditam apenas na Bitcoin (os chamados maximalistas), os que acreditam na blockchain como um potencial acrescento a instituições (os cripto-institucionalistas) e os que só veem futuro na blockchain como alternativa ao sistema vigente (os cripto-anarquistas).

Entre estes grupos dividem-se as reacções às medidas que globalmente vão tornando a blockchain mais próxima do cidadão comum. Desde a controversa adopção da Bitcoin em El Salvador, numa tentativa de se financiar de forma alternativa ao FMI – amplamente elogiada pelos citados maximalistas –, até à utilização da tecnologia no aparelho do estado da Estónia, os momentos e motivos para utilização da blockchain têm sido vários e para quase todos os gostos; mas nem sempre têm sido merecedores de debates aprofundados e concretos. (Assim se explica, por exemplo, a iniciativa de Evgeny Morozov intitulada The Crypto Syllabus, de que o Shifter é parceiro.)

Nos últimos tempos, com a subida da inflacção, a oficialização de uma crise, e casos como a Luna, a fama da blockchain não está nos melhores dias – nem o seu valor. Contudo, essa não deve ser a métrica do sucesso, da sua implementação nem do seu desenvolvimento. No que tocas às blockchains públicas estamos próximos de assistir à transição do Ethereum para um novo protocolo de verificação menos dispendioso do ponto de vista energético. E mesmo a nível institucional todos os sinais apontam para uma adopção de partes da tecnologia – de forma mais ou menos discreta e mais ou menos centralizada. 

Das promessas e conversas sobre um euro digital, criptográfico, à adopção de tecnologias de blockchain em sectores como a logística, a distribuição ou os mercados energéticos, ou ao empoderamento de comunidades de P2P através desta tecnologia, são várias as hipóteses de futuro colocadas em cima da mesa. Tal como aconteceu com outros protocolos e tecnologias, é provável que a concretização do seu potencial seja mais sonante do que as promessas inicialmente feitas, mas agora que moldamos esses universos futuros é imperativo discuti-los de forma aberta e plural. O que significará a adopção de tecnologias de blockchain de um modo massivo? Ao serviço dos estados? Poderá a blockchain dar lugar a sistemas de reputação e crédito social distópicos ou, em sentido inverso, dar, por exemplo, poder a cooperativas energéticas descentralizadas capazes de complementar as redes energéticas vigentes? Poderá a blockchain servir para criar uma alternativa social ao euro ou, pelo contrário, é a tecnologia que faltava para fazer descolar a moeda da união? As perguntas são infinitas e as respostas, muito provavelmente, divergem entre os vários agentes, é por isso que importa cruzar perspectivas, encontrar consensos e plataformas de compromisso, para que uma nova adopção tecnológica possa significar a melhoria das condições actuais e não o agudizar das desigualdades já latentes e tão exacerbadas pela digitalização.


Nesta quinta-feira, 22 de Setembro, a partir das 18h30, vamos debater sobre Blockchain e Descentralização no terceiro evento do nosso ciclo Encontros Com Impacto. Queremos desmistificar os usos reais da blockchain, abordar a relação com a promessa da descentralização e indagar sobre as principais críticas em torno desta tecnologia – nomeadamente o custo energético, desregulação de sectores, etc. É nesse sentido que procuraremos juntar perspectivas divergentes.

Sabe mais sobre os Encontros aqui.

Regista-te neste evento aqui.

Sobre o nosso painel

Catarina Ferreira da Silva é Professora Associada (2021), com Agregação em Ciências e Tecnologias da Informação (2020) e Directora do programa de Mestrado em Gestão de Sistemas de Informação do Departamento de Ciências e Tecnologias da Informação (DCTI) da Escola de Tecnologias e Arquitectura (ISTA) do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa. É membro do painel de especialistas do Observatório e Fórum Europeu de Blockchain, desde 2020. O Observatório e Fórum Europeu de Blockchain é uma iniciativa patrocinada pela Comissão Europeia, Direcção-Geral de Redes de Comunicações, Conteúdo e Tecnologia.

Inês Faria é antropóloga e investigadora do SOCIUS/CSG, na Universidade de Lisboa. Tem trabalhado sobre temas relacionados com saúde, tecnologia e fintech. Tem desenvolvido investigação sobre os usos da tecnologia blockchain ao abrigo do projecto “Finance Beyond Fact and Fiction” desde 2016 – e foi uma das entrevistadas do projecto The Crypto Syllabus.

Luís Freitas é um engenheiro de software que usa tecnologia inovador para construir “usos criativos da tecnologia”; um empreendedor e gosta de criar e expedir grandes produtos; e um hacker que não se conforma e quer ajudar a modelar o futuro. Foi criador de um dos primeiros projectos (se não o primeiro) de NFT em Portugal, o repop, e é actualmente responsável pelo 3XR, um projecto que junta a spatial web aos tokens digitais.

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