Müller e Lanzmann: o mundo fica mais pobre mas as suas marcas ficam na história do cinema

Não sendo a morte o melhor pretexto para dar a conhecer seja quem for, não pode ser motivo para que personalidades marcantes percam o seu lugar.

Se no ano passado as mortes de figuras consagradas fizeram surgir teorias da conspiração e rótulos para 2017 como um dos piores anos da história no que toca ao balanço de aparecimento e desaparecimento de novos talentos artístico, este começo de Julho parece igualmente destinado a tornar-se marcante. Em apenas dois dias (e ainda nos cinco primeiros do mês), Julho viu partir Robby Muller e Claude Landzmann, duas figuras ímpares por motivos distintos da história do cinema. Para além desses que aqui e agora relembram-nos, na esfera nacional, outra morte sonante ditou que o mês começava com partilhas nostálgicas da banda Sétima Legião, em memória do letrista Ricardo Camacho.

Não sendo a morte o melhor pretexto para dar a conhecer seja quem for, não pode ser motivo para que personalidades marcantes percam o seu lugar e é, por isso, que recordamos como os descobrimos Robby Muller e Claude Landzmann

Robby Muller, “mestre da luz” e eterno colaborador de Wim Wenders, morre aos 78 anos

Se a obra de uma pessoa tivesse que ficar para a história num só fotograma, pouca gente sairia tão beneficiada como Robby Muller – ou não fosse ele director de fotografia. Entre os 14 filmes que rodou com Wim Wenders, foi desenvolvendo ao longo do tempo o seu estilo, cunhando alguns dos mais icónicos planos da cinematografia da história do cinema mundial (por exemplo, o emocionante cruzamento entre a cara de Harry Dean Stanton e o cabelo de Natassja Kinski no filme Paris, Texas).

Foi com Wenders que Robby se notabilizou mas não foi só com este que trabalhou. O “mestre da luz”, como era conhecido pela crítica, activo desde os anos 1960 e a um ritmo mais calmo apenas depois dos 1990, cruzou e cruzou-se com várias gerações e estilos de realizadores, como Jim Jarmusch, Lars Von Trier ou Barbet Scroeder. The Little Devil (1988), Coffee and Cigarettes (2003), Ghost Dog: The Way of the Samurai (1999), Until the End of the World (1991) e Alice in the Cities (1974) foram outros filmes que marcaram o seu trabalho.

Ao contrário do habitual na sua função, o trabalho e a postura de Muller caracterizavam-se – segundo relata quem estudou in loco o seu trabalho – por uma pro-actividade peculiar, que o levava muitas vezes a assumir nas suas mãos o controlo das câmaras, procurando fazer justiça à importância que dava ao movimento destas. Para além disso, procurou sempre inovar para melhor servir as obras que lhe cabia dirigir. Se em Paris, Texas de Wim Wenders nos tira a respiração com inenarráveis paisagens amplas ou planos íntimos capazes de elevar um vidro à condição de personagem, em Dancer in the Dark de Von Trier, Muller revela-se mais versátil e, servindo-se de câmaras portáteis, por muitos banidas do cinema, para materializar a conhecida loucura do realizador.

Robby Muller faleceu aos 78 anos, segundo a sua mulher, vítima de uma condição de demência vascular que o acompanhou nos últimos anos na sua carreira.

Claude Lanzmann, cineasta e realizador conhecido pelo exaustivo documentário Shoah, morre aos 92 anos

Filho de imigrantes judeus em França, nasceu em Paris em 1925. Estudou filosofia na Sorbonne em Paris, depois de lutar na resistência durante a Segunda Guerra Mundial. Após um período a dar aulas na Alemanha Ocidental no final dos anos 1940, volta a França onde conhece Simone de Beauvoir, com quem mantém um relacionamento durante vários anos, e Jean-Paul Sartre, sendo convidado a integrar a revista Les Temps Modernes, de que se tornou editor-chefe após a morte de Beauvoir, cargo que ocupou o resto da vida.

Enquanto jornalista, esteve sempre fortemente envolvido com o fermento político dos anos 1950 e 1960, escrevendo sobre Israel, a Coreia do Norte e o Tibete. O seu cinema surge destas preocupações jornalísticas, políticas e intelectuais. Porquoi Israel, o primeiro documentário que realizou, começou a partir de uma série de entrevistas sobre o novo Estado israelita, na altura com 25 anos, e foi a sua própria tentativa de lidar com o anti-colonialismo que sentia e via nos seus colegas de esquerda e de pensar a “complexa realidade israelense”, nas suas palavras. Embora pacificamente ritmado, desenha um retrato autoritariamente sério e desconcertante da transição de um povo ostracizado e da construção de um estado, com um toque humorístico complexo, das novas condições de vida e dos seus emigrantes expatriados.

Mas é com Shoah que recebe um primeiro gigante impacto e a que, até hoje, fica eternamente ligado. Documentário sobre o Holocausto com mais de nova horas de duração e feito através de mais de onze anos de experiências e entrevistas, recusa o uso de imagens de arquivo. É nesta recusa da banalização de certas imagens, que ele acreditava trivializaram e ficcionarem o sofrimento, que o documentário cresce e se constrói – a memória é vivida através do testemunho crú e violento dos sobreviventes do holocausto, do silêncio dos espaços visitados e das conversas em primeira mão com quem viveu directamente, seja como trabalhador ou como prisioneiro, o horror dos campos de extermínio e da Segunda Guerra Mundial.

Faleceu na sua casa em Paris, morte confirmada pela família.

Texto de João Ribeiro e Elisabete Magalhães