Aquela vez em que Maro encheu o Capitólio

É uma noite que havemos de recordar durante muito tempo.

Na noite de ontem, 6 de Julho, por detrás do Teatro Maria Vitória, encontrámos o recém recuperado Cineteatro Capitólio com uma nova sensação a crepitar, pronta para se juntar aos grandes nomes da nossa praça. Pelo menos foi o sentimento com que ficámos depois de sairmos de barriga cheia daquele espectáculo. Temos a esperança de que Maro é um nome para ficar.

De sala esgotada e portas fechadas, o burburinho passou a aplauso assim que Maro pisou o palco e trazia consigo a sua banda. Fez questão de apresentar os músicos inúmeras vezes, num misto de orgulho e humildade. Apresenta-se com a mesma camisa presente na capa do Vol.3 do seu disco, a que vemos lentamente a ser construída de volume para volume, e muito sorridente, confessa o seu nervosismo de felicidade passado enquanto esta noite não chegava. É logo criado um ambiente familiar e o nervosismo, nem vê-lo, assim que Maro começa a dedilhar os primeiros acordes de “Deixa”, canção presente no primeiro volume. Sem deixar a música acabar, faz uma passagem suave para o single “O que será de ti”, procurando solidificar a sensação de lar nos ouvidos da plateia. Arriscou-se ainda a pedir o apoio do público para alguns jogos de vozes, mas revelou-se difícil batalhar contra alguma letargia dos ouvintes.

Desta forma, Maro fazia descer a cortina, exibindo as suas canções por ordem cronológica face aos volumes, acabando o primeiro capítulo da noite com uma canção-poema que escreveu em memória do seu recém-falecido avô, num momento em que cada palavra cantada revelava o seu pesar. Para rematar o ponto-final perfeito da primeira parte, o balanço é recuperado com “See you in my dreams”, com direito a um outro estendido, com um mini-workshop para o público – ainda tímido – participar com a banda.

 

Para salientar o virar de página, entra, de pés descalços, Carolina Deslandes, a convite de Maro para participar nalgumas canções, duas da autoria da convidada e a “Páro quando oiço o teu nome” da artista que estava a apresentar o seu álbum. Nota-se que o apadrinhamento da Carolina Deslandes foi um catalisador gigantesco para o surgimento de Maro nas nossas vidas, mas justamente por se gostar tanto da música da nova artista, devia fazer-se uma melhor gestão do holofote. Entre elogios ensaiadinhos e harmonias bem fundidas, é possível que este momento tenha roubado tempo de antena a mais, mas felizmente a melhor parte estaria por chegar.

É tempo de chegarmos ao Volume 3. Tal como Maro havia referido anteriormente em entrevista, esta parte é a mais animada e musicalmente mais intrigante. Tivemos direito a uma banda divertida e a deslumbrar com o seu virtuosismo, a tocar tempos difíceis de formas ainda mais elaboradas, solos de fazer cair o queixo. Começando pelo do Manuel Rocha, o homem por detrás da guitarra eléctrica que roubou silvos de assobios e aplausos sonantes com o seu solo em “Dear Young Me”, canção que abriu a terceira parte. Matilde, irmã da Maro, ia adicionando jogos de vozes suaves mas de virar cabeças, certificando-se que a música virava mantra em vez de cair em monotonia – como se houvesse a possibilidade. Em “The Way to Live Life”, as guitarras cantam harmonias juntas, criando aos poucos uma canção que haveria de acabar num 5/4 em tons de jazz, como ninguém na sala poderia prever (a não ser que tivesse feito o TPC de ouvir o volume lançado no passado sábado). Segue-se “Will I Regret It”, com Carlos Miguel Antunes – ou Cami, como encurtou Maro – a tocar na bateria com as mãos, trazendo sonoridades tribais ao arranjo. Termina com um solo soberbo de voz, que depois comunica com a guitarra eléctrica, passando-lhe o testemunho para nem segundos depois atingir o clímax da canção, enquanto que Mário Franco aproveitava para dar apontamentos jazzísticos sempre que era oportuno. Neste momento, está Maro de lado, em 90º, apreciando o espectáculo e solta a confissão no final da canção “Eu juro que me esqueço que é o meu concerto, podia passar horas a ouvi-los tocar”. Se se julgava que a noite não podia melhorar, o set termina com “P’ra onde vai o tempo” com um 7/8 a reforçar o conceito da canção. Para além de mais um solo brilhante de Manuel Rocha, o fim da canção é marcado pelo solo de bateria com Cami a destruir o tempo por completo, que de tanta moção as pautas da sua estante caíram, como que a sentenciar a canção.

Como que lendo a nossa mente, Maro admitiu com muito pouco controlo na sua gargalhada – que rapidamente contagiou a plateia – que, ainda não sendo uma artista de grande nome, iriam ter que fingir um Encore, e nisto pediu palmas para saírem de cena e voltarem nem meio instante depois, no que marcou um dos momentos mais bem conseguidos de interacção com o público. Maro retoma o concerto cantando “Flying to LA” lado a lado com a irmã, pintando com novas cores um registo a que ainda não tínhamos tido acesso esta noite. Desta feita, Maro despede-se com “Show Me”, que rapidamente confunde o público com a intro de palmas (como presente no disco) que dá a entender um ritmo que rapidamente passa a polirritmia, o que fez com que o público desistisse imediatamente de brincar às palmas com a banda. O arranjo da canção ganha vida e ao terminar, Maro consegue o inédito de pôr o público a bater palmas num 7/8, mostrando a plena confiança que a jovem artista ganhou ao público. As palmas deixaram o registo musical para se tornarem ovação, e toda a gente saiu de sorriso na cara.

Fotos de Teresa Lopes da Silva/Shifter