Como a Amazon quer “aspirar” mais um sector de mercado

A Amazon, empresa liderada por Jeff Bezos, um dos homens mais ricos do mundo, prepara-se para comprar a iRobot, empresa produtora dos famosos aspiradores Roomba, por um valor a rondar os 1,7 mil milhões de dólares. E, se à primeira vista é apenas mais um dia no escritório, com uma grande empresa da tecnologia a comprar outra bastante promissora, as particularidades do negócio merecem atenção.
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  • O João Gabriel Ribeiro é Co-Fundador e Director do Shifter. Assume-se como auto-didacta obsessivo e procura as raízes de outros temas de interesse como design, tecnologia e novos media.

Fotografia de Onur Binay via Unsplash

Com mais de 100 aquisições e fusões no seu currículo, não é surpresa para ninguém anunciar que a Amazon se prepara para comprar mais uma empresa. A estratégia de expansão de um dos maiores retalhistas online de todo o mundo é antiga, e comprar empresas em sectores estratégicos que lhe permitam alargar o seu leque de negócios é uma prática que se vem tornando habitual. Contudo, se as novas aquisições poderiam perder o interesse por perderem o factor novidade, a verdade é que a última oferta de aquisição da Amazon levanta muitas e interessantes questões. 

A Amazon, empresa liderada por Jeff Bezos, um dos homens mais ricos do mundo, prepara-se para comprar a iRobot, empresa produtora dos famosos aspiradores Roomba, por um valor a rondar os 1,7 mil milhões de dólares. E, se à primeira vista é apenas mais um dia no escritório, com uma grande empresa da tecnologia a comprar outra bastante promissora, as particularidades do negócio merecem atenção. Afinal de contas, o Roomba, conhecido pela sua forma circular e a sua hipotética autonomia, não é um aspirador comum, mas um aspirador inteligente e que conhece os cantos de cada casa, levantando dúvidas sobre o respeito pela privacidade dos consumidores que se juntam às já habituais questões sobre a monopolização dos mercados. 

Há muito que a estratégia de expansão é alvo de críticas, sobretudo por parte de associações de defesa do consumidor e anti-monopólios. Com uma política de comprar empresas de sucesso para juntar à sua oferta, ainda há menos de um mês a Amazon anunciou a compra da OneMedical, uma empresa que presta serviços de cuidados primários, que permite a marcação de consultas através de uma app, por cerca de 3,9 mil milhões de dólares, expandindo-se para a área da saúde e agora junta mais um nome ao seu historial onde já se encontram outros, basilares do negócio da Amazon. 

A encabeçar a lista de compras está a aquisição Whole Foods Market por mais de 13 mil milhões, mas os nomes sonantes não se ficam por aqui; da mesma lista podemos citar desde a Twitch, plataforma de streaming, ao famigerado Ring, serviço de câmaras de vigilância, passando por nomes como Audible, plataforma de audiolivros, ou pela Zoox, empresa de desenvolvimento de carros autónomos. Mais de uma centena de empresas foram adquiridas desde 1998, sendo integradas em sectores maiores da gigante Amazon, como o Amazon Web Services, ou dando origem a novos verticais da empresa. 

O caso da iRobot não é, nesse aspecto, excepcional. A compra da companhia de aspiradores surge depois de anos de investimento da Amazon em aparelhos para equipar as chamadas Smart Homes (Casas Inteligentes) e na sequência de aquisições como a Ring e do desenvolvimento de produtos como o robot Astro, um robô de monitorização doméstica que só é possível comprar por convite, ou da já famosa Amazon Echo – a gama de colunas com assistente pessoal Alexa. Os Roomba parecem, assim, juntar-se à gama de aparelhos domésticos da Amazon, acelerado a penetração da empresa nos lares – sobretudo americanos – onde a sua entrada tem sido mais lenta do que o provavelmente previsto; o lançamento do Astro, a um preço de mil dólares e acesso apenas por convite, é sintoma desta entrada tímida no mercado mas agora tudo pode mudar. 

Segundo uma das apresentações de resultados da empresa iRobot, desde a introdução do Roomba já foram vendidos mais de 40 milhões de exemplares deste robô aspirador. E, com esta compra sonante, a Amazon passará a ser a sua detentora, o que atendendo às suas capacidades simboliza mais do que uma simples propriedade sobre a marca ou o negócio que, de resto, já conheceu melhores dias. Segundo a última demonstração de resultados, a empresa viu as suas receitas diminuírem 30% no último trimestre, graças à redução de encomendas e atrasos na logística, e prepara-se para dispensar 10% dos seus trabalhadores. A confirmar-se a compra pela Amazon pelos valores referidos, cada título da iRobot será valorizado em 61 dólares e a Amazon assumirá também a dívida corrente da empresa. 

