2019 será como imaginavam? 3 obras de ficção cientifica dão a resposta

Revisitámos 3 distopias para percebermos que possibilidades tortuosas foram previstas para o presente.
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  • Miguel Melo estudou Relações Internacionais na Universidade do Minho e mais recentemente na Universidade de Tallinn na Estónia, onde vive correntemente. Isso é o resultado de uma vida passada numa atmosfera internacional e da presença constante em organizações não governamentais. Os tempos livres são passados com duas obsessões: animação (especialmente japonesa) e música (manifestamente pesada). Hoje trabalha numa empresa de tecnologia de vendas como consultor de parcerias digitais (como quem diz construir pontes entre plataformas online).

Blade Runner (1982)
Blade Runner (1982)

Sim, acabámos de entrar em 2019 e este é claramente o momento presente, no qual os carros ainda andam em estradas e não há colónias espaciais em Marte. Mas para os nossos pais e avós, algures nos anos 80 do Século XX, esta data estava a uma distância tão considerável que todas as previsões estavam no domínio da imaginação. Recentemente, o Shifter apresentou as previsões de Isaac Asimov para o futuro. Tal como ele, enquanto alguns se divertiram com a ideia de um futuro com carros voadores e pranchas de skate voadoras (Regresso ao Futuro II em 2015), outros tiveram uma visão mais pessimista do futuro, ou seja, uma distopia.

Para começar, o que é uma distopia? Utopia é o ideal descrito pelo filósofo Thomas Moore no livro com o mesmo nome, publicado no século XVI. A cidade ideal, onde a tolerância e felicidade material são o padrão. A distopia é exatamente o contrário. O futuro que é pior, ou pelo menos não tão optimista. Os melhores exemplos são o filme Metropolis, de 1927, ou as obras clássicas 1984 de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. As distopias ficcionais geralmente têm alguns elementos em comum, como autoridades despóticas, sociedade uniforme com pouca variedade e consequentemente reduzida tolerância em relação a opiniões políticas, credos religiosos ou diferenças culturais e étnicas. De qualquer forma não há limites à criatividade. No final, a regra essencial é um futuro que não é tão brilhante.

Partindo deste princípio revisitámos distopias para percebermos que possibilidades tortuosas foram previstas para o ano corrente?

Há pelo menos 3 exemplos perfeitos de distopias que se passam em 2019.

Blade runner

Primeiro, talvez o mais reconhecido, Blade Runner, o clássico de Ridley Scott, estreado em 1982. Baseado no livro de Philip K. Dick, Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, Harrison Ford desempenha o papel de Rick Deckard, polícia (bladerunner na terminologia do filme) especializado em busca de andróides (replicants) fugitivos. Ainda hoje é considerado uma obra prima da ficção científica. Num mundo onde os carros voam, o ambiente noir dá-nos uma ideia de decadência, mas curiosamente multicultural e no qual várias realidades interagem numa atmosfera Cyberpunk.  Facilmente vemos Deckard a deambular por ruas com letreiros Neon em língua Russa e a comer comida asiática num stand. Em 2017 estreou a sequela Bladerunner 2049, daí o original de 1982 ter estado outra vez sob análise por todos os meios de comunicação, Shifter incluído. Os androids são usados em colónias espaciais, para trabalho perigosos e para indústria do sexo. Daí a revolta.

Entre o filme original e a realidade, as diferença principais podem ser apontadas por qualquer espectador. Os seres humanos ainda não colonizaram o espaço, os carros ainda não voam. A semelhança começa quando analisamos a questão central do filme, os androides, inteligentes, que constituem uma frente comum contra os mestres. É basicamente o mito de Frankenstein ou Golem, a criação de máquinas com inteligência suficiente para imitar e substituir pessoas. Mais do que imitar, os Replicants querem ser humanos. A tecnologia começa a ganhar vontade própria.

Ainda não estamos lá, com dificuldade entre reconhecer se um humanoide é um robot ou um ser vivo, mas as capacidades da inteligência artificial e dos famosos algoritmos já começam a preocupar várias almas. Por enquanto, para despistarmos o uso de inteligência artificial em tarefas diárias e em potencial competição usamos extensivamente o CAPTCHA (Computer Automated Public Turing Test to tell Computer and Humans Apart). Alan Turing inventou o método nos anos 50 do século XX para diferenciar inteligência humana de inteligência artificial. Aceitam-se apostas qual o ano em que a Sophia vai despistar ao vivo no Websummit testes de Turing como em Blade Runner.

 

Akira

Esta é a obra japonesa seminal para todos os ambientes futuristas que se seguiriam no universo da Manga e Anime. Lançado em 1988, Akira é considerado o responsável pela introdução das animações japoneses e adoção generalizada do público do Ocidente do universo e estética cyberpunk do oriente. Outros exemplos como Ghost in the Shell, Cowboy Bebop e mesmo Matrix não seriam as mesmas obras de culto se Akira não tivesse pavimentado o caminho antes.

O cenário pós-apocalíptico inclui uma cidade que em 2019 se chama Neo-Tokyo, desestruturada e em conflito, onde a população está dividida em diferentes grupos, desde fanáticos religiosos a gangs obcecados com tecnologia, dedicando-se ao crime, terrorismo e a corridas de motos. O governo não quer saber, por estar mais preocupado em desenvolver armas psicológicas em humanos. As cenas de corridas de motas são o elemento visual que possivelmente mais marca quem vê o filme.

Em comparação ao mundo de hoje, vemos a divisão e isolamento de grupos de acordo com as diferentes ideologias e interesses (check). As forças políticas não são propriamente despóticas mas sim apáticas ao sofrimento e necessidades dos seus cidadãos onde as massas esperam o aparecimento de um Deus na terra super humano que possam seguir. Outro tema também presente no filme é a evolução das capacidades físicas e mentais potenciadas por tecnologia, provocando a pergunta, mais uma vez, onde está o limite?

Coincidência interessante e até um pouco assustadora, o autor Katsuhiro Otomo faz dos Jogos Olímpicos de 2020 em Neo-Tokyo parte importante do cenário. Sabes onde se vão realizar os verdadeiros Jogos Olímpicos para o ano que vem? Pois é.

The Running Man

Outro filme baseado num livro com o mesmo nome. The Running Man estreou em 1987 com o inevitável Arnold Schwarzenegger a fazer piadas secas e a descrever um mundo no qual os média são manipuladas pelo governo. O departamento de justiça tem acordos com a televisão para enviar criminosos falsamente acusados para um concurso tipo reality show que mistura Gladiadores Americanos e Wrestling com o Preço Certo. As histórias dos competidores são fabricadas para conquistar o apoio do público e os acusados são perseguidos por stalkers escolhidos pela opinião pública.

Qual é a semelhança e a diferença? Enquanto a época dourada da televisão e dos concursos televisivos parece estar a eclipsar-se com o crescimento da internet, o tema das “fake news” e julgamento público em rede social é bem actual. A mistura entre política e entretenimento parece acertar em cheio no alvo. O presidente corrente dos Estados Unidos da América apresentou o reality show The Apprentice durante 14 temporadas e o próprio Arnold Schwarzenegger passou do cinema para a política, ocupando o cargo de Governador da Califórnia de 2004 a 2011. Em 2015 também apresentou o The Apprentice embora com menos sucesso, que motivou uma troca de de palavras azeda com Donald Trump sobre o assunto. E embora não fossem propriamente programas de entretenimento, até o nosso presidente Marcelo foi uma presença assídua em programas de televisão como comentador político. Ainda hoje a sua presença na comunicação social é imensa.

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Miguel Melo

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