O que estamos a ler este Verão

A nossa equipa juntou-se para te contar o que leu ou vai ler este verão.

Nesta lista há livros mais técnicos e verdadeiras epopeias e desafios, obras mais ligeiras como uma brisa de Verão, outras pesadas e omnipresentes, como o calor sufocante dos meses mais quentes do ano. Estas são as leituras de verão da redacção do Shifter, sugestões para todos os gostos que podes e deves aproveitar para quando quiseres. Todas as sugestões são pessoais tal como as notas de recomendação que as acompanham, propositadamente diferentes como, no fundo, os livros a que se referem.

The Infinite Jest, de David Foster Wallace – Recomendação de Rita Pinto

O Verão e as férias pareciam ser a ocasião perfeita para me mandar de cabeça a um dos livros que mais vezes me aconselharam na vida. Era a segunda vez, mas se no mar um segundo mergulho custa menos porque estas calejado do primeiro, só a ideia de ir às águas de The Infinite Jest (A Piada Infinita) causa um arrepio na espinha. Um livro que se poderia usar como almofada assusta: são 1102 páginas + 100 de notas (em muitos casos, tão importantes como o próprio texto. Ao folheá-lo penso: não é possível que todos os conselhos que me deram – “Lê! É a tua cara! É grande mas não custa nada” – tenham fundamento prático. Não é um livro mesmo nada fácil de ler.

The Infinite Jest não é obra para se acumular na mesa de cabeceira, não se arrasta em meses de leituras de embalar, não se lê numa semana de férias. Pode ler-se em duas, mas com muita paciência, cabeça no lugar e vontade. Por muitos motivos. O início é custoso. A descrição é detalhada e o facto de a acção se passar num mundo que tem tanto de ficcional como de utópico faz com que a história também seja mais difícil de acompanhar – por outro lado, é de tal forma bem feita que nos faz sentir que estamos a ver um filme em vez de ler um livro.  O mundo criado por Wallace tem o seu próprio calendário – o calendário gregoriano foi substituído por uma série de acordos publicitários e cada ano é patrocinado por uma marca diferente, havendo, por exemplo, o Ano do Whooper, o Ano da Tablete de Chocolate Dove ou o Ano das Fraldas para Adultos Depend. Revelamos estas particularidades para te dar uma noção do que se avizinhará se optares por embarcar nesta aventura, e para te dizer que, tendo essa possibilidade, este livro devia ser lido em inglês para não perderes pitada deste imaginário em traduções pouco ajustadas.

Em The Infinite Jest, Wallace parece ter criado vários duplos de si próprio: encontramos a paixão pelo ténis, o consumo de marijuana pela calada, a depressão com tendências suicidas, o consumo desenfreado de anti-depressivos, a aversão à solidão e uma genialidade transbordante. A leitura de A Piada Infinita é o contrário de entretenimento, embora não lhe falte ironia.

David Foster Wallace apresenta-nos o seu olhar sobre a América de 97 num futuro próximo, um mundo dominado pelo digital e pela perseguição obsessiva do entretenimento, do prazer total, do totalitarismo do consumo, da dependência de substâncias – medicamentos, droga, álcool – e de gadgets, da preponderância de patologias mentais, da alienação, da solidão, do vazio, do suicídio e de uma imensa tristeza, pessoal e colectiva.

Sex and Rage, de Eve Babitz; e Ulisses, de James Joyce – Recomendações de Elisabete Magalhães

