Terminou o Mundial… da política. 7 momentos em que o futebol foi contexto

As grandes competições desportivas são palcos únicos para manifestar vontades políticas, religiosas e culturais.

No domingo, o mundo em massa assistiu à final do Mundial 2018 na Rússia. Dentro das 4 linhas, França e Croácia deixaram tudo em campo e a sorte e o saber sorriu à França/Croácia. Porém durante este mês de competição, a maior competição futebolística do mundo não foi só um evento desportivo. Ao longo de cada semana, surgiam notícias de índole política, impulsionadas de dentro para fora e outras de fora para dentro. No Shifter, fizemos uma compilação dos melhores ou piores momentos políticos, dependendo da perspectiva de cada leitor.

Repreensão pública e desculpas ao príncipe Saudita

Foi desta forma que o responsável pela selecção nacional da Arábia Saudita agiu após o desaire por 5-0 contra a Rússia no jogo de abertura. No seguimento deste resultado pesado, Turki al-Sheikh acusou os jogadores de não terem dado “nem 5% de esforço em campo” e que esta exibição não retribuía o investimento que os responsáveis fizeram na equipa, no treinador e no staff ao longo destes últimos anos. Além do lamento dirigido ao povo saudita, o líder da selecção saudita pediu desculpas pessoalmente a Mohammed bin Salman, o príncipe herdeiro do trono saudita, num acto que mostra o clima de opressão generalizada que se vive naquele país.

Fuck Racismo da Suécia para dentro e para fora

90+2 minutos de jogo, Jimmy Durmaz, médio sueco, comete uma falta à entrada do lado esquerdo da área. Na conversão do livre, Toni Kroos, médio alemão, remata sem hipóteses de defesa para o guarda-redes sueco e estabelece o resultado final em 2-1. Até aqui tudo normal, o futebol é um jogo de erros e aproveitamento dos mesmos. É desporto. Os nacionalistas suecos estabeleceram uma realidade alternativa. Por ser descendente de pai sírio, Durmaz e sua família foram insultados de forma racista e xenófoba e até, segundo consta, ameaçados de mortes. A reacção da Federação Sueca de Futebol não demorou a surgir. O plantel e o jogador visado produziram uma lição de repúdio pelo que se passou, terminando com a mensagem que deve imperar: “Fuck Racism!”.

Princesa japonesa na Rússia

O facto da realeza de um país assistir ao jogo da Selecção Nacional em solo do país organizador não confere algo inovador. Porém, a princesa do Japão, Takamado, irá visitar a Rússia, 102 anos depois do último monarca japonês. Apesar não se ter encontrado com responsáveis políticos russos, todavia marcou presença na vitória do Japão contra a Colômbia e no empate contra o Senegal. As relações entre Moscovo e Tóquio não são as melhores e atravessam tempos conturbados. O sistema de implementação de mísseis americanos e a mudança estratégica de aviões militares russos para ilhas em disputa entre as duas potências desde o final da Segunda Guerra Mundial são alguns dos motivos para a tensão de relações existente.

Festejo do passado no presente

Suiça contra Sérvia. Mais um jogo do Mundial de 2018 para os adeptos, um importante jogo para vários jogadores suíços, com uma carga histórica significativa. 2-1 a favor da Suiça marcava o placard, deixando para trás uma vitória de virada com o útimo golo a aparecer ao cair do pano. Xhaka e Shaqiri foram os marcadores dos golos e os marcadores do passado no presente. Os dois médios suíços, que têm raízes albanesas e kosovares, festejaram o 1-1 e o 2-1 fazendo o gesto de uma águia de duas cabeças, símbolo nacionalista albanês. Este gesto político e simbólico teve o propósito de criticar o facto dos sérvios não reconhecem o Kosovo como país independente. Os jogadores em causa foram sancionados com uma repreensão por parte da FIFA.

Slava Ukrayini”  após a vitória contra a Rússia

A Croácia passava à meia final da maior competição de selecções do mundo, escrevendo uma das páginas mais bonitas da sua história. O adversário vencido foi a Rússia, organizador do evento e país anfitrião. Nos festejos deste jogo, o central croata Domagoj Vida e o adjunto do treinador principal, Ognjen Vukojevic, gravaram um video onde aparecem a gritar “Slava Ukrayini”, palavras de ordem e de resistência utilizadas pelo exército ucraniano no conflito entre a Ucrânia e a Rússia dos últimos anos. Os dois intervenientes, que têm um passado no Dínamo de Kiev, tiveram destinos diferentes. Vida foi repreendido e posteriormente pediu desculpa pelo seu acto irreflectido, todavia Vukojevic foi imediatamente dispensado e viu a final de domingo em casa.

Posteriormente, após o jogo contra a Argentina o croata Dejan Lovren foi também alvo de críticas e centro de polémica por ter entoado a música Bojna Cavoglave na celebração da vitória da sua seleção. A música, da banda Thompson, ficou amplamente conhecida por fazer apologia ao regime fascista croata durante a 2ª Guerra Mundial.

 


Seis activistas desfilam bandeira “proibida” nas ruas de Moscovo



“Mulheres bonitas” longe das transmissões a partir da final

Este Mundial de futebol ficou marcado por estádios cheios, assistências repletas de adeptos de todo o mundo mas também problemas que necessitam de resolução. No balanço de mais uma competição, Federico Addiechi, dirigente da FIFA com a pasta da responsabilidade social e diversidade mostra preocupação com os casos de assédio e sexismo reportados à organização. Addiechi e a equipa que lidera prometeu uma conversa com os produtores de televisão de modo a estes evitarem transmitir mulheres bonitas nas bancadas de um jogo. Para a final que aconteceu domingo e para os eventos FIFA futuros, os espectadores podem contar com o julgamento do realizador na não captação de mulheres bonitas, tal como a certeza que a FIFA não quer sexismo para resolver sexismo.

Pussy Riot jogam a final

Minuto 52 jogo e um grupo de pessoas vestidas de polícia começa a correr no relvado, parando o jogo de imediato. Mais tarde, nas redes sociais, as Pussy Riot, grupo musical e opositor ao regime de Putin, assumiram a responsabilidade da invasão de campo e explicaram o mesmo. No post é explicada a evocação do poeta Dmitry Prigov, criador da alegoria do polícia “celestial”, uma autoridade ideal, em oposição ao polícia real. As últimas frases contidas na publicação correspondem a exigências que as Pussy Riot querem ver cumpridas, tais como a libertação de todos os presos políticos, a permissão de competição política no país ou o término de detenções ilegais em manifestações. O momento por si só marcante ganhou múltiplas leituras nas diferentes reações dos jogadores. Mbappé tornou-se viral por cumprimentar uma das invasoras de campo enquanto que, em sentido inverso, o croata Dejan Lovren ficou nas fotografias tentando expulsar à força outro dos invasores.

Política, problemas sociais, geopolítica, racismo, choque de realidades. O Mundial de 2018 foi um dos melhores dentro das quatro linhas e não desiludiu em questões colaterais fora das quatro linhas. As grandes competições desportivas são palcos únicos para manifestar vontades políticas, religiosas e culturais que, sendo subjectivas, podem inverter comportamentos nocivos e exaltar atitudes positivas.


 

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