Rádio Yandé, um “etnomídia” pelo “protagonismo indígena”

Na Rádio Yandé, despenteiam-se estereótipos e confrontam-se com relatos na primeira pessoa, com o objetivo de difundir a “cultura indígena através da ótica tradicional, mas agregando a velocidade e o alcance da tecnologia e da internet”. 
Via museus.cultura.gov.br

Para entreter, informar e preservar a tradição oral das comunidades indígenas, Anápuáka Muniz Tupinambá Hã hã hãe, Denilson Baniwa e Renata Machado Tupinambá criaram há sete anos a Rádio Yandê, uma das primeiras rádios indígenas online ouvida em mais de 40 países. Apresentam-se como um “mídia livre” com “programas informativos e educativos que trazem para o público um pouco da realidade indígena do Brasil”. Despenteiam estereótipos e confrontam-nos com relatos na primeira pessoa, falados ou cantados, com o objetivo de difundir a “cultura indígena através da ótica tradicional, mas agregando a velocidade e o alcance da tecnologia e da internet”. 

Yandê, cujo significado é “todos”, convoca uma ideia de comunidade impossível de dissociar da força da ancestralidade indígena. A rádio surge “pelo desejo de protagonismo indígena” e da vontade de criar um projeto “etnomídia”, diz-nos Renata Machado Tupinambá em entrevista,. “Os povos [indígenas] são orais e como nem todos dominam língua escrita, oralidade sempre foi principal forma de comunicação”, explica a jornalista, guionista e co-fundadora da rádio. Nestes sete anos de vida, conta que “foram muitos aprendizados incríveis” que ganhou. Uma das grandes conquistas que Renata destaca nesta jornada é a forma como “todos passaram a olhar para música indígena com outros olhos”. 

Neste momento, há uma nova geração de músicos indígenas que reclamam também o seu lugar através da música. Enquanto o governo de Bolsonaro ameaça de forma cada vez mais evidente as vidas indígenas, estes músicos falam pelas suas comunidades e tentam salvar a tradição por entre chamas. Num artigo para o Guardian, a jornalista brasileira Beatriz Miranda fez um levantamento desta nova geração que funde sonoridades tradicionais com o funk, o rap ou o trap, onde destaca Kaê Guajajara, a voz de “Essa Rua é Minha”, e Kunumi MC, rapper que desde os 16 anos vê na música um meio de tentar ajudar “defender os parentes, defender o seu povo, para falar sobre como é a realidade”, como disse à BBC Brasil em 2018.

“Para todo o povo dessa terra / Que o genocídio não conseguiu acabar / Se tu roubou em 1500, tu roubou hoje também”

excerto de “Essa Rua é Minha”

A Rádio Yandê é também sobre isso, e não se fica pelo Brasil. Renata lembra que “existe uma diversidade mágica desconhecida dos brasileiros e de outros países, sobre os povos que aqui habitam, sonham e mantêm a vida da floresta de pé, protegendo e ensinado”. “É preciso respeitar as diferenças e a história de vida de todos”, lembra Renata. E, como lembra também Kaê Guajajara na terceira faixa do EP WIRAMIRI, “Interlúdio”: “ancestralidade não se paga com moeda”. Com esta rádio, Renata e os restantes membros celebram essa ancestralidade sem fronteiras, demarcam os seus territórios com as ferramentas possíveis e narram as suas vivências. 

No Perú, essa “diversidade mágica” de que a co-fundadora da Rádio Yandê fala, revela-se nas palavras de Renata Flores, jovem rapper que já te tínhamos dado a conhecer aqui no Shifter. Na altura, em entrevista, a rapper disse que “muitas pessoas conseguiram entender que a nossa língua [quechua] pode ser preservada adaptando-a aos dias de hoje, mas ainda assim há pessoas que não querem que a música Quechua e tradicional seja usada noutros géneros”. Apesar das críticas, Renata Flores, que ensina quechua no seu canal de Youtube a partir de covers de canções conhecidas do Perú para o mundo, mas também Kunumi MC, que já fez uma colaboração com o rapper brasileiro Criolo, mostram que este pode ser o seu contributo. E é válido. 

Documentar a memória oral contra a óptica colonial

Nas palavras de MC Kunumi e Kaê Guajajara que denunciam um genocídio que parece não acabar, está presente o processo colonial que se arrasta há séculos. Nesse processo de branqueamento da história, os povos indígenas foram relegados a uma não-existência. Foram resistindo. E como todas as pessoas que não se incluem no conceito de normalidade colonial, foram sendo representados de forma estereotipada, como se estivessem parados no tempo. 