Eve Babitz é uma figura central da cena cultural de Los Angeles dos anos 60, cidade com que manteve uma relação apaixonada ao longo da vida. O seu trabalho, histórias picarescas com um anti-herói (muitas vezes ela própria), ensaios e memórias sobre a cidade, as drogas, o sexo e a arte , incorporam a permeabilidade entre ficção e realidade, características também do imaginário de Los Angeles, fruto de muitas e épicas memórias de autores dedicadas à vida boémia, ao prazer e à decadência. Publicado originalmente em 1979, Sex and Rage volta a ser editado pela CounterPointPress em Julho do ano passado, para nos relembrar um importante livro da autora que ficou mais esquecido na altura da sua publicação. Conhecemos a personagem principal, Jacaranda, no cenário solarengo da praia de Los Angeles, no meio do surf, da praia, da bebida e do prazer da vida californiana. É neste cenário de Verão que aproveito para, passado um ano da sua reedição, entrar nesta viagem de um outro mundo de sol e calor. Um Verão numa cidade como Lisboa é sempre um tempo estranho – a cidade está meia deserta, a vida habitual está suspensa e tudo está preso num misto de calor e os que por cá ficam, só têm vontade de sair. É para mim um tempo um bocado estagnado, uma realidade com um toque sonhador que me dá uma vontade mais forte de fugir. E ainda que não seja necessariamente uma fuga física é uma fuga que me leva a mim numa viagem que começa comigo e acaba a explorar as viagens interiores de outros – livros que me façam entrar num mundo que não o meu, viagens pessoais e leituras calmas. Com uma narrativa sensual e onírica, muito pessoal, em Sex and Rage entramos no campo do fluxo da consciência enquanto viajamos pelos pensamentos e pelas memórias da autora. Como é comum em romances que puxem por este estilo, não temos uma história estruturada em encadeamento causal e com princípio meio e fim, mas sim uma junção de fragmentos e histórias, relatos de vida que advém da espontânea aceitação do destino de Jacaranda, do trabalho, das oportunidades de uma cidade em constante efervescência. Pode parecer monótono mas é nesta monotonia tão descritiva que nos conseguimos aproximar tanto da personagem e quase sentir a textura daquela cidade, criar uma manta de retalhos daquelas memórias e que formam aquele pensamento. A viagem é interior, o crescimento da história é pessoal, os relatos subjectivos e é este cenário de sonho, de uma certa suspensão da realidade a que gosto de associar o Verão.

Falando em fluxo da consciência, é inevitável falar de James Joyce e, consequentemente, de Ulisses. São obviamente livros e autores assustadoramente diferentes mas na sua diferença a associação que lhes faço e que me faz escolhê-los para este verão é semelhante – reflectem, através das acções e dos acasos de duas personagens, uma cidade marcada pela sua vida social e criam um retrato dessa mesma cidade através da relação de alguém com o seu quotidiano. Fazem um relato pessoal, fazem-me viver uma cidade que não é a minha e exploram a narrativa interior, fazendo-me passear pela consciência e pela vontade de outra pessoa que não sou seu. Ulisses é uma recriação moderna da Odisseia do Homero, transformando Leopold Bloom no Odisseu do século XX, condensado em 18 horas da sua viagem por Dublin. O enredo parece simples – sai de casa junto com um amigo e tem como simples objectivo voltar no final do dia para casa e para a sua esposa, ainda que activamente procurando e encontrando obstáculos durante o dia que vão reflectindo e ajudando a criar uma imagem do quotidiano de Dublin da altura. Mas a linguagem de Joyce e esta exploração dos limites do fluxo da consciência tornam este romance numa tarefa árdua, de múltiplas interpretações. A viagem não é física (exceptuando os poucos quilómetros percorridos em Dublin) mas é pessoal, interior e mitológica. O herói, um Ulisses moderno, passa ele próprio por uma viagem das várias condições humanas – fraco e forte, corajoso e cobrado, preocupado e inconsequente, engloba numa só personagem os múltiplos aspectos de cada ser humano e das suas múltiplas sensações, da fragmentação da individualidade e da humanidade em geral. Viajamos com ele até aos limites da consciência e acabamos com uma história que, quebrando os princípios da literatura clássica, transmite directamente a consciência e o pensamento de uma personagem num estilo mais directo de escrita que quebrou padrões convencionais e trouxe uma liberdade e uma fuga de estilo à literatura moderna. É também uma viagem à história da literatura e ao mundo narrativo com todo o espaço de referência que abre – há alusões e comparações à literatura grega, a Shakespeare, à Bíblia e a criação de um mito moderno. Sim, não deixa de ser uma leitura pesada, mas o Verão é para mim também uma época de mudança, transição e de reflexão. Ainda vejo Setembro como um início e sendo o Verão esta época em que tudo parece mais leve e possível, aproveito para dar cabo de uma tarefa que apesar de me parecer tão aliciante, ando a arrastar há muitos anos.

Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio; e E Unibus Pluram: Television and U.S. Fiction, de David Foster Wallace – Recomendações de Alexandre Couto

Ler um livro chamado Mau Tempo no Canal em pleno Verão pode parecer irónico, mas este pode ser o nosso último recurso para não ser afogados na força desta obra. Vitorino Nemésio escreveu aqui um livro ao alcance de poucos, revelando mestria em diversos aspectos literários – um enredo interessante e repleto de personagens memoráveis, uma capacidade de descrição que nos leva a uma miríade de detalhes açorianos e uma riqueza lexical que nos vai ser muito formativa. No topo do cânone da literatura portuguesa, este é um título que se alimenta de uma sociedade extremamente especifica para nos presentear com uma obra única – algo que todos os livros almejam, mas que poucos conseguem realmente alcançar.

Férias significam quase sempre desligar, mas não temos de desligar, literalmente, o cérebro. Porque não aproveitar um tempo passado longe da televisão e das melhores séries para reflectirmos um pouco sobre um dos sítios que parecemos condenados a observar? A televisão é um fenómeno que ultrapassou diversas fases e apesar de David Foster Wallace já ter escrito este ensaio em 1993, muito do que podemos ler nestas páginas aplica-se na perfeição à televisão moderna. A ironia com que a tratamos, a forma como nos tornamos voyers, a sensação de superioridade que o alto do nosso sofá nos traz. As séries melhoraram, a criatividade e a capacidade de produção aumentou, mas alguns dos defeitos que estão na génese do formato televisivo mantêm-se. Já alguma vez repararam que ligamos a televisão para não nos sentirmos sozinhos, quando na verdade a televisão nos impede de sairmos da frente dela?

Jalan, Jalan: Uma Leitura do Mundo, de Afonso Cruz

Recomendações de Joana Rita Sousa.

O Afonso Cruz é um homem de escrita cativante, além de ser um ilustrador que muito admiro. Foi precisamente através dos livros ditos infantis que o conheci. A partir daí deixei-me encantar por livros como Jesus Cristo Bebia Cerveja. Jalan, Jalan faz lembrar o livro de Cortázar, Rayuela, pela forma como pode ser lido. Podemos saltar daqui para ali, se quisermos. Ou ler tudo de uma ponta à outra. É connosco. O leitor (também) decide.

Confesso que já comecei a sua leitura, ainda na primavera. Mas o Verão traz consigo mais tempo (e mais sol) para este livro.

Homodeus, de Yuval Noah Harari; e SCRUM, de Jeff Sutherland

Recomendações de Miguel Melo.

Qual é a história do homem do futuro? Yuval Harari avança com as suposições possíveis no mundo de hoje e indica o que poderá acontecer. São apenas possibilidades e não inscrições na pedra, inevitáveis. Harari avança com uma descrição de religiões do passado, como se tornaram máquinas de fazer dinheiro, e como outras ideias evoluíram desde o tempo da Suméria e Assíria, até ao futuro, onde os dados recolhidos das pessoas colectivas poderão substituir a ordem liberal de hoje, na qual a vida humana tem (teoricamente) a primazia. O centro nevrálgico do trabalho é ocupado pelo conceito de “algoritmo”. O livro é hilariante e aterrorizador, passando de uma comparação entre as negociações da dívida Grega com o mundo animal, até à promessa da realidade tipo Black Mirror inevitável. Após o seu outro livro, Homosapiens, que se foca no passado, a especulação sobre o futuro obriga-nos a pensar no presente também.

O segundo livro, SCRUM: A Arte de Fazer o Dobro de Trabalho na Metade do Tempo, é basicamente como vamos chegar ao futuro. Diferentes empresas de tecnologia adoptam diferentes filosofias e metodologias de trabalho. Geralmente, o marketing de produto avança com a necessidade, depois o gerente de produto avança com o objectivo, depois vêm os desenvolvedores criar o backend, depois o frontend, o design. Quando o produto está acabado, passaram-se meses e os objectivos mudaram. Este seria o modelo de “cascata”, tradicional na sociedade de consumo industrial. Jeff Sutherland apresenta a arte de SCRUM, ou fazer a mistura de todas as funções numa super equipa, com facilitadores e com um objectivo comum: o Sprint. Acelerar a toda a velocidade. As equipas criam objectivos, discutem objectivos em rituais sagrados, como reuniões de pé (stand-up meeting) e discutem o que foi feito no dia anterior, o que vão fazer no dia corrente, e quais são os bloqueios. Se tudo está bem e não há nada para falar, ao menos há possibilidade de saber o que os colegas próximos fizeram no fim de semana e assim criar uma cultura comum. As empresas de desenvolvimento informático de topo usam estes métodos e teorias para tornar o trabalho mais eficiente e desenvolver novidades o mais rápido possível.