Se os últimos tempos da iRobot foram marcados por competidores, sobretudo do mercado asiático, com preços mais baixos a ameaçarem a quota de mercado, a plataforma da Amazon pode contrariar a tendência – permitindo estratégias de marketing mais agressivas como a colocação de um preço mais baixo. A título de exemplo, vale a pena recordar o sucesso do Echo, um segmento onde a empresa é líder de mercado, ou até do leitor de livros portátil Kindle, onde a quota de mercado era estimada em perto de 80% no ano 2018. A empresa consegue estes resultados utilizando o ecletismo do seu negócio como modo de alavancagem. Se, por exemplo, em torno do Kindle, a Amazon criou toda uma plataforma de publicação e venda de livros digitais, o iRobot pode integrar uma estratégia semelhante no que toca às casas inteligentes – permitindo integrações sofisticadas com o Echo, o Ring ou o Prime, o serviço de subscrição da Amazon que tem vindo a ser um importante vector de expansão e interligação entre os vários domínios da empresa.

É precisamente nesta capacidade ou intenção da Amazon de capturar sectores de mercado que residem as principais preocupações dos críticos deste negócio, nomeadamente pela capacidade inédita que terá de recolher dados diretamente da casa das pessoas. Recorde-se que no historial da Amazon contam-se com diversas controvérsias em torno de dados. Ainda recentemente, em Junho deste ano, um antigo engenheiro da empresa foi acusado de ter divulgado dados de mais de 100 milhões de clientes do banco CapitalOne que estavam alojados nos Amazon Web Services, pelo que com empresas do universo da própria empresa as preocupações aumentam ainda mais. Neste particular, importa notar que os robots da iRobot já há anos que usam os serviços de cloud da Amazon Web Services (AWS) e que já em 2017, em entrevista à Reuters, o CEO da empresa de aspiradores, Colin Angle, enunciou a possibilidade de vender os mapas das casas dos seus clientes a gigantes dos dados, como a Google ou a Amazon. O mesmo Colin Angle que já sabe que terá o seu lugar garantido caso a compra se concretize. 

Como referido, a compra da iRobot surge pouco depois da compra da empresa de serviços médicos que, do mesmo modo, levantou dúvidas sobre acesso ilegítimo a dados. Nesse caso, a Amazon garantiu que não usará os dados sem uma permissão expressa dos utilizadores, mas não é demais lembrar a falta de critério e de atenção com que tantas vezes os utilizadores aceitam sem ler os termos e condições de utilização de um serviço. 

O acesso aos dados colectados pelo Roomba, desde o seu modelo 980, lançado em 2015, é uma questão importante no que toca à privacidade, neste sentido estrito de que uma empresa pode ter acesso a mapas que permitem inferir questões como a disposição da casa, a existência de determinados objectos, e correlacionar essa informação com as que são provenientes de outros serviços – aumentando, dessa forma, as possibilidades de inferência que podem posteriormente ser usadas para desenvolver perfis de segmentação para optimizar os anúncios que cada consumidor vê. Mas, por outro lado, não é de menosprezar, a importância que estes dados podem ter para uso interno, nomeadamente no desenvolvimento de novos produtos ou serviços – como possibilidades de ligações entre produtos – que ajudem a Amazon a tornar-se ainda mais monopolista e, desta feita, até dentro da nossa própria casa. 

Com serviços que vão, agora, desde os cuidados médicos até à aspiração inteligente de nossa casa, a empresa pode ganhar acesso a dados que praticamente fazem um retrato do seu consumidor. Especialmente nos Estados Unidos da América, dada a importância dos seguros de saúde privados, não é difícil imaginar estes dados a servirem para fins menos lícitos ou defensores dos consumidores e cidadãos. De resto, ainda esta semana, num caso com pouca relação mas que pode servir de aviso, soube-se que o Facebook partilhou mensagens privadas de uma conta com as autoridades, o que permitiu que estas pudessem perseguir a utilizadora por ter feito um aborto. Mas será que a nossa informação com a Amazon vai estar melhor protegida?

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