Bolsonaro é presidente do Brasil. Agora falta-nos tempo

Uma espécie de confissão; afinal de contas, para nós a ordem normal das coisas prevalecerá, pelo que o tempo que nos falta não é o futuro. É no presente, para interpretarmos e digerirmos todas as evidências e conseguirmos colmatar esta perplexidade
Versão modificada da Ilustração de Ricardo Santos

Primeiro foi na Turquia mas não falavam a mesma que língua que nós, nem pertenciam à União, eram caso isolado e nós não quisemos saber; mais tarde foi na Hungria onde o discurso se violentou mas, neste caso, sendo da União, as políticas não haviam de seguir o mesmo caminho; depois foi nas Filipinas mas nas notícias só se dizia que matava criminosos e o seu estilo havia de ser próprio de um país de terceiro mundo e nós, continuámos sem querer saber; depois foi Trump e aí levantámos a vista. Os Estados Unidos estavam tomados por um pseudo-ditador que rapidamente passou de político a caricatura and the show must go on; por Salvini mal demos conta, não fosse a produção ousada que fez em pelota e as recusas em aceitar migrantes e tudo seria normal, mais um presidente com nome de massa. Agora foi Bolsonaro e tudo o que não quisemos observar nos outros fenómenos revela-se-nos em directo e em português. Já não temos desculpas mas agora falta-nos tempo.

Este não é um texto de vaticínios sobre tempos negros, de lamentos sobre momentos passados, nem de desprezo ou ataque por quem escolheu legitimar Bolsonaro ou líderes com desrespeito notório pelas bases do sistema democrático. É uma espécie de confissão; afinal de contas, para nós a ordem normal das coisas prevalecerá, pelo que o tempo que nos falta não é o futuro. É no presente, para interpretarmos e digerirmos todas as evidências e conseguirmos colmatar esta perplexidade — por um lado perceber os contornos da eleição de alguém com um discurso perfeitamente abjecto e, por outro, antecipar de algum modo as suas consequências.

O mundo pseudo-globalizado tornou-se extremamente complexo e a informação circula a uma velocidade cada vez maior, em plataformas centralizadas, mediadas por algoritmos e controladas por empresas tecnológicas internacionais. Fake ads, Fake News, Facebook, Youtube, Whatsapp (ou Zap, como lhe chamam no Brasil) que ainda não conseguimos perceber ao ponto de saber como evitar que o discurso e o diálogo cheguem a este perigoso ponto de violência.

É nesse contexto que deixamos o apelo e de certo modo expomos o nosso plano para que nos próximos dias nos dediquemos a perceber o fenómeno em vez de partir para confrontos, rótulos ou discussões que nos afastem ainda mais de uma conversação pacífica e profícua. Porque se a intolerância não pode ser tolerada, a violência quer de discurso quer de ações não deve ser opção e só o esclarecimento pode colmatar e contrapor pontos de vista infundados, discursos ignorantes e pseudo-verdades superficiais.

Durante os próximos dias seguiremos algumas das linhas de análise destas eleições e partilharemos histórias, ideias, dúvidas e hipóteses de conclusões para que mais do que nos aliarmos e associarmos à causa brasileira, percebamos as características globais desta onda de viragem que encaminha estados tradicionalmente democráticos para lideranças sem respeito pelas instituições e liberdades cívicas.

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  • O João Gabriel Ribeiro é Co-Fundador e Director do Shifter. Assume-se como auto-didacta obsessivo e procura as raízes de outros temas de interesse como design, tecnologia e novos media.

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