Diários, de George Orwell; e O Mundo de Ontem, de Stefan Zweig – Recomendações de Jorge Félix Cardoso.

2018 tem sido confuso. A ordem mundial pós-1945 está irreconhecível. Os Estados Unidos de Trump, a nova oligarquia ocidental, mudaram radicalmente de aliados. As organizações internacionais são descartadas e volta a lógica negocial bilateral, onde os EUA, por serem os mais fortes, conseguem ganhar sempre. A guerra trava-se na informação, no comércio internacional, na cultura, na tecnologia… Enquanto isso, a Europa sofre de um surto esquizofrénico como há muito não se via, com o ressuscitar de “ismos” e de “fobias” que se julgavam extintas. Sofre também de uma espécie de demência cultural, regressando a comportamentos infantis e perdendo as memórias dos últimos 80 anos. As gerações mudaram, os horrores esqueceram-se.

Em quem confiar? A quem pedir ajuda? Aproveitando a tranquilidade do Verão, vou debruçar-me sobre a vida de dois dos melhores cronistas da ascensão dos “ismos” dos anos 30 e 40 do século XX. Orwell e Zweig foram dois jornalistas que compreenderam o seu tempo. As suas reportagens, em forma diarística, têm sido consistentemente elogiadas por académicos e apaixonados pela História. Espero conseguir encontrar nelas um porto de abrigo ao qual acostar durante o verão, recuperando forças para enfrentar o que resta da tempestade política que assola a Europa e o Mundo.

Cyberproletariat, de Nick Dyer-Witheford; e Economia Parasitária, de Raoul Vaneigem – Recomendação de João Ribeiro.

Há livros que guardamos na estante até que seja o momento certo para os folhear, há outros que assim que nos chegam às mãos se tornam a leitura diária e obsessiva. Cyberproletariat é um dos segundos casos. Não vou mentir nem omitir, já o tinha tentado ler numa versão pirateada mas onde o tamanho dos caracteres toldava a concentração. Agora, após uma semana de espera é companhia diária no caminho de comboio até casa. E não podia haver melhor companhia para um ritual tão contemporâneo. Cyberproletariat questiona as condições de trabalho num mundo progressivamente mais digital, elucidando sobre as relações emergentes e as suas consequências, por exemplo ao nível das desigualdades sociais e da precariedade do emprego.  A proposta de Dyer-Witheford é evidenciar os mecanismos de dominação que se estabelecem no nosso dia-a-dia, quer seja através da crescente vigilância ou da robotização.

A Economia Parasitária é o livro de onde foi extraída a situação que usámos para divulgar a nossa última lista de leitura e desde então que estava na minha wishlist. Escrito por Raoul Vaneigem, filósofo belga, evidencia a inversão da relação entre o sistema económico e a natureza no sentido mais lato, chamando à atenção para a espécie de ditadura da procura que nos conduz enquanto sociedade a pontos de saturação do ponto de vista social e ecológico. Vaneigem fazia parte dos situacionistas, o grupo internacional fundado por Guy Debord tendo publicado alguns textos durante a vida da revista e outras obras de referência como A Arte de Viver para Novas Gerações. É um livro e um autor radical que aproxima a discussão social e política dos níveis mais básicos e essenciais da humanidade, em jeito de sinopse sobre as suas ideias, dizer que para Vaneigem o Homem só se liberta absolutamente num momento: o orgasmo.

Now You See It and Other Essays on Design, de Michael Bierut – Recomendação de Daniel Hoesen.

Michael Bierut, um dos ‘olímpicos’’ da indústria criativa e partner da icónica Pentagram, compila neste livro mais de cinquenta ensaios curtos, inteligentes e acessíveis de uma variedade fascinante e enriquecedora – da história, prática e processo do design, ao urban design e arquitectura, à cultura pop através da perspectiva de quem trabalha tudo isso e mais.

Relata-nos em primeira pessoa o que é trabalhar (n)a indústria criativa, o que se aprende e desaprende – o ciclo virtuoso da vida criativa,”fail harder” – e o que se sabe e não sabe.

A jeito de teasers, Bierut toca na sua experiência enquanto designer da identidade gráfica da campanha presidencial de Hillary Clinton em 2016; e do seu mentor, o lendário Massimo Vignelli.