“A ótica colonial que prevalece em imaginários pelo mundo é a de que povos originários são primitivos ou atrasados. Então, quando as pessoas se deparam com a realidade, existe espanto, pela visão generalizada que possuem sobre o que é ser indígena. Por muito tempo fomos vistos como objetos do novo mundo, até de fato conhecer as histórias pelas narrativas indígenas”, diz Renata Machado Tupinambá. Como lembrava Sónia Guajajara em entrevista ao Shifter, em maio do ano passado, as novas tecnologias foram essenciais para comunicar e fazer face aos desafios da pandemia e do desgoverno de Bolsonaro; foram uma forma de dar a ver o que se passava nas aldeias, já que na televisão a agenda nunca o incluiria.”

Documentar a “memória oral” tendo a música, ou até o cinema, como meio “fortalece o protagonismo indígena em sua própria ótica, diferente do personagem ‘índio’ criado por uma visão romântica eurocêntrica de mundo”, diz-nos Renata Tupinambá. “A imposição de uma religião e modo de ser aos povos era uma forma de controlar e afastar as culturas de suas visões próprias de mundo, tornando todos iguais, espelho do europeu e cristãos. São muitas formas que governos do mundo tentam submeter etnias de todos continentes, fugindo da realidade social, cultural, política e espiritual própria dessa população, que sempre está com território em risco pela cobiça de grandes empresas e corporações, que desejam usufruir de recursos naturais”, continua. 

Há sempre uma dimensão política nos conteúdos da rádio, já que a existência de cada indígena é política.  As suas vidas são campos de constante batalha e resistência. Num texto que escreveu em 2017, a que chamou “Filosofias Invisíveis”, Renata aponta o revisionismo histórico que silenciou e descredibilizou os contributos de pensadores indígenas para o conhecimento: 

 “Nossos mais importantes pensadores indígenas passaram despercebidos ao longo dos séculos (…) o que veio antes da filosofia como conhecemos hoje é surpreendente. Longe de ser um pequeno detalhe o verdadeiro significado na forma que nomeamos as coisas possui razões que colonizam, eurocentrizam e inferiorizam no cotidiano nossas formas de olhar e pensar sobre as coisas no mundo. Esta informação é desconhecida pela maioria pois acostumamos usar os nomes que todos usam sem procurar sua origem. Faz parte do adestramento do nosso pensamento e é sútil”. 

Conhecemos Renata a propósito do artigo “A história única é o abismo do conhecimento”, publicado na segunda revista do Shifter. Na altura, deixou bem claro que “existe um silenciamento histórico que grita por toda parte no século 21, nas vozes de pessoas que antes nunca tiveram oportunidade ou espaço para mostrar sua verdadeira história e de seus antepassados”, e relembrou que “no Brasil, o indígena só passou ser cidadão de direitos com a criação da Constituição Brasileira no final dos anos 80 — antes disso era visto como tutelado pelo Estado e incapaz, refém de uma política paternalista”. 

Hoje, Renata mostra que o indígena não só sempre foi capaz como desde sempre mostrou como devemos viver em comunidade e em comunhão com a Mãe Terra. É por isso que quando lhe perguntámos que ensinamentos indígenas seriam importantes para não indígenas não viverem tão desconectados nos respondeu “compreender que a natureza é quem somos,  ela não está separada” e que “todos humanos vieram de povos originários de diferentes locais do mundo, conhecer a história pela perspectiva de todos, colonizados e colonizadores, mas principalmente quem é, compreender de onde todos viemos para respeitar a terra e ar que compartilhamos, como influenciamos a vida de todos”. 

“Um dia também seremos ancestrais, dizem que o futuro já é ancestral, não podemos romper nosso elo com os que vieram antes e vivem também através de nós”. A Rádio Yandê é já uma celebração desse futuro que está por vir, mas que por cá já vive. 

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  • A Carolina vive no Porto mas mora em Lisboa, é licenciada em Ciências da Comunicação e tem uma pós graduação em Curadoria de Arte. Actualmente trabalha como jornalista na revista Gerador, onde diariamente procura saber e mostrar mais sobre o universo infinito da cultura portuguesa.